CONSTRUIR PARA UMA QUALIDADE DE VIDA MELHOR

Por a 24 de Outubro de 2008

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por Livia Tirone,

O meio edificado é o principal responsável pelas emissões de gases com efeito estufa porque, por si só e à escala do planeta, consome quase metade da energia produzida, apenas para se tornar habitável. São as boas práticas no sector da construção que maior impacto terão na criação de condições de salubridade e de conforto nos espaços em que passamos 90% do nosso tempo e que irão garantir a nossa prosperidade económica. Estas boas práticas, também denominadas construção sustentável, devem corresponder à especificidade do contexto climático, cultural e comportamental no qual se exercem.

A construção sustentável implica uma mudança de práticas na construção, que, em parte representam um regresso a valores que dominavam na construção vernacular e tradicional.

Com a Revolução Industrial verificou-se o abandono dos valores que, na construção, garantiam uma relação harmoniosa entre os edifícios e o clima, tal como entre os edifícios e o ambiente. A valorização da relação entre os edifícios e o clima, foi temporariamente substituída por valores que ainda hoje nos acompanham e que permitiram centrar a forma como a sociedade funciona na lógica da economia (que está separada do ambiente) e na produtividade da sociedade – procura e oferta, esquecendo a qualidade real dos edifícios que nos albergam acrescentam à nossa vida.

O resultado está à vista de todos: apesar do nosso clima favorável, o conforto sentido pelas pessoas nas suas casas é extremamente reduzido.

Portugal é um país extremamente rico em recursos endógenos e renováveis e usufruirá sempre mais dessa riqueza, se a souber integrar nos seus processos quotidianos.

A riqueza parte do clima que temos e nos recursos naturais, endógenos e renováveis, de que dispomos em abundância: a temperatura, a radiação solar, o vento, a chuva… Para que esta riqueza possa vir a ser usufruída, o meio edificado precisa de interagir positivamente com o clima, os recursos renováveis devem ser integrados, de forma inteligente e eficiente, nas redes de abastecimento de energia e de água, bem como nos processos de tratamento dos materiais que utilizamos e todo o processo de assimilação desta riqueza deve ser descentralizado.

A distribuição desta riqueza de forma equitativa a todos os cidadãos depende em primeiro lugar da rapidez com a qual as práticas que fomentam a eficiência energética dos edifícios se irão enraizar na construção, mas também da forma como todos os actores que hoje controlam os sistemas e as redes de recursos, terão a capacidade de passarem do papel de soberanos para o papel de facilitadores.

O nosso clima mediterrânico conjuga temperaturas médias extremamente amenas (entre 18 e 26º graus centígrados) com grandes amplitudes térmicas, que são muito desconfortáveis para as pessoas e agressivas para os materiais empregues na construção. Com uma construção que promove um diálogo eficiente entre o clima exterior e o clima interior, é possível alcançar condições de conforto ambiental durante todo o ano, porque, através de medidas bioclimáticas, é possível eliminar os ganhos excessivos durante a época de calor e maximizar os ganhos desejados durante a época fria. A temperatura média do clima é armazenada nos materiais pesados empregues na construção sustentável, garantindo uma estabilidade térmica no interior ao longo de todo o ano. A temperatura do ar no exterior, amena durante a maior parte do ano, permite que uma boa ventilação natural (também nocturna) contribua para a redução de extremos de temperatura em situações que a inércia térmica não alcança.

Descentralizar, à escala dos edifícios, a capacidade de produzir e de armazenar temperatura (energia térmica) e agora também a capacidade de produzir energia eléctrica através de fontes renováveis (microgeração) e de a armazenar, por exemplo na bateria do nosso veículo eléctrico, constituem a base do novo paradigma energético que, bem abraçado por todos nós, irá propulsionar a nossa prosperidade, e enquadra-se nos objectivos políticos traçados pela União Europeia.

Algumas barreiras que temos de transpor:

Traçado o caminho a seguir para conseguir inverter as actuais tendências destrutivas da nossa civilização, temos que enfrentar e desmontar as barreiras que mais fortemente afectam o sector da construção e que funcionam a desfavor da implementação de medidas que promovem a melhoria do desempenho energético-ambiental do meio edificado:

– A falta de conhecimento do impacto energético-ambiental que as actuais práticas comuns na construção possuem;

– A informação e o know-how relevantes para inverter as tendências não estão disponíveis para os principais actores do sector da construção;

– A relação entre a economia e o ambiente não é explícita para que sejam tomadas decisões na fase de concepção e de especificação de edifícios;

– A ausência de coerência na mensagem política confunde tanto o sector da construção como o mercado (taxas mais baixas para o consumo de recursos como a energia e a água, do que para soluções construtivas que reduzem esse consumo);

– A gestão nacional, regional e local, com os seus processos extremamente burocráticos de licenciamento, dedica-se à verificação de conformidades e não à gestão de oportunidades;

– Por não se ter tornado ainda prática comum o diálogo permanente, contínuo e interdisciplinar entre todos os elementos da equipa de projecto e de realização e operação de edifícios, diálogo essencial para o alargamento de boas práticas, pelo que é indispensável alargar-se a cultura de multidisciplinaridade nas equipas de planeamento e de projecto;

– A dispersão e diversidade de níveis de formação dos actores relevantes no sector da construção dificultam o estabelecimento de objectivos comuns.

Estas barreiras têm de ser transpostas pelos actores relevantes do sector da construção, estando os meios de comunicação numa posição privilegiada para responder à ausência de conhecimento, de informação e de know-how relevantes. As barreiras 'top-down', já referidas, permanecem nas mãos dos políticos que elegemos.

Para além de vencer as dificuldades criadas pelas barreiras acima descritas, é essencial criar incentivos para o alargamento das boas práticas na construção. Basta facilitarmos a implementação de todas as medidas que promovam a atractividade e a optimização do desempenho energético-ambiental do meio edificado dando enfoque principalmente à reabilitação e revitalização do meio edificado existente.

Os esforços implícitos na mudança de práticas vão afectar-nos a todos, mas também os benefícios serão de todos, benefícios estes que, no actual momento de crise, são tanto mais preciosos.

Arquitecta, especialista em arquitectura bioclimática

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