Ateliê Aires Mateus converte farol em museu

Por a 2 de Junho de 2006

ateliê

O farol de Santa Marta, localizado na baía de Cascais, está a ser recuperado e transformado no primeiro farol-museu do país.

O projecto, que visa a reabilitação e requalificação das construções existentes e a introdução de novos volumes de forma a implementar um programa de museu, está orçado em cerca de 1,5 milhões de euros e está a cargo do ateliê Aires Mateus

O farol de Santa Marta, situado na baía de Cascais está a ser recuperado e transformado no primeiro farol-museu de Portugal. O projecto que prevê um investimento de cerca de 1,5 milhões de euros, e visa a requalificação das construções existentes bem como a introdução de novos volumes. O projecto, a cargo do ateliê Aires Mateus, partiu de um conjunto de valores que o arquitecto delineou, nomeadamente, o legado patrimonial existente, o processo histórico pelo qual o edifício passou e que é visível na sua morfologia e no seu estado actual e o programa do concurso que pretendia uma visão do futuro.


Intervir na História

Segundo a memória descritiva da intervenção, foi feita uma análise histórica do lugar que revelou que apesar de o conjunto ser constituído por diferentes volumes de diferentes configurações, à sua disposição presidiam princípios organizativos. Desta forma, a proposta visa as mínimas adaptações possíveis, que passam pela reparação e restauro de elementos a manter, a adaptação pontual de determinados espaços para satisfazer as exigências programáticas, e o «desmonte de elementos desqualificados, aleatórios ou de carácter falsamente histórico», refere a memória descritiva. De uma forma geral, esta intervenção caracteriza-se por uma apropriação de espaços de transição entre elementos construídos, voltando a introduzir um princípio organizador de espaço. Os volumes propostos «resultam da necessidade de implantação de áreas de apoio e serviços», e as volumetrias , procuram «recriar na sua condição de muro habitado, o limite Poente do conjunto, promovendo uma clara ruptura com a envolvente e reenquadrando a abertura de todo o conjunto ao Mar». Segundo a descrição da proposta, através da introdução do mínimo de alterações nas áreas consolidadas do edificado, esta pretende a recuperação e clarificação da estrutura original de muros, do qual «emergem cinco volumes correspondentes ao Farol e aos outros quatro edifícios», sendo as restantes áreas propostas «escavadas no novo muro habitado». Assim sendo, o volume correspondente ao farol manterá as suas funções, os corpos existentes contemplarão os espaços expositivos, e o «novo muro habitado» será ocupado por áreas de apoio, tais como espaços técnicos, casas de banho, cafetaria, escritórios e gabinete do segurança. Um dos volumes originais, corpo A, será objecto de uma intervenção caracterizada na memória descritiva como «profunda», uma vez que visa baixar a cota do seu piso de forma a possibilitar o acesso por pessoas com dificuldades motoras a toda a área expositiva, composta pelos volumes existentes. O espaço expositivo proposto para o corpo A, será iluminado por um sistema de micro lanternins de vidro, canalizando a luz para o interior do espaço através de uma malha de desenho. O corpo B, outro dos volumes existentes, diferencia-se dos restantes por ser o único com cobertura plana e caracteriza-se também pela forma como a luz entra no espaço, através de «uma sequência de rasgos longitudinais de secção trapezoidal». Nos outros dois volumes originais, corpo C e corpo D, a proposta centra-se na recuperação de elementos existentes, tais como, tectos, paredes e fenestrações originais, garantindo contudo um desenho de coberturas e revestimento de paredes de forma a promover a sua autonomia. Relativamente ao corpo do farol, a intervenção resume-se à sua recuperação e reabilitação. O «novo muro habitado» é o volume que responde às necessidades programáticas, estabelecendo uma «ancoragem no legado patrimonial das primeiras muralhas». O espaço exterior desenvolve-se em duas áreas distintas e a cotas diferentes, originando duas praças. Uma mais fechada, uma outra cota mais baixa, que poderá promover a expansão do espaço equacionado para a área de cafetaria, e outra numa cota superior de onde é possível ver o mar .

Materialidade tradicional

Nas áreas a recuperar os materiais e processos construtivos propostos baseiam-se nos sistemas tradicionais. Contudo, o betão armado também marca presença, nomeadamente nas novas paredes e no rebaixamento da cota do corpo A, que corresponde a um dos espaços expositivos, bem como outros elementos de construção correntes como coberturas planas acabadas a argamassa pintada. A utilização de materiais existentes nos revestimentos é outra das premissas desta intervenção que propõe argamassas brancas para o acabamento dos muros originais e propostos, a utilização do azulejo artesanal existente no farol para o revestimento de todas as paredes exteriores e coberturas dos outros quatro volumes existentes, empregando-se no entanto uma estereotomia variada através da utilização de diferentes métricas. A pedra de Lioz é outro dos materiais propostos para aplicar nos pavimentos, obedecendo contudo à mesma filosofia da utilização do azulejo no que respeita às estereotomias variadas.