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Reabilitar é preciso

6 de Maio de 2010 às 11:46:50 por Construir

Isabel Vaz Serra, Arqª – Directora da Site Plan – consultoria em Planeamento e Urbanismo, uma empresa FOCUS group – geral@siteplan.pt

Subitamente, a reabilitação urbana parece estar na moda. O tema tem estado no centro das atenções de inúmeros encontros, artigos, seminários, formações e afins. De facto, a reabilitação tem sido encarada, nos últimos tempos, como uma escapatória possível – e eventualmente desejável – para a já tão batida crise que atravessamos.

Este é mais um sinal dos tempos, a sublinhar a crescente importância que o investimento público tem vindo a assumir para o mercado imobiliário. Mas este não é um tema novo.

Desde os anos 60 que a evolução deste tema tem sido substancial, não só do ponto de vista conceptual – o que a academia entende por reabilitação em contexto urbano – como do ponto de vista bem mais pragmático dos objectivos, princípios e âmbito das intervenções de reabilitação urbana, da sua metodologia ou mesmo da sua forma de abordagem.

A verdadeira novidade está.. na novidade que o tema parece ter para tantos. A atenção de que tem sido alvo por parte de agentes tão diversos, sejam eles públicos ou privados, por entre municípios, instituições e centros de investigação, investidores e agências governamentais, imprensa generalista e imprensa especializada, entre muitos outros, essa sim é algo de novo.

Na realidade, podemos hoje encontrar com relativa facilidade projectos urbanos diversificados com nomenclaturas bastante próximas, entrecruzando-se as designações de requalificação com a revitalização, a renovação e a reabilitação. E a atenção redobrada de que tem sido alvo a reabilitação quase que indicia que esta é a solução (há muito esperada) para todos os males, e uma alternativa para uma saída airosa da crise no mercado imobiliário.

Será então a reabilitação a grande oportunidade económica para as empresas e os profissionais do sector? Ou será esta, sobretudo, uma urgência absoluta que as nossas cidades, os seus espaços urbanos e utilizadores há muito exigem mas que tem, recorrentemente, ficado para um segundo ou terceiro plano?

Esta urgência de reabilitação das nossas cidades não é gratuita.

É manifesta a degradação do espaço público de muitas das nossas cidades, e é gritante o total desrespeito pela sua imagem e coerência, trazendo consigo a própria degradação das condições de vida das comunidades, num ciclo vicioso sem fim à vista. Por isso mesmo a reabilitação urbana é hoje assumida, de forma quase universal, como uma intervenção de carácter global no tecido da cidade, pelos diversos desafios que encontra pela sua frente de natureza económica, social e cultural, pela crescente complexidade de intervenções que exige, e pela transversalidade de actores que é obrigada a gerir – e a mobilizar.

Como tal, a reabilitação urbana assume assim a ambição de deixar de ser problema de uns para passar a ser a solução de todos.

Olhar para lá do edificado em mau estado de conservação e devoluto, para lá da defesa do património: hoje a reabilitação assume, sem alarme nem hesitação, um importante protagonismo no debate em torno das políticas de promoção da sustentabilidade das cidades, procurando agir de forma global sobre o edificado, os espaços públicos, as actividades económicas, e as inevitáveis questões da mobilidade.

A reabilitação urbana já não é encarada como um simples conjunto de acções de embelezamento urbano. A revitalização económica, social e ambiental, a participação activa e responsável das comunidades, a motivação para intervir em espaços sensorialmente apelativos, estes são os motes para qualquer intervenção significativa a este nível.

O desafio há muito que se coloca a toda a sociedade. Hoje, perante os extraordinários desafios que enfrentamos, este é um tempo de acção e de concertação. E um tempo de exigência, cada vez maior, para todos.

Por parte de quem propõe, pedem-se posições claras, objectivas e exequíveis. E a quem decide, pede-se seriedade, motivação e compromisso.

Não será a reabilitação, por si só, a salvar-nos da crise. Mas se salvar as nossas cidades, estaremos já no bom caminho.


 

Palavras Chave: Ed.171, Arquitectura & Urbanismo, Edição Impressa, Opinião


 

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