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REMODELAÇÃO E REABILITAÇÃO ESTRUTURAL COM RECURSO A MADEIRA LAMELADA COLADA

15 de Julho de 2010 às 11:13:39 por Construir

J. Matos e Silva – Engº Civil, Especialista em Geotecnia, Estruturas e Direcção e Gestão na Construção (O.E.)

Nos projectos de remodelação e reabilitação estrutural de edifícios existentes é por vezes negligenciada a vantagem que pode decorrer da escolha, para os novos elementos estruturais a introduzir no edifício, de materiais idênticos aos existentes no edifício a intervencionar. No caso do projecto da remodelação da estrutura dum terceiro andar dum edifício (de quatro pisos) situado no Campo dos Mártires da Pátria, em Lisboa, integralmente dotado duma estrutura em madeira (por ter sido construído após o terramoto de 1755, segundo a tecnologia designada, correntemente, por “gaiola”), entendemos que faria todo o sentido adoptar vigas de material idêntico, tendo por isso optado por vigas de madeira lamelada colada, as quais são caracterizadas pela sua leveza e boa resistência ao fogo, não se recorrendo aos habituais perfis metálicos. O edifício em causa é constituído, genericamente, por pavimentos de madeira apoiados por paredes, umas de alvenaria (nas empenas do edifício) e outras, interiores, as quais se apresentam estruturadas com elementos de madeira, sendo que estes são constituídos por barrotes verticais (destinados a resistir, essencialmente, às acções verticais) aos quais estão pregadas tábuas, de cerca de 2,5 a 3,0 cm de espessura, inclinadas segundo ângulos de cerca de 45º, as quais se destinam a resistir às acções horizontais. Assim, essas tábuas estão colocadas de forma desencontrada, de cada lado dos barrotes verticais aos quais estão pregadas, de modo a poderem assegurar a resistência a acções horizontais que possam actuar segundo sentidos opostos, como é o caso das acções sísmicas. Do ponto de vista estrutural a solução de remodelação consistiu na eliminação de algumas paredes interiores, de modo a criar espaços mais amplos, em função da nova funcionalidade que o novo proprietário da fracção lhe pretendeu dar. Para as paredes interiores da fracção que não suportavam os pavimentos situados nos níveis superiores (acima do piso a intervencionar existem, ainda, o 4º piso, a esteira e a cobertura) nem se prolongavam superiormente, não foram previstos quaisquer elementos de reforço para suprir a sua demolição, dado tal não se justificar. Para as paredes com funções de suporte vertical, em que os elementos de madeira inclinados estavam rematados, ao nível dos tectos, com barrotes horizontais, a solução de remodelação consistiu em “ensanduichar” esses barrotes com vigas de madeira lamelada colada, uma de cada lado de cada barrote e ligadas entre si e aos barrotes através de pernos metálicos transversais, que apertando entre si as 3 peças, permitiram assegurar o seu futuro funcionamento conjunto. As novas vigas foram apoiadas, nos seus topos, nas paredes perpendiculares àquelas que foram demolidas (caso das “vigas principais” designadas por “VP”) ou apoiadas nessas vigas principais (caso das “vigas secundárias” designadas por “VS”), sendo que a respectiva ligação entre elas foi efectuada com recurso a conectores constituídos por chapas metálicas, algumas das quais soldadas “in situ” para permitir a colocação prévia das vigas. A obra iniciou-se pelo escoramento da estrutura do tecto das zonas a intervencionar, de modo a reduzir a carga vertical nessas zonas. Nas zonas do tecto do andar a remodelar onde existiam barrotes deteriorados, colocaram-se dois novos barrotes ladeando os deteriorados, de modo a assegurar a resistência adequada. Tal aconteceu, nomeadamente, sob a cozinha e as instalações sanitárias do andar superior, zonas “húmidas” onde a acção da água deteriora, frequentemente, a madeira dos pavimentos dessas zonas. Dado que a demolição de algumas paredes interiores e a sua substituição por vigas destinadas a ressalvar os novos vãos criados pela referida demolição, introduzia uma concentração de cargas nas zonas de apoio das vigas, foi necessário dar especial atenção a essas zonas. Como atrás referido, essas zonas eram constituídas por elementos existentes de madeira, uns verticais (barrotes) e outros inclinados a 45º (tábuas). Estes últimos, dada a sua pequena espessura, poderiam so­frer o fenómeno da encurvadura quando sujeitos a uma maior compressão. Assim, foram colocados dispositivos horizontais constituídos por pernos roscados que, atravessando esses elementos de madeira inclinados e opostos, impedem a sua encurvadura para o exterior. De forma a evitar a encurvadura para o interior, procedeu-se à injecção do interior das zonas de apoio, com uma resina de injecção, rígida, com baixo “pot life” (de cerca de 60 segundos) e com razoável capacidade de expansão (de uma a dez vezes), características que asseguram que não existirão danos nos acabamentos dos pisos inferiores, provocados pela injecção. Após a instalação das novas vigas e da injecção dos respectivos apoios, foi possível, com toda a segurança, eliminar os troços de parede situados inferiormente à nova estrutura implantada e, posteriormente, retirar os escoramentos.


 

Palavras Chave: Ed.176, Edição Impressa, Engenharia, Opinião


 

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