Universidade de Coimbra cria algoritmo para mitigar inundações em zonas urbanas

Por a 31 de Agosto de 2017

Uma equipa de investigadores dos Departamentos de Engenharia Informática e Engenharia Civil da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) desenvolveu um algoritmo inteligente para gestão dos sistemas de drenagem de águas pluviais, por forma a evitar/mitigar inundações em zonas urbanas.
Na prática, a solução desenvolvida, recentemente distinguida com o “Best Paper Award” na 4th [email protected] Conference, destina-se ao controlo de caudais em condutas subterrâneas existentes para a drenagem das águas provenientes das chuvas.
A partir da recolha de dados fornecidos em tempo real por vários udómetros – sensores de precipitação – instalados em diferentes pontos geográficos da malha urbana, este algoritmo “avalia a situação e, de forma autónoma, activa barreiras que controlam o fluxo da água, evitando ou mitigando a ocorrência de inundações. Dependendo da intensidade de precipitação e do caudal gerado, e considerando a capacidade de retenção do sistema de tubagens existente, é tomada a decisão adequada, sem intervenção humana”, explica Alberto Cardoso, coordenador deste projecto.
Alberto Cardoso explica que “o objectivo deste trabalho foi contribuir para a capacidade de reter água nas condutas existentes de transporte de água pluvial para as zonas mais baixas de uma cidade, como Coimbra, usando barreiras e aproveitando a infra-estrutura já existente para fazer essa retenção”. Segundo aquele responsável, “dessa forma tentamos evitar a ocorrência de inundações nas zonas mais baixas, atrasando a propagação da água para essas mesmas zonas. O algoritmo foi desenvolvido para encontrar a melhor forma de controlar essas barreiras, garantindo que a própria infra-estrutura consegue reter a água de forma adequada tentando, em algumas circunstâncias, garantir que não ocorrem inundações nas zonas mais baixas”.
Além disso, esta ferramenta informática “considera também ambientes naturais envolventes para onde a água pode ser desviada temporariamente. Foi um grande desafio desenvolver este algoritmo porque a água tem um comportamento imprevisível” acentua o docente e investigador da FCTUC.
O controlo em tempo real (RTC) de redes de drenagem de águas pluviais é uma temática bastante actual, que tem sido objecto de diversos estudos, nomeadamente o projecto europeu CENTAUR (Cost Effective Neural Technique for Alleviation of Urban Flood Risk), que envolve equipas de investigadores do Departamento de Engenharia Civil da FCTUC e a empresa Águas de Coimbra (AC).

Cheias de 2016
Coimbra é um dos casos mais flagrantes de cidades afectadas por inundações frequentes. As cheias do rio Mondego que em Janeiro de 2016 inundaram Coimbra poderiam ter sido evitadas ou minimizadas caso a gestão da barragem da Aguieira, explorada pela EDP, tivesse sido cumprida de acordo com o plano.
A conclusão é do relatório encomendado à Ordem dos Engenheiros (OE) sobre a inundação, apresentado um ano depois das cheias. No documento pode ler-se que, “analisada a metodologia adoptada na operação do sistema Aguieira-Raiva, durante o período de evento de cheia, concluiu-se” que “as normas de exploração da albufeira da barragem da Aguieira não foram cumpridas”. O trabalho adianta que a cheia de 11 de Janeiro do ano passado “poderia ter sido evitada/minimizada, caso se tivesse adoptado outro esquema operativo do sistema”.
Várias entidades, como autarquias e Direcção Regional da Cultura do Centro (DRCC), tinham já referido este como um dos factores decisivos para a subida das águas, responsabilizando a gestão da EDP.
Os caudais provenientes do sistema Aguieira-Raiva “influenciaram directamente os caudais que chegaram à zona ribeirinha da cidade de Coimbra”, refere o documento, mas as inundações foram também “influenciadas pela acumulação de sedimentos no leito do rio”. Aqui, a instalação de pontes e pilares no rio tem também um papel, aumentando a “resistência ao escoamento”. O relatório realizado por académicos das universidades de Coimbra e do Minho considera necessária a elaboração de um documento onde “estejam sistematizados os procedimentos de exploração em situação de cheia” e que fiquem “inequivocamente estabelecidas as respectivas entidades responsáveis”. É ainda recomendada a actualização tecnológica do sistema de previsão de forma a permitir a “adopção de medidas operacionais mais adequadas ao sistema.”
As cheias causaram mais de 2 milhões de euros em prejuízos no património municipal e o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha precisa de um restauro no valor de meio milhão de euros. As águas do Mondego inundaram também casas e vários estabelecimentos comerciais.
Em relação ao mosteiro, o relatório indica que, caso a porta instalada nas passagens inferiores estivesse “devidamente fechada”, “não permitiria a circulação franca da água através dela e poderia ter tido um efeito de minimização da inundação” no monumento.

Desassoreamento avança
A iniciativa é conhecida numa altura em que o Governo assinou já o auto de consignação do desassoreamento da albufeira do Açude-Ponte, em Coimbra, entregue à Mota-Engil.
Os trabalhos de desassoreamento visam “repor o leito do rio Mondego em níveis próximos dos registados em 1985, ano da construção do Açude-Ponte de Coimbra”, refere a autarquia conimbricense, acrescentando que esta “era uma intervenção necessária há muitos anos e que se tornou ainda mais urgente desde as cheias e inundações registadas em Janeiro e Fevereiro de 2016, que levaram o actual executivo a diligenciar no sentido de acelerar ainda mais este processo”.
Com a obra prevê-se a retirada de um volume de 700 000 metros cúbicos de sedimentos, numa extensão de 3,5 quilómetros contados a partir do Açude-Ponte em direcção a montante, o que permitirá “o abaixamento dos níveis de cheia ao longo da albufeira, reduzindo os riscos de cheias e/ou inundações, ao mesmo tempo que cria condições adequadas de utilização do leito para navegação e desportos náuticos”.
Os inertes retirados do rio serão, depois, depositados a jusante da ponte de Açude, ao longo de uma área de 5,8 quilómetros, que “actualmente apresenta um défice sedimentar e/ou necessita de reconstrução das margens”, adianta o Município. Antes disso, os dragados serão conduzidos para o estaleiro e área de armazenamento temporário, que se situará na margem esquerda, junto aos pilares da ponte Rainha Santa Isabel.
Na cerimónia de consignação da obra, que contou com a presença de diversas entidades de Coimbra e concelhos vizinhos, bem como do primeiro-ministro, António Costa, e do ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, Manuel Machado, presidente da Câmara Municipal de Coimbra congratulou-se referindo que “este acto tem uma relevância simbólica muito forte, uma importante obra que serve directamente mais de 250 000 pessoas que vivem nas margens ribeirinhas do Mondego (Coimbra, Montemor-o-Velho, Soure e Figueira da Foz)”.

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