A inovação como estilo de vida

Por a 24 de Maio de 2006

Bruno Castro Santos, arquitecto do ateliê simbiosearquitectura&design

O mundo, tal como nós o julgamos conhecer, é produto de alterações constantes ocorridas a ritmos inconstantes. Ainda que tamanha instabilidade possa suscitar alguns dissabores, o certo é que ela permite que vivamos actualmente um dos períodos mais estimulantes da existência humana. O cruzamento de informação e de conhecimentos, nos mais variados sectores, vindo de fontes diversas, reflecte no dia a dia, um cenário de operacionalidade absolutamente motivante para a irrequieta mente humana, a qual, por sua vez, não desperdiça a oportunidade de processar esse manancial de recursos de forma diferenciada, criativa e complexa. Este ciclo exponencial é responsável por uma acelaração conhecida por “information age”, cujo impacto só agora começou a manifestar-se.

Nova Iorque, Paris, Londres, e outros meios cosmopolitas pelo mundo fora, são palco de constantes manifestações de inovação e assumem-se como motor da mais recente evolução socio-cultural. Apesar dos actuais atritos civilizacionais, nunca na história da humanidade se cruzaram em paz tantos povos, etnias e religiões num só território geográfico, como numa das mencionadas cidades. O dinamismo da “bio-diversidade” aliado à mente criativa leva-nos à procura da reinvenção diária daquilo que é o “estilo de vida”.

Promotores e empresários que se posicionam na vanguarda deste “estilo de vida” exploram todas as ferramentas disponíveis para surpreender e conquistar novos clientes e novas áreas de negócio. O famoso promotor e empresário de Nova Iorque, Ian Shrager, dono das famosas discotecas “Studio 54” e “Palladium” surpreendeu, uma vez mais, com um conceito de negócio inovador na área residencial. Gramercy Park é um conjunto de apartamentos desenvolvido pela dupla de arquitectos Herzog & de Meuron em West Manhatan que procura a fusão perfeita da comodidade e serviço de um hotel de 5 estrelas, com a sensação personalizada de ser proprietário de um imóvel. Nestes apartamentos, os proprietários usufruem de espaços minuciosamente criados para transmitir a funcionalidade, o luxo, o conforto e o nível de serviço característicos da hotelaria. Com esta combinação entre hotel e apartamento, Ian Shrager contribui para “o virar da página” na evolução imobiliária, e para a redefinição do conceito de “apartamentos de luxo”, tão banalizado e descredibilizado em termos de linguagem de mercado.

Mercê da diluição das fronteiras e da crescente rapidez das deslocações, o sector do turismo ganha cada vez mais relevo num mundo em transformação, e é um dos factores mais importantes na promoção da diversidade cultural e cosmopolitismo das cidades. Talvez por isso, no seio da própria hotelaria, surge também a procura constante da inovação, com a mistura de conceitos e experiências, reflexo da diversidade cultural em que vivemos.

Nos últimos anos, inúmeros termos e definições procuram reenquadrar o produto hoteleiro através da diferenciação: “Boutique Hotel”, “Design Hotel”, “Charming Hotel”, “Chic Hotel”, “Epoque Hotel” e outros tantos são pontos de partida para uma nova era no mercado da hotelaria. Embora todos contenham uma forte componente de arquitectura e design, isoladamente isso não basta. No desenvolvimento de um novo conceito hoteleiro, os cérebros da operação deverão repensar a raíz do problema e, eventualmente, baralhar as cartas e lançar um novo jogo. Assim parece ter feito o conhecido empresário Simon Woodroffe, fundador da “YO! Everything”, no seu mais revolucionário projecto imobiliário, o YOTEL. Embora direccionado para um mercado muito específico, o YOTEL pode ser considerado um ponto de viragem na indústria hoteleira. O conceito pioneiro destroi todas as referências existentes, partindo do novo e do desconhecido. De tal forma, que os quartos dispõem apenas de 10 m2, sem vistas, iluminados com luz artificial, podendo o local da sua implantação ser, também ele, parte da inovação. Em última instância, o YOTEL até poderia existir num espaço subterrâneo. Estas características aparentemente redutoras da experiência hoteleira, são acompanhadas de outros conceitos e atributos que, bem conjugados, originam um produto totalmente novo e com verdadeiro interesse. Não é coincidência que a equipa projectista seja liderada por Priestman Goode, um dos designers envolvidos no projecto do Airbus A-380, e que exibe na sua lista de clientes nomes como a Virgin, Lufthansa e Orange.

Simon Woodroffe, à semelhança de Ian Shrager, parece ter optado também por baralhar e dar de novo, mas não será esta a única via de inovação. A tecnologia apresenta-se como uma das boas razões para estimular a mudança dos modelos de espaços e objectos actuais. A televisão por exemplo, passa a ser um elegante “flat screen” de parede, permitindo economizar entre 10 a 20 cm nas dimensões de um quarto sem que este perca área útil. As paredes das casas de banho podem ser substituídas por vidros com partículas magnéticas, os quais oscilam entre transparente e opaco com o toque de um botão, contribuindo, uma vez mais, para uma optimização das áreas úteis. E se pensarmos em “business room”, estes podem vir a ser fácilmente convertidos em escritório ou sala de reuniões, com camas retrácteis e equipamento “wireless” de video conferência. A própria hegemonia dos quartos, opção presente nos modelos actuais, passa a ser questionada, abrindo a porta à diversidade arquitectónica como resposta a necessidades actuais e futuras, integradoras de um novo estilo de vida.

Gramercy Park e Yotel são apenas dois exemplos de metamorfoses e fusões de ideias e conceitos que nos transportam para um novo patamar do desenvolvimento imobiliário. Haverá certamente mais em desenvolvimento, sendo precisamente esta expectativa inesgotável de inovação, o que contribui para uma vivência mais interessante das nossas cidades e, de forma mais abrangente, das nossas próprias vidas.