Opinião: “Concentração”

Por a 2 de Maio de 2017

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Apesar de haver alguns sinais, embora ainda ténues, de que a crise no sector da construção já possa estar menos intensa, continuamos a ser confrontados com notícias sobre as dificuldades que ainda afectam algumas construtoras. Recentemente foi noticiada a apresentação de um PER por parte da MSF, a possível liquidação da construtora Irmãos Cavaco que, após ter falhado o primeiro plano de revitalização, viu agora adiada a decisão de alguns credores dos quais depende a viabilização da empresa e ainda a revelação de que a Martifer, uma empresa cotada em bolsa, na área das construções metálicas, entrou em falência técnica.

Se somarmos a estas notícias o que tem vindo a suceder a outras construtoras como a Soares da Costa que recentemente viu ser aprovado o PER que apresentou, a Somague e a Teixeira Duarte que têm vindo a anunciar despedimentos em grande número e ainda outras que foram forçadas a entrar em fundos de recuperação para evitar a falência, como a Edifer, Hagen, Monte-Adriano e Eusébios, podemos dizer que o mercado tem sofrido nos últimos anos uma mudança radical.

Fala-se mais destas empresas porque eram das mais relevantes no panorama nacional, mas muitas outras sofreram com a crise e um número muito significativo dessas acabou mesmo por desaparecer.

Naturalmente que continuam a existir empresas capazes e com situações financeiras estáveis, que foram capazes de resistir ao “furacão que varreu” o sector, mas o mercado mudou, e muito.

Naturalmente que, tal como já referi recentemente, que esta crise provocou uma mudança também no panorama das empresas de serviços associados à construção, como as de projecto e de fiscalização de obras, no entanto, com volumes de negócios menos significativos, não chegam às páginas dos jornais.

Antes da crise ter surgido e também durante a crise, foram várias as vezes em que me referi à necessidade de concentração das empresas deste sector, pelas mais variadas razões e com múltiplos objectivos. O que acabou por acontecer nos últimos anos foi ou o desaparecimento de empresas de projecto de maior dimensão, (apesar da escala em Portugal ser sempre reduzida face ao panorama internacional) ou a redução de efectivos na grande maioria das empresas. Os arquitectos e engenheiros que se viram confrontados com o desemprego, optaram maioritariamente por um de dois caminhos: emigraram ou criaram pequenas empresas de consultoria e projecto. Ou seja, em vez de se ter verificado a concentração que me parece ser a solução, assistimos a uma pulverização do mercado, o que só causou uma redução generalizada do valor dos honorários e inviabilizou a concretização sustentada da internacionalização de mais empresas deste sector.

Para quem não esteja tão atento aos mercados internacionais, importa referir que, por exemplo, a VINCI que é a maior construtora mundial, resultou de uma fusão em 2000. A Mota-Engil, a maior construtora portuguesa, resultou de uma fusão, por coincidência no mesmo ano, entre a Mota e Companhia e a Engil.

Também a AECOM a maior empresa mundial de projecto resultou de uma fusão em 1990 de cinco empresas e deste então já incorporaram mais de 50 empresas.

Não sei se é um problema cultural dos arquitectos e engenheiros portugueses, mas é um facto que ao contrário do que, na minha opinião, seria desejável, continua sem se assistir à concentração de empresas de consultoria e projecto o que não promove sinergias, nem permite a junção de esforços.

Esperamos todos que a actividade em Portugal possa melhorar e sem dúvida que terá de tender a estabilizar depois de tantos ajustes e adaptações que as empresas tiveram de fazer para acompanhar a evolução do mercado. Mas quem entender que a internacionalização é um objectivo terá de pensar na concentração de esforços, de recursos e de equipas.

Nuno Malheiro da Silva, Arquitecto
Presidente do FOCUS GROUP
[email protected]

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