O hotel de 5 estrelas que Nuno Matos Duarte desenhou para o coração de Marvão

Por a 1 de Março de 2019

O arquitecto Nuno Matos Duarte é o autor do projecto da primeira unidade turística de 5 estrelas na emblemática vila de Marvão, distrito de Portalegre, um investimento de 2,2 milhões de euros que deverá estar operacional dentro de aproximadamente dois anos.

O novo hotel vai “nascer” na Casa da Janela Manuelina, situada na Rua do Castelo, que foi adquirida por um empresário espanhol e nasce de um programa com três funções distintas que pressupõem a reabilitação e ampliação de dois prédios. Ao CONSTRUIR, o arquitecto explica que o objectivo passou, desde logo, por encontrar um traço complementar que combinasse um alojamento com 9 quartos, Restaurante e Museu de armas de fogo históricas. “O alojamento (devidamente complementado pela taberna) ocupando os dois edifícios existentes (que efectivamente constituem um único volume); o museu ocupa o volume correspondente à ampliação; o Restaurante no logradouro contíguo à Travessa de Sta. Maria, contido “entre muros”.

Nuno Matos Duarte entende que “tornar estes espaços habitados e vividos para além do turismo é importante também para que o turismo sobreviva”. De acordo com o autor do projecto, “as intervenções neste tipo de edifícios deveriam partir do pressuposto de que respeitar o património é torná-lo habitável e, em certa medida, atractivo”. “Muitas vezes são as próprias instituições que zelam por este património tão singular, as que o condenam à condição de ‘museu morto’”, acrescenta o arquitecto, sublinhando que “é difícil manter uma vila como Marvão habitada devido às características do edificado”.

Conjunto de desafios
Entre as prioridades do dono-de-obra estava, desde logo respeitar a história deste património e adaptá-lo, o mais possível, aos actuais padrões de conforto e habitabilidade. Nuno Matos Duarte explica que “considerando o avançado e irreversível estado de degradação das estruturas de madeira, de pavimentos, tectos, paredes divisórias não-estruturais, portas e janelas, bem como a incongruência manifestada nos acabamentos, sistemas construtivos,materiais e cores actualmente existentes em ambos os edifícios, resultando de diferentes intervenções espalhadas no tempo, não seria correcto, em nosso entender, optar por refazer (reproduzindo) tout court essa diversidade de elementos. Fazê-lo seria contribuir para tornar menos claros os valores de autenticidade de alguns destes edifícios, nomeadamente o da Rua do Castelo, considerado em ruína. “De ambos os edifícios, apenas as paredes resistentes, devidamente recuperadas e reforçadas, parecem oferecer garantia de qualidade, robustez e durabilidade. Consideraríamos, sim, correcta a possibilidade de refazer alguns dos elementos arquitectónicos irrecuperáveis, se houvesse um número substancial de outros com condições mínimas de restauro, o que infelizmente não acontece”, lê-se na descrição desta intervenção.

Matos Duarte explica que “quase todas as construções existentes na Rua do Castelo, bem como em toda a Vila de Marvão, são anteriores ao advento e à generalização do betão armado na construção civil”. Segundo o arquitecto, “a unidade estilística encantadora desta vila tem um grave revés: as tecnologias tradicionais das estruturas dos edifícios características da arquitectura vernacular do Alto Alentejo não permitem uma grande variedade de tipologias construtivas e a dimensão dos edifícios e da sua compartimentação resultam em espaços que não correspondem minimamente aos actuais padrões de conforto e habitabilidade”. Para o autor do projecto, “o grande desafio deste projecto e de qualquer outro projecto em conjuntos históricos com estas características é, assim, precisamente o de dotar os edifícios do conforto aos padrões actuais, sem que se perca a leitura da pequena escala doméstica das preexistências, sem perder a memória da singularidade das vivências que as originaram.”

Programa complexo
O arquitecto considera que “não sendo muito extenso, o programa proposto é de elevada complexidade”. Tal deve-se, diz, “à natureza irregular das geometrias presentes nos dois edifícios a reabilitar, bem como ao facto de os seus pavimentos apresentarem diferentes cotas e pés-direitos muito baixos, o que dificultou imenso o estabelecer de atravessamentos e ligações horizontais”. Segundo Nuno Matos Duarte, “a grande virtude desta intervenção foi ter conseguido que a distribuição e organização funcional dos espaços sublinhasse a diversidade espacial dos edifícios e logradouros existentes, proporcionando uma vivência rica, onde o factor surpresa convida a percorrê-los e a tirar partido das relações visuais com a paisagem urbana e natural”.

O Museu albergará peças da colecção José Rivero, de que se destaca um conjunto notável e vasto de armas de fogo de elevado interesse histórico. Sendo o alojamento de pequena dimensão, a opção por distribui-lo pelos espaços dos dois edifícios habitacionais existentes pareceu aquela que proporcionaria a experiência de estadia mais rica aos futuros hóspedes e a que estaria mais próxima também das definições de empreendimento turístico em espaço rural.Procurou-se sobretudo que a distribuição e organização funcional dos espaços sublinhasse a diversidade espacial dos edifícios e logradouros existentes, proporcionando uma vivência rica, onde o factor surpresa convida a percorrê-los e a tirar partido das relações visuais com a paisagem urbana e natural. De destacar, neste aspecto, a manutenção de uma arcada que sustém um passadiço superior para espaço de logradouro contíguo à Travessa de Sta. Maria (que passará a ser local de esplanada na cobertura do Restaurante), ou a criação de uma varanda de canto a que se acede pela Sala de Exposição 6, no Piso 3 do Museu, da qual se obterá uma vista privilegiada para o torreão da Igreja do Espírito Santo e sobre a paisagem que se estende a perder de vista.

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