Portugueses e britânicos discutem sustentabilidade

Por a 12 de Agosto de 2005

rancisco Ferreira Seminário Construção Sustentável

O tema da construção sustentável é cada vez mais debatido e pertinente, se se tiver em conta que a indústria da construção é a que mais contribui para o consumo de recursos energéticos

Decorreu no passado mês de Julho, na sede do British Council, em Lisboa, o Seminário sobre Construção Sustentável, que contou com a presença de vários especialistas portugueses, mas principalmente britânicos, que mostraram os projectos que estão a ser desenvolvidos no seu país.

No que respeita à construção e desenvolvimento sustentável os britânicos encontram-se na dianteira, principalmente desde que assumiram como objectivo nacional a redução de emissões de CO2 em 60 por cento, até ao ano de 2050, acreditando que a eficiência energética no sector doméstico é essencial para atingir este objectivo. Em Abril de 2004, o governo britânico lançou o programa “Energy Efficiency: The Government’s Plan for Action”, que estabelece uma série de políticas e medidas que visam a redução de emissões de carbono no sector doméstico, em mais de 12 milhões de toneladas por ano até 2010. Este documento estima que a introdução destas medidas irá reflectir uma poupança anual nas facturas energéticas dos sectores doméstico e de serviços, de mais de 3 mil milhões de libras.

O melhor e mais mediático exemplo do trabalho realizado neste campo, no Reino Unido, é o complexo BedZED, da One Planet Living, localizado nos arredores de Londres. Este é um modelo de habitação que, de acordo com Eduardo Gonçalves, da One Planet Living, se fosse adoptado a uma maior escala, reduziria as necessidades energéticas em metade. Nesse empreendimento procede-se à reciclagem de papel e outros materiais, utilizam-se carros a electricidade com um carregador situado à porta de casa, as casas são alimentadas a energia solar, a água pluvial é aproveitada e tratada em pequenas estações de tratamento dentro do complexo.

«Actualmente, com o que consumimos em energia, precisaríamos dos recursos de três planetas Terra. Com a BedZED, essas necessidades passariam para apenas um planeta e meio. Ainda assim não chega», comentou Eduardo Gonçalves, acrescentando que, por exemplo, 70 por cento da madeira usada é aplicada na construção.

Entretanto, a One Planet Living está também envolvida num projecto de construção sustentável para os Jogos Olímpicos de 2012, que decorrerão em Londres. Ainda na capital britânica estão outros projectos em curso, como é o caso da Z-Squared, do arquitecto Norman Foster, que aposta na redução de energia em 15 por cento durante a construção. Habitação, hospitais, edifícios de escritórios, são algumas das obras em curso em que já se aplicam técnicas de construção sustentável no Reino Unido.

Por cá, a One Planet Living está a desenvolver o projecto do Sesimbra Village, com oito mil casas e cinco mil hectares de espaço verde. Este será um complexo onde se utilizará apenas energias renováveis, como a solar, e onde se aproveitará a grande área de espaço verde para potenciar o uso de climatização natural.

Também a Quercus está a realizar um projecto de design para a construção sustentável, chamado EcoCasa (Energy Virtual Home), e que está a ser desenvolvido em parceria com empresas nacionais como a EDP, Galp e Mota-Engil, e que se deverá associar a investidores e entidades britânicas.

No encontro foram ainda apresentadas novas tecnologias ao nível da microcogeração, incluindo a integração de fotovoltaicos, sistemas de digestão anaeróbia de pequena escala e sistemas de aquecimento geotérmico, assim como um software para a criação e avaliação do design de edifícios.

Apostar na formação

A questão da falta de métodos e técnicas de aplicação de uma construção sustentável é, muitas vezes, aplicada à falta de formação. Aos estudantes são ensinadas as formas tradicionais de construção e concepção, sem pensar nos recursos energéticos e no que se consome. Para Francisco Ferreira, da Quercus, existe pouca formação neste campo e, consequentemente, pouco conhecimento, o que leva a que se desenvolva pouco o método.

Contudo, para Júlio Leston Bandeira, da Dalkia, «o que temos é falta de investimento e não de conhecimento». «O melhor incentivo que temos é o lucro. Temos de fazer projectos destes mas que gerem rendimento. Talvez assim comece a existir mais interesse», refere ainda. «A partir do dia 2 de Janeiro de 2006, com a entrada em vigor da nova certificação energética, vamos mesmo ter de mudar a forma de construir e projectar edifícios. Fazer um edifício sem ar condicionado é perfeitamente edificável, mas o importante é saber como é que um promotor faz para vender um imóvel destes», repara ainda aquele responsável.

Na verdade, este tema ganha uma maior urgência e importância se se tiver em conta os desenvolvimentos realizados no que respeita ao novo pacote legislativo, relativo à eficiência energética e qualidade do ar nos edifícios. A partir da entrada em vigor deste novo regulamento, Portugal terá um compromisso ao nível da introdução de práticas de eficiência energética, tecnologias e técnicas de energias renováveis, e materiais sustentáveis em todos os edifícios já construídos, a construir e a reabilitar.