‘Os portugueses já estão hoje cientes da importância da eficiência energética’

Por a 18 de Junho de 2010

A dirigir o leme desta associação está Armando Silva Afonso, engenheiro e professor da Universi­dade de Aveiro, que apresentou, ao Construir, a missão da ANQIP.

Qual foi o intuito da criação da ANQIP?

A ANQIP reúne universidades, empresas, entidades gestoras e técnicos em nome individual, tendo actualmente perto de 120 associados, sem fins lucrativos. A ANQIP nasceu há cerca de três anos, procurando colmatar algumas lacunas em termos de regulação, de qualidade e de eficiência nas instalações prediais. Desde o início que a nossa atenção se centrou nas instalações hidráulicas e sanitárias, pois é precisamente aí que se colocam actualmente os principais problemas de qualidade nos nossos edifícios. Na verdade, a energia, o gás, as comunicações e outras especialidades dentro das instalações prediais têm actualmente um quadro regulador ou de certificação muito desenvolvido, mas, curiosamente, nada disso se passa em relação às águas e esgotos, que são responsáveis por mais de 90% dos problemas e incomodidades que temos nas nossas casas.

A ANQIP actua, por exemplo, ao nível da formação de instaladores, da actualização de técnicos e da certificação voluntária de projectos e de instalações. No âmbito da eficiência hídrica, outro aspecto que se encontra relativamente esquecido em Portugal, mas que é estratégico para o nosso País, a ANQIP desenvolveu, através da suas Comissões Técnicas, um modelo de certificação e rotulagem de eficiência hídrica de produtos, Especificações Técnicas para os sistemas de aproveitamento de água da chuva, etc. Estas Especificações Técnicas estão disponíveis no nosso site da internet ( www.anqip.pt ).

Que medidas apresentam no sentido de promover e assegurar a poupança energética dos edifícios?

No caso das redes prediais de águas, por exemplo, a ANQIP, que integra o Conselho Consultivo para a revisão do RCCTE, tem trabalhado para que a aplicação de chuveiros e outros dispositivos eficientes seja considerada na classificação da eficiência energética dos edifícios. Este aspecto pode não parecer relevante aos cidadãos e a muitos técnicos, mas eu lembraria que o duche representa quase 40% dos consumos de água nas nossas casas. A redução para metade deste valor, perfeitamente possível (muitos dos nossos chuveiros consomem mais de 12 l/min e pode-se utilizar, sem perda de comodidade, um chuveiro de 6 l/min), conduz a uma redução de 20% no consumo de água e, como é evidente, na energia gasta no seu aquecimento. Acaba por ser mais importante do que muitos dos factores considerados no RCCTE.

Que especialidades incorpora esta associação?

Em Portugal, fora dos sistemas de certificação obrigatória ou dos licenciamentos especiais, estão, por exemplo, as águas e esgotos, os sistemas de combate a incêndios, etc. É nestas Instalações que a ANQIP intervém essencialmente.

No seminário Climatização XXI, apresentou um tema bastante interessante: a poupança de água. Essencialmente, que factores se devem ao facto de Portugal estar hoje entre os países que mais água desperdiçam, no que concerne a instalações prediais?

Penso que assunto não tem merecido a atenção que devia e os cidadãos não têm sido esclarecidos e sensibilizados para esta questão. A nível europeu a eficiência energética tem merecido particular atenção, pois interessa a todos os países, e Portugal tem-se preocupado também em seguir essa linha. Penso que todos os portugueses já estão hoje cientes da importância da eficiência energética. No que se refere à eficiência hídrica, contudo, a situação de Portugal é significativamente diferente da que se observa na maior parte dos países, pois o nosso risco de “stress” hídrico é significativamente mais elevado. Por isso, não podemos esperar por uma política global europeia para a água análoga à que foi implementada para a energia, pois não é relevante para muitos dos nossos parceiros. Temos que ser nós a tomar a iniciativa de estudar e resolver as nossas questões. Deve salientar-se que as ineficiências totais no uso da água em Portugal se estimam actualmente em 3100 x 106 m3/ano nos diversos sectores, representando aproximadamente 0,64% do Produto Interno Bruto português. No que se refere especificamente ao sector de abastecimento urbano (sistemas públicos e prediais), as ineficiências totais estão estimadas em perto de 250 x 106 m3/ano, correspondendo a um valor económico próximo de 600 x 106 €/ano. Em termos de indicadores por habitante, os valores apontados correspondem a ineficiências superiores a 25 m3/ano e habitante, com valores económicos próximos de 60 €/ano e habitante.

Para além da certificação de produtos, que outras medidas podem ser tomadas para reduzir o consumo de água neste país?

No ciclo predial, o uso racional da água pode ser resumido por um princípio análogo ao conhecido princípio dos 3R (aplicado aos resíduos), mas mais abrangente, conhecido por princípio dos 5R. O primeiro R – Reduzir os consumos, passa pela adopção de produtos ou dispositivos eficientes, sem prejuízo de outras medidas de carácter não técnico (preço da água, educação ambiental, etc.). O segundo R – Reduzir as perdas e os desperdícios, pode envolver intervenções como, por exemplo, o controlo das perdas em autoclismos ou a instalação de circuitos de circulação e retorno de água quente sanitária. Contudo, esta medida tem, em geral, resultados mais relevantes ao nível das redes públicas e não será analisada no âmbito do presente artigo. A reutilização e a reciclagem da água (o terceiro e quarto R), cuja diferença resulta de se considerar uma utilização “em série” ou a reintrodução da água no início do circuito (após tratamento), têm sido objecto de desenvolvimento ao longo dos últimos anos em diversos países, visando estabelecer os padrões de qualidade (ou as necessidades de tratamento) adequados a cada utilização, bem como analisar o interesse económico das diversas hipóteses possíveis. A ANQIP está actualmente a desenvolver investigação neste domínio. Finalmente, o recurso a origens alternativas (o quinto R) pode envolver o aproveitamento de águas pluviais, de águas freáticas ou mesmo de águas salgadas. Deve salientar-se que, aparentemente, o nosso clima mediterrânico não é particularmente favorável ao aproveitamento de água da chuva, dado que se caracteriza por Verões quentes e secos (coincidindo com os consumos mais elevados) e por Invernos frios e chuvosos, tendo a estiagem de Verão uma duração habitual de dois a três meses. Contudo, face aos riscos elevados de stress hídrico a curto/médio prazo, o aproveitamento de água da chuva pode revelar-se importante num quadro de conservação do recurso, permitindo satisfazer parte significativa dos consumos de Inverno, para além de ter um efeito benéfico na redução dos picos de cheia.

Nos edifícios existentes, as auditorias de eficiência hídrica são instrumentos fundamentais. A título de curiosidade, posso referir que a ANQIP fez recentemente duas auditorias de eficiência hídrica em grandes edifícios, o LoureShopping e o Estádio Univer­sitário de Coimbra (EUC), e as poupanças estudadas foram de 24% no primeiro caso e de 37% no segundo.O período de retorno do investimento necessário para poupar os 37% de água no EUC são apenas de 4 meses! Só o desconhecimento desta realidade leva a que ainda exista tanto desperdício entre nós

Em que consiste o protocolo estabelecido entre a ANQIP e o Instituto de Pesquisas Tecnoló­gicas de São Paulo?

Esperamos em breve assinar esse protocolo, que visa apoiar a implementação no Brasil de um sistemas de Certificação e Rotulagem da Eficiência Hídrica de Produtos análogo ao que foi criado pela ANQIP em Portugal.

Muitos consumidores ainda não se aperceberam que, em Portugal, já existe uma certificação por letras (A, B, C…) da eficiência hídrica para autoclismos, chuveiros, etc., com analogia com a certificação energética dos electrodomésticos. É claro que nem todos os produtos têm esta certificação, pois ela é voluntária (ao contrário da energética). Mas o que posso dizer, neste caso, é que a ausência de certificação e rotulagem significa, provavelmente, uma baixa eficiência…

É curiosos notar que, ao contrário do que sucede com a eficiência energética, a aplicação de produtos eficientes do ponto de vista hídrico não significa aumento de custos. Um autoclismo de 5 litros, por exemplo, será provavelmente mais barato do que um de 9 litros. Mesmo nos casos em que existe um aumento de custos, o retorno do investimento é feito geralmente num período muito curto.

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