Opinião: O que muda e o que não muda”

Por a 16 de Abril de 2018
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Há 15 anos Bush (filho) invadia o Iraque, o FC Porto ganhava o campeonato, a taça de Portugal e a Taça UEFA sob o comando de José Mourinho, Durão Barroso era Primeiro-Ministro, Jorge Sampaio ocupava o cargo de Presidente da República e Portugal preparava-se para organizar o Euro2004.
Em abril desse ano de 2003 surgia o Jornal Construir, com o qual, desde 2005, tenho o privilégio de colaborar.
Depois de anos de grande actividade económica no sector do imobiliário e da construção sentia-se que a realidade que todos conhecíamos estava a mudar, começava a crise económica, mas ninguém anteciparia os anos negros que se seguiram.
O Jornal Construir acompanhou estes últimos quinze anos, publicando as notícias relacionadas com a construção, da arquitectura à engenharia, passando pelo imobiliário, materiais e equipamentos, resistindo ao desmoronar de um sector que só agora parece ganhar novo fôlego.
Foi resiliente e, enquanto muitas das publicações que existiam desapareceram, o Jornal Construir ganhou notoriedade, que tem conseguido manter, sendo uma publicação de referência no sector.
Durante estes últimos 15 anos muito mudou em Portugal e no mundo. O Jornal Construir foi não só noticiando, mas dando também a sua opinião, respeitando os princípios definidos no seu estatuto editorial, e acolhendo as opiniões de diversos protagonistas no mercado, onde orgulhosamente me incluo.
Hoje o contexto do mercado melhorou e assiste-se a um dinamismo renovado que promove o setor e o país em geral, tornando tendencialmente mais simples a vida de quem, no Jornal, procura as receitas, provenientes quer de assinaturas quer de publicidade, que permitem manter a isenção e a independência editorial do jornal e que, ao mesmo tempo, mantêm a equipa que ao longo dos anos foi “construindo o Construir”.
Um grande bem-haja a todos.
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Parece que todos começam a esquecer a crise que tanto nos fez sofrer, durante tantos anos. É normal que assim aconteça. Vivemos (para) o presente e o futuro. Exaltam-se os sinais positivos, não dando importância aos negativos (ou menos positivos), valorizando os novos investimentos, sobretudo quando a origem é estrangeira, e o crescimento do turismo. A história já nos ensinou que as crises são cíclicas, mas também nos mostra que é assim que as sociedades reagem após uma crise. Se muitos dos protagonistas mudaram nos últimos anos, muitos dos erros continuam a repetir-se, como se não se tivéssemos aprendido nada. Muitos investidores persistem em “poupar na farinha para gastar no farelo”. E continuam muitas vezes a escolher as equipas projectistas ou empresas de construção pelo preço e não pela qualidade ou experiência. Querem ter uma equipa de fiscalização em obra, mas por um preço que não permite ter os profissionais mais experientes e uma presença permanente em obra como impõem as melhores práticas. Naturalmente que há excepções, mas com o Estado Português a dar o exemplo, seleccionando nos contratos públicos pelo preço mais baixo, não podemos mudar mentalidades e inverter as tão “populares” tendências.
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As baixas taxas de juro associadas à subida de preços como consequência do aumento da procura e da diminuta oferta de produto imobiliário, estagnado durante vários anos, têm ajudado a que os investidores se “refugiem” no imobiliário, preterindo os depósitos ou outras aplicações nos bancos, nos quais a confiança regista igualmente níveis muito baixos, e, menos ainda, o investimento em bolsa. Mas temos de estar atentos e não ignorar os avisos, agir preventivamente e não de maneira reactiva, porque as taxas de juro vão (ter de) subir o que, associado (entre outros fatores) à situação política nas grandes economias pode vir a gerar situações de crise às quais não estaremos seguramente imunes.
Tudo muda, mas nada muda.
Nuno Malheiro da Silva, Arquitecto
Presidente do FOCUS GROUP

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