«A engenharia é um acto colectivo»

Por a 24 de Maio de 2006

45 sequencia2

Apaixonado desde pequeno pela engenharia, Rui Furtado tem revelado um percurso invejável. Obras como as do Estádio Municipal de Braga e a Casa da Música provam o mérito de um profissional que indiscutivelmente encara a engenharia como uma actividade pluridisciplinar

Carina Traça

O que o motivou a seguir a carreira de engenheiro civil?

Rui Furtado: Não tive nenhum motivo em especial. O meu avô foi engenheiro civil, mas tive muito pouco contacto com ele, daí acreditar que não tenha sido qualquer influência familiar. Desde pequeno sempre fui um engenhocas e cedo senti vocação pela engenharia. Para além disso tive também sempre muita apetência para as áreas das matemáticas e físicas, portanto quando chegou a altura de decidir pela minha carreira profissional já sabia que a engenharia era claramente o meu sector. E…adorei o curso.

Porquê a opção pela especialização em estruturas?

A escolha pela vertente das estruturas foi mais ou menos evidente, porque de todas as áreas de engenharia civil a de estruturas é talvez a opção mais científica e, para uma pessoa que gosta de matemáticas e físicas era claro que fosse esta a opção. As outras áreas por estarem mais direccionadas para a parte prática não se identificavam muito comigo, daí enveredei pelo trabalho de gabinete, que foi aquilo que me fascinou na altura.

No seu percurso profissional leccionou e trabalhou durante algum tempo, mas depois acabou por deixar a carreira académica. Porquê?

Depois de acabar o curso na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto concorri para dar aulas e adorei ser professor. Mas por uma questão personalidade não consegui na altura conciliar as duas actividades. Na altura, comecei também por trabalhar numa empresa ligada à Efanor e ao mesmo tempo também para a Mobil, com a tarefa de realizar projectos e fiscalizações de postos de abastecimento. A experiência na Móbil deu-me uma visão muito à americana, ou seja, a empresa em termos de organização e de resultados apresentava uma eficiência e pragmatismo absolutamente fascinante e, por isso considero que foi uma grande experiência. Entretanto, o engenheiro Adão da Fonseca desafiou-me para lançarmos em conjunto uma empresa de consultoria de engenharia civil, eu aceitei, e em 1985 arrancou o projecto. Ao fim de algum tempo, decidi que tinha que abandonar a carreira académica porque a minha aposta era fazer nascer e desenvolver a nova empresa – AFA, na qual ainda hoje estou.

Foi uma decisão difícil?

Não. A minha decisão foi fácil porque o meu sonho era fazer nascer um projecto como esta empresa, embora tenha tido muita pena de abandonar o ensino, porque se houve coisa de que eu gostei foi leccionar nas disciplinadas de desenho.

Desde então já passaram 21 anos. Ao longo deste tempo dedicou-se a 100 por cento à AFA, que balanço faz da sua actividade?

Faço um balanço muito positivo. Eu acho que uma das coisas fundamentais da actividade é a pessoa gostar do que faz, e eu francamente gosto muito do que faço e indiscutivelmente sinto-me um privilegiado. Obviamente que ao longo de cerca de vinte anos houve momentos bons e maus, mas durante este tempo todo consegui fazer projectos que na altura não imaginava vir executar, por isso deste ponto de vista sinto-me realizado. Contudo, continuo a sonhar e a lutar pela concretização de muito mais coisas…Tenho orgulho de trabalhar com uma equipa bastante boa, não só ao nível técnico mas também humano e, por isso estou bastante esperançado face ao futuro.

Considera-se como o «pai» da AFA?

É verdade que em tempos chegou a ser o meu cognome aqui da empresa, mas o que é certo é que eu não me considero propriamente como um pai. Sinto-me de facto integrado nesta equipa e isso para mim é bastante importante.

Projectos pluridisciplinares – Como encara o acto de engenharia?

Para mim a engenharia é um acto colectivo e não individual. Enquanto que noutros tempos seria possível pensar no engenheiro numa perspectiva romântica de profissional liberal, hoje em dia a noção já não é essa. Actualmente, os projectos são cada vez mais pluridisciplinares e interdisciplinares e, portanto um projecto para se levar a bom porto, independentemente de haver sempre um responsável de projecto, tem que envolver a contribuição de um conjunto muito alargado de pessoas que não se esgotam num só. Tenho pena que ainda não se tenha conseguido fazer com que esta mensagem fosse passada para o público em geral e interiorizada.

É evidente que a Ordem dos Engenheiros tem uma visão mais individual em relação a esta questão, porque atribui responsabilidades de uma forma personalizada, mas eu defendo que a responsabilidade deve ser colectiva e não individual. Até agora qual é o seu projecto de eleição?

Claramente o projecto que me deu maior satisfação foi o Estádio Municipal de Braga. É um projecto em que é difícil racionalizar o que lá aconteceu. Acho que houve uma simbiose muito grande entre a arquitectura e a engenharia, em que se assistiu a uma sintonia muito grande em termos dos objectivos, bem como uma mobilização muito grande ao nível da equipa. Questões técnicas, contratuais, do mais complicado que há, vinte e quatros horas por dia com uma intensidade absolutamente brutal…é sem dúvida indiscutivelmente o projecto que até agora me deu mais «prazer» e acho que será dificilmente ultrapassável. De facto como experiência pessoal foi um projecto absolutamente único. Mas estou à procura de outro.

Por outro lado, gostei também muito de participar no projecto da Casa da Música. Do ponto de vista do relacionamento com entidades estrangeiras foi óptimo e gratificante. Adorei trabalhar com o holandês Rem Koolhaas e foi gratificante ter participado num projecto que eu pessoalmente considero como «uma história de amizade», uma vez que houve uma grande sintonia entre pessoas culturalmente diferentes. Ainda hoje nos correspondemos quase diariamente.

Depois de ter participado nestas duas grandes obras, ambiciona mais algum projecto. Qual?

Há de facto alguns projectos que eu gostava muito de ver construídos. É o caso de um restaurante, em Matosinhos Sul, uma ponte pedonal em Valença e o projecto do Parque Mayer em Lisboa. Estes são sem dúvida os projectos das minhas novas paixões.

O que representa para si o facto de te sido galardoado com o Prémio Secil?

Para dizer a verdade, já esqueci o prémio e hoje já estou noutra…Mas na altura foi muito importante, pois nós (Afaconsult) estávamos convencidos de que não íamos ganhar, porque no ano passado o Estádio tinha ganho o prémio na categoria de arquitectura. Considero, no entanto, que seria uma injustiça se a obra não fosse premiada em termos de engenharia.

Já recebeu algum tipo de convite para trabalhar no estrangeiro?

Não. Já recebemos alguns convites para trabalhar em parceria com outras empresas estrangeiras, mas a título pessoal não. Mas já tive muitas experiências no estrangeiro, como por exemplo, na construção do Pavilhão de Portugal na Expo 2000 em Hanover com o arquitecto Siza e Souto Moura. Em Macau tive também uma experiência fantástica através do projecto de reforço da estrutura da pala de cobertura e estrutura das bancadas do Estádio de Macau, para a Mota & Companhia, como em África com uma ponte em Cabinda, entre outras. Acho que profissionalmente é fundamental projectarmos lá fora para nos abrir as perspectivas. Obviamente que tenho esse sonho muito presente.

O que pensa sobre o mercado da engenharia ao nível da internacionalização?

O mercado da engenharia é um mercado extremamente complexo e difícil. E quando se fala na internacionalização, temos que ter consciência que Portugal não tem uma notoriedade enquanto país que permita alavancar a credibilidade das empresas de engenharia portuguesa. Por outro lado, as empresas nacionais não têm uma dimensão, regra geral, que lhes permita investir na internacionalização, que a meu ver é um factor fundamental. A internacionalização da arquitectura é muito mais fácil porque é um produto que é perfeitamente caracterizado, como é o caso das obras dos arquitectos Siza e Souto de Moura. No caso da engenharia, esta área não tem as características únicas que têm as obras de um arquitecto. Para além disso, existe a tal questão que está relacionada com a dimensão das empresas, pois internacionalizar no caso da engenharia significa ocupar o território, e isto implica um investimento muito grande. Contudo, Portugal tem melhores preços do que a Holanda, que têm empresas com milhares de pessoas, mas por outro lado não temos ainda melhores preços do que uns chineses ou indianos, que têm boa capacidade técnica, entre outras valências.

No seu entender, como avalia a engenharia civil portuguesa?

Eu acho que a engenharia portuguesa é muitíssimo boa. Contudo, quando comparo as empresas estrangeiras com as nacionais, diria que a grande diferença está na atitude e na abordagem dos problemas e não tanto na capacidade de os resolver. O que tenho constatado é que na cultura anglo-saxónica há uma abordagem mais abrangente dos problemas e, portanto uma atitude perante as coisas diferente da cultura portuguesa. A capacidade de resolver problemas e de correr risco e até a forma como o fazemos é na minha opinião tão boa ou melhor do que a deles. Aliás a formação dos técnicos portugueses é provavelmente superior face a muito técnicos estrangeiros.

O que falta então à «nossa» engenharia?

Penso que há sem dúvida falta de reconhecimento e neste aspecto é que reside a grande diferença. O reconhecimento não vem só necessariamente daquilo que se faz, advém de muitas outras coisas, em que nós poderemos não ser bons, e que estão relacionadas sobretudo com abrangência de que frisei anteriormente. Por outro lado, do ponto de vista da inovação nós temos mostrado também capacidade e possibilidade de vingar no futuro, mas por outro lado, não nos podemos esquecer que nós temos logo à partida a barreira da credibilidade enquanto país, e este é um dos nossos grandes entraves. No entanto, não tenho dúvidas que nós temos dos melhores técnicos que há. Isso é reconhecido por todos, da mesma forma que temos ainda problemas ao nível da organização e de lobies.

Acha que o Processo de Bolonha pode atenuar alguns destes aspectos?

O Processo de Bolonha por si só não tem qualquer problema…o que é importante saber é o que vai acontecer a seguir. Concordo com a posição da Ordem dos Engenheiros, pois é preciso que o Processo de Bolonha não signifique que a formação dos engenheiros acabe ali, já que este é apenas um passo. O que vai ter que acontecer é que a própria Ordem vai obrigar a que haja pós-graduações para se conseguirem determinados lugares. Mas há outra dificuldade que tem a ver com um problema cultural do país que se alastrou às universidades, que é a falta de exigência. Hoje em dia o nível de exigências nas universidades baixou muito e isto porque também decaiu em toda a sociedade. Eu acho que as universidades tinham a obrigação de persistir mais em relação a esta questão da exigência. Este facto é gravíssimo para o Ocidente, porque realmente a tendência terá que ser a oposta, ou seja, levantar os níveis de exigência para níveis que nos permitam competir contra a quantidade que nos chega do Oriente.