Opinião: “Feira sem Artistas”

Por a 15 de Outubro de 2018


Decorreu na semana passada a 21ª edição do SIL – Salão Imobiliário de Portugal. Depois de alguns anos difíceis em que a feira ficou reduzida à expressão mínima, este ano cresceu, à semelhança do que acontece no sector.
No entanto o SIL está diferente. Enquanto que há uns anos a feira conseguia conjugar, de forma equilibrada, a sua estrutura de expositores entre os dias destinados a profissionais do sector e os dias destinados ao público em geral, nos últimos anos o SIL tem vindo a evoluir para uma feira destinada principalmente ao público em geral. Sem dúvida que é um reflexo de como o mercado também mudou. Mudou, desde logo, a estratégia dos promotores imobiliários que agora recorrem, na sua quase totalidade, às agências de mediação imobiliária para vender os seus produtos, de modo a não incorrerem em custos fixos de promoção, marketing e vendas e que encontram no SIL um momento para estabelecerem novos contactos com potenciais compradores. Sinceramente não me parece que a estratégia seja a melhor, visto que não se distinguem uns dos outros, mas o próprio mercado tratará de gerir esse assunto.
O que é uma realidade é que ao visitar o SIL temos a sensação de estar numa feira sem artistas, perante a ausência dos verdadeiros protagonistas do setor, sem os quais é impossível reconhecer um mercado imobiliário altamente qualificado e pujante como (já foi) e pretende ser o mercado português. Ao invés, o SIL transformou-se numa espécie de “feira motivacional” de centenas de mediadores imobiliários, que apenas se distinguem pela indumentária, e que se apresentam como “consultores” e “especialistas” no sector, mas que na sua maioria aparentam estar convencidos de que atuar no mercado imobiliário se resume a colocar fotos e descrições numa página de internet, agendar visitas, repetir umas frases preparadas (sem, contudo, possuírem qualquer preparação técnica para o setor que pretendem representar) e receber a comissão.
A realização de uma feira como a que encontrei no SIL este ano, por si só, não é impossível de conceber. Contudo, o formato que o SIL tem vindo gradualmente a assumir é dissuasor da participação dos verdadeiros profissionais do sector. Seguramente por isso, na minha visita ao SIL, encontrei poucos promotores imobiliários e investidores, poucos arquitectos e engenheiros, e poucos construtores. A presença destes verdadeiros protagonistas de um sector que se pretende que seja dinamizado na feira destinada ao imobiliário é imprescindível. De resto, o SIL organizou um evento apenas destinado a profissionais do sector – SIL Investment Pro – com o intuito de promover a discussão de diversos temas entre profissionais e algum networking. Participei ainda, enquanto orador, num painel de debate dedicado ao tema A Nova Geração do Imobiliário. Mas tirando estes e (muito poucos) outros eventos específicos como o cocktail organizado pela APPII, a feira não foi este ano um local de encontro da generalidade dos profissionais ligados ao sector. Nem as construtoras, nem os projectistas se fizeram representar com espaços próprios, para atrair clientes e negócios. Acredito que não o fizeram pelo facto de não se reconhecerem no modelo actual do SIL e porque não acreditam que os visitantes possam vir a ser potenciais clientes.
Acredito que a missão dos mediadores imobiliários tenha tido bastante sucesso e que, principalmente nos dias destinados ao público em geral, tenham conseguido estabelecer inúmeros contactos que, oxalá, resultem em vendas e em comissões. É o mercado que temos neste momento e o SIL é apenas o reflexo do estado do sector.

Nuno Malheiro da Silva, Arquitecto
Presidente do FOCUS GROUP
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