Opinião: 15.º Congresso dos Arquitectos – “O Património Arquitectónico e Paisagístico”

Por a 7 de Novembro de 2018

O congresso da Ordem dos Arquitectos reveste-se de um caracter muito peculiar uma vez que, sendo um órgão estatutário, a sua realização não se esgota na discussão em torno do funcionamento da Ordem Profissional, da relação entre os seus membros, nem, tão pouco, da relação destes com a sociedade.
Embora estes temas sejam naturalmente abordados naquela que é a reunião magna dos arquitectos, ao Congresso cabe também uma componente científica importante, patente desde logo no tema geral escolhido, nas inúmeras comunicações apresentadas e nos debates realizados ao longo dos três dias do evento.
Neste 15.º Congresso, para lá do espaço distendido de encontro e sobretudo de reencontro entre muitos arquitectos, debateu-se, uma vez mais, “O Património Arquitectónico e Paisagístico”.
Se as questões do património sob o ponto de vista arquitectónico e paisagístico estão hoje, mais do que nunca, na ordem do dia, não é menos verdade que sobre esta matéria subsistam inúmeras e crescentes preocupações por parte dos arquitectos.
Depois de décadas em que o do quotidiano de muitos dos arquitectos passava pela elaboração de projectos de construção de raiz em espaços de expansão urbana, vivemos hoje uma realidade muito diversa. Longe vão também os tempos do quase colapso da actividade que obrigou tantos arquitectos a redimensionarem as suas estruturas, a internacionalizarem os seus serviços, ou mesmo a emigrarem por questões de sobrevivência. Esse período critico deixou, no entanto, marcas que são hoje fonte de uma enorme preocupação.
A degradação do valor dos honorários pagos pelos serviços de arquitectura, a desregulação de aspectos fundamentais da profissão, nomeadamente quanto à diminuição da exigência da sua intervenção e ao papel cada vez menor que desempenham num contexto a cada dia mais alargado de profissionais, são apenas alguns dos aspectos que preocupam os arquitectos.
Neste cenário pós crise, o paradigma do trabalho de arquitectura estabeleceu-se sobretudo na conservação e reabilitação do património construído, que queremos ajudar a preservar. A preocupação referida adquire assim novos contornos sociais e culturais que muito ultrapassam a mera questão de classe.
Não obstante o prestigio reconhecido da arquitectura e dos arquitectos portugueses, estamos hoje confrontados com visões cada vez redutoras, sobre a mais valia e o reconhecimento da importância do trabalho do arquitecto enquanto profissional qualificado com particular aptidão para a abrangência multidisciplinar necessária. Mais ainda quando se tratam de intervenções sobre o património histórico e a paisagem.
A par destas preocupações sobre o exercício da profissão, debatemo-nos hoje com a voracidade do processo de transformação urbana das nossas cidades. Se o património classificado está razoavelmente salvaguardado, não é claro que os conjuntos edificados que formam a paisagem urbana estejam a salvo de intervenções que, ao invés de os reabilitar e requalificar, os desqualificam, hipotecando esse património mais alargado que é a cidade.
Neste contexto, urge perceber que valores, para lá da fachada (quando não da “anedota” em que esta se transforma) deveremos preservar. Que escolhas fazer. Que programas deveremos adequar num processo de reabilitação de um imóvel que lhe permita uma “segunda vida”. Que papel arquitectónico e social desempenha determinado edifício no contexto urbano em que se insere, ou que contributo oferece na construção da ideia de território que queremos preservar.
Neste sentido, reconhecemos a necessidade de um maior esforço na divulgação e educação para a Arquitectura, para o Património e para os valores colectivos que representam. Simultaneamente, apostamos no aprofundamento dos aspectos particulares da conservação e valorização do património construído e da paisagem no contexto da formação inicial dos Arquitectos.
Neste papel de educação para os aspectos do território em que a Ordem dos Arquitectos está profundamente empenhada, cabe desconstruir a ideia generalizada e restritiva de um património arquitectónico focado apenas no monumento histórico. É necessário abordar os valores patrimoniais com uma visão mais ampla. Visão que valorize programas e edifícios mais prosaicos, com uma amplitude temporal mais distendida do que o termo histórico por vezes induz, ao mesmo tempo que potencie o contributo destes edifícios ou conjuntos no contexto social e cultural destes territórios.
É na aposta numa renovada valorização social do papel dos arquitectos enquanto agentes incontornáveis de transformação do território que poderemos encontrar o caminho de valorização da paisagem e do património cultural. Valorização essa que permita uma melhoria substancial da qualidade de vida dos cidadãos neste seu habitat que é a cidade.

Arq. Jorge Teixeira,
Vogal do Conselho Nacional de Disciplina da Ordem dos Arquitectos

Um comentário

  1. CARLOS MARCOS

    7 de Novembro de 2018 at 15:18

    Olá estimado colega Jorge!
    Não tenho o prazer de conhecer, mas felicito-o pela qualidade do seu texto.
    Foi um dos contestantes à actual direcção do nosso órgão representativo, pela sua inercia e pelo esquecimento de toda uma classe, que muito tem feito da nossa arquitectura em Portugal e Mundo.A inercia a irresponsabilidade tem, nos levado para um poço que não vamos ter retorno.Talvez pense que talvez seja da idade….mas como bom apreciador, leitor da nossa causa não vejo qualidades ao nosso leader. Já lhe escrevi. Não enviei recados. Senão somos nós os verdadeiros arquitectos do Mundo como podemos ter um leader tão fraco como dirigente. Nunca o coloquei em causa como profissional NUNCA! AGORA COMO LEADER….Fraco, muito fraco. Toda uma classe tem repensar o seu futuro….Falhei a este congresso, porque estou certo que ia “passar um mau bocado com o poder instalado” Como já me sinto cansado de tanto lutar contra o poder instituído por Lisboa…… foi bom ter ficado por casa. Um abração e bons projectos neste país de miséria para uns e um oásis para uma minoria. Aceite um abraço do colega que o respeita.

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