A EVOLUÇÃO DOS SECTORES DA CONSTRUÇÃO E DO IMOBILIÁRIO

Por a 23 de Maio de 2008

Os sectores da construção e do imobiliário têm atravessado períodos conturbados, perspectivando-se alterações nas políticas públicas, que, seguramente, ditarão novos cenários de evolução.Desde a adesão de Portugal à CEE, em 1986, que a indústria da construção respondeu aos enormes desafios da construção das infra-estruturas financiadas pelos fundos comunitários e necessárias para o desenvolvimento do país. Poderão alguns tentar denegrir e atacar o sector, como sempre foi hábito, mas a inovação dos projectos, a evolução tecnológica das empresas e a capacidade da engenharia portuguesa, permitiram concretizar obras de grande qualidade e que são hoje uma mostra da nossa capacidade. Muitos dos que nos visitam ficam positivamente surpreendidos e apreciam a qualidade do trabalho executado, o qual tem permitido às empresas portuguesas de construção afirmar a sua capacidade nos mercados externos, bastante competitivos.

Contudo, após um período de grande actividade durante a década de 90, a partir de 2002 e até 2007 o sector das obras públicas, designado na nomenclatura internacional por obras de engenharia civil, sofreu um decréscimo de actividade superior a 25%, contrariando a evolução positiva verificada nos restantes países da UE, nesse mesmo período. Esta situação não se verificou nos restantes países. Mesmo a Irlanda, que é sempre apontada como o exemplo da estratégia de desenvolvimento que apostou na formação e no conhecimento em vez da construção de infra-estruturas, apresentou em 2006 um investimento superior a Portugal, embora tenha apenas 4 milhões de habitantes. Segundo o relatório da Euroconstruct, em 2006, o investimento total no sector da construção (edifícios e engenharia civil) em Portugal foi de 25.000 milhões de euros, enquanto que a Espanha investiu 208.000 milhões e a Irlanda 35.000 milhões. Se tivermos em conta a população de cada país, chegaremos à conclusão de que a Espanha investiu, per capita, o dobro de Portugal e a Irlanda quatro vezes mais. Se considerarmos apenas as obras de engenharia civil, o investimento em Espanha e na Irlanda foi de, respectivamente, 170% e 180% do registado no nosso país.

Esta acentuada redução da actividade das obras públicas e do imobiliário, com um decréscimo superior a 30%, contribuiu significativamente para o baixo crescimento do PIB. A partir de 2002, o crescimento do PIB no nosso país foi inferior à média registada nos 25 países da UE, tendo aumentado a nossa divergência em 7,1%, prevendo-se que se mantenha até 2009.

Também ao nível do desemprego, a taxa foi crescendo, desde 5% em 2002, até 8% em 2007, enquanto que nos 25 países da UE a taxa média de desemprego nesse período passou de 8,7 para 7,2%.

O anúncio, pelo Governo, do plano de obras públicas para os próximos dez anos, nomeadamente o novo aeroporto de Lisboa, o TGV, a nova travessia do Tejo, as concessões de auto-estradas, o plano de barragens e investimentos em novas fontes de energia, bem como a construção e novos hospitais, entre outros, permitirá concretizar os objectivos que justificaram a decisão e repor o sector da construção nos níveis de actividade que permitirá acelerar a nossa economia. Bastava que nos últimos seis anos o sector da construção tivesse estagnado, em vez de ter decrescido, para a situação da economia e do desemprego ser diferente, tal como sucedeu em todos os países da Europa. Por isso, as críticas de alguns comentadores que acusam o Governo de voltar à política do betão, colocando esses investimentos como alternativos aos necessários para a educação e formação, são infundadas. Se existisse um verdadeiro lobby do betão, como existe noutros sectores, então a redução da actividade não teria atingido o valor que registou nos últimos seis anos.

O insucesso das políticas de educação e formação em Portugal, não resulta da falta de recursos financeiros, mas é consequência das políticas de facilitismo e do conceito da escola recreio que imperaram nas últimas décadas. Segundo os dados de 1995 a 2004, dos 35 países da OCDE, somente seis gastaram em educação, em percentagem do PIB, mais do que Portugal.

Por isso há que comparar o nosso desenvolvimento, com base em números, com a realidade dos restantes países da UE, em vez de se utilizarem ideias pré-concebidas e divulgadas de forma demagógica.

A indústria da construção representa, de forma directa, quase 6% do PIB e 11% da população activa, e continua a ser, em qualquer país, uma actividade indispensável para o seu desenvolvimento, seja na Irlanda, na Alemanha ou na Suécia, por muito que isso incomode os que não gostam do sector, mas que são dos primeiros a utilizar o produto desta actividade.

A análise do sector do imobiliário ficará para uma próxima oportunidade.

Fernando Santo

Bastonário da Ordem dos Engenheiros

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