Opinião: “As duas faces do mercado árabe”

Por a 13 de Setembro de 2016

mmp
Miguel Marques Pereira, Arquitecto
Administrador do FOCUS GROUP

Importa antes de mais enquadrar geograficamente o “mercado árabe”. Com efeito, e em rigor o mercado árabe não pode ser confundido com outros mercados onde se fala igualmente árabe, como no Magrebe e que têm características completamente diferentes.

O mercado da consultoria e projeto nos países árabes do Médio Oriente é um mercado maduro e consolidado, com uma forte influência anglo-saxónica decorrente da boa relação da Arabia Saudita e países da região com os Estados Unidos. É um mercado dominado pelas multinacionais norte-americanas e inglesas ao nível da engenharia e gestão de projeto, e pelos grandes gabinetes de arquitetura de renome mundial, com grandes projetos imobiliários e de infraestruturas que, apesar da crise, continuam a ser desenvolvidos, ainda que a um ritmo menos acelerado.

Com abordagens inovadoras do ponto de vista não apenas conceptual, como da própria sustentabilidade e eficiência energética, os projetos são aqui desenvolvidos em ambientes pluridisciplinares, com equipas de gestão de projetos experientes suportadas por poderosas ferramentas de gestão de projeto, em que o BIM passou a ser um requisito básico.

O “mercado árabe” do Médio Oriente é um mercado completamente aberto e competitivo, exigente não apenas do ponto de vista técnico, como também da capacidade financeira das empresas para operarem nestas geografias. A constituição de uma sociedade obriga a parcerias dispendiosas com um “sponsor” local, uma extensa equipa técnica contratada com custos de contexto elevados, pelo que apenas as empresas com grande resiliência financeira conseguem manter operações durante longos períodos de forma sustentada. O regime fiscal é nestes países bastante aberto e flexível facilitando as transferências em divisa e a expatriação de dividendos.

Já no outro extremo do “mercado árabe” podemos encontrar o Magrebe, com profundas diferenças entre os países que o compõem. Países como a Argélia têm um mercado muito fechado do ponto de vista fiscal, sendo crescentes as dificuldades de transferir divisa estrangeira, num sistema muito protecionista e controlado. De cultura francófona, este é um mercado menos maduro do ponto de vista técnico. Apesar de menos exigente, acaba por ser mais complexo do que o mercado do Médio Oriente, no sentido em que há muito menos planificação e cultura gestão de projeto, sendo difícil o dialogo com as entidades públicas e com os próprios clientes.

As equipas projetistas locais são aqui pouco experientes na maior parte dos casos, e ferramentas como BIM começam a dar os primeiros passos, sendo que conceitos como a eficiência energética ou a sustentabilidade ainda não fazem parte do léxico dos principais players públicos e privados do mercado.

Já outros países como Marrocos, apresentam características muitos mais abertas e competitivas, com poucas restrições ao nível da constituição de sociedades ou de transferências em divisa estrangeira. São mercados já muito consolidados com uma forte implantação de empresas de consultoria francófonas mas também do sul da europa. Dado o forte esforço de investimento marroquino, sobretudo a sul do país, são muitas as oportunidades que surgem neste mercado.

Em sentido inverso podemos encontrar a Líbia e Tunísia que por efeitos da instabilidade politica e da queda da receita do turismo enfrentam graves crises que condicionam a procura pública e privada na área da consultoria e projeto. Decorrente da queda do preço do petróleo, também países como a Argélia reduziram de forma dramática a encomenda pública em grandes infraestruturas sobretudo quando pagas em divisa estrangeira, procurando estimular agora o mercado turístico e agroindustrial numa clara aposta de diversificação das suas fontes de receita.

Em resumo dada a pluralidade de contextos e realidades, devemos referirmo-nos não a um, mas a vários “mercados árabes” em que na verdade, para além da língua, muito pouca coisa os une, e quase tudo os divide.

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