Opinião: “A atual situação do Covid-19 e o subsequente impacto no imobiliário”

Por a 4 de Maio de 2020

José Carvalho, CEO Grupo Omega

 

O Covid-19, esse vírus desconhecido, deu origem a uma pandemia à escala mundial, dramaticamente ameaçadora para a saúde pública. Tudo está a acontecer de forma rápida e inesperada e num abrir e fechar de olhos o mundo “parou”. As “fichas” da grande maioria das atividades sociais e económicas como que se deligaram ou melhor, entraram em modo de “hibernação”

Para o nosso País, que tão recentemente viveu uma outra crise profunda e que com muito esforço e persistência parecia estar a trilhar caminhos esperançosos, o aparecimento do “ bichinho malvado”, constitui um “murro no estômago” de consequências ainda imprevisíveis.

O sector imobiliário, atravessou nos últimos anos uma fase de grande dinâmica, tendo recuperado com muito sucesso das imensas dificuldades do passado recente. Mostrou ter atitude, conhecimento, poder de comunicação e imaginação, para contribuir para a resolução de inúmeras carências habitacionais e hoteleiras existentes e para a urgentíssima reabilitação do nossos degradados centros urbanos.

O variado conjunto de atividades económicas que gravitam ´à volta do sector, desde os serviços técnicos, financeiros, jurídicos, comerciais, aos serviços prestados pelas entidades licenciadoras, à indústria da construção e dos materiais de construção, à hotelaria e turismo, tem pois no presente contribuído de forma muito decisiva para a riqueza nacional e para a geração de emprego.

Mas esta crise é diferente da anterior crise, a das dívidas soberanas. Ela não resulta de uma deterioração da situação económica e financeira do Pais, nem de um esgotamento da procura. Nesta medida, o potencial do sector imobiliário, manter-se-á presente no futuro, que se espera breve. E quando se fala de futuro, fala-se de Tempo.

Tempo e paciência, são variáveis com que todos os atores do sector imobiliário estão muito habituados a lidar. Os projetos são sempre de média ou longa duração, fruto da inercia de todo o seu ciclo de desenvolvimento, pelo que, desde exista capacidade de encaixe financeira, será possível em muitas situações ultrapassar o “vale” em que nos situamos.

Sabemos que o tipo e natureza das respostas do Estado, o posicionamento da banca, constituem varáveis fundamentais da equação que todos temos que resolver. O Estado pode dar uma ajuda importante, em matéria de fiscalidade, de impostos, de carências nas prestações sociais, de linhas de apoio às tesourarias, de agilização de regras contratuais e jurídicas, mas será sempre um “analgésico”.

“Fator positivo constitui o fato de as empresas estarem hoje mais robustas e capitalizadas, possuindo deste modo uma resiliência melhorada para ultrapassar um “ vale” longo e cavado”

 A Banca pelo seu lado, se mantiver o seu atual posicionamento construtivo de não obstrução à concessão de crédito, será seguramente vital nos tempos actuais.

O sector imobiliário evidenciou nos anos transatos uma dinâmica assinalável, tendo conseguido superar as imensas dificuldades originadas pela designada crise das dívidas soberanas. Houve saber e imaginação, para aproveitar a atratividade que o Pais oferece, potenciadora de um excecional fluxo turístico e também para contribuir para a resolução de inúmeras carências existentes. O Grande Porto acompanhou de forma reconhecida esta realidade.

A pandemia originada pelo Covid-19, com o seu quê de desconhecido e inesperado, constituí uma dramática ameaça para a saúde pública e está a obrigar as economias a “desligar a ficha”, sector imobiliário incluído, com consequências e danos ainda imprevisíveis.

O tipo e natureza das respostas do Estado, o posicionamento da banca, a capacidade e adaptação do sector e o TEMPO de duração da crise, constituem varáveis fundamentais da equação que todos temos que resolver.

A resposta do Estado está a ser razoavelmente rápida, mas não profunda, em matéria de fiscalidade, de impostos, de carências nas prestações sociais, de linhas de apoio às tesourarias, de agilização de regras contratuais e jurídicas. Mas seria sobretudo relevante para o nosso sector, aproveitar-se o momento para uma simplificação da enorme carga burocrática a que está sujeito.

Por outro lado e para já, o posicionamento da banca não tem sido de obstrução à concessão de crédito, o que a manter-se, constituí uma boa notícia.

Dos vários atores do sector imobiliário, há que separar a análise por áreas de intervenção. A área comercial, está de momento praticamente parada face ao travão da procura, mas, aos poucos, está-se a verificar uma rápida adaptação em matéria de comunicação, com recurso às tecnologias digitais. A área dos serviços- projetos e gestão, conseguiu minorar danos, recorrendo de forma massiva ao teletrabalho. A área da construção propriamente dita, lá se vai aguentando, com uma travagem reduzida.

E os decisores do investimento. Como estão a reagir? Sendo o negócio imobiliário de ciclo longo, os promotores do Grande Porto estão tendencialmente a protelar de momento novos investimentos e a procurar manter as frentes existentes com um ritmo de desenvolvimento ajustado às circunstâncias. Fator positivo constitui o fato de as empresas estarem hoje mais robustas e capitalizadas, possuindo deste modo uma resiliência melhorada para ultrapassar um “ vale” longo e cavado.

Acresce ainda a circunstância de a região do Grande Porto estar menos exposta ao turismo comparativamente com outras regiões do País e, uma vez que se mantem em aberto a grande necessidade de habitação própria para a classe média, há a expectativa de que este segmento, possa contribuir de forma importante para uma estabilização rápida da atividade imobiliária.

Mas, tudo depende da variável que menos dominamos e que tem a primazia entre todas as que estão em jogo- o TEMPO. Curta duração para a crise, não deverá causar danos relevantes. Longa duração, pelo contrário, terá efeitos muito complicados e difíceis de prever.

Pela primeira vez dei comigo a ser fã das letras minúsculas face às maiúsculas, esperando muito ansiosamente, como creio que todos nós, que a crise seja associada a um v e não a um V…..ou então, com o espírito de conciliação da Páscoa presente, concedo que o ideal seria que a letra fosse assimétrica com o ramo esquerdo minúsculo e o lado direito maiúsculo. O TEMPO o dirá.

 

NOTA: O CONSTRUIR manteve a grafia original do artigo


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