Opinião: O Sistema ETICS

Por a 2 de Maio de 2016

matos e silva
José Matos e Silva
Engenheiro Civil, Especialista em Geotecnia, Estruturas e Direcção e Gestão na Construção (OE)

O termo ETICS corresponde a “External Thermal Insulation Composite System” o que, traduzido para português, significa “Sistema de Isolamento Térmico pelo Exterior”. É particularmente recomendável a sua utilização em zonas onde existam grandes amplitudes térmicas diárias. Aplicado de forma contínua e pelo exterior dos edifícios, combinando a utilização de um material rígido de isolamento térmico com revestimentos de acabamento e de decoração adequados, proporciona um elevado grau de eficácia na protecção térmica das paredes, contribuiundo para a optimização do desempenho energético de um edifício. O sistema integra uma camada de isolamento térmico aplicado na face exterior das paredes, fixada com um produto de colagem ou por fixação mecânica, ou por ambos os métodos em simultâneo. As placas de isolamento térmico podem ter uma espessura variável de acordo com a resistência térmica que se pretende obter. O acabamento final é realizado com um revestimento decorativo, em função do especificado pelo projecto de arquitectura. Sobre o isolamento térmico é aplicada uma camada de base, normalmente constituída por uma argamassa de cimento modificada com resinas sintéticas, incorporando uma armadura de rede de fibra de vidro para melhoria da resistência à fissuração e para reforço da resistência ao choque. É importante que as paredes, sobre as quais se aplica o sistema ETICS, estejam adequadamente desempenadas de modo a proporcionar uma melhor colagem, caso se opte por este tipo de fixação. Quando os paramentos das paredes estão suficientemente planos, o produto de colagem deve ser aplicado sobre toda a superfície das placas de isolamento térmico, com uma espátula dentada de dentes largos, devendo ter-se o cuidado de não inclinar demasiadamente a espátula. Quando os paramentos das paredes não estão adequadamente planos e apresentam irregularidades, em alternativa pode utilizar-se o método de colagem por “linhas e pontos”, sendo o produto de colagem aplicado de forma a criar “linhas” de pelo menos 5 a 10 cm de largura, em paralelo com os bordos das placas, e por “pontos” no centro das mesmas, com cerca de 5 a 10 cm de diâmetro. A superfície mínima de colagem deve ser pelo menos igual a 40% da superfície total das placas. Deve, portanto, evitar-se recorrer à aplicação de colagem apenas por “pontos”. Um aspecto importante da implementação do sistema ETICS consiste na utilização dum adequado arranque da base do sistema. Para o arranque, podem utilizar-se dois métodos: ou adoptar um perfil de arranque ou efectuar o arranque com painéis de rodapé. Neste último caso, antes de se iniciar a aplicação das placas, é necessário determinar qual a altura adequada do rodapé. Seguidamente, procede-se ao nivelamento e à montagem do perfil de arranque, sendo este fixo mecanicamente com buchas espaçadas, entre si, de 20 a 30 cm. Eventuais irregularidades do suporte poderão ser compensadas através da utilização de espaçadores. Na generalidade dos casos a base do sistema ETICS estará em contacto com o terreno, pelo que, caso não se adopte um perfil de arranque ou, em sua substituição, um sistema de impermeabilização, a esferovite (poliestireno expandido) degradar-se-à quando em contacto com a humidade do terreno e, assim, permitirá que a humidade ascensional possa atingir a envolvente do edifício e facilitará, também, a intrusão por animais (por exemplo formigas) o que, rapidamente, ocasionará a progressiva degradação do sistema de isolamento térmico. Após a colagem das placas e dos elementos de reforço nos pontos singulares, a superfície do isolamento térmico é revestida com uma primeira camada de reboco. A armadura de fibra de vidro é aplicada sobre esta camada ainda fresca, utilizando uma talocha em inox. Nas emendas de armadura deverá existir uma sobreposição de cerca de 10 cm, mas nunca inferior a 5 cm. A armadura de fibra de vidro deverá envolver as arestas onde existam cantoneiras de reforço. Após a aplicação da armadura e quando a primeira camada de reboco estiver já seca, aplica-se a última camada de reboco de modo a envolver completamente a armadura. Um aspecto que pode contribuir para uma má utilização do sistema ETICS decorre duma deficiente colocação da armadura de fibra de vidro. Assim, nunca se deve aplicar a armadura diretamente sobre o isolamento térmico. Se, eventualmente, devido a um erro de execução, não fôr incorporada a armadura de fibra de vidro na camada de base numa determinada zona do sistema ETICS, nessa zona poderão ocorrer fissuras. Ou seja, a armadura constituída por uma rede de fibra de vidro tem de estar incorporada na argamassa e não fora dela pois, caso contrário, a argamassa não terá suficiente resistência mecânica, o que se traduzirá por fissuração e deformações de alguns paramentos. Uma armadura de rede fora da argamassa é algo tão insólito como uma peça de betão armado na qual a armadura metálica não estivesse situada no interior do betão, mas sim fora dele. Outro aspecto que pode afectar o desempenho do sistema ETICS, dum ponto de vista estético, está relacionado com a adequada utilização de andaimes para aplicação do sistema. Efectivamente, não deve ser efetuada a fixação mecânica de andaimes às fachadas onde se irá aplicar um revestimento em ETICS, pois a reparação dos pontos de fixação dos andaimes às fachadas origina alterações de textura, pelo que se notarão os locais onde a fixação dos andaimes foi realizada. Assim, recomenda-se a utilização de andaimes autosuportados, que não necessitem de ser apoiados nas fachadas. Outro defeito frequente na aplicação do sistema ETICS é a visualização das juntas entre placas. De facto, pequenos desvios de alguns milímetros entre placas, são suficientes para serem detectados com luz rasante, contribuindo para o demarcar das juntas, facilitando a sua visualização. O sistema tem alguma dificuldade em se adaptar a paramentos curvos de paredes. Para que tal possa ser realizado com sucesso, nas placas de isolamento térmico terão de ser efectuados cortes que lhes permitam acompanhar a curvatura. Um aplicador experiente sabe que terá de efectuar alguns cortes na camada de esferovite de modo a permitir que esta se molde a uma forma curva pois, caso contrário, ocorrerão situações de empeno. Aliás se o acabamento do sistema não for plano tal poderá contribuir para o possível aparecimento de anomalias. De facto, quanto mais irregular for a superfície final do sistema ETICS, menos auto-lavável será e, por consequência, maior será a probabilidade de acumulação de sujidades. Concluindo: o sistema ETICS pode ser um adequado elemento de construção mas, como todas as tecnologias não tradicionais, exige aplicadores devidamente credenciados para que o resultado final seja o pretendido.

Um comentário

  1. Rui Sampaio Rodrigues, Arqtº

    3 de Maio de 2016 at 9:18

    Caro Engº Matos e Silva,

    Ao invés da utilização de placas de esferovite ( poliestireno expandido), não será melhor as placas de poliestirno extrudido, do tipo “Wallmate”, do Dow-Chemicals, ou outras marcas comerciais com as mesmas carcterísticas ??
    Um abraço,

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