Opinião: “Da banal invisibilidade ou do poder estabelecido”

Por a 28 de Março de 2018

© João Pedro Silva

Confesso que achei que ia demorar muito a decidir por onde avançar no contexto do desafio que me foi lançado: falar da arquitectura e das mulheres na profissão. O ciclo de conversas que a Mulheres na Arquitectura está a realizar desde Setembro passado tem trazido uma imensa amplitude de problematizações. Pensei ir aí buscar o caminho deste texto, mas enganei-me. Horas depois deste convite surgiu à minha frente o programa do seminário Poder e Arquitectura, organizado pela Casa da Arquitectura, em Matosinhos, e da responsabilidade de Roberto Cremascoli, que aconteceu no início deste mês de Março. O programa prometia dois dias de debate ao redor de oito poderes – colectivo, doméstico, tecnológico, económico, regulador, cultural, mediático e ritual –, com 28 “arquitectos de referência nacional e internacional”. Se considerarmos este número, as três mulheres arquitectas presentes – Inês Moreira, Inês Lobo e Marina Tabassum – representam pouco mais de 10% desses tais “arquitectos de referência” que preencheram este palco. Na verdade, seis dos oito debates foram ounicamente por homens. De modo provocatório poder-se-á perguntar se as mulheres arquitectas não são suficientemente de referência para constarem paritariamente. A questão torna-se evidente quando se percebe a relação directa entre a visibilidade e a possibilidade de alguém se tornar “de referência”. Ou seja, percurso viciado: ser-se de referência implica um processo de construção de visibilidade e para que esta construção aconteça é necessário tocar os círculos do reconhecimento. Daqui vem o paradoxo para a concretização das existências profissionais, também como coisa pública, das mulheres arquitectas: como seremos de referência se não nos chamam aos palcos, se não nos permitem o acesso à visibilidade. A manutenção do suposto paradoxo não é ingénua, é uma forma eficaz de garantir a manutenção dos poderes vigentes no interior da arquitectura portuguesa, entre outras, e que nos interessa neste caso: a da hegemonia dos homens arquitectos.

Como se isto não bastasse, no dia 8 de Março, dia em que se assinalam internacionalmente as lutas das mulheres pelos seus direitos e igualdade de oportunidades, foi publicada uma entrada na página oficial da Casa da Arquitectura no Facebook. Nesta surgiam as fotos das três arquitectas já referidas. O texto informava que o convite endereçado a estas “embaixadoras da arquitectura nacional e internacional” para estarem no seminário era, afinal, uma celebração do “Dia da Mulher” pela Casa da Arquitectura. Para lá da óbvia falta de sentido de serviço público, com um lado até ofensivo, concede-nos a chave para desvendar este mistério da programação: eles são de referência e elas embaixadoras. Uns são infraestruturais às culturas arquitectónicas nacionais e internacionais, outras carregam a condição de externalidade. Se já nos desconfiávamos extra-terrestres na profissão, a nova/velha Casa da Arquitectura esclarece-nos e localiza-nos.
Como se ultrapassa este desfasamento danoso? Não compactuando. Não decidir por painéis, júris ou mesas redondas onde só homens ou uma maioria de homens sejam chamados a reflectir, debater e apresentar arquitectura e cidade. Mas também não aceitar fazer parte de painéis, júris ou mesas redondas onde a representatividade das mulheres não seja levada a sério. Como noutros países, tomar o direito à igualdade de oportunidades e visibilidade a sério, por parte tanto de arquitectas como de arquitectos, como opção pelo óbvio: direitos iguais dentro da profissão. Este debate sobre o tão simbólico Poder e Arquitectura é só um exemplo. Os quotidianos das mulheres arquitectas portuguesas estão cheios de uma multitude de supostos detalhes, destes “irrelevantes” exemplos, que sabotam e dificultam a sua presença e direito pleno à profissão. Colectivamente, como profissionais, mas também através das instituições que representam, trabalham e formam os/as arquitectos/as, temos a obrigação civilizacional de garantir a não discriminação explícita e implícita. Divulgar de modo equitativo arquitectas e arquitectos é uma imposição básica à profissão na actualidade. Lamento informar, mas a hegemonia masculina da profissão está moribunda: as 44% de mulheres arquitectas inscritas na Ordem dos/as Arquitectos/as mostram isso mesmo. Resta saber se o que somos como colectivo profissional quer ficar teimosa e ridiculamente no século XX ou avançar e alimentar-se do – finalmente – ar dos tempos, entrando plenamente no século XXI.
Patrícia Santos Pedrosa
Arquitecta, professora (UBI), feminista, investigadora (CIEG.UL), activista (MA) e mãe.


Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *