O CHOQUE TECNOLÓGICO

Por a 23 de Maio de 2008

O actual Governo vem promovendo, desde o princípio da legislatura, a aplicação, ao País, dum choque tecnológico, de modo a torná-lo mais moderno e competitivo na cena internacional. É uma medida que aplaudimos e que tem, como uma das suas principais vertentes, a implementação da aplicação da informática aos serviços públicos, às escolas, às empresas e aos particulares. A distribuição de computadores pelos estabelecimentos de ensino, os incentivos financeiros à compra de "hardware", são algumas das medidas adoptadas, entre muitas outras com idêntica finalidade.Alguma da legislação recentemente aprovada segue esta orientação, como por exemplo, o Código dos Contratos Públicos (CCP) que impõe, a curto prazo, que as propostas relacionadas com empreitadas públicas sejam formalizadas apenas por via informática, terminando o recurso ao suporte em papel. A posterior negociação será também realizada por um leilão "on line".Se estas medidas são, por um lado, vantajosas, têm, por outro, inconvenientes que não devem ser ignorados. Uma das desvantagens resulta da possibilidade de, perto da data limite para entrega duma proposta, o servidor da entidade pública que lançou o concurso não ter capacidade para receber, em simultâneo, todo esse "tráfego" e impedir, desse modo, a submissão de todas as propostas. Aquilo que ocorre, frequentemente, com a administração fiscal, quando se trata do envio, pelos sujeitos passivos, das declarações de IRS, perto da data do fim do prazo para a recepção informatizada dessas declarações, obrigando a prorrogações da data limite, é um bom exemplo das dificuldades que vão ocorrer, futuramente, nos concursos públicos. Vai ser possivelmente necessário os interessados inscreverem-se, préviamente, de modo que as entidades que lançam os concursos possam controlar o número de propostas recebidas e verificar se é necessário ou não prorrogar a data limite da recepção das mesmas. Outra desvantagem da informática está relacionada com o arquivo da documentação dos concursos públicos em particular, e de outros documentos, em geral. Essa desvantagem decorre da contínua evolução do "hardware" e dos "software" que tornam obsoletos os sistemas que permitem a "leitura" dos documentos arquivados. Um bom paralelismo deste problema pode encontrar-se ao nível da música e da sua forma de registo.

De facto há alguns anos atrás existiam os discos de vinil, posteriormente surgiram os "leitores" de "cartridges", depois os "leitores" de "cassetes"e, actualmente, os de CD's e de DVD's. Quem hoje em dia ainda possua discos de vinil, "cartridges" ou "cassetes", tem cada vez mais dificuldade de poder ouvir a música neles gravada, pois os respectivos aparelhos de "leitura" há muito desapareceram do mercado. Quem, por exemplo, tenha gravado desenhos técnicos através de ficheiros Autocad duma dada série, ao fim de poucos anos, com a evolução do sistema de Autocad, deixará de os poder visualizar, ou se o conseguirem, a "leitura" terá vários erros. Aconteceu-nos há uns anos, na reemissão de desenhos antigos de betão armado, os varões de "F 16 mm" surgiram nos desenhos com a designação "? 6 mm", o que originou problemas graves numa obra. Uma biblioteca de "back-up's", gravada numa dada data, corre o risco de dentro de poucos anos, ficar ilegível, por desaparecerem do mercado os "hardware" e "sofware" que a geraram, a menos que se tenha de fazer regravações periódicas sempre que ocorre uma evolução tecnológica. Imagine-se o que seria se, sempre que surgisse, no mercado, um novo tipo de papel, se tivessem de reimprimir, nesse novo tipo de papel, todas as obras já anteriormente publicadas.

Para além do mais o material de gravação de "back-up's", como CD's, DVD's, etc., estão sujeitos a degradarem-se, a riscarem-se, etc. Prevemos que algumas bibliotecas deste tipo fiquem, a curto prazo, sem valor para futuras reaplicações.

Foi o que aconteceu, no passado recente, com os desenhos em vegetal que tendo sido, posteriormente, microfilmados, de modo a que o seu espaço de armazenagem fosse mais reduzido, acabaram por ter a sua futura utilização condicionada por causa da microfilmagem. Esta operação impede, por exemplo, a possibilidade desses desenhos poderem vir, futuramente, a ser alterados, no caso dos edifícios a que correspondem serem objecto de obras de remodelação ou ampliação.

A informática é um sistema muito útil quando em boas condições de fornecimento, caso contrário é uma "força de bloqueio". Quando ocorre um "apagão" num circuito eléctrico, os seus utilizadores recorrem, provisoriamente, a velas de estearina, como uma solução de recurso alternativo. Com a informática não há esta possibilidade, pelo que não se pode aplicar-lhe a frase popular: "quem não tem cão caça com gato".

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