“Sem a experiência no MoMa nem seria candidato a dirigir este museu em Lisboa”

Por a 26 de Abril de 2017

Está sensivelmente a meio do percurso como director do MAAT, sendo esta também a primeira vez que assume um cargo desta natureza. Que balanço faz?
Pedro Gadanho: Aparentemente, foi muito bem sucedido na medida em que todos os objectivos que fomos definindo desde que cheguei, em Outubro de 2015, foram sempre cumpridos. Entre eles está o lançamento da primeira identidade do museu enquanto marca, em Junho de 2016, com a remodelação das galerias da Central Tejo, que foi o primeiro passo, e também a primeira vez que a programação do MAAT foi anunciada. Depois, sublinho todo o momento de abertura em Outubro, que foi bastante marcante e um grande sucesso. Noto que foi importante, para nós, termos feito a abertura nesse período, apesar de algumas críticas, para podermos proporcionar o usufruto do espaço público e de parte do edifício logo a partir dessa altura e não nos guardarmos para ver o edifício totalmente acabado e só termos aberto em Março. Finalmente, a 21 de Março, o momento em que temos o edifício completo, em que temos as primeiras exposições e a programação a funcionar em regime completo ao mesmo tempo que é acabado o jardim do campus da Fundação. Em suma, tem sido muito intenso, mas sempre a cumprir os objectivos que fomos determinando para este período.

Do que aprendeu enquanto curador de arquitectura contemporânea no MoMa, em Nova Iorque, o que lhe é mais útil hoje?
Em primeiro lugar, tudo o que aprendi sobre management de museus. Foi uma experiência de estágio de quatro anos, hiper qualificada, num dos museus mais importantes do mundo, e foi realmente uma oportunidade para aprender seriamente como é que é feita a gestão de um museu num registo quotidiano. Foi uma experiência super exigente mas de um nível profissional altíssimo, onde era possível estar a inaugurar duas exposições na mesma noite sem sentir qualquer nível de stress. Tudo feito com grandes equipas, com um staff de 50 pessoas, uma estrutura realmente muito séria. Sem essa experiência, nem sequer seria candidato a dirigir este museu em Lisboa. E, de facto, ao formar aqui equipa e ao decidir como seria a nossa abordagem à produção das exposições no dia-a-dia, sentia quase diariamente aquilo que tinha aprendido nos Estados Unidos. Por outro lado, a nível mais curatorial, senti, quando foi inaugurada a exposição “Utopia/ Distupia”, que esta era finalmente a oportunidade para expandir, em termos de dimensão, algumas ideias que fui explorando no MoMa numa galeria muito mais pequena – primeiro num espaço de 200 metros quadrados, depois num de 600 metros quadrados -, e que, em muitos dos casos, envolvia arte e arquitectura, aproveitando a colecção do Museu de Arte Moderna. Finalmente, aqui tinha um espaço de outra dimensão para poder fazer uma experiência de diálogo entre artistas e arquitectos. Portanto, senti que a exposição que foi feita aqui, no fundo, foi o resultado final também de uma aprendizagem curatorial feita no MoMa, a colocar justamente em diálogo trabalhos de artistas e trabalhos de arquitectos, a colocar em diálogo duas produções culturais diferentes mas com o mesmo índice de contribuição para o discurso cultural.

Na altura em que se soube que o Pedro ia assumir a direcção do MAAT, António Mexia referiu: “o perfil e a experiência internacional de Pedro Gadanho são essenciais para a ambição que queremos para o MAAT”. Que ambição é esta?
A ambição é, em primeiro lugar, a de fazer um museu de referência internacional, ou seja, um museu que ombreie e se relacione directamente com outros museus de arte contemporânea no contexto internacional. Isso é um desafio particularmente exigente porque obviamente estamos num momento em que o mundo da Arte Contemporânea é bastante competitivo e as estruturas já têm muita experiência a produzir aquilo que fazem bem de há muitos anos para cá. Portanto, sempre que surge um museu novo, querer atingir esse patamar é obviamente muito difícil, tem de haver alguma distinção que permita afirmar-se em primeiro lugar e, depois, conseguir ter um nível profissional que dê uma resposta continuada ao nível da programação, dos artistas que convida e a nível curatorial. Acho que começámos muito bem, com um edifício que o Finantial Times descreveu como “espectacularmente modesto”, ou seja, um edifício que sendo de arquitectura claramente contemporânea é um edifício que se integra muito bem na paisagem e que é muito convidativo e muito atractivo para os visitantes, justamente por ter uma linguagem diferente daquela que se encontra no dia-a-dia. Agora, o desafio é continuar, na programação, a corresponder às expectativas que foram geradas com a criação desta mega estrutura museológica em dois pólos diferentes e em dois grandes edifícios.

O MAAT aparece numa altura em que Lisboa está nas “bocas do mundo”, é referência em muitas publicações internacionais, considerada uma cidade bastante atractiva e interessante e que recebe diariamente muitos turistas.
Sim. Aliás, o MAAT aparece muitas vezes nesse contexto como um signo dessa renascença cultural. Acho que há um aspecto importante a sublinhar nessa dita renascença. Lisboa, enquanto capital europeia com um passado histórico muito consolidado, já era uma cidade muito atractiva para o turismo. O que talvez se nota neste momento é que a cidade começa a atrair pessoas de um turismo mais qualificado, city break, pessoas que procuram não só à procura da experiência gastronómica, o passado histórico e o passeio por uma cidade bonita, como também uma oferta cultural ao nível daquilo que estão habituadas nos grandes centros europeus.

E o turismo de arquitectura, já tem expressão?
O turismo de arquitectura já existia pelas razões óbvias, afinal temos dois Pritzkers em Portugal. Já existia no Norte do País e também aqui, mas claro que actualmente está reforçado. Contudo, devo dizer que a Casa da Música já tinha feito esse percurso muito antes de surgir o MAAT e, obviamente, sempre houve arquitectos a fazer o circuito Álvaro Siza. Digamos que isso vem reforçar essa componente de um turismo cultural mais exigente.

E que transformações a cidade pode vir a sofrer derivadas deste fluxo de turistas?
Isso está ligado a um fenómeno interessante e menos conhecido que pode, e até já está a ter, mais consequências, nomeadamente na Reabilitação Urbana. O fenómeno é o facto de a cidade atrair pessoas não só para a visitar, mas para viver. Falamos de pessoas com outro nível de exigência estética, outro nível de exigência económica, o que favorece a economia da Reabilitação e faz com que a cidade tenha uma pressão para mudar mais rapidamente. Traz alguns problemas consigo, nomeadamente a gentrificação e a subida das rendas, mas felizmente esses são problemas que já foram identificados previamente em outras cidades e que já estão a ser discutidos desde o início. Faz parte da trajectória habitual a que as cidades são sujeitas nesta situação. Portanto, entre a qualidade arquitectónica que existe tradicionalmente em Portugal, nomeadamente a nível de resposta à encomenda e o facto de haver essa consciência do que aconteceu noutros sítios, temos condições para fazer um crescimento com alguma qualidade. Mas dependerá dos actores que estão no campo.

O Pedro tem um percurso bastante diversificado que passa pela arquitectura, curadoria, ensino, design (…). Essa capacidade camaleónica de se moldar e de actuar em várias frentes é hoje crucial para um arquitecto?
Há muitas formas de ter “sucesso”, mas o sucesso mais consolidado tem que ver com uma visão relativamente tradicional da profissão em que o arquitecto tem um domínio cultural vasto e percebe de muitas áreas e é, como se costumava dizer, um especialista em coisa nenhuma. Um especialista em generalidades. Essa qualidade cultural do arquitecto é, quanto a mim, muito importante para garantir o sucesso mais sustentado e é uma coisa que eventualmente se perdeu nos últimos anos, até pelo desligamento que passou a existir entre escolas de arquitectura e escolas de arte, que garantiam esse acesso a uma cultura artística mais clássica. Acho que isso gerou um problema. Primeiro acho que os arquitectos se tornaram cada vez mais tecnocratas e mais falhos a esse nível da sensibilidade cultural, de modo a dar uma resposta mais directa e um serviço mais acrítico, relativamente aquilo que são as exigências de uma sociedade contemporânea. Apesar de tudo, nós ainda temos, precisamente por haver uma cultura arquitectónica importante, restícios dessa cultura a influenciar os comportamentos das pessoas. Ainda assim, é preciso estar atento a esse risco porque evidentemente se pode traduzir numa rápida perda de qualidade na arquitectura. Nós temos uma tradição de qualidade, acho que essa tradição ainda se nota e espero que prevaleça. Quando, aqui no museu, unimos a Arte e a Arquitectura, é um pouco para tentar restabelecer essa conexão que por outras vias se foi perdendo.

Como é que fundem a Arte, a Arquitectura e a Tecnologia na programação do MAAT?
Eu espero que as pessoas, ao visitarem a exposição “Utopia/Distopia”, percebam exactamente essa fluidez entre disciplinas e o facto de não ser preciso marcar fronteiras entre aquilo que é uma produção arquitectónica e aquilo que é uma produção artística, assim como a capacidade de ambas para reflectir sobre o mundo presente. A exposição fala por si e explica muito bem como, por detrás de ideias de edifícios e de construção, pode estar um pensamento cultural activo e crítico sobre aquilo que se passa à nossa volta.

Que expectativas têm do público português?
O público português tem de ser educado, pela simples razão de que a arte contemporânea, assim como a arquitectura e outras expressões criativas contemporâneas, não têm arenas para ser reconhecidas. Como as pessoas não nascem ensinadas, tem de haver um projecto pedagógico que explique o que podem beneficiar da sua experiência com a arte contemporânea, com a arquitectura e de como as produções culturais lhes podem fazer compreender um pouco melhor aquilo que são, aquilo que fazem e o modo como podem pensar o Mundo. Algumas reacções a exposições que já fizemos aqui no MAAT lembram-me o momento em que estive a fazer o Mestrado em Arte e Arquitectura, em Inglaterra, em meados dos anos 90, quando a arte contemporânea estava a surgir na cena mainstream em Inglaterra, muito antes da Tate Modern ser aquilo que é hoje. Na altura, os tablóides começaram a pegar na arte contemporânea para dizer “Isto não é arte”, “Isto também eu fazia”. Eu acho que Portugal, em certas áreas, ainda tem um atraso de 20, 30 anos e estamos agora a viver esse momento, em que de repente a televisão e os jornais pegam na arte como algo que pode ser consumido pelas pessoas. Portanto, há todo um projecto pedagógico a fazer para que as pessoas compreendam que a arte contemporânea, como a arquitectura, o cinema e outras áreas culturais, têm códigos. Nós temos de os saber descodificar ou ser ajudados para, depois, ter acesso às mensagens que aqueles objectos artísticos nos podem transmitir. Ultimamente, costumo pensar que ver uma obra de arte contemporânea sem o mínimo de explicação é como ver um filme finlandês sem legendas: até podemos perceber vagamente o enredo e que algumas personagens se relacionam, mas pode-nos passar completamente ao lado aquilo que realmente está a ser transmitido pelo filme. Portanto, nós temos esse cuidado, que certamente eu também trouxe da minha experiência do MoMa, que é uma preocupação em que as pessoas tenham acesso àquilo que é uma explicação mínima sobre a obra, para que depois possam construir a sua própria apreciação daquilo que estão a ver. Devo dizer que fizemos um inquérito que foi muito elucidativo a esse nível. Primeiro, perguntámos às pessoas se liam as legendas que acompanham as obras de arte e aquelas que liam disseram, depois, numa outra pergunta, que tinham 80% de satisfação na visita ao museu. As que não liam tinham 40% de satisfação . Acho que isso é bastante evidente sobre o que é necessário de pedagogia para as pessoas usufruírem melhor e de forma mais interessante para elas próprias do que a arte contemporânea lhes pode oferecer.

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