“O mais importante para nós é a possibilidade de este ser um momento de debate”

Por a 4 de Outubro de 2018

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O 15º Congresso dos Arquitectos celebra os 20 anos de criação da Ordem dos Arquitectos. Nestas duas décadas, o que foi feito e o que ainda está por fazer?
A institucionalização da OA, em 1998, veio permitir a regulação de um exercício profissional e o crescente reconhecimento do papel do arquitecto na qualificação dos espaços onde vivemos.
Ao longo destes 20 anos, esta tem sido uma tarefa ininterrupta, mas perante as constantes e profundas mudanças na estrutura social, económica e política da sociedade esta é sempre uma tarefa inacabada. Os arquitectos são diariamente confrontados com novos desafios na necessidade de um enquadramento profissional com novas ou antigas profissões com quem compartilhamos muitos aspectos da prática profissional, seja na criação de condições económicas para o exercício da profissão, seja na clarificação do enquadramento jurídico nacional e internacional ou na criação de estruturas de apoio à internacionalização.

“O Património Arquitectónico e Paisagístico” é o tema principal do próximo Congresso e um dos objectivos é o de “demonstrar o papel qualificador que a arquitectura tem na preservação e na construção do futuro património arquitectónico”. O facto de ainda ser preciso demonstrar esse papel é um reflexo de que a sociedade e a arquitectura ainda não estão próximas?
Ao escolhermos o tema deste Congresso pretendemos desde logo chamar a atenção para aquilo que deve ser um entendimento alargado da abordagem do património que passe das estruturas edificadas para a sua dimensão paisagística que lhe é inerente e complementar.
Temos noção que este está longe de ser um problema nacional, mas antes o reflexo de muitas mudanças de todo o tipo que se vão verificando com uma rapidez crescente, e que exigem cada vez mais uma abordagem global na procura das soluções e, por isso, uma cada vez maior dificuldade em responder a essas muitas e profundas mudanças.
Apesar dessas dificuldades, pensamos que a sociedade está cada vez mais atenta e próxima das preocupações dos arquitectos, e ninguém actualmente desconhece ou põe em causa a necessidade da arquitectura enquanto factor qualificador do ambiente onde vivemos.

Para além do tema agregador, o debate irá contemplar três subtemas e um deles refere-se à prática profissional. Num ano conturbado em que voltou a ser aprovada a lei que permite a engenheiros assinar projectos de arquitectura, como sente a classe?
Num Congresso organizado pelo organismo que tutela a prática da arquitectura, mal estaríamos se não incluíssemos o debate e a reflexão sobre a prática profissional!
De facto, os desafios que se colocam ao exercício da profissão estão muito para além dessa situação que foi, de facto, particularmente mediatizada.
Uma batalha numa guerra que deve ser de princípios. Princípios que não vimos ninguém contestar e que se resumem à constatação da “Arquitectura por Arquitectos”.
Este é, evidentemente, um assunto que continuamos a acompanhar de muito perto e que, tal como prevíamos, está envolvido num crescente emaranhado de contradições, mas não será ainda este o momento para voltarmos a ele.


O Património Paisagístico e a forma como os arquitectos podem responder aos riscos territoriais será outro subtema. Como olha para toda a polémica em torno dos incêndios que deflagraram no País, as causas e as consequências?
Todos, e quando digo todos refiro-me a uma constatação que vai muito para além do limite profissional dos arquitectos, todos estamos conscientes dos grandes problemas da desregulação paisagística com que o território está confrontado.
Problemas gravíssimos cuja base social está seguramente muito para além das possibilidades de intervenção dos arquitectos, pois envolvem toda uma série de aspectos que constituem a paisagem. Desregulação da estrutura florestal, descoordenação dos instrumentos de planificação, com todos as consequências sociais, económicos de que resultam muitos dos desastres que conhecemos.
Sobre este aspecto, temos promovido vários debates quer com diversas estruturas do Governo quer com outras organizações profissionais envolvidas, e estamos a acompanhar activamente todos estes problemas na procura de soluções que são técnicas, mas serão essencialmente políticas e não são rápidas nem fáceis de encontrar depois dos muitos anos de total alheamento.

Nesta edição o Congresso terá uma estrutura de participação diferente que contempla o Debate Temático e o Debate Transversal. O que nos pode adiantar sobre os mesmos?
A ideia foi a de introduzir uma nova dinâmica enriquecida com debates alargados em mesas redondas com personalidades convidadas e ainda a abertura à participação de não arquitectos nos debates temáticos.

O 15.º Congresso abre no dia 25 de Outubro com uma conferência do arquitecto espanhol Emílio Tuñón. Porque não se deve perder este Congresso?
Para além da conferência de Emilio Tuñon, ‘apenas’ Prémio de Arquitectura Espanhola em 2107, autor de uma obra vastíssima, durante muitos anos feita em dupla com Eduardo Mansilla entretanto falecido, onde a reflexão sobre o património foi sempre uma constante.
Mas para além da indiscutível importância desta conferência, e a presença de outras organizações como o Conselho Internacional dos Arquitectos de Língua Portuguesa(CIALP), que congrega representantes de todos os países e territórios de língua oficial portuguesa, ou o DoCoMoMo Ibérico, o mais importante para nós é a possibilidade de este ser um momento de debate e troca de opiniões de uma classe profissional, muito dispersa e geralmente com poucas oportunidades para a tão necessária troca e confronto de ideias.

Que expectativas tem em relação ao Congresso, ao número de pessoas e às conclusões e mais-valias que poderão advir?
Não temos ainda neste momento, a um mês da data do Congresso, uma ideia clara do número de participantes, tanto mais que sabemos do hábito de muitos se inscreverem em cima da hora, mas estamos optimistas de uma muito significativa adesão, até porque comparativamente com anteriores Congressos esse número é neste momento superior a vários outros já realizados.
Sabemos do risco que corremos com a escolha de uma localização no território descentralizada, com alguns problemas de acessibilidade desde algumas partes do País, mas estamos seguros que vamos ganhar essa aposta.
Mais do que o número dos inscritos, apostamos na qualidade das intervenções e estamos certos que essa vai ser importante para o futuro da arquitectura e dos arquitectos portugueses.


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