OH Lisboa 2018: “Introduzir uma dimensão urbana foi um dos nossos propósitos”

Por a 14 de Setembro de 2018

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São 9 zonas e 84 espaços (38 estreias), complementados por Percursos Urbanos a cargo de Especialistas. Luís Santiago Baptista e Maria Rita Pais asseguram que quem visitar o Open House não vai encontrar um evento diferente, mas sim uma ampliação das possibilidades de leitura da cidade. O CONSTRUIR foi entrevistar os comissários desta 7ª edição.

Como é que receberam o convite para ser comissários do Open House Lisboa 2018 e com que grandes desafios se depararam?
Luís Santiago Baptista: Ficámos muito surpreendidos com o convite. O que nos pareceu particularmente interessante no OH Lisboa tem que ver com a possibilidade praticamente única, a nível de eventos, de perceber e olhar a cidade como um todo. Há uma escala metropolitana que é possível de ser organizada a partir da estrutura do Open House, que é um programa com regras bastante definidas. Portanto, o nível de alteração, ou de proposta, está sempre naturalmente limitado pela estrutura do evento. Independentemente disso, existe um enorme potencial de produzir visões ou diferentes perspectivas sobre a cidade e por isso também esta questão de se assumir uma curadoria no âmbito do programa. Isso é muito interessante porque permite encontrar temas, questões particulares…

Maria Rita Pais: …temáticas e problemáticas específicas. O OH acaba por ser um conjunto de portas abertas e a possibilidade de escolher essas portas e de levar as pessoas a ter uma determinada leitura da cidade, é um momento de celebração.

LSB: Outro dos aspectos que nos parece muito importante no âmbito do OH tem que ver com essa abertura a um meio não exclusivamente de arquitectos. A maioria dos visitantes do OH não é da área da arquitectura, e isso é uma possibilidade. Esse, aliás, foi um dos lados que nos fascinou no evento, a par da possibilidade de ler a cidade a uma escala que poucos eventos permitem.

MRP: Um dos grandes aspectos do OH é permitir o contacto com a arquitectura directamente, sem ser através de representações. E isso é muito bonito.

O Luís referia as várias formas de ler a cidade e o facto de as várias curadorias produzirem diversas visões. O que podemos antecipar da maneira como este Open House vai olhar para Lisboa?

LSB: Eu diria que a questão fundamental tem que ver com o programa internacional do OH, que tem um determinado tipo de estrutura e que procura ampliar ou expandir a leitura dos diferentes edifícios que compõem o evento, dando ao mesmo tempo uma leitura urbana. Essa foi a principal questão com que nos deparámos.

MRP: Nós queremos mostrar que a cidade não é toda igual, que não é representada por um centro histórico ou um centro bussiness. A cidade não é homogénea. Tem vários zoneamentos e a possibilidade de ter essa leitura urbana e de se conseguir compreender a cidade, não só de um ponto de vista mais histórico, mais industrial ou mais comercial. Poder entender a cidade, nas suas várias perspectivas, e como é que estas várias zonas funcionam em si e no conjunto da estrutura da cidade, é muito interessante.

LSB: Diria que a questão da leitura urbana pressupunha a ideia de que a selecção dos diferentes edifícios que fazem parte do programa deste ano tivessem um determinado tipo de relação entre eles. Seleccionámos 9 áreas da cidade e com essas 9 áreas procurámos mostrar, através da selecção de edifícios, as várias formas de habitar – no sentido alargado e não somente a habitação. É muito diferente viver no Restelo, no Centro Histórico, nos Olivais ou em Chelas. Mas todas essas possibilidades de habitar têm características diferentes e há quem prefira umas a outras. Perceber essa diversidade nos modos de habitar era também uma questão que nos interessava particularmente. Perceber como se faz a vida do dia-a-dia em cada uma destas zonas. Por isso, de uma forma geral, em cada zona temos uma casa, uma escola…diria que dentro de cada área, se quisermos, podemos imaginar o percurso do que é a vida e como é que se organiza.

E perceber também os desafios de cada uma?

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LSB: É verdade que a cidade tem hoje questões e problemas, desafios e dilemas por resolver. Uma das questões que nos interessava era o facto de, independentemente desse fenómeno global que atravessa as cidades, tentar perceber que esses fenómenos actuam de maneira diferente em cada uma destas zonas. Os problemas que cada uma delas tem que enfrentar actualmente não são exactamente os mesmos. É diferente olharmos hoje para o Centro Histórico e olharmos para Chelas – que é um caso muito interessante pela qualificação que tem sido feita nos últimos anos, que eu creio que a maior parte das pessoas não tem esse conhecimento.
Ou seja, por um lado perceber a cidade como um todo mas, ao mesmo tempo, perceber que dentro desse todo, os fenómenos de transformação da cidade introduzem desafios diferentes em cada uma destas zonas. Diria mesmo que a nossa primeira grande preocupação foi como introduzir essa dimensão urbana num programa que é estruturado a partir de obras arquitectónicas individuais.

E como se configura uma zona?

MRP: Essa foi uma questão muito relevante para nós. Existem mecanismos a que nós, arquitectos, somos mais sensíveis para designar zonas, como espaços públicos, praças, eixos estruturantes…

LSB: A leitura tem que ver com a estrutura urbana, com a estrutura física. Nós estamos habituados, no OH, a ter um mapa com pontos e o que nós procurámos fazer foi termos na mesma esses pontos mas relacioná-los. Então começámos a marcar as linhas fundamentas, como a Almirante Reis ou a linha de costa, e através de elementos que são simples de ser assimilados perceber essas relações. Alguns desses pontos estão um pouco mais fora, mas há uma leitura em que se vai perceber, quase como uma leitura gráfica, como a cidade foi crescendo, a sua génese.

MRP: Acho que é muito importante também conseguirmos perceber na leitura que estamos a apresentar que a mesma é a do presente e isso é visível na nossa selecção de espaços, que optou por edifícios que estão a fazer a diferença no funcionamento da cidade hoje. Como se estivéssemos agora mesmo a fazer uma radiografia à cidade. E dessa forma as problemáticas vão sobressair.

Partindo do princípio que o evento terá uma grande afluência de pessoas que não estão nem dominam a área da arquitectura, o que lhes pode oferecer?

MRP: Embora todos os edifícios sejam qualificados, o interesse do edifício enquanto peça isolada não é o que tentamos fazer sobressair.

LSB: Quem visitar este OH não vai sentir uma grande diferença em relação aos anteriores. O que nós acrescentamos foram outras possibilidades de entrar no programa. Isto é, ao definirmos as diferentes zonas, o público poderá estar interessado em concentrar-se mais numa zona ao invés de diferentes pontos num mapa. Mais do que uma alteração estrutural do programa é uma abertura de outras possibilidades de leitura. A escolha dos edifícios em cada zona procurou ter uma certa diversidade: de tipologia, de tempo, tendo em conta que procurámos sempre partir do habitar para perceber outras relações, como por exemplo como é que se vai à escola ou a um determinado edifício de escritórios.

Mais do que uma alteração do programa estamos a falar de uma ampliação de uma expansão das possibilidades de leitura?

LSB: Sim, partindo do princípio que aquilo que nos interessa é perceber a cidade. Obviamente os espaços e os edifícios são todos muito importantes, mas acreditamos que são importantes se integrados numa leitura.
No âmbito do que nos propusemos fazer no OH, vamos apresentar casos qualificados. Todavia, o programa também retrata uma série de situações onde os arquitectos não estão eventualmente a entrar também. Por exemplo, temos um conjunto muito significativo de obras de habitação social em zonas que normalmente são estigmatizadas como Chelas, onde o trabalho que tem sido feito de requalificação e junto com as associações é fantástico. Temos a requalificação do Bairro PRODAC, que também nos parece muito importante, que é outro dos casos em que os arquitectos estão a contribuir.
Há uma preocupação de mostrar que o trabalho dos arquitectos não é exclusivamente focado em quem pode encomendar uma obra ou para o turismo de luxo, embora ele esteja presente porque faz parte. A nossa preocupação foi sempre a de trazer diversidade. Um projecto como o do Cinema Ideal, no Bairro Alto, é muito significativo. É através destas múltiplas forças que se geram dentro da cidade, dessas energias e movimentos que são muito violentos e cada vez mais rápidos, que este conjunto de obras seleccionadas vai procurar dar uma leitura.
No OH não procuramos dar uma resposta, procuramos fazer um raio-x, uma chamada de atenção e uma possibilidade de reflexão que vai além de um olhar contemplativo a um determinado espaço. Queremos através do OH lançar questões e reflectir sobre a cidade que temos hoje e a cidade que queremos no futuro.
E há uma outra coisa que nos parece muito interessante na questão das zonas que são os Especialistas.

O que vão incrementar?
LSB: Eles não fazem normalmente parte do programa. Já existiram visitas guiadas noutras edições, mas neste caso temos um Especialista por zona.
Nós escolhemos os Especialistas e as nossas escolhas foram para introduzir uma leitura urbana pessoal. Dentro das opções que temos de base, cada um dos Especialistas vai construir a sua narrativa, vai acrescentar um outro ponto de vista sobre o espaço público, fazendo uma leitura que através dos edifícios individuais não conseguimos ter.
A ideia é começar sempre por a Dimensão Urbana, referir onde determinado edifício está inserido e integrado. Enquadrar de uma forma histórica e urbana.

Se alguém precisasse de ajuda na escolha dos edifícios a visitar, o que aconselhavam?

LSB: Há edifícios novos na selecção e procurámos descentralizar, ainda que estejamos dentro da 2ª Circular. Temos uma concentração muito grande de diferentes experiências de urbanismo moderno na cidade de Lisboa. Temos o Restelo e a Ajuda, que também tem um conjunto de obras significativas. Marvila e Beato, cuma zona que está a entrar em grande pressão mas que tem um conjunto alargado de habitação social, problemas diferentes daqueles que o Centro Histórico está a sofrer. Direi que temos um conjunto muito interessante.

MRP: O que estamos a tentar expressar é que aconselhamos provavelmente não duas ou três obras singulares, mas zonas que não têm tido tanta atenção e tão explicita. Por exemplo, visitar a “Pantera Cor-de-Rosa”, com o arquitecto Gonçalo Byrne é uma oportunidade única, para além de que existe um estigma em relação aquele bairro.

LSB: Ou os “Cinco Dedos” do Victor Figueiredo, também em Chelas. É muito interessante perceber a comunidade que está ali criada e como as pessoas se dispõem a mostrar como é que o bairro tem sido transformado. Chelas hoje não é Chelas de antigamente e isso também é uma coisa que o OH pode trazer: mostrar essas zonas da cidade ou a possibilidade de as mostrar. Creio que haverá muitos públicos diferentes no OH e haverá interesse por parte de algum público nestas dimensões sociais. A cidade é uma cidade para todos e dentro das diferentes perspectivas e forças vamos ter de encontrar um equilíbrio que nos permita ter a cidade que queremos. Nós não dizemos qual é, mas pretendemos fomentar essa reflexão.

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