Com cinco linhas se desenha uma casa

Por a 10 de Outubro de 2018

© João Morgado

Filipe Saraiva desenhou a “Casa de Ourém” em 2015 para si e para a sua família, tendo sido construída um ano depois. Inserida num contexto rural, a representação formal simplista, composta por cinco linhas, não passou despercebida a muita gente e, dois anos depois, acabou por conquistar o International Architecture Awards 2018, atribuído pelo Centro Europeu de Arquitectura, Arte e Estudos Urbanos pelo Chicago Athenaeum – Museu de Arquitectura e Design dos Estados Unidos, a par de outro projecto português, a Casa Touguinhó III, em Vila do Conde, da autoria do arquitecto Raulino Silva. Em entrevista ao CONSTRUIR, Filipe Saraiva explicou o projecto, os desafios e as particularidades de ter sido o seu próprio cliente.

Que importância teve ser distinguido com um galardão internacional e que repercussões poderá ter na encomenda do gabinete?
Filipe Saraiva: Receber um prémio desta natureza é sempre algo importante e que nos deixa orgulhosos. Trata-se, no fundo, do reconhecimento pelo nosso trabalho. Quanto às repercussões ao nível das encomendas, por enquanto apenas tem resultado em consultas e tem despoletado muito interesse e curiosidade por vários clientes estrangeiros.

O que destacou o júri do Prémio no seu projecto?
Desconheço os critérios de avaliação adoptados pelo júri, quer na selecção do trabalho, quer na atribuição do prémio, pois os mesmos não nos foram transmitidos. No entanto, o prémio refere-se à categoria “Private Homes” pelo que imagino que terá a ver com alguns aspectos inovadores na abordagem ao tema habitação unifamiliar.

A “Casa de Ourém” foi desenhada para si. Foi o seu cliente mais difícil?
Essa pergunta é de facto pertinente, pois quando pensamos em desenhar uma casa para nós, é um desafio quase sem limites. Apenas temos os limites orçamentais e os condicionamentos legais ou normativos. No entanto, considero que fui um cliente fácil, pois a minha família concordou com o conceito desde o primeiro momento. Aliás, o projecto contou com a colaboração de todos os membros da família e foi desenvolvido num curto espaço de tempo.

O tema da Casa é muitas vezes referido pelos arquitectos como um dos programas mais apreciados e desafiadores. Que grande desafio encerrou esta casa?
O tema da Casa é um dos meus temas preferidos e sobre o qual sinto um maior conforto em trabalhar. É, de facto, um tema desafiador pois cada caso é um caso, e a vivência, os hábitos e os gostos dos clientes são totalmente diferentes entre si. Para além disso, os diferentes territórios para onde projectamos implicam abordagens completamente distintas. Mas é precisamente esse desafio que torna este tema mais apreciado por mim.

© João Morgado

Formalmente, a “Casa de Ourém” é um volume simples e regular. Há algo de vernacular no conceito e no princípio de onde partiu?
Sim. Em termos volumétricos, a casa é de facto um volume simples, inspirado nas construções vernáculas da região onde se insere, designadamente as casas de habitação popular, os palheiros e as construções de apoio à actividade agrícola. Por outro lado, como já foi referido por diversas vezes, o desenho remete de alguma forma para as nossas memórias de infância quanto à representação gráfica da casa através de 5 linhas.

Quem olha a Casa, repara no contraste da madeira com o betão preto, inevitavelmente nas linhas minimalistas, no desenho da Casa como todos identificamos, mas também na sofisticação e na contemporaneidade. Qual é a narrativa por detrás deste desenho?
O objectivo do projecto era desenhar uma casa para mim, e para a minha família. Naturalmente que todo o conceito foi ajustado às nossas necessidades, mas também aos nossos gostos. Se por um lado se trata de uma casa construída num meio rural, onde os valores locais e o contexto foram respeitados, através da estilização do desenho minimalista de uma construção de 2 águas, por outro lado, o interior da casa pretende ir ao encontro dos nossos gostos pessoais e ajustar-se mais à nossa vivência do quotidiano. De referir que a maioria das peças de mobiliário, iluminação e decoração, nos acompanham há cerca de 20 anos, e fazem parte da nossa vivência diária.
Relativamente à materialidade adoptada no exterior, o betão, o aço e a madeira, resulta de opções construtivas que procuram por um lado, minimizar os custos de manutenção e por outro envelhecer naturalmente bem. É o caso da madeira, que na face exterior mais exposta, começa a adoptar uma cor escura semelhante ao betão. A utilização da madeira foi por outro lado a opção encontrada para humanizar um pouco o espaço exterior e conferir um conforto através da utilização de um material natural, em contraponto com a frieza do aço e do vidro.
Toda a casa foi pensada de forma a estimular os vários sentidos, não só através da escala e da espacialidade, como também através das cores e da materialidade. A verdade dos materiais está patente na relação com os mesmos, quer seja pelo toque, quer seja pelo cheiro ou até pelo som transmitido na utilização.

Ao nível do contexto em que se insere, como se relacionou com a envolvente?
Como referi anteriormente, trata-se de uma casa implantada num meio rural, num terreno agrícola, onde o contexto urbano envolvente, não tendo uma traça arquitectónica característica, conserva algumas existências vernaculares. Neste sentido, o desenho da casa não pretende cair em mimetismos das casas populares nem nas restantes construções existentes nas proximidades. No entanto, de certa forma aproxima-se através da sua volumetria ao arquétipo de construção simples de base rectangular e duas águas.
O objectivo foi inserir a casa no terreno com o menor impacto possível no mesmo, respeitando a topografia e a vegetação existente. Todas as oliveiras existentes no terreno foram mantidas ou replantadas e a vegetação que cobre o solo envolvente à casa é o prado, dando continuidade aos terrenos adjacentes.
Trata-se de um terreno com muita água, pelo que todas as águas foram canalizadas para um pequeno lago permitindo criar um momento de contemplação na frente da casa, tirando partido do som relaxante da água em contraste com o fogo simbolizado ali ao lado pela lareira de chão exterior.
Tendo o Castelo de Ourém e a Ribeira de Seiça nas proximidades a sul, a casa foi orientada neste quadrante de forma a tirar partido da vista sobre a paisagem natural da ribeira e do Castelo.
Do ponto de vista da cor, a utilização do preto minimiza o impacto da casa sobre a paisagem o que contribui para uma melhor integração da mesma.

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