Qual o caminho para a igualdade?

Por a 4 de Abril de 2018

Maria José Marques da Silva

Possivelmente muitas das obras de Mies Van der Rohe, particularmente na área de Design de Interiores, não teriam sido possíveis sem Lilly Reich; Charlotte Perriand foi a mulher por detrás de algumas das peças de mobiliário mais icónicas de Le Corbusier; Denise Scott Brown, braço direito de Robert Venturi e sócia no gabinete, não conseguiu uma menção quando o marido, Robert Venturi foi distinguido com o Prémio Pritzker em 1991; Anne Tyng foi sócia e peça fundamental nos trabalhos de Louis Kahn; Marion Mahony Griffin foi uma das primeiras mulheres a licenciarem-se em arquitectura no mundo e a primeira a trabalhar com Frank Lloyd Wright. Em comum têm o facto de terem ficado na sombra.

“Portugal é rico em referências femininas”

A História é fértil em casos de desigualdade e continua a escrever-se nos dias de hoje. Os números dizem que há mais mulheres nas escolas de Arquitectura e Design, que a profissão tem taxas de feminização cada vez mais elevadas, mas os números não se traduzem em igualdade.

“Portugal é rico em referências femininas na cultura de projecto, nomeadamente em design e arquitectura”, diz Helena Souto, especialista em História de Arte portuguesa no feminino e coordenadora científica e gestora do projecto MoMoWo (Women’s creativity since the Modern Movement) em Portugal – o primeiro projecto seleccionado e financiado pela União Europeia dedicado a mulheres arquitectas, engenheiras civis e designers e que pretende dar a conhecer pioneiras do Movimento Moderno.

“Temos grandes pioneiras, começando desde logo com a Maria José Marques da Silva, filha do arquitecto Marques da Silva, que estudou na Escola de Belas Artes do Porto e que foi das primeiras a fazer o Dilploma de Arquitectura”.
Em conversa com a TRAÇO, Helena Souto vai mais longe e refere que em Portugal existem mesmo casos sem paralelo. “Quando a Associação de Arquitectos passa a Ordem dos Arquitectos, a primeira presidente é uma mulher: Olga Quintanilha. Isto pode ser improvável ou não, mas que aconteceu, aconteceu, marca a História e não tem paralelo. E depois quem a substitui é outra mulher, Helena Roseta”.

Traçando uma radiografia da criatividade no feminino em Portugal, Helena Souto diz que há um antes e depois de 1974. “Até 1974 o universo feminino nestas áreas era relativamente escasso. Não eram muitas as raparigas que entravam em Arquitectura. Design nem sequer existia sem ser o curso do IADE. Os cursos de Arquitectura eram dados nas Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto e as mulheres iam mais para Pintura e Escultura. Engenharia Civil, ainda menos.
A partir de 1974 esta realidade vai mudando e nos anos 80 dá-se o boom. Começam a existir cada vez mais mulheres nestes cursos ao ponto de, nos dias de hoje, serem mais do que os homens”.

Para atingir a paridade, diz Helena Souto, “teremos de passar pelas quotas”. “Obviamente que o que queremos é o mérito, queremos ser reconhecidas pelo mérito, mas ainda não se consegue, ainda é muito difícil. Custa-me muito a dizer isto, mas para se chegar lá, por agora, tem de se ir pelas quotas para afirmar a mulher no espaço público. Depois dessa afirmação, o mérito é o grande instrumento”.

“Ainda existe um longo caminho a percorrer”

Pela mesma ideia alinha Martha Thorne,  arquitecta, curadora, reitora da IE School of Architecture and Design e directora executiva do Prémio Pritzker. Em entrevista à TRAÇO, Martha Thorne refere que “ainda existe um longo caminho a percorrer até atingirmos oportunidades iguais, até atingirmos o reconhecimento e até estarmos aptos a transformar a profissão de forma a que a mesma permita que mulheres e homens usem todo o seu talento e conhecimento sobre arquitectura e design, de uma forma positiva”.
“Se olharmos para as escolas de Arquitectura e Design, a maioria dos estudantes são mulheres, mas depois há um grande contraste com as posições de responsabilidade, tanto no campo académico como no campo profissional. Os cargos de liderança, na maioria dos casos ainda pertencem aos homens”.
“Se olharmos para o reconhecimento das mulheres, tanto através de artigos, bibliografias, da História, dos prémios, se olharmos para as várias formas que a sociedade utiliza para medir a qualidade arquitectónica ou a qualidade do design, certos valores são deixados de fora e muitas das formas como reconhecemos esses valores eu diria que são mais masculinos. Não estou com isto a dizer que só os homens fazem e as mulheres não, mas com frequência olhamos para um edifício de forma individual e damos-lhe um prémio pela sua monumentalidade ou por outros atributos ao invés de olharmos para o facto de, como um edifício ou um design, servir a sociedade, nomeadamente os grandes problemas actuais, como o aquecimento global, o direito à habitação, a migração e tantos outros”.
Em suma, sublinha Martha Thorne, “temos um longo caminho a percorrer e precisamos de dar passos positivos para alcançarmos a mudança”.
Nesse sentido, continua, existem vários passos, a várias escalas e em diferentes áreas que podem ser dados. “O que quero dizer com as várias escalas é que precisamos de mudar e criar consciência sobre comportamento humano, sobre descriminação que é escondida e pessoas que não têm a menor ideia de que estão a descriminar mulheres e isso pode ser tão simples como alterar o vocabulário. Dizemos que os homens são líderes, fortes e decisivos, mas se uma mulher apresenta essas qualidades dizemos que é uma diva e que é agressiva. Portanto, podemos partir de pequenas formas de descriminação a nível individual até formas de descriminação mais estruturais, que têm que ver com a forma como as decisões são tomadas nas instituições, quem as toma e o que decidem. Estas posições, estes cargos, são frequentemente ocupados por homens, por isso é difícil ter vários pontos de vista quando existe uma uniformidade e pessoas semelhantes que estão no poder e querem permanecer”.
Nesse sentido, a directora executiva do Prémio Pritzker alinha com Helena Souto na medida em que é necessário implementar a paridade através dos números.
“Na IE School of Architecture and Design implementamos esse princípio, se temos de ser jurados ou fazer apreciações de trabalhos de estudantes é um número igual de homens e mulheres. Quando contratamos encorajamos as mulheres a candidatar-se e somos muito justos a avaliar essas mulheres: se têm uma família, se têm uma carreira menos tradicional, isso não é um ponto negativo. Olhamos para o que a pessoa tem para oferecer à escola”.
Para além disso, Martha Thorne alerta que se deviam fazer estudos para aferir qual é a situação actual. “Digo isto porque frequentemente achamos que a Arquitectura e o Design são áreas culturalmente empreendedoras, que quem as pratica é cool e trendy, todos vestimos preto e somos muito actuais, o que leva a pensar que é uma profissão onde não existe desigualdade. Mas a Arquitectura tem dos piores números no que diz respeito à igualdade de oportunidades. Medicina e Direito por exemplo, fazem-no bem melhor que a Arquitectura. E parte disso está relacionada com a imagem que temos da profissão, que por ser aparentemente mais aberta e artística, tem espaço para todos, mas na realidade não é nada disso”.
Para Martha Thorne, outra das medidas importantes seria a de confrontar as industrias directamente relacionadas com a Arquitectura, como a Construção ou mesmo a Banca, que “ainda são orientados por um pensamento mais masculino e com muitos estereótipos. “Temos que lhes pedir que repensem as práticas e que sejam mais inclusivos”.
Às gerações mais novas deixa dois conselhos. “Não acreditem que a situação é diferente só porque as escolas parecem lugares de igualdade. O campo da Arquitectura não mudou, por isso estejam atentos, estejam alerta porque o mundo real não é tão simpático como a experiência académica”. Para além disso, Martha Thorne pede “sejam generosos com os vossos colegas, mulheres e homens que são sensíveis aos temas da igualdade e da oportunidade, permitam que cada pessoa encontre o seu lugar no campo da Arquitectura e do Design, permitam espaço para quem quer fazer diferente, quem quer ter práticas diferentes ou seja motivado por coisas diferentes. Não temos todos de ser top designers, nem todos temos de ser vencedores de determinados prémios de arquitectura. Tem muito mais valor apoiarmo-nos uns aos outros, e sentirmo-nos preenchidos num trabalho mais colaborativo. Arranjem espaço para diferentes maneiras de ver o mundo”.

“A Arquitectura e o Design não têm género”

Cartaz da petição para atribuição do Prémio Pritzker retroactivo a Denise Scott Brown


Guta Moura Guedes, presidente da Associação experimentadesign, revelou à TRAÇO que, “enquanto curadora e observando à distância o tema da arquitectura e do design no feminino apenas posso dizer que conheço muito menos mulheres arquitectas ou designers que homens arquitectos ou designers. Sei também que são menos as mulheres que lideram os grandes ateliers e assinam os maiores projectos. Isto ainda é, em pleno século XXI, uma realidade. Isto acontece não porque as mulheres sejam, como é claro e em momento algum, piores projectistas. Os motivos são iguais aos que se verificam noutras áreas profissionais: são motivos culturais, estruturais, funcionais e sociais. Ainda vão levar tempo a desaparecer, mas vão desaparecer”.
Para Guta Moura Guedes, não existe uma arquitectura feminina e outra masculina. “As diferenças entre a Elizabeth Diller e a Amanda Levete são tantas quanto as diferenças entre um Frank Gehry e um Peter Zumthor. Não consigo também achar que haja um design feminino e outro masculino. Poderíamos – eventualmente – pensar que o design feminino fosse mais sensual, mais suave, mais curvilíneo, mas mal fazemos o exercício de analisar o trabalho do Verner Panton, do Ross Lovegrove ou do Marc Newson todo este raciocínio cai por terra; se achássemos que o design feito por homens fosse mais claro, forte e racional, o que dizer da obra da Ray Eames, da Eillen Gray e da Paula Scher?  A arquitectura e o design em si não têm género”, sublinha.

Lisboa no feminino
Para ajudar a dar a conhecer o trabalho de mulheres arquitectas, engenheiras civis e designers em Portugal, Helena Souto coordenou, no projecto MoMoWo, um conjunto de itinerários – os Cultural Touristic Itineraries -, que levam o visitante a descobrir 19 edifícios emblemáticos através de três trajectos: “From downtown Lisbon to the hills”, “From Santos to Belém” e “Modern Lisbon”.
“Não posso escamotear que fazer esses três Guias foi um quebra-cabeças, porque na maior parte das obras, elas aparecem no contexto de ateliers em que o nome é masculino, ou então em paridade, o que já é uma alegria”, diz Helena Souto.
“Com os Guias tentei mapear três condições: a condição em que a mulher está num atelier de renome, tem um papel muito activo, mas o reconhecimento vem do homem, que foi o caso do Edifício Castil, que integra o percurso das Avenidas Novas, uma obra do  do atelier Francisco Conceição Silva, mas que também tem o cunho de uma mulher, Maria João Eloi, que é uma grande pioneira e que devia de ser estudada. A Maria João Eloi é portanto uma figura que ficou na sombra. Outra condição é a da paridade: mulheres que têm atelier com um homem. Um caso exemplar desta condição é a do gabinete Barbas & Lopes, da Patrícia Barbas e Diogo Lopes, em que trabalhavam em paridade. Por último, o terceiro caso retrata as mulheres  que conseguiram afirmar ateliers em nome próprio, como a Teresa Nunes da Ponte, que é um dos casos evidentes dos anos 80 e de uma geração que começou a intervir no espaço público, graças muito à arquitecta Olga Quintanilha, de quem escolhi as Twin Towers para o Guia.

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