A ESTABILIDADE DAS FALÉSIAS E A SUA IMPLICAÇÃO NA CONSTRUÇÃO

Por a 24 de Outubro de 2008

matos e silva

por J. Matos e Silva,

Ao longo da costa portuguesa inúmeras falésias apresentam problemas de estabilidade por acção de diversos agentes metereorizadores que, normalmente, são o vento, as águas pluviais e o mar.

A construção de edifícios sobre essas falésias pode colocar problemas de segurança bastante graves, como é fácil demonstrar.

A acção do vento sobre as falésias, sobranceiras a praias, é acompanhada pelo levantamento de areia dessas mesmas praias que, impulsionadas pelo vento actuam com uma acção abrasiva como se se tratasse duma limpeza por jacto de areia, erodindo fortemente as falésias. Tal erosão vai diminuindo a coesão entre as partículas de solo ou rocha constituintes das falésias. Posteriormente, sob a acção das águas pluviais essas partículas acabam por se desprender e este ciclo interminável vai conduzindo à queda de diversas partes dessas falésias. Os materiais assim desprendidos, caindo sobre a praia são, finalmente, arrastados pelo mar.

Este fenómeno faz com que as falésias recuem sucessivamente em relação ao seu plano inicial, pelo que quaisquer construções edificadas junto dessas falésias acabam por correr o risco de se despenharem sobre as praias quando as suas fundações ficarem desprotegidas devido ao progressivo recuo das falésias em que estão implantadas.

No Algarve, as falésias sobranceiras a diversas praias, como é o caso da Praia Maria Luisa, sofrem, diariamente, uma acção erosiva do vento, das águas pluviais e do mar. Por vezes os três factores referidos como principais agentes metereorizadores são acompanhados, também, pela acção das águas de percolação. Tem havido sucessivos desprendimentos de materiais provenientes das falésias pelo que existem na praia inúmeros sinais de aviso para os banhistas não se aproximarem, demasiadamente, das falésias, para não serem atingidos.

Os vulgarmente denominados "olhos de água" que deram o nome a uma praia piscatória no Algarve, não são mais do que águas de percolação que chegam até às praias aí borbulhando na areia, no contacto com o mar, fenómeno que, normalmente, só é observável na maré baixa. Esses "olhos de água" provocam a erosão interna das falésias e o seu progressivo recuo.

Outros fenómenos podem originar, também, a instabilidade das falésias, como é o caso dos fenómenos de carstificação.

É o caso da faixa costeira situada entre Cascais e o Guincho, na qual os blocos de calcário se apresentam por vezes desagregados, o que obriga a executar injecções de calda de modo a interligá-los, para poderem servir de elementos de assento das fundações das construções a implantar nessa zona. A nossa intervenção no projecto de ampliação da Estalagem do Farol, é disso um exemplo paradigmático.

Mais perto de Lisboa, nas zonas altas de Caxias e Cruz Quebrada, a natureza argilosa dos terrenos faz com que a acção das águas de percolação, funcionando como um lubrificante, provoque o deslizamento de grandes massas de solo que instabilizam as construções. O acidente, ocorrido nos anos cinquenta do século XX, do Farol da Gibalta, é disso um bom exemplo.

Este fenómeno repete-se, mais a Sul, nas falésias de Sesimbra onde diversas edificações e muros de suporte sofreram graves prejuízos. Estes últimos, mesmo por vezes dimensionados para o impulso em repouso, não conseguem, obviamente, suportar o impulso provocado pelos solos argilosos em deslizamento.

Contudo, apesar de todos os problemas atrás referidos, é sabido que a espécie humana sempre procurou construir nas zonas com melhor vista de mar, ou perto de rios, por vezes negligenciando os fenómenos citados.

Os graves prejuízos materiais e em vidas que decorrem de cheias em linhas de água resultam de se construir na sua vizinhança dentro dos respectivos leitos de cheia. Se essas construções ficassem no exterior desses leitos nada aconteceria.

Também a construção demasiado perto do mar coloca perigos por demais evidentes. Os casos que anualmente se registam na Trafaria, na Ilha de Faro e noutros locais da nossa costa, são por demais conhecidos. No primeiro caso, originado pelo desmonte, para execução de diversos aterros no porto de Lisboa, do molhe natural que ligava a Trafaria ao Bugio, as correntes marítimas de tal desmonte originou, provocando um arrastamento da areia das praias situadas entre a Trafaria e a Costa de Caparica, o que levou à execução de esporões de pedra para tentar minimizar as consequências do fenómeno. Foi um paleativo que se revelou caro e ineficaz pois a solução adequada seria repor o molhe natural que foi destruido.

Tudo isto decorre dum inadequado ordenamento da construção ao longo dos anos. Se na nossa orla costeira não ocorrem mais casos de acidentes (como o que destruiu, na década de sessenta, uma moradia de betão armado implantada na praia de Santo António da Caparica) é porque o impedimento de construir no denominado "domínio público marítimo" evitou a implantação de edificações na vizinhança imediata do mar.

Engº Civil, Especialista em Geotecnia, Estruturas e Direcção e Gestão na Construção (O.E.)

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