Opinião: Algumas ideias para o futuro da construção em Portugal

Por a 13 de Maio de 2019

O sector da construção em Portugal atravessa actualmente um bom momento. Depois dos anos de chumbo da grave crise económica e financeira do início da década, a fileira da construção recuperou uma parte significativa da sua actividade. Apesar de representar uma percentagem do Produto Interno Bruto inferior ao que acontecia no início do século, a verdade é que o sector saiu do olho do furacão financeiro com uma renovada vitalidade e com uma encomenda crescente, fruto em grande medida da retoma da actividade privada. Hoje é difícil encontrar disponibilidades de mão-de-obra na construção civil, as empresas têm a sua carteira de encomendas ocupada por muitos meses e o custo por metro quadrado de referência não pára de aumentar.

Este momento auspicioso deve ser aproveitado pelo sector para identificar os desafios e os choques expectáveis a médio e longo prazo, antecipando tendências, problemas e soluções. Efectivamente, se há lição que o sector deve tirar da crise, a maior será porventura a necessidade de uma maior planificação e diversificação nos tempos bons que permita mitigar os problemas que surgirão quando se alterarem as actuais tendências do mercado. Toda a economia é cíclica e naturalmente que esse facto é válido para toda a fileira da construção civil.

O esforço de planeamento que aqui se propõe deve ser transversal a toda a actividade, incluindo aquela que diz respeito à esfera pública. Observado a partir do ponto de vista de uma autarquia é possível uma análise específica do sector da construção, porventura distinta da efectuada por muitos dos agentes que nela operam. E é possível, desde já, antecipar como grande desafio a médio prazo para a construção a sua sustentabilidade.

São três as dimensões em que esse desafio se coloca que gostaria de abordar:
A primeira diz respeito à qualificação técnica dos agentes do sector. Infelizmente, uma parte significativa do know-how mais especializado e qualificado do mercado português sofreu uma enorme sangria nos anos da crise, deixando grande parte do tecido produtivo desfalcado na sua capacidade de resposta ao momento expansionista que se lhe seguiu. Esse défice de qualificação tem consequências ao nível da eficácia, da segurança e da qualidade do que vai sendo construído. Num mercado maduro como o Português, em que a reabilitação urbana assume naturalmente um papel central na actividade construtiva, e em que a qualidade das suas cidades é um dos principais activos de posicionamento internacional do país, é crítico que não se desvirtue o ambiente urbano e o parque construído com intervenções de qualidade inferior resultantes de uma desqualificação das empresas que nele operam.

A segunda matéria que nos merece alguma ponderação diz respeito aos preços da construção. É fácil, numa conjuntura como a actual, o sector ser arrastado por algum entusiasmo, resultante de uma carteira de encomendas que parece não parar de crescer. Mas é precisamente nestes momentos que devemos ter memória dos anos da crise que nos precederam e recordarmos a exiguidade do sector, que se seguiu aos exageros das décadas precedentes. É fundamental para a sustentabilidade a médio prazo do sector entender o mercado português, perceber que fenómenos relacionados com determinados tipos de investimento não duram para sempre, e tomar consciência que o que perdurará, sim, é um mercado nacional cuja curva de recuperação de capacidade de investimento não é tão exuberante quanto algum investimento estrangeiro actualmente no terreno possa fazer parecer. A médio e longo prazo, só sobreviverão aqueles que trabalharem tendo em conta as reais dinâmicas da economia nacional.
Finalmente, importa abordar a questão da regulação do sector. Em Portugal a construção é reconhecida como fundamental para a economia nacional, gozando a qualidade da construção portuguesa de algum prestígio por essa Europa fora. O desenvolvimento destas últimas quatro décadas de democracia portuguesa, relacionado em parte com a enorme modernização infra-estrutural que o país sofreu, é devedor em alguma medida do sector da construção.

Talvez por isso mesmo, regra geral, o país reconhece qualidade à sua fileira da construção civil. O pior que poderia acontecer na actual circunstância seria deitar por terra esse prestígio tão arduamente ganho, seja por desleixo, incúria, ganância ou irresponsabilidade. A regulação do sector depende naturalmente da intervenção do Estado, mas numa sociedade evoluída como a que queremos ser, essa regulação deve partir, em primeira instância, dos próprios agentes do mercado. A auto-regulação e a responsabilização dos intervenientes, tecnicamente qualificados e actualizados, associados em organizações técnicas, profissionais e sindicais, é assim o caminho mais seguro, que garante que não se mata a galinha dos ovos de ouro na actual conjuntura do mercado da construção em Portugal.

NOTA: O CONSTRUIR manteve a grafia original do artigo

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