30 milhões para o Vale do Côa

Por a 7 de Abril de 2006

06 museu coa

Tiago Pimentel e Camilo Rebelo são os autores do Museu de Rate e Arqueologia do Vale do Côa, um espaço que servirá de apoio e de pólo de atracção às gravuras rupestres encontradas há alguns anos naquela zona. A obra já recebeu o aval do ministério da Cultura e está orçada em 30 milhões de euros. Prevê-se que os trabalhos arranquem no final do ano

Em 2004, a dupla de arquitectos Tiago Pimentel e Camilo Rebelo venceram o concurso para a concepção do projecto do Museu de Rate e Arqueologia do Vale do Côa, uma obra a implementar na zona onde há uns anos foram encontradas pinturas rupestres. Dois anos mais tarde, a actual ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, deu luz verde necessária para que o projecto avance já no final de 2006, tendo mesmo disponibilizado uma verba de cerca de 30 milhões de euros para o efeito. O valor apresentado tem em conta que este museu apresenta características muito especificas, não só por ser construído num terreno difícil, mas por apresentar uma estrutura diferente a nível do desenho arquitectónico. O edifício, que ficará situado na confluência dos rios Côa e Douro, vai servir como porta de entrada para a zona das pinturas rupestres, mas também para o próprio Vale do Côa e a sua paisagem natural. Situado numa área de difíceis acessos optou-se por disponibilizar a chegada ao museu não só pela via terrestre, mas também pela via aérea e fluvial. Para o efeito incluiu-se no projecto do museu o alargamento do caminho que liga o local à cidade de Vila Nova de Foz Côa, estando prevista ainda a construção de um heliporto e também de um cais no rio Douro.

A concepção e o desenho

Apesar de ainda estar sujeita a alterações, a base conceptual do museu já está definida, muito por causa da topografia do terreno, onde o ponto mais alto se situa entre dois vales e está situado frente aos rios Douro e Côa. Desta forma, Tiago Pimentel e Camilo Rebelo optaram por conceber um edifício cuja forma do corpo é triangular e atravessado por uma rampa que acompanha a inclinação do vale em descida. No entanto o museu não estará moldado ao terreno, apenas a rampa, proporcionando que existam dois edifícios encaixados um no outro. Um primeiro, mais pequeno, à frente do qual ficará o parque de estacionamento e a partir do qual se acede à referida rampa que desce da plataforma de chegada até às salas de exposição. O segundo edifício dispõe-se em torno do primeiro, também em forma de triângulo e serve de miradouro na sua cobertura e de ponto de ligação para a zona das pinturas na base.

De acordo com Tiago Pimentel, desenvolveu-se o edifício numa cota baixa, ainda que elevada em relação à topografia do terreno, de modo a não obstruir a vista do vale, e inseriram-se valências como um restaurante panorâmico, um auditório para 120 pessoas, a sede do parque arqueológico que vai nascer em Côa bem como os serviços de investigação arqueológica e ainda duas salas de exposição, sendo que uma com carácter permanente e outra temporária.

A escolha dos materiais

Numa zona com características tão específicas ao nível da paisagem natural, a equipa de arquitectos decidiu criar um espaço que, simultaneamente, representasse uma intervenção humana, mas dissimulada na paisagem nortenha. «Para a interacção pretendida interessa um corpo feito à medida do território, cujo volume e escala é concebido de fora para dentro e pela topografia.

A intervenção procura estabelecer um diálogo com a encosta onde se insere, conferindo-lhe uma nova e artificial silhueta que não a desvirtue mas antes complemente», pode ler-se na memória descritiva do projecto. Neste sentido, os arquitectos escolheram o xisto, «por ser um material local abundante e ainda o suporte escolhido no Paleolítico para o registo das gravuras», e o betão «pelas suas características plásticas e tectónicas, mas também por ser recorrente na paisagem do Douro em construções de médio e grande porte», explica-se naquele documento. Deste modo a proposta apresentada pelos arquitectos resultará «numa massa híbrida» composta por «betão com textura e pigmentos do xisto».

A sua percepção é, por isso, uma realidade mutável e a sua observação é possível de diferentes ângulos e de distâncias variáveis. À distância surge «como um monólito de xisto de diferentes expressões» ou como uma enorme pedra recortada na montanha, enquanto que na proximidade «ler-se-á um corpo complexo em betão texturado, cortado por frestas de diferentes calibres, que denunciam o carácter habitável do espaço e a sua composição».

As dificuldades

«A maior dificuldade foi a localização do edifício. O terreno é muito acidentado e de difícil acesso e o impacto tinha de ser cuidadoso e não podia ferir a paisagem. Pretendia-se dar a ideia de um edifício mais natural e não artificial, ainda que uma obra humana. Essa dificuldade foi ultrapassada através da geometria e do uso de materiais adequados para fazer a fusão com a paisagem», refere Tiago Pimentel.

Essa terá sido a razão pela qual o corpo museológico foi concebido enquanto instalação na paisagem, mas com evidente destaque para a parte construída. «A estratégia é a de trabalhar um corpo desenhado especificamente para um lugar, promovendo um diálogo íntimo entre artificial/natural, aumentando deste modo a complexidade temática da sua composição», pode ler-se também na descrição da obra apresentada ao Construir pelos seus autores.