Opinião: “Um copo meio cheio …”

Por a 13 de Abril de 2018

©Telmo Miller

Pede-me a Revista Construir um depoimento a propósito do que mudou nestes últimos 15 anos na Arquitectura, contribuindo assim para o assinalar do seu 15o Aniversário.

Testemunho obrigatório e dificil de sintetizar num breve texto , tantas são as questões pelas quais este tema poderia ser abordado.

Para muitos como eu, que procuram desenvolver uma profissão/sacerdócio que é como vejo a actividade de um Arquitecto, sem horários , fins de semana ou pontes pré-marcadas no inicio de cada ano, só porque gosta e se empenha profundamente no que faz, conseguir explicar ao grande público o que fazemos e porque o fazemos dessa maneira, parece-me ser uma questão mais do que nunca absolutamente pertinente e necessária.

Pertinente pela acelerado desprestigio que parece estar a instalar-se na profissão, necessária porque estamos treinados a pensar no melhor modo de organizar espaços de vida ( na casa, no escritório, na cidade ), no conforto e qualidade dos ambientes pela escolha criteriosa de materiais , texturas e côres, na optimização dos custos de cada solução a propôr, na gestão dos recursos , na criação de mais valias pelos resultados conseguidos na descoberta de soluções estimulantes.

Quando se desenha uma casa , não se definem só dimensões para os diferentes espaços, nem se definem apenas formas mais ou menos sugestivas para os amantes da fotografia ; a multiplicidade de factores que vão definindo um projecto, exigem conhecimento , sensibilidade , experiência de vida , para em ultima análise quando chegar o acto de CONSTRUIR , o resultado seja singularmente estimulante.

Arquitectura que não se consiga CONSTRUIR, é como um copo meio cheio, que não permite saborear com plenitude aquilo a que se propõe.

Arquitectura que se vende como simples produto comercial, que muda de mão conforme o comprador ou as flutuações da moda, desprezando em absoluto a sua génese e os direitos de autor de quem lhe deu vida e mais valia determinante, banaliza e desprestigia toda uma prática.

Arquitectura que se aprova ou reprova por regulamentos apenas ou opiniões estilisticas , retira-lhe sentido e valor, e rápidamente se transforma numa questão de simples gestão de poder.

Este ciclo de 15 anos que o Jornal CONTRUIR quer assinalar , poderíamos dividi-lo em tês sub- ciclos de cinco : de 2003 a 2008 , em que muito se fazia ainda em Portugal com alguma expressão pública e privada; de 2008 a 2013 em que muito ainda se fez ao nível da iniciativa pública devido ao programa da renovação e ampliação de escolas ; de 2013 até agora , em que após algumas fugazes para alguns , explorações de outros mercados , se recentram numa actividade de recuperação urbana de novo em Portugal , que não me parece ser suficientemente sólida para permitir uma actividade profissional sustentável para muitos dos profissionais de Arquitectura instalados num mercado tão pequeno e frágil quanto o nosso.

A profissão de Arquitecto enquanto tal, vejo-a pois completamente desregulada, desprotegida de valores éticos, honorários selvagens , inexistência de direitos de autor, responsabilidades desajustadas das remunerações possiveis.

O copo meio cheio que sempre foi o de uma profissão que nem sempre consegue construir pelas razões inerentes à sua própria condição de prestadora de serviços para terceiros que , esses sim têm a verdadeira capacidade de decidir , parece perigosamente aproximar-se da situação de copo meio vazio.

JOÃO PACIÊNCIA
arquitecto

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