“Estamos, em muitos casos, apenas a construir de novo por trás de fachadas antigas”

Por a 27 de Abril de 2017

Em entrevista ao CONSTRUIR, José Manuel Pedreirinho não esconde a preocupação com o actual mercado da Reabilitação Urbana. O presidente da Ordem dos Arquitectos alerta para “serem tomadas as precauções necessárias para que o actual entusiasmo não se venha a transformar na inevitabilidade de correcção de erros num futuro mais ou menos próximo”

Disse em entrevista a um meio de comunicação que “o que se faz actualmente está quase tudo mal, estamos a fazer uma reabilitação de ‘faz de conta’ e se antes não havia empresas especialistas em reabilitação, hoje continua a não haver”. De que forma pretende abordar e fazer frente a este problema durante o seu mandato?
José Manuel Pedreirinho: É seguramente exagerado dizer que toda a reabilitação que está a ser feita é má. Parece-me, no entanto, que a urgência em aproveitar este momento nem sempre tem sido a melhor conselheira para algumas das decisões tomadas. Estamos a esquecer o enquadramento necessário à pequena reabilitação, particular; estamos, em muitos casos, apenas a construir de novo por trás de fachadas antigas, e se esta é uma solução possível, não deve ser o modelo único. Estamos a encarar a reabilitação urbana como uma actividade económica, que também o é, sem dúvida, mas estamos, parece-me, a esquecer ou a desvalorizar outros aspectos tão ou mais importantes que lhe estão directamente ligados. Aspectos técnicos e, talvez os mais esquecidos, aspectos sociais que lhe estão directamente associados. Muitos desses aspectos colocam-se desde logo na própria estrutura das empresas. Até há poucos anos vocacionadas quase exclusivamente para a construção nova são agora consideradas como “especializadas” em reabilitação, ainda que mantendo a mesma estrutura de pessoal, idênticos parques de máquinas…

Na sua opinião, o que deve ser e do que deve constar a tão esperada “Reabilitação Urbana”? E para quem se deve dirigir?
A reabilitação urbana é sobretudo uma prova de vida das nossas cidades e da nossa sociedade. Uma sociedade cuja evolução exige mudanças e constantes adaptações quer nas estruturas urbanas, quer nos espaços de vida. É por tudo isso que a reabilitação urbana se deve dirigir a todos, aos habitantes, seguramente, mas também aos visitantes; aos de mais baixos recursos e às recuperações mais luxuosas, numa saudável miscigenação do construído e das estruturas sociais e económicas que o suportam. Para ser verdadeiramente eficaz, a reabilitação urbana deve responder à necessidade que temos, de continuar a viver as nossas cidades como espaços de qualidade do edificado, mas também dos espaços públicos.

 Assistimos hoje a diversas obras de Reabilitação Urbana nas grandes cidades – Lisboa e Porto -, contudo, na sua maioria acabam por ser produtos imobiliários destinados a habitação para um segmento de luxo, que muitas vezes nem é português. Como vê esta questão?
Inevitavelmente com preocupação. Preocupação por aquilo que são, neste momento, excelentes notícias não se vir rapidamente a transformar num problema. Umas das grandes vantagens da reabilitação é seguramente o podermos usufruir de espaços onde o passado e o presente se complementam. Onde a tão necessária memória do que nos antecedeu possa ser uma referência qualificadora do presente. Uma referência que não pode passar pela proliferação mais ou menos descontrolada de operações imobiliárias de luxo, nem deverá limitar-se a programas fechados numa sucessão de condomínios que viram as costas à rua e se isolam da necessária e saudável vivência urbana.

Quais os principais alertas que a deixar ao Governo, às autarquias, sociedade e arquitectos?
Penso que o principal alerta que podemos e devemos fazer a todos tem a ver com a necessidade de serem tomadas precauções necessárias para que o actual entusiasmo não se venha a transformar na inevitabilidade de correcção de erros num futuro mais ou menos próximo.
Ao Governo, chamaria a atenção para a necessidade de ser revista muita da legislação onde proliferam as situações de excepção muitas delas mal adaptadas às especificidades da reabilitação.
Às autarquias a necessidade de encontrar equilíbrios que permitam um desenvolvimento onde as necessidades da reabilitação e da construção nova sejam o resultado da cuidada análise de cada caso;
À sociedade para que encarasse a reabilitação como um processo dinâmico cujo objectivo último não é a obtenção de mais-valias, mas sim a melhoria das condições de vida dos cidadãos.
Finalmente, aos colegas arquitectos não creio que seja necessário nenhum alerta. Eles saberão, seguramente, continuar a encontrar as melhores respostas para os múltiplos problemas que se colocam à reabilitação urbana.

 

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