Opinião: “Vida para além da vida”

Por a 23 de Março de 2017

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Desde sempre que o ser humano procurou, de alguma forma, prolongar a sua existência para além do seu tempo de vida. Em todas as religiões encontramos a crença na “vida para além da vida”, seja através da passagem para o paraíso ou da reincarnação.

Uma outra forma de procurar a “eternidade” é a de deixar algo que recorde a pessoa após a sua morte. Sempre me disseram que um homem “vive” enquanto for recordado.

A arquitectura foi sempre usada para esse efeito. Túmulos, como as pirâmides do Egipto ou o Taj Mahal são um bom exemplo dessa tentativa, mas não são os únicos casos. Deixar “obra feita” recorrendo aos arquitectos mais conhecidos e mediáticos tem sido prática ao longo dos séculos, por parte de faraós, reis, presidentes, ministros, autarcas, papas, bispos, mas também por todos os que tenham a capacidade e a vontade de “deixar a sua marca”.

Essas construções, na sua maioria, tiveram objectivos concretos. Aquedutos, para transportar água, castelos para proteger populações, barragens para guardar água, pontes para atravessar rios ou vales, faróis para orientar os barcos, portos para proteger as embarcações, estradas para ligar cidades, igrejas, mesquitas, templos e sinagogas para promover a religião são alguns entre muitos outros exemplos que poderia referir.

Esses exemplos de arquitectura são hoje referências pelo mundo fora. São procuradas por turistas e tornaram-se fundamentais para a diferenciação no mercado altamente competitivo do turismo mundial.

Uma das cidades mais visitadas no mundo, Paris, tem a torre Eiffel como referência para quem a visita, mas a cidade é visitada não apenas pela torre, mas também pela arquitectura e o desenho urbano da cidade e pelo ambiente criado pelos seus habitantes. O museu do Louvre, instalado no antigo palácio real e conhecer a ampliação feita mais recentemente que incluiu a famosa pirâmide de vidro do arquitecto Pei atrai milhões de turistas anualmente.

Bilbao apostou na construção de um museu desenhado por Frank Gehry, que se tornou uma referência e que é facilmente associada à cidade, mas se perguntarmos a quem ainda não visitou o que está no museu, poucos saberão responder. Este é um caso evidente de que a arquitectura se sobrepôs à função para o qual foi criada e um exemplo de turismo de arquitectura.

Em Portugal temos vários exemplos do que já foi feito, mas também do muito que ainda poderá ser.

O Mosteiro dos Jerónimos é o monumento mais visitado por turistas que também visitam outros mosteiros e conventos, museus e palácios um pouco por todo o país.

Em Lisboa certamente que também visitarão o novo museu dos coches, o MAAT, o Castelo de São Jorge, mas também o renovado Terreiro do Paço e a frente ribeirinha até ao Cais do Sodré, sem esquecer, no entanto, o Parque das Nações onde poderão ver o Pavilhão de Portugal, o Pavilhão Atlântico (agora MEO arena) e o Oceanário.

A competição entre cidades para atrair turistas, mas também habitantes e empresas é grande e por isso o investimento em requalificar monumentos, igrejas e museus, mas também melhorar a qualidade de vida e a segurança através da melhoria do espaço urbano, a reabilitação dos edifícios antigos e a construção de novos edifícios públicos de qualidade tem sido fundamental, para o aumento que se tem verificado no turismo, nomeadamente em Lisboa.

No entanto a cidade não se pode esquecer de quem nela habita. Viver hoje no centro de Lisboa é um misto de prazer pela beleza da cidade dos monumentos e da fruição do renovado espaço público urbano, mas também de sofrimento pela dificuldade em estacionar, pelos já habituais cortes de transito para a realização de corridas, marchas, manifestações, feiras, piqueniques, etc.

O aumento dos valores das casas, seja para compra, seja para arrendamento, tem afastado os lisboetas do centro, e a reabilitação dos edifícios residenciais tem tido como objectivo a criação de apartamentos para arrendamento turístico, conjunturalmente mais rentáveis, ou a venda a estrangeiros que não habitam permanentemente em Lisboa. Parece que é para esses que a cidade está a ser melhorada. O problema é que sem vida a cidade deixará de ser tão interessante e do mesmo modo que os turistas hoje querem conhecer a cidade, poderá chegar em breve o dia em que deixem de vir.

Nuno Malheiro da Silva, Arquitecto
Presidente do FOCUS GROUP
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