Opinião: A CONSTRUÇÃO METÁLICA EM PORTUGAL Um sector resistente e resiliente, tal como o aço

Por a 16 de Maio de 2018

Tiago Abecasis
Conselho de Administração CMM Portugal Steel

O AÇO

O aço é um material estrutural cujas características mecânicas potenciam a sua aptidão para ser aplicado em construções produzidas longe do local onde serão definitivamente implantadas.
A elevada capacidade resistente aliada a um peso específico que, apesar de em valor absoluto não ser pequeno, quando dividido pela resistência do aço conduz a valores baixos de peso por unidade de resistência (especialmente se comparado com os dos outros materiais estruturais correntes), é um factor determinante pois permite que o transporte de peças de aço de grandes dimensões se faça em condições muito competitivas e que seja possível o manuseamento delas, quer em oficina, quer no seu destino final.As estruturas deste material podem, por isso, ser produzidas em instalações fabris, com condições ambientais controladas e especialmente preparadas e dotadas dos meios ideais, adequados à automatização e industrialização dos processos. É, assim, possível obter cadências de finalização das peças metálicas que minimizem os custos da produção. Requer-se, naturalmente, o estudo, planeamento e preparação da sequência óptima de operações a que cada peça será sujeita, desde que a matéria-prima (produto siderúrgico, habitualmente) entra na linha de produção. Desta preparação faz parte intrínseca a adequação da sucessão de intervenções aos equipamentos de que cada oficina específica dispõe. Em princípio, quanto melhor apetrechada estiver uma instalação, mais automatizada e competitiva poderá ser a produção que nela se realiza.

Sendo certo que os trabalhos executados em oficina têm custos menores do que aqueles que se realizam no local onde ficará a estrutura, então há que maximizar os primeiros em detrimento dos segundos. Este é um princípio universal.
De uma forma sintética pode afirmar-se que as intervenções em oficina consistem, em primeiro lugar, na configuração, por corte, dos produtos siderúrgicos (perfis, barras, chapas e outros), de modo a adequá-los á geometria que cada um deles terá na estrutura final. Depois procede-se à assemblagem de todas as unidades assim obtidas com o propósito de se obter o conjunto (habitualmente soldado) que será transportado para o local da construção e aí ligado com os restantes conjuntos resultantes da produção oficinal.

As assemblagens em oficina são, habitualmente, directas entre as diversas unidades e feitas com recurso à soldadura. A aptidão do aço para ser soldado é, portanto, uma sua característica essencial e a execução das soldaduras um dos trabalhos mais relevantes do processo de produção em oficina. Tal como sucede com todas as outras actividades desenvolvidas em oficina, a tendência actual é para progressivamente automatizar também as operações de soldadura.

Note-se que a segunda qualidade do aço enunciada no título, a elevada resiliência, é igualmente fundamental para assegurar a competitividade do aço. É ela que permite que o aço desenvolva e absorva as inevitáveis tensões residuais que resultam das soldaduras, sem que elas afectem as condições de segurança das estruturas.

A resistência e a resiliência são, portanto, propriedades mecânicas essenciais do aço que o tornam num material de excelência para a construção.


O SETOR PORTUGUÊS DA CONSTRUÇÃO METÁLICA

Já é muito antiga a presença relevante da construção metálica na indústria portuguesa. Importa notar, contudo, que as características das empresas que se dedicam a esta actividade se modificaram completamente após 1974. Nos anos subsequentes, em consequência da redução drástica que sofreu o investimento nacional, público e privado, em grandes infraestruturas de produção de energia e, também, como consequência da agitação social que invadiu os meios operários urbanos, foram desaparecendo as grandes unidades dedicadas à construção metálica pesada (Sorefame e Mague, são dois exemplos). Elas davam emprego a milhares de trabalhadores, essencialmente ocupados na produção de equipamentos destinados a centrais energéticas, mas também na de algumas infraestruturas de transporte e equipamentos de movimentação pesada (na Sorefame foram fabricados os milhares de toneladas do tabuleiro da ponte 25 de Abril e a Mague produziu os pórticos gigantes de diversos portos e estaleiros navais). Importa realçar que estas empresas possuíam um “know-how” reconhecido em todo o mundo e exportavam uma parte da sua produção.Sobreviveram e mantiveram-se operacionais as chamadas metalomecânicas ligeiras, com um número de trabalhadores muito inferior (na ordem das centenas). Produziam peças, equipamentos e estruturas de menor calibre.

Nos anos noventa do século passado e na primeira década deste ocorreram vários eventos que contribuíram para o incremento da capacidade produtiva destas empresas e para o aparecimento de novas unidades industriais no setor da construção metálica. Assistiu-se a um surto na construção rodoviária, à aceleração da reconstrução e reabilitação de pontes ferroviárias, ao alargamento do tabuleiro da ponte 25 de Abril e, com maior impacto no setor, à construção das Expo 98 e dos estádios para o Euro 2004.

As empresas metalomecânicas evoluíram em capacidade produtiva, modernizando os seus equipamentos e processos e investindo na formação dos quadros de modo a conseguir responder ao volume e ao grau de exigência da nova procura. Para a construção da Expo 98 ainda se recorreu a empresas estrangeiras de construção metálica mas as estruturas metálicas dos estádios foram quase exclusivamente produzidas em Portugal. Pode afirmar-se que
foram os anos de ouro do setor português da construção metálica.

A actividade de exportação era, contudo, bastante incipiente.

Terminados estes eventos, seguiu-se um período de progressivo declínio da procura interna de construção metálica, o qual se agravou a partir de 2008, quando surgiu a grande crise internacional e piorou ainda mais com o colapso financeiro do país, em 2011.

Foram, então, postas à prova, a capacidade resistente e a resiliência das empresas do setor.
Todos os indicadores comprovam hoje que as empresas portuguesas possuem, em doses adequadas, estas duas características.

Resistiram à crise da falta de trabalho, aproveitaram a sua natureza resiliente entrando numa fase de plastificação, emagreceram, reduzindo os seus custos e as próprias margens do negócio, atingiram o endurecimento, o que lhes proporcionou um incremento da capacidade resistente e da produtividade. Apetrecharam-se convenientemente para disputarem em mercados estrangeiros aquilo que deixou existir em Portugal: trabalho para alimentarem e manterem activas as suas unidades fabris.

E tiveram o sucesso que se pode medir pela percentagem da actividade das empresas de construção metálica que é dedicada à exportação. Hoje lideram a exportação industrial do país.

Tudo isto só foi possível porque estas empresas possuíam já uma capacidade técnica, organizativa e produtiva, ao nível da preparação, dos processos executivos e das garantias de qualidade dos produtos, que lhes permitiu, quando tal se revelou necessário, competir em pé de igualdade com as suas congéneres mundiais.

Resistência, resiliência e vontade não escasseiam na indústria portuguesa da construção metálica.

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