Opinião. Covid-19: uma crise profunda que abre janelas de oportunidade no imobiliário

Por a 2 de Abril de 2020

Manuel Braga
CEO da Imovendo

O Covid-19 revelou-se uma pandemia em termos de saúde pública, mas também um factor de recessão económica e de disrupção abrupta (e forçada) de comportamentos e metodologias de trabalho, pelo que importa tentar perceber, de forma sintética, quais os impactos, mas também oportunidades que o actual momento potencia.

No que concerne especificamente ao mercado imobiliário, e tal como já foi referido pela imovendo em momentos anteriores, até há cerca de 2 semanas, a sua força motriz encontrava-se do lado “vendedor”, sendo que os preços de mercado, bem como a própria dinâmica do sector eram definidos pelos proprietários, não só devido à escassez de produto disponível, como pela relativa facilidade na obtenção de crédito habitação e ainda pelo bom ambiente económico que enquadrava toda a actividade.



Tal como também já foi referido pela imovendo, este dinamismo e sobretudo a valorização verificada em muitos dos imóveis ao longo dos últimos dois anos não era nem sustentável, nem saudável, uma vez que não reflectia de forma proporcional o crescimento económico Português, encontrando-se, sim, suportada pelo efeito do crescimento do Turismo (com impactos no Alojamento Local), pelo efeito do Investimento estrangeiro (não apenas Vistos Gold, mas também investimento com origem no espaço Schengen) e por um efeito de curto prazo relacionado com a valorização de activos imobiliários vendidos.



Todavia, e desde o início do ano, que se verificava já se verificava um conjunto de movimentos que indiciavam um arrefecimento do mercado:

a) uma ligeira descompressão dos preços (bastava percorrer as listas de resultados dos principais portais imobiliários nacionais para se verificar o crescente número de imóveis com baixas de preços),

b) bem como uma maior exigência por parte das entidades bancárias na concessão de crédito (fruto de orientações dadas pelo Banco de Portugal não apenas em relação ao crédito à habitação, mas também ao crédito ao consumo que, não raras vezes, financiava as entradas e os sinais nos processos de compra e venda)

c) um alargamento do tempo em que as decisões de investimento eram tomadas por parte de compradores (o receio que imperava em termos de perda de oportunidades de negócio foi gradualmente sendo substituída pelo receio de fazer uma aquisição a valores acima dos reais)

A crise que a o Covid-19 veio precipitar é “apenas” relevante por três factores novos que introduz no mercado de uma forma nunca vivida anteriormente:

1) o seu carácter abrupto, uma vez que o mercado virtualmente parou no espaço de uma semana, praticamente sem pré-aviso e sem que os profissionais tivessem tido a mínima possibilidade de se prepararem

2) não se conseguir antecipar o seu fim, nem se ter consciência inequívoca de quais as medidas que se poderão adoptar para o antecipar, seja de um ponto de vista económico, seja de um ponto de vista de saúde pública

3) mas sobretudo por obrigar o mercado a reinventar-se, de modo a que as tecnologias que hoje já existem possam ser efectivamente colocadas à disposição do mercado… este continua a ser um mercado de pessoas para pessoas e a tecnologia tem de ajudar a potenciar estas relações, mesmo que à distância

E é este último ponto, imposto em grande medida pelo isolamento social, que é uma enorme janela de oportunidade, uma vez que o que esta crise tornou evidente é que a tecnologia hoje existente nunca foi devidamente internalizada pelo sector imobiliário, mesmo que a sua adopção pela maioria das pessoas seja comum noutras áreas (sendo que as redes sociais são, porventura, um exemplo maior desta realidade).

A tecnologia permitirá, cada vez mais, associar o imobiliário a ganhos de eficiência e eficácia, promoverá a realização de negócios, independentemente das restrições geográficas ou de mobilidade existentes, tornará o processo cada vez mais transparente e fluido para todas as partes envolvidas, no fundo, garantirá que as transacções se tornem mais robustas, seguras e humanas.

É verdade que o ano de 2019 foi marcante a múltiplos níveis e dificilmente se voltará a repetir nos próximos anos, mas o futuro (não necessariamente o de curto prazo) oferece oportunidades extremamente aliciantes para todos os profissionais que estejam cientes de que o mercado mudou e que hoje aquilo que parece uma limitação, na realidade é uma enorme oportunidade de crescimento: mudar a mediação imobiliária, para que ela deixe de ser feita como o tem sido desde as suas origens e possa ser alavancada com soluções tecnologicamente avançadas e orientadas a resultados!

Por este motivo, estou em crer que o dia 11 de Março, dia em que se declarou o Covid-19 como pandemia global, ficará também associado a uma fase de profunda reflexão e mudança no imobiliário, sendo que a tecnologia será o veículo que permitirá uma mais rápida e sustentável recuperação do mercado.

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *