Opinião: Património e turismo: dilemas da Reabilitação Urbana

Por a 3 de Novembro de 2016

Ana VelosaAna Velosa, Vice-diretora da Licenciatura em Reabilitação do Património do Departamento de Engenharia Civil da UA


Reabilitação Urbana. Sendo esta designação utilizada amiúde por esta altura, não esqueçamos um dos seus propósitos: voltar a dar vida aos centros das cidades. E dar vida será “encher de vida”, será “mudar de tipo de vida”? Avivando a memória, há alguns anos (10?, 20?) uma ida à “baixa” das cidades fora das horas de abertura do comércio era uma experiência, se não assustadora, pelo menos, solitária. Nessa altura ressaltávamos a utilização dos centros históricos das cidades do Norte da Europa e compreendíamos com dificuldade o vazio que caracterizava os nossos centros urbanos. Então, as famílias jovens compravam apartamentos ou casas geminadas na periferia e não ponderavam ir viver para a cidade antiga. Apenas, timidamente, alguns artistas se instalavam em prédios um pouco degradados habitados há muitos anos pelas mesmas famílias. O resto estava vazio.

Entretanto chegou o turismo. Para além de Praga e Paris, descobriram-se novas cidades para percorrer, com varandas forjadas e paredes de azulejo. Essa descoberta, fomentada muitas vezes por companhias aéreas de baixo custo que decidiram implementar novas rotas, também elas na senda da atratividade, gerou uma procura de locais de alojamento, restaurantes, cafés e demais comércio local muito para além do existente. Com a capacidade de adaptação que temos e maravilhados por esta nova possibilidade, rapidamente começamos a mudar e a “dar vida” aos nossos centros históricos. Transformamos edifícios dos séculos XVIII e XIX, em conjuntos de pequenos apartamentos brancos e modernos, abrimos restaurantes temáticos, alargamos o espectro da oferta comercial. E as cidades ganharam “nova vida”.

Neste momento em que o fenómeno turístico modifica rapidamente as grandes cidades e sabemos que brevemente modificará cidades circundantes, há que refletir nas consequências desta transformação. Sendo o turismo fundamental e indutor de novas sinergias, há que preparar as cidades para acolher estes habitantes temporários da melhor forma, sem as desvirtuar.

Aquilo que nos diferencia é uma cultura riquíssima, que engloba uma gastronomia muito particular e variada, produtos artesanais com um cunho muito próprio e cidades construídas durante séculos, com os seus monumentos, as suas igrejas, calçadas, casas e mais casas a bordejar ruas estreitas onde dificilmente passam alguns carros. É esta cultura que é atrativa para quem nos visita. E se for também desígnio das cidades “mudar de vida” há que ter o cuidado de fomentar uma reabilitação urbana que valorize aquilo que nos caracteriza: o pequeno comércio, bairros habitados por vizinhos que se conhecem, a autenticidade e o brilho dos azulejos das nossas fachadas, calçadas de pedras pequenas a duas cores…Este património material e imaterial que é nosso, deve ser ponto chave para qualquer ação de reabilitação, não só porque é português, mas também porque quando se perder, perde-se também o turismo.

*A autora do texto escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

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