Opinião: O desafio de um recomeço!

Por a 26 de Março de 2020

Francisco Bacelar, presidente da ASMIP

“Em tempos de guerra não se limpam armas”, é um ditado bem antigo, mas mais atual que nunca, em função da dimensão mundial da pandemia. Os desafios para a humanidade são já a maior prova a que alguma vez foi submetida, fazendo-nos perceber a nossa ridícula dimensão de peça de engrenagem, em que apesar de todos os desenvolvimentos tecnológicos e científicos, não conseguimos controlar um inimigo microscópico.

Apesar do cenário dantesco, não será esta a maior provação que os humanos passarão. Na realidade estamos a ver a parte visível do icebergue, pois a crise económica a que se segue a social, farão parecer a do subprime uma brincadeira de crianças. Ninguém estava preparado para isto, e os nossos políticos terão que ser de outro nível para ultrapassarem as falências, o desemprego, enfim a catástrofe que se adivinha.

Muito poderia ainda dissecar sobre o tema, mas escrevo em representação de uma classe, a da mediação imobiliária, e é nesse sentido que estão centradas as minhas principais preocupações, sem nunca esquecer que o problema é transversal, em que ninguém é imune, e todos, mas mesmo todos, estamos na mesma nau, qual Bartolomeu Dias no Cabo das Tormentas.


Perdoem-me o puxar “a brasa à sardinha”, mas se não formos nós a fazê-lo, não devemos esperar que ninguém o faça por nós. Já basta conotarem-nos como especuladores que ganharam milhões nos últimos anos, sem perceberem que somos o elo mais fraco na cadeia do setor imobiliário. Nada vendemos que seja verdadeiramente nosso, atuamos em representação do verdadeiro proprietário, e cobramos uma comissão por isso, mas para o conseguir temos que investir muito antes, em tempo, publicidade, organização, e sobretudo muito ânimo para conviver com um negócio onde não se ganha/vende todos os dias, por vezes nem num mês ou mais, e onde a única garantia são as contas, profissionais e pessoais, para pagar no fim do mês. Esta é a verdadeira realidade quer do ‘broker’, o empresário da imobiliária, quer dos seus consultores. Se não se vender, nada se leva para casa, o que dita um negócio apoiado na esmagadora maioria nos recibos verdes, que nada garantem em caso de quebra, ou extinção por tempo indeterminado das receitas. Neste cenário para o ‘broker’ ficam as contas para pagar, e para os comerciais a receita zero!

Tal como em outros setores que usufruem das regalias sociais como direito adquirido, também aqui estamos a falar de pessoas, muitas das quais só estavam nesta atividade, por não conseguirem entrada nas suas áreas, e vêm aqui o seu refúgio, para uns temporário, para outros o seu futuro, através de mais empenho, profissionalismo, e por vezes sorte.

Estamos a falar de umas dezenas de milhar de pessoas, que se contabilizarmos as respetivas famílias, poderão passar a centena de milhar de cidadãos portugueses que, neste momento, não só não podem trabalhar, como, muito provavelmente não conseguirão capitalizar nos próximos meses.

É certo que haverá ‘linhas de crédito’, para quem tiver condições para a ele aceder e pagar mais tarde, bem como aos juros inerentes, sim porque ‘crédito’ é isso mesmo, mas os recibos-verdes não terão essa ‘benesse’. Também não adiantaria, uma vez que dificilmente poderiam honrar esses compromissos.

Não tenho nenhuma varinha mágica que ajude a resolver este, e os restantes problemas de outros setores, mas o que não duvido é que não deve haver cidadãos de primeira e segunda, e que se houve tanto dinheiro, meu, seu, enfim de todos nós para acudir à banca no passado recente, estará agora na hora desta retribuir.

Não, não falo em empréstimos para a mediação imobiliária, ou para os promotores, nem de nos tornarmos agora em subsídio-dependentes. Não queremos ficar debaixo da ponte, mas também não queremos endividar-nos. Basta-nos que haja crédito para fazer a ‘roda andar’, ou seja, crédito para os portugueses que anseiam casa própria, e para os seus negócios que ainda seja possível recuperar ou fazer nascer, que o resto, o mercado e nós, com o nosso trabalho nos encarregaremos de fazer.

Ao nos darem essas condições para trabalhar, a roda andará, e os seus movimentos farão amenizar a tragédia. No fim todos ganhamos.

Pessoalmente, e apesar de algumas exceções que até confirmam a regra, acredito no homem e nas suas realizações. Temos séculos de provações e chegamos até aqui, por maior que fosse o desafio. Passaremos mais esta com muita dor, é certo, mas venceremos.

 

NOTA: O Construir manteve a grafia original do texto


3 comentários

  1. Dora Monzelo

    27 de Março de 2020 at 0:59

    Concordo com o texto todo, acho que agora seria a hora de se colocarem condicionantes àquilo a que os construtores chamam venda direta. Venda direta porquê? Aproveitar agora para obrigar, sim Obrigar a que uma venda de um imóvel seja feita obrigatoriamente através da mediação imobiliária à semelhança da maioria dos países europeus.
    Sim obrigação de vender através de um mediador, consultor, que paga impostos, que desconta para a segurança social, que têm seguro de responsabilidade civil, taxas e licenças, comunicações das vendas, sim todas as obrigações.
    Porquê os fabricantes de casas poderem vendê-las sem passar pela mediação imobiliária, se eu quiser comprar um carro, não tenho hipótese de o adquirir na autoeuropa directamente, porquê? porque não o posso comprar no fabricante, tenho de o adquirir a um representante da marca ou stand. Pergunto porque é que os construtores que são fabricantes de casas o podem fazer roubando-nos sim roubando-nos os clientes mesmo aos nossos olhos, sim tem acontecido ultimamente e porquê? Porque agora já era novamente fácil vender, havia muitos clientes e pouca oferta, e para as imobiliárias ainda os prédios não estavam em comercialização mas viramos as costas, e os clientes a quem o disseram à nossa frente, deram meia volte e voltaram ao construtor sozinhos e a venda efetivou-se, e nós que como disse no seu artigo somos os especuladores dos preços ficamos a ver a comissão por um canudo e sem nada podermos fazer. Sim aconteceu-me a mim há bem pouco tempo 2 vezes seguidas. Ora se o fabricante de casas não as pudesse vender sem que passasse pela mediação isto não acontecia.
    Mas agora com esta nova crise, pode ser que a barriga deixe de estar tão inchada novamente, o problema é que como diz no seu artigo como é que vão sobreviver estes consultores a recibos verdes?
    ESTÁ NA HORA. DE FAZER MAIS-PROIBIR O PRODUTOR DE VENDER DIRECTAMENTE
    Mais, já cá ando há 25 anos, passei por todas as crises desde 1995, e também acho que em termos de licença está tudo simplificado demais, senão vejamos, ter uma licença registada em nome individual, com contabilidade simplificada, sem local de atendimento ao público, onde está o profissionalismo e a credibilidade do sector, com escritório ambulante, como eu os intitulo, sim porque conheço alguns, que fazem vendas sob uma licença ami que detém, sem dúvida, mas atendem os clientes onde? no banco de trás do veiculo que usam para os encontros e fazerem as visitas aos imóveis?
    Também deveria de haver mais exigências neste âmbito, como no passado, sim porque eu sou desse tempo. Onde exigiam local de atendimento, empresa, capacidade profissional, habilitações para tal, agora não é tudo mais fácil, então não se queixem que não há apoios. Porque se tivessem obrigados a ter empresa, e como um mínimo de funcionários se calhar agora teriam mais alguns apoios. Sim porque é melhor para os empresários não terem encargos com funcionários e pagarem comissões mais altas, não tem responsabilidades de segurança social, não têm ordenados certos a pagar, e os empregados dessas imobiliárias, sim na realidade são empregados sem ordenado fixo, mas esses consultores a recibos verdes que até ganham comissões boas, são de uma marca, ou empresa, não trabalham para várias empresas, são empregados disfarçados para pagarem o mínimo de impostos e agora vão viver de quê? Claro que se calhar para estes não haverá apoios, agora vão fazer o pão com o trigo que semearam.
    Sim está na hora de fazer algo mais, Sr. Francisco Bacelar, da associação que me representa como empresa de mediação imobiliária que nesta fase garantidamente vou ter alguns apoios porque não tenho consultores a recibos verdes tenho colaboradores no quadro, com vencimento declarado na segurança social.
    Obrigada e faça algo mais pois agora vai haver muitos bons consultores a chorar sob o leite derramado.

  2. Dora Monzelo

    27 de Março de 2020 at 2:47

    Sr Francisco Bacelar concordo com tudo o que diz e acho que nos representa muito bem, mas deixo aqui uma opinião que eu acho que está na altura de fazer algo mais, sim fazer algo mais mesmo.
    Em primeiro lugar gostaria de deixar aqui a minha opinião sobre o porquê dos fabricantes de casas, sim a maioria dos construtores de agora, poderem vender as casas diretamente sem ser obrigatório passar pela mediação imobiliária, sim porque na maioria dos países europeus uma casa ou apartamento para ser comercializada têm que ser através da mediação imobiliária, em Portugal não, todos podem vender até o fabricante, senão vejamos, se eu quiser comprar um carro eu não tenho hipótese de o comprar na autoeuropa, tenho que o comprar num stand ou concessionário da marca, porquê os fabricantes poderem fazer isto e roubarem-nos descaradamente e nas nossas barbas os clientes, sim porque me aconteceu há bem pouco tempo duas vezes consecutivas, ser-me dito à frente do cliente que o prédio ainda não estava à venda e no dia a seguir o negócio estava feito, ora se as vendas tivessem que passar obrigatoriamente pela mediação isto não acontecia, poderiam estes fabricantes criar uma empresa de mediação mas com todas as exigências e responsabilidades que temos, se calhar veriam que não ganhamos dinheiro fácil, nem seriamos os especuladores que ganharam milhões como afirma. Agora estes fabricantes já estavam novamente de barriga cheia porque os clientes procuravam, porque os bancos emprestavam, e agora como vai ser…, pode ser que agora a barriga volte a ficar vazia e que necessitem de nós.
    Outra situação a que tenho assistido, sim porque sou do tempo do antigamente, e já passei por todas as crises possíveis e imaginárias agora até esta a nível mundial, sim sou do tempo em que as licenças eram mais dispendiosas, que seria necessário obrigatoriamente local de atendimento ao público, empresa constituída, habilitação profissional para o desempenho da atividade, agora é tudo mais fácil e menos dispendioso, mas onde está o profissionalismo de uma atividade, seja em nome individual ou coletivo, que não têm local de atendimento, onde atende os possíveis clientes? são vendedores ambulantes?, sim são vendedores ambulantes que marcam visitas para mostrar imóveis, e o escritório é o banco de trás da viatura, e também vendem, em grande parte em nome individual e sem contabilidade organizada para terem menos despesas, sim e se possível sem fatura para não terem que pagar impostos. Estes neste momento devem estar bem aflitos.
    Agora falando um pouco nos consultores a recibos verdes, que me preocupa logicamente, porque há muitas famílias a dependerem desta nossa atividade, sim preocupa-me mas diretamente não me afeta muito, porquê, porque é muito bom ganhar comissões chorudas, ter muitos consultores por vezes a brigarem e mendigarem uma angariação, a não partilharem para ganharem tudo sozinhos, mas neste momento ficam sozinhos mesmo, porquê, porque não são funcionários do quadro da empresa, porque não são assalariados e neste momento os apoios ainda são uma mão cheia de nada, porque agora vão perceber a importância de pagar os impostos e a segurança social, que é feita sempre nos mínimos porque quanto menos se pagar melhor mais fica, e agora? Uma mão cheia de nada. Estes consultores a recibos verdes, que no fundo são funcionários de uma empresa, mas de forma camuflada, pois trabalham apenas para uma empresa, não angariam para várias, mas não têm salário fixo, pois sabe melhor receber boas comissões e agora nem a empresa têm apoios porque não têm funcionários, nem os funcionários recebem porque não pertencem a empresa nenhuma estão por sua conta e risco. Agora colhem o pão do trigo que semearam.
    Quando digo a mim não me afeta muito, mas preocupa-me, sim preocupa-me porque tenho uma empresa com funcionários no quadro, a quem pago salários, segurança social, seguro de acidentes de trabalho, retenções na fonte, subsídios de alimentação, e estamos de porta fechada como tantos outros, por tempo indeterminado e se não houver vendas, também não vai haver dinheiro pois ele não se reproduz sozinho, mas se calhar vou ter algumas benesses, não se trata de haver cidadãos de primeira e de segunda, trata-se de uma empresa de mediação imobiliária, com funcionários no quadro, que paga segurança social e todos os impostos inerentes. Mas estamos todos na mesma Nau e no mesmo cabo das Tormentas como afirma.

    Sr Francisco Bacelar está na hora de se fazer algo mais:
    Proibir os fabricantes e os particulares de venderem sem ser através da mediação, não é difícil, basta acrescentar a tantas exigências que já existem na nossa lei, que nos rege, à semelhança de outros países da Europa. Assim garantidamente teremos mais hipótese de sobreviver, pois teremos mais imóveis para vender.
    Proibir os bancos de venderem sem ser através da mediação.
    Local de atendimento, para não haver vendedores ambulantes.
    E esperemos que o vírus não nos atinga a nível da saúde senão não estaremos cá para ultrapassar mais um obstáculo da vida.
    Obrigada pelo tempo que dispendeu a ler a minha opinião

  3. Brandão Júnior

    28 de Março de 2020 at 19:13

    Os dois comentários anteriores dizem tudo. Parabéns….

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