Opinião: “Reabilitação e agora? Quem reabilita com reforço sísmico?”

Por a 30 de Abril de 2018


José Manuel Mendes Delgado
Presidente da SRSUL da Ordem dos Engenheiros Técnicos
Engenheiro Técnico, Especialista

A reabilitação urbana é hoje uma realidade e alcança o seu espaço, transformando-se numa das alavancas da economia portuguesa, criando algumas condições para que alguns dos sectores da construção civil e da engenharia, voltem a crescer, criando mais riqueza e mais emprego, logo mais sustentabilidade, no entanto, nem tudo o que luz é ouro, o que nos leva à necessidade de repensar o sistema actual e a forma como algumas das áreas e temáticas estão a ser conduzidas.
O crescimento na área da reabilitação urbana, apesar das vantagens e de tudo o que tem de positivo, para as empresas e para a economia em geral, tem vários riscos associados, muitas vezes irreversíveis, que resultam das questões relacionadas com a falta de um programa eficaz e objectivo e de imensas debilidades na fase de concepção e execução, que poderão influenciar de forma negativa a questões relacionadas, com a qualidade, com os custos, com os prazos e em alguns casos, com a própria utilização.
Assiste-se hoje a uma intensa procura das empresas do sector da construção civil, de arquitectura e de engenharia, para fazer face ao crescimento na área da reabilitação, conservação e restauro, resultantes de candidaturas a fundos comunitários e ao disparo em termos de turismo, que atrai imensos promotores nacionais e internacionais. Desenha-se desta forma, um sector que face a estes dados e incentivos, parece estar cheio de saúde e com um futuro promissor, mas será que essa matriz de desenvolvimento, envolve todos os actores da mesma forma e com o mesmo potencial de crescimento e que esta alavanca, terá a força suficiente, para um sistema sustentado a médio e longo prazo.
A fragilidade ao nível de projectos e de lançamento de concursos, os prazos muito apertados, a falta de especialistas e de mão-de-obra especializada, a forte carga fiscal e os preços anormalmente baixos nos concursos públicos e privados, são uma ameaça para a sustentabilidade do sector da construção civil e em especial da reabilitação, onde o facto de possuírem boas carteiras de obra, não significa que o sector respire favoravelmente, como todos ambicionam.
É preciso definir e implantar uma matriz coerente, eficaz e exequível, que envolva todos os actores do sector, onde promotores, entidades públicas e privadas, projectistas, fiscalização e empresas do sector da construção, tenham o seu espaço e uma actuação de acordo com as suas funções e competências. É necessário que o dono de obra e o promotor saibam contratar, através da elaboração de um “Programa”, que indique quais os objectivos da acção a desenvolver, as características da intervenção, os parâmetros de qualidade, os prazos e a valores disponíveis para a empreitada a executar.
Após a definição de um programa eficaz e objectivo, deve-se garantir condições para que o projecto seja desenvolvido, em prazo coerente e realista, que seja o garante de um bom projecto de execução, com qualidade e que responda aos objectivos definidos pelo dono de obra, um projecto que em fase de concurso e em fase de obra, minimize os trabalhos a mais e garanta elevados parâmetros de qualidade, com enquadramento nos prazos e custos previamente definidos e em simultâneo, com valores de mercado, que respondam às ambições e à satisfação de todos os intervenientes envolvidos na acção.
O sector da reabilitação será forte e sustentado, se antes de qualquer operação ou acção, existir a disponibilidade para criar um sistema com base numa organização e planeamentos atempados, onde o investimento seja protegido e um sucesso, mas onde todos os intervenientes, desde o projectista ao empreiteiro, tenham a possibilidade de desenvolver os seus trabalhos, com competência, com qualidade e com prazos e custos adequados e justos, que permitam gerar um sistema equilibrado e coerente.
Uma intervenção em qualquer empreendimento terá sucesso se existir a disponibilidade para a criação de um sistema, que permita contratos justos e adequados aos trabalhos a desenvolver, projectos de qualidade, fiscalização com competência e um empreiteiro, que responda aos objectivos da empreitada, em termos de qualidade, de prazos, de custos, de segurança e ambiente.
Mas hoje, é necessário evidenciar, que não basta reabilitar, não basta criar boas condições de imagem, de conforto e de uso, tem de se ir mais longe e pensar na segurança de pessoas e bens. Quem intervêm tem de conhecer as características dos edifícios, a sua estrutura e em especial, ter o conhecimento da sua vulnerabilidade aos sismos e das metodologias e processos a utilizar para o reforço sísmico em edifícios.
Não é possível continuar a insistir apenas na cosmética dos edifícios, tem de se reabilitar e introduzir no processo, as técnicas e boas práticas, em termos de reforço sísmico e em simultâneo, ter a coragem, de evidenciar na fase de promoção, o potencial dos edifícios em termos de resistência aos sismos, através de um certificado ou uma marca “Edifício Reabilitado e com Reforço Sísmico”.

Compete ao estado, às autarquias, às ordens, às empresas e também aos técnicos, alterarem a situação actual e introduzirem nos processos de reabilitação, onde existe a probabilidade de ocorrer um sismo, as boas práticas em termos de reforço sísmico. Um sistema preventivo, que minimize os efeitos devastadores de um sismo, através da diminuição da vulnerabilidade dos edifícios e do aumento da consciência nacional em relação a esta temática.
Urge desenvolver a legislação e um guia de boas práticas, que respondam às necessidades de reforço sísmico, nas operações de reabilitação, cabendo às câmaras, a capacidade de rejeitar os projectos ou as operações, que não contemplem a segurança de pessoas e bens, face à probabilidade de ocorrência de um sismo.
Aos promotores e donos de obra, o desafio de aporem nos edifícios a marca “Edifício Reabilitado e com Reforço Sísmico”.

2 comentários

  1. João Miguel Abrantes Martins

    14 de Maio de 2018 at 14:22

    Boa tarde. Concordo com praticamente tudo o que disse mas é preciso uma mudança de mentalidades as quais perduram inclusive impingida nos mais jovens ligados á construção. É vergonhoso termos dos melhores climas da Europa e as casas mais frias de inverno e quentes de verão (experiência própria). Se nem com isso que tem consequências visíveis se preocupam, quanto mais com sismos.. E existe sempre o chico espertismo pagarem-se por trabalhos que não fazem ( ou se fazem é incompleto e a despachar) e a fiscalização não tem força, portanto mais legislação mais formas de as contornar… Aliado a isso os baixos ordenados e os próprios materiais muitos deles cada vez mais bonitos mas muito mais frágeis.. Fazer bem, com pés e cabeça é que ainda não vi nenhuma obra do inicio ao fim..

  2. Delmar Serrano

    25 de Maio de 2018 at 16:19

    Confesso que tenho andado bastante preocupado com aquilo a que vou assistindo nas obras de reabilitação: muita imagem, muita maquilhagem e… muita incúria no que respeita a questões de estabilidade, quando é aí que está a segurança da nossa vida futura. Faz-se uma guerra dos diabos ao tabaco porque faz mal á saúde – e muito bem. Mas então: e os edifícios mal estruturados? Não farão mal a saúde de centenas ou milhares de pessoas em caso de sismo?
    Está-se a voltar ao tempo dos patos bravos dos anos 80: gente que apenas procura o negócio, sem do assunto nada perceber nem querer perceber, e sem se preocupar com a qualidade – salvam-se as boas e honrosas exceções. Finalmente começo a ver alguns engenheiros preocupados com o assunto. Parabéns Eng.º Delgado, pelo seu artigo. Que não lhe doam as palavras. Só lamento que as Ordens de Engenheiros estejam a trabalhar tão pouco na matéria, junto da opinião pública.

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