Cortiça: do isolamento à matéria-prima de excelência

Por a 3 de Junho de 2018

Projecto de Herzog & de Meuron para a Serpentine Gallery

É uma das bandeiras do nosso País, um exemplo de sustentabilidade em toda a sua linha e ciclo de vida, uma matéria que não é indiferente a quase todos os sentidos, um material que reúne consensos e que pese embora tenha começado no isolamento, hoje é matéria-prima de eleição para arquitectos, designers e criativos. Falamos da cortiça, um material próximo de todos os portugueses, acarinhado de uma forma internacional e com um potencial que continua a surpreender.

No sentido de comprovar a sua versatilidade, a Amorim tem vindo a associar-se a várias iniciativas, da arquitectura ao design, mostrando de uma forma prática que os limites da cortiça estão muito além do que alguma vez imaginámos.
Prova disso são os exemplos nacionais e internacionais – da Serpentine Gallery ao Pavilhão de Portugal -, em que o material tem sido utilizado na criação de espaços pelas mãos de nomes sonantes do panorama arquitectónico.
De Londres a Istambul
Corria o ano de 2012 quando a cortiça foi selecionada como “o elemento distintivo” do Pavilhão temporário da Serpentine Gallery, que na edição desse ano estava a cargo de
Herzog & de Meuron e do artista plástico Ai Weiwei. Na altura, a cortiça apareceu como “elemento estruturante da obra icónica”, cujo uso extensivo se justificou, segundo os arquitectos, “pelas suas características”.
Na altura, Herzog & de Meuron decreveram a cortiça como um “material natural, com fortes mais-valias aos níveis do tacto e do olfacto, de grande versatilidade, o que permite que seja facilmente esculpido, cortado, moldado e formado”.
Um ano depois, em 2013, a Corticeira Amorim e o estúdio de design e arquitectura FAT – Fashion Architecture Taste, juntaram-se, pela primeira vez, no London Design Festival e a cortiça portuguesa voltou a marcar presença num evento de referência internacional.
O projecto foi desenvolvido a partir de um piso de cortiça natural e convidava os visitantes a descobrir as propriedades visuais e tácteis da cortiça, desafiando, em simultâneo, a percepção existente do material.
Sean Griffiths, arquitecto principal do estúdio FAT comentou na altura: “Tem sido uma experiência fascinante entrar, pela mão da Corticeira Amorim, no universo da cortiça. A cortiça natural é um verdadeiro material do século XXI, altamente sustentável e que tive o privilégio de conhecer nas suas múltiplas aplicações. Simultaneamente, a cortiça possibilitou-nos uma nova abordagem no nosso método de trabalho. A cortiça é suportada por uma estrutura geométrica complexa e o principal objectivo do projecto foi captar a relação entre estes aspectos. O próprio design do projecto evidencia as fortes qualidades visuais, acústicas e tácteis do material.”
Em 2014, a Corticeira Amorim aliou-se ao estúdio de arquitectura internacional Superpool para uma vez mais, a cortiça ser o elemento central de um grande evento internacional – a Bienal de Design de Istambul. “The Future is not what it used to be” foi o mote da Bienal de Design que, sob a curadoria da britânica Zöe Ryan, tinha patentes no espaço principal do evento – a Greek Primary School – 53 trabalhos de criativos de mais de 20 países, de todos os continentes, dispostos nos cinco andares do edifício, uma área de aproximadamente 2.300 m2. A área de exposição era “amplamente dinamizada pela presença de cortiça, um material que se desdobrava nos diferentes espaços em inúmeros objectos, assumindo particular destaque nos candeeiros e no mobiliário da Bienal”, recorda a Amorim. Deniz Ova, Directora da Bienal, destacou na altura a relevância da selecção do material: “Esta é a primeira vez que a cortiça é apresentada na Turquia como material de design e estamos muito satisfeitos com os resultados. A parceria com a portuguesa Corticeira Amorim possibilitou a criação de uma exposição única em torno de uma inovadora solução de design. A atmosfera quente e acolhedora criada pela cortiça é vivenciada por todos os visitantes, transmitindo-lhes imediatamente uma sensação de conforto.”
Também o colectivo dinamarquês SUPLERFLEX acabou rendido ao efeito cortiça e seleccionou o material, em 2017, para revestir o pavimento, na Tate Modern, em Londres, da instalação “Hyundai Commission: SUPERFLEX: One, Two, Three Swing!”. A aplicação somou 5000m2 de um “inovador compósito de cortiça”, desenvolvido para “responder aos requisitos específicos e muito exigentes em termos de absorção de impactos de grande amplitude e de resistência ao desgaste”.
Portugal dá o exemplo
À semelhança dos inúmeros exemplos internacionais da utilização da cortiça na arquitectura e no design, também em Portugal os exemplos são diversos e felizes.
Quem não se lembra do cacilheiro Trafaria Praia, que a artista plástica Joana Vasconcelos levou à 55ª edição da Bienal de Veneza? No projecto, os produtos da Corticeira Amorim foram amplamente usados na transformação da embarcação, “evidenciando a componente decorativa e as inúmeras vantagens que oferece, em termos de performance técnica e de versatilidade estética”, lembra ao CONSTRUIR a Amorim.
A cortiça esteve também em destaque na edição de 2017 do Archi Summit, através daquela que foi a “maior instalação efémera de cortiça alguma vez feita no mundo”, um projecto que juntou Manuel Aires Mateus e o colectivo SAMI Arquitectos, debaixo da pala do Pavilhão de Portugal.
A instalação, recorde-se, envolveu cerca de 5 mil blocos de aglomerado de cortiça expandida disponibilizados pela Amorim Isolamentos que tinham o ambicioso objectivo de cobrir 2 mil metros quadrados, precisamente a totalidade da área exterior do Pavilhão de Portugal, com cortiça.
Manuel Aires Mateus destacou na altura que “a cortiça é um material que traz inúmeras vantagens, dado que permite responder a um conjunto de solicitações ao mesmo tempo. É facilmente montável, leve e cria total independência da estrutura que acolhe o projecto.” O arquitecto salientou ainda que “tendo em conta as especificidades do projecto, consideramos que tinha que ser implementada uma sugestão ligeira e efémera. O apoio da Amorim Isolamentos foi importante”.
Inês Vieira da Silva, arquitecta do estúdio SAMI e co-autora do projecto, afirmou: “É a primeira vez que trabalhamos com cortiça e foi uma surpresa, nomeadamente o método como o aglomerado de cortiça é produzido, porque é muito natural, não é agressivo para com o ambiente e a utilização dos blocos permitiu criar um espaço adequado ao programa. A aplicação de cortiça foi essencial no método construtivo, permitindo ganhar espessura e peso, sendo simultaneamente estrutura e acabamento, dando um carácter permanente a uma estrutura efémera“. No total, a intervenção ultrapassou os 760 metros cúbicos de cortiça.
No nosso País, o mais recente evento em que a cortiça marcou presença foi o Festival Eurovisão da Canção, no Eurovision Village, um espaço criado pelo estúdio Mood no Terreiro do Paço, em Lisboa, para acolher a programação paralela do evento e envolver a população e turistas no ambiente. Para o efeito, a Amorim Isolamentos forneceu 500 blocos de cortiça.
Sobre a selecção do material para o espaço lounge, Cristina Andrade, coordenadora da Eurovision Village, explica: “Seleccionámos a cortiça para este espaço por ser uma matéria-prima portuguesa. A esta questão, que num evento com estas características poderia por si só justificar a sua utilização, junta-se o facto de este ser um material 100% ecológico, confortável, multifunções, ou seja, versátil, e esteticamente muito bonito, que tem associado uma enorme riqueza.”
Sobre o projecto, Rita Muralha e Raul Santos, do estúdio Mood, comentam: “Para a elaboração do projecto da área lounge e esplanada do Eurovision Village, a colaboração com a Amorim foi decisiva. Utilizámos os blocos de cortiça prensada, normalmente destinados a isolamento, e criámos muretes e mobiliário. Estes blocos, maciços e autoportantes, são ideais para este tipo de projecto efémero dadas as suas características. Podem quase funcionar como um LEGO gigante, dando um aspecto final muito contemporâneo. Para além disto, é um material português de excelência, 100% natural. Também isto, dado que o projecto está integrado num evento de grande visibilidade internacional, faz todo o sentido para divulgarmos e promovermos o que se faz no nosso país.”
Benetton cria mobiliário sustentável
A cortiça foi também um dos materiais escolhidos pelo centro de investigação & comunicação Fabrica, do grupo Benetton, que concebeu uma colecção de mobiliário exterior para a Expo Milão, que tinha como principais materiais a cortiça, a terracota de Galestro e a madeira. A linha de mobiliário sustentável evocava o conceito “o que vem da terra, à terra retorna”, o que sustentava o recurso a materiais naturais e 100% recicláveis, de que é exemplo a cortiça.
“You make the Park” apresentou-se como uma gama de 60 peças de mobiliário – bancos, cadeiras, espreguiçadeiras e mesas, de “design simples, depurado e confortável”.

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