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Engenharia

Aquisições? “Estamos a olhar para o mercado”

“Estamos a olhar para o mercado. Para determinados nichos no mercado em que não temos competências próprias internamente e consideramos que num futuro próximo poderá existir aqui margem de progressão”

Ricardo Batista

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“Estamos a olhar para o mercado. Para determinados nichos no mercado em que não temos competências próprias internamente e consideramos que num futuro próximo poderá existir aqui margem de progressão”

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Estamos perante a iminência de uma oportunidade perdida? Uma entrada significativa de empresas no mercado nacional com outro tipo de dimensão que possam um espaço que, em situações naturais, poderia ser preenchido por empresas portuguesas?
O facto de estas empreitadas e de estas obras terem, de certa forma, de ser lançadas grandes volumes de obra ao mesmo tempo, porque de outra forma não há hipótese de cumprir os calendários previstos, vai levar grupos internacionais a olharem para o mercado português. E isso não apenas na área do projecto como da construção. Há um outro problema: o sector da consultoria e da engenharia está muito fragmentado. Nós, que somos uma das maiores empresas de projecto de engenharia, mas se nos compararmos com a dimensão das empresas com que temos de ombrear, nomeadamente no mercado externo, estas são 10, 20 ou 100 vezes maiores que a Coba. Se as empresas portuguesas de engenharia se juntassem, iriamos ter uma empresa de média dimensão se comparadas com as grandes internacionais. Isto é um facto. O que poderá acontecer, e já aconteceu com outras empresas, é que o futuro pode trazer-nos alguma apetência dos grandes grupos internacionais para virem às compras. É uma forma fácil e rápida de entrar no mercado. Quanto mais concentração houver, mais prejudicado fica o mercado. Nós temos essa noção, mas são as leis do mercado.

Têm em cima da mesa a hipótese de ganharem dimensão pela aquisição de empresas em Portugal?
Estamos a olhar para o mercado. Para determinados nichos no mercado em que não temos competências próprias internamente e consideramos que num futuro próximo poderá existir aqui margem de progressão. Existem áreas de negócio que nós consideramos, internamente, como novas áreas de actividade, em que temos duas formas de crescer: ou adquirimos empresas com essas competências ou por via de um crescimento orgânico, que seria mais lento. Ambas são hipóteses em cima da mesa. Quando surgir a oportunidade e sempre que identificamos alguma empresa que possa vir a interessar, olharemos para esses casos.

Em que áreas isso poderá acontecer?
Diria que nas áreas ligadas à energia e à transição energética. São áreas com grande potencial. A necessidade que existe nos próximos anos a nível mundial no reforço de toda a área do sector eléctrico é gigantesco. A necessidade de armazenamento de energia, a necessidade de todos os processos e do tipo de processos associados à parte industrial, do hidrogénio, também são fundamentais. A parte dos combustíveis sintéticos…há um novo Mundo que se abriu com esta necessidade de dar resposta à transição energética e que são áreas que são completamente novas para as quais as empresas, nomeadamente a Coba, não tem experiência.

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MAP Engenharia com duas novas obras em execução

O edifício logístico da Bluespace, em Carnaxide, e o primeiro de dois edifícios do empreendimento Jardins Altear, em Lisboa, estão a ser executados pela companhia liderada por José Rui Meneses e Castro. Além do ‘prestígio’, as intervenções fazem parte da estratégia de diversificação

Ricardo Batista

A MAP Engenharia já iniciou a construção do edifício logístico da Bluespace, localizado em Carnaxide. A empreitada consiste na construção de um edifício logístico, vocacionado para a exploração e arrendamento de espaços de armazenamento temporário, do operador internacional de self storage Bluespace, que conta já com mais de 60 centros em 3 países. Este será o 4º centro deste operador localizado na área de Lisboa e faz parte da sua estratégia de expansão internacional. O Bluespace de Carnaxide é uma obra com uma área de construção de 8.200 m2, constituído por 1 piso enterrado e 4 pisos elevados. Está implantado num terreno onde vão ser realizados arranjos exteriores que vão contemplar espaços verdes, vias de acesso e estacionamento.

Estratégia consolidada 

Segundo José Rui Meneses e Castro, Co-Founder e Managing Partner da MAP Engenharia “a MAP Engenharia consolida a sua estratégia de diversificação e actuação em todas os sectores do mercado imobiliário. Desta vez, foi-nos atribuída a responsabilidade de construir um projecto estratégico para a expansão da insígnia internacional Bluespace, reforçando a nossa carteira no sector da Logística, uma área actualmente muito dinâmica.”

Altear avança

A intervenção em Carnaxide surge numa altura em que a empresa liderada por José Rui Meneses e Castro anuncia igualmente ser responsável pela execução dos Jardins Altear I, um projecto residencial promovido pela da SOLYD Property Developers. Trata-se do primeiro de dois edifícios do empreendimento. Desenvolvido para a contribuição de um mundo mais sustentável e para proporcionar o máximo conforto e qualidade de vida aos seus residentes, este empreendimento encontra-se localizado em plena cidade na Alta de Lisboa, entre o Parque Oeste e o Parque da Quinta das Conchas, numa zona que reúne uma variedade de espaços verdes, bons acessos, transportes, e proximidade a serviços, comércio e lazer.

O edifício é composto por 58 modernos apartamentos de tipologia T2 a T4, com áreas entre os 78 m2 e 183 m2, que se encontram distribuídos por 12 andares, 4 espaços comerciais (lojas), 123 lugares de estacionamento privativo (que contemplam pré-instalações para veículos elétricos, lugares para pessoas de mobilidade reduzida e bicicletas), um ginásio equipado, uma sala multiusos e um lobby decorado. O empreendimento alia a funcionalidade e a elegância, a uma magnífica luz natural e áreas generosas, trabalhadas com materiais de elevada qualidade, criteriosamente selecionados. No primeiro dia de comercialização, o Jardins Altear I alcançou uma taxa de reservas de 30%. Este projecto tem ainda disponibilidades para tipologias T3 e T4. Brevemente será também lançado ao mercado o Jardins Altear II II, que irá oferecer tipologias T1, T3 e T4. Segundo José Rui Meneses e Castro, para a MAP “é um enorme orgulho em participar na construção deste projecto que promove a sustentabilidade e a preocupação ambiental, e que vai proporcionar uma excelente qualidade de vida a todos os seus residentes. A MAP contribuirá com o seu selo de qualidade na construção deste relevante projecto habitacional, que cria uma nova centralidade na cidade de Lisboa.” De acordo com a administração da SOLYD Property Developers, “o jardins Altear I vem trazer mais uma oferta distintiva à Alta de Lisboa. Enquadrado no projecto ALTEAR, este novo edifício proporciona todas as exigências associadas aos projectos residenciais contemporâneos e oferece um estilo de vida que se foca no equilíbrio e no respeito pelo ambiente”.

Sobre o autorRicardo Batista

Ricardo Batista

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Entre o interesse dos investidores e os condicionalismos do mercado, 2023 será um ano desafiante

No mercado apenas desde 2019, a Hawk Real Estate Collective ultrapassou a prova de fogo provocada pela pandemia com distinção. Hoje, está presente nas regiões da grande Lisboa, reforçou a sua posição no eixo Alcácer do Sal, Grândola, Comporta e Melides e fixou-se no Algarve

No seguimento do crescimento registado nos primeiros anos de actividade, no final de 2022 deverá atingir um volume de negócios superior a 30 milhões de euros. Um dos seus últimos negócios, a entrada do hostel espanhol Room007 na capital, com a aquisição de um dos edifícios mais icónicos da Noite lisboeta, deu-lhe destaque na imprensa.

“Tinha acabado de chegar de Angola e comecei a olhar para o mercado imobiliário, em especial da grande Lisboa e percebi que havia potencial e interesse para vender grandes activos e imóveis destinados à promoção imobiliária, mas havia um gap na informação que chegava aos investidores. Para vender um terreno para construção de um empreendimento não basta tirar simplesmente fotografias e falar da vista, mas é preciso fazer analise urbanísticas, falar do potencial construtivo… basicamente ‘calçar os sapatos dos investidores’ e fazer algumas contas para perceber se esse investimento vale a pena, ou não”, conta Miguel Freitas, CEO da Hawk em conversa com o CONSTRUIR.

O primeiro negócio da consultora foi um terreno no Guincho e daí a juntar uma equipa experiente no sector imobiliário, composta por arquitectos, engenheiros e designers, foi um passo, sempre com foco em grandes activos para promoção.

A ligação pessoal a Alcácer do Sal, Grândola, Comporta e Melides potenciou o desenvolvimento da actividade, neste que é uma das “zonas mais dinâmicas do país a nível de transacções”, refere Miguel Freitas.

‘Vistos gold’ incutem dinamismo
Os investidores, em especial os que são atraídos pelas vantagens dos Vistos Gold são um dos motores desse dinamismo. “Alcácer e Grândola assim como Évora e Óbidos são geografias que os investidores priorizam e é uma área que continua a registar em forte crescimento. Começamos a desenvolver bastante negócio nessa zona e conseguimos posicionar a Hawk de uma forma bastante interessante”, refere o CEO e fundador da consultora imobiliária.

Compreender o que motiva este investidor foi, em última análise um dos segredos desse posicionamento, o qual anda a par e passo com o potencial turístico que a região oferece. E a tendência irá manter-se. “Um investidor, e em especial, aquele que vem através dos Vistos Gold, compra uma casa e espera um retorno. Não se vendem apartamentos para Vistos Gold em Chaves, por exemplo, porque depois as pessoas compram, mas percebem que não há qualquer tipo de rentabilidade. Mas naquela zona costeira umT0 ou um T1 facilmente oferece um bom retorno e é isso que estes investidores procuram. Pela minha experiência, é raro o comprador que quer, simplesmente, obter o certificado de residência e que não espere uma rentabilidade”, sustenta Miguel Freitas.

Na carteira de activos da consultora imobiliária estão edifícios devolutos, localizados em zonas históricas em Grândola e Alcácer, e que estão na mira de promotores imobiliários. Para além de portugueses, é cada vez maior o leque de nacionalidades que surge entre os seus compradores. “Temos muitos espanhóis, mas começam a surgir também norte-americanos, franceses, etc… Um crescimento do investimento estrangeiro que está associado ao novo paradigma mundial e há guerra que está a afectar a Europa. Também existe um crescimento do número de investidores brasileiros, em virtude da instabilidade que o país está a viver neste ano de eleições”, inúmera Miguel Freitas.

O objectivo próximo da consultora imobiliária é, para além de aumentar o volume de negócios em Lisboa, continuar o trabalho desenvolvido nos concelhos de Grândola e Alcácer do Sal, potenciando a enorme dinâmica gerada pela Comporta e Melides e as suas consequentes oportunidades, e crescer no Algarve.

2023 desafiante
Não obstante, o próximo ano será desafiante. “É verdade que Portugal, e em especial o sector imobiliário, tem beneficiado desta instabilidade mundial, sendo um país de refúgio. A procura continua em alta, há investidores que estão ávidos por investir, mas a oferta não é abundante e isto começa a ser um problema porque os preços depois também não baixam e os custos de construção também estão mais altos. O que começamos a assistir é que apesar do entusiasmo e do interesse do mercado, temos alguns players a refrear o seu investimento porque todos estes aumentos vão reflectir-se no preço final”, considera Miguel Freitas.

Seguindo as tendências, outra das apostas da Hawk Real Estate Collective, será no blockchain e na negociação de activos em criptomoedas. “Ainda é um nicho de mercado, mas com tendência para crescer e queremos estar presentes. Temos que estar preparados. Vamos ver como esse mercado lida com a instabilidade que se passa no mundo real, com a inflação, com as altas taxas de juro e com as alterações geopolíticas, por outro lado existem benefícios para investimentos em cripto moedas e investidores com esse perfil”, resume.

Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

Manuela Sousa Guerreiro

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Engenharia

Pontes Inteligentes são o novo desafio da BERD

O que começou por ser um spin-off da FEUP, cedo se tornou um caso sério de inovação e desenvolvimento. Depois do lançamento do sistema OPS e das pontes modulares MBS, a empresa prepara uma nova revolução na engenharia de pontes com a Bridge Intelligence

tagsBERD

A BERD, acrónimo para Bridge Engineering Research & Design, é uma empresa portuguesa que fornecesse soluções integradas de engenharia de pontes e actua na venda ou aluguer de soluções para a construção de pontes. A empresa entrou no mercado para revolucionar a indústria de construção e fê-lo à nascença com o lançamento comercial do Organic Prestressing System e da sua aplicação a cimbres autolançáveis.  “É uma tecnologia inspirada no musculo humano, é um sistema de controlo activo que envolve electrónica, engenharia mecânica e engenharia de estruturas. Mas desde então já registamos mais cinco patentes e tivemos vários ciclos de investimento”, explica Pedro Pacheco, CEO da BERD.

A criação do OPS deu novos limites à construção de tabuleiros de pontes e viadutos, antes desta tecnologia apenas era possível construir vãos até 78 metros, com este sistema já foi batido o recorde mundial com a construção do primeiro vão de 90 metros. Este método de construção in situ levou ao desenvolvimento de tecnologias adicionais e complementares ao sistema OPS. “Recentemente, em resultado de uma parceria, com a Faculdade de Engenharia, desenvolvemos um sistema que permite avaliar o endurecimento do betão e que elimina a necessidade de testes em obra. No fim do dia, a grande vantagem é que com este sistema os engenheiros recebem um SMS no telemóvel a informar que o betão está endurecido, sem outros custos industriais adicionais”, refere Pedro Pacheco.

A invenção, e inovação da BERD, desde cedo convenceu as empresas, de construção e as de venture capital, o que lhe permitiu arranjar financiamento para a área de investigação e desenvolvimento. Um modelo de crescimento que ainda hoje persiste.

Em 2016, a BERD criou uma nova área de negócio relacionada com as soluções de pontos modulares MBS, a qual veio, uma vez mais, revolucionar o mercado. Uma área que foi constituída como uma spin-in da BERD e que em 2018 conquistou o concurso internacional lançado pelo ministério dos Transportes e Comunicações do Peru para o fornecimento de pontes modulares, com vãos entre os 15 e os 60 metros, no valor de 17 milhões de euros com o objectivo de responder às necessidades das ocorrências do El Niño. O mesmo projecto que este ano conquistou o prémio internacional atribuído pela EECS European Steel Bridge Awards 2022, por representarem “uma grande evolução ao nível da engenharia”, permitindo uma poupança de 20% no consumo de aço, face aos projectos convencionais, com uma redição da pegada de carbono, tendo sido emitidas menos 3240 toneladas de CO2, comparativamente à média dos projectos tradicionais, a par da evolução estética.

“Este projecto já se encontra finalizado, mas esta é uma das áreas de negócio que mais cresceu, representando, desde 2019 mais de 50% da facturação da BERD. As pontes modelares foram essencialmente desenvolvidas por um engenheiro inglês, Donald Bailey, durante a segunda guerra mundial e eram usadas para fins militares. Esse modelo pelas suas múltiplas vantagens no tempo de montagem e na facilidade de adaptação a várias configurações começou a ser muito usado não só para fins militares, mas também para fins civis. E Este é o modelo adoptado por todos os nossos concorrentes, mas que obedece a um paradigma próprio do século XX, em que cada peça era pensada para ser transportada por quatro militares e isso condicionava o desenho, as ligações e a concepção da ponte.  Nós pegamos no tema e resolvemos pensar as pontes do zero, pensando no contexto do seculo XXI”, conta Pedro Pacheco.

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Um salto na Inteligência

Aos dois rounds de investimento a BERD acrescentou, recentemente, um terceiro. A entrada de um novo accionista no capital da BERD promete revolucionar a já inovadora empresa. “Há um novo investimento que vai dar origem a uma nova spin-in, mas que poderá dar origem a uma spin-off, que é a Bridge Intelligence. Esta é uma área nova que está ligada à inteligência artificial”, adianta Pedro Pacheco. O CEO da BERD prefere, para já, não desenvolver aquela que é a nova área de investigação e desenvolvimento da BERD e a qual promete ter efeitos, muito substanciais, no próximo ciclo de negócios da empresa que inicia no final de 2023.

“Fazemos as contas por triénio porque os nossos negócios são de natureza plurianual e, portanto, fazem sentido nessa logica.  Estamos a crescer desde a origem e este triénio, até ao momento, já temos um volume de negócios contratado que já ultrapassa o triénio anterior e ainda estamos a meio deste ciclo, 2021 – 2023. Acredito que o crescimento da BERD será expressivo no final de 2023”, refere o CEO da empresa.

Um resultado para o qual contribuem “apenas” aquelas que são as áreas de negócio actuais da empresa e ainda sem influência da Bridge Intelligence, a qual segundo Pedro Pacheco terá “um impacto expressivo, mas apenas no próximo triénio”.

Com actividade essencialmente internacional, a BERD é hoje uma marca premium a nível mundial, líder europeu no segmento onde actua.  Com projectos desenvolvidos em cinco continentes, com clientes e projectos em dezenas de países. Neste triénio destacam-se os mercados dos EUA, Alemanha, UK, França, Países Baixos, Eslováquia, Peru, Egipto e Moçambique. A actividade em Portugal arrancou este triénio, embora continue a representar menos de 5% da facturação.

Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

Manuela Sousa Guerreiro

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Imobiliário

Belga Atenor prevê investir cerca de 200 M€ em Lisboa

Promotora conta já com três projectos em desenvolvimento, um dos quais diz respeito ao terreno onde se encontra a loja Leroy Merlin, no Parque das Nações. O pipeline ultrapassa os 50 mil m2 de escritórios em Lisboa, mas, no futuro, não excluem investir também no Porto

Cidália Lopes
tagsAtenor

A promotora belga Atenor prossegue o crescimento da sua actividade em Lisboa através da aquisição de dois novos projectos, que se juntam ao primeiro empreendimento que o Grupo está a desenvolver em Lisboa, o edifício de escritórios WellBe, no Parque das Nações. Segundo Gregory Van der Elst, country director Portugal, “estas duas aquisições enquadram-se perfeitamente na estratégia de expansão europeia da Atenor como International Sustainable Urban Developer”. No total, o pipeline da promotora ultrapassa os 50 mil metros quadrados (m2) de escritórios em Lisboa, o que representa um investimento de quase 200 milhões de euros.

WellBe ou o edifício “verde”

No coração do Parque das Nações, em Lisboa, o edifício de escritórios WellBe é o primeiro projecto promovido pela Atenor em Portugal. Com um investimento de 100 milhões de euros, Gregory Van der Elst avança que “a construção está prevista arrancar ainda em Outubro, estando apenas à aguardar uma adenda à licença de descontaminação do solo”.

Com cerca de 28 mil m² de escritórios, 1.250 m² de lojas e estacionamento privado e público e com acesso a transportes públicos, o projecto WellBe pretende colocar o verde em destaque e abrigará um novo espaço verde de 1.000 m² acessível ao público, bem como 400 m² de terraço verde privativo. O edifício de escritórios estará também equipado com as mais recentes tecnologias em matéria de controlo energético e sustentabilidade e prevê, entre outras coisas, a instalação de mais de uma centena de painéis fotovoltaicos. Neste sentido, o WellBe será o primeiro projecto em Portugal a ser pré-certificado pelo IWBI (International WELL Building Institute). Em última análise, o projecto pretende obter as certificações BREEAM “Excellent”, WELL “Platinum” e Passive House.

Graças à sua experiência internacional, seu laboratório de inovação ArchiLab e sua estrutura multifuncional, a Atenor integra a sustentabilidade no centro da sua política corporativa e pretende desempenhar um papel de liderança na promoção de edifícios de alto desempenho, alinhados com a taxonomia europeia, atendendo aos padrões BREEAM e WELL o mais alto, e no início de 2023 para os padrões GRESB.

‘Interface North’

Também no segmento de escritórios, o próximo projecto resulta da aquisição de um lote de terreno, com 8.373 m2, à Multi39, numa operação que contou com a assessoria da Cushman & Wakefield por parte da Atenor e da JLL, em representação do vendedor. Com licença de construção para o desenvolvimento de um edifício de aproximadamente 14.000 m2 de escritórios e 450 m2 de lojas, o futuro edifício localiza-se na zona do Campo Grande, junto ao estádio do Sporting Futebol Clube de Lisboa, tem o início da construção prevista para o primeiro semestre de 2023.

Leroy Merlin será demolida

A mais recente aquisição da Atenor, novamente no Parque das Nações, diz respeito ao terreno onde se encontra a funcionar actualmente a loja Leroy Merlin, cujo espaço será demolido e, posteriormente, reintegrado.

Com 6 800 m2 de escritórios e 1 800 m2 reservado a comércio, trata-se de “um esquema de desenvolvimento misto de escritórios e retalho”. Para este projecto a Atenor lançou “um concurso para um grupo limitado de arquitectos com vista a seleccionar um projecto antes do final do mês de Outubro”. A construção do empreendimento terá início assim que o projecto estiver finalizado e a licença de construção aprovada, “o que prevemos que possa acontecer durante a primeira metade de 2024”, acrescenta o responsável.

“Não excluímos o Porto no futuro”

Como opção estratégica e por se “de um mercado com maior dimensão e maior liquidez”, a cidade de Lisboa foi a escolha natural para entrar em Portugal. Para já, os investimentos do Grupo vão manter-se pela capital, mas “não excluímos investir também no Porto, uma vez consolidadas as nossas actividades em Lisboa”.

Tendo como base o conceito ‘Live, Work e Play’, o portefólio da Atenor abrange um conjunto alargados de projectos. Ainda que escritórios e empreendimentos residenciais representem aproximadamente metade do pipeline total, outras funções como hotéis, casas de repouso ou escolas encaixam no mix de funções necessárias para a vivência de bairro.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

Jornalista
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Construção

“Temos uma carteira de investimentos avaliada em cerca de 30 milhões de euros”

Com mais de 400 equipamentos para gerir, número em constante mutação atendendo ao património que ora é colocado no mercado, ora é entregue à instituição por beneméritos, o Departamento de Gestão Imobiliária e do Património da Santa Casa de Lisboa tem pela frente um conjunto de desafios, desde logo associados ao financiamento das operações de recuperação do património. Ao CONSTRUIR, a administradora da Santa Casa para a área do património, Ana Azevedo, explica que estratégias estão a ser delineadas para fazer face aos problemas e antecipa a importância dos privados nessa estratégia

Ricardo Batista

Ao CONSTRUIR, a administradora da Santa Casa de Lisboa para a área do Património revela a estratégia da organização para colocar em andamento as operações que têm calendarizadas. A diminuição de receitas globais e a inflação dos preços de construção estão entre as medidas que carecem de solução prioritária. Ana Azevedo explica o caminho a seguir.

Atravessamos um período conturbado, de profunda transformação a vários níveis. Que radiografia consegue fazer da máquina que tem em mãos?
Não há muito essa percepção, mas mais de 80% do património da Santa Casa resulta de benemerências, ou seja, de pessoas que pelo seu falecimento, confiam os seus bens à instituição. São pessoas que, muitas vezes, são apoiadas na sua velhice pelos nossos serviços, mas há muitas outras que não e que são apoiadas por familiares. Temos também casos de pessoas que passaram parte da sua velhice sozinhas. A Unidade de Benemerências do Departamento de Gestão Imobiliária e do Património acompanha sempre aquilo que chamamos de benemérito, mesmo que não exista uma necessidade de acompanhamento social. São inúmeros os casos de pessoas que asseguram que vão deixar património ao cuidado da Santa Casa e acabam por não deixar nada, outros que nada dizem mas que acabam por nos entregar bens, até para grande surpresa nossa. São pessoas que, no fundo, no seu final de vida acabam por ter sempre alguma relação connosco e que nós tentamos acompanhar até ao seu fim. Esse património tem ónus. Quando nos é entregue, há o intuito de contribuir para as boas causas da Santa Casa, ou seja, destinar o imóvel a uma creche, a crianças deficientes, a idosos, casas de acolhimento para jovens. Depois, há todo um outro conjunto de património que não está onerado nem pelo benemérito nem por necessidades nossas. Esse património nós tentamos reabilitar e pode servir de fonte de rendimento da Santa Casa, à semelhança dos jogos sociais, mesmo que numa dimensão diferente.

Os jogos sociais são a nossa principal receita mas, logo a seguir, a principal receita é, de facto, o nosso património. Isso representa uma responsabilidade acrescida. Este património é muito diversificado. Grande parte está localizado na área de Lisboa, mas não é uma exclusividade. Temos, por exemplo, uma grande benemérita em Portalegre, que nos deixou um conjunto de herdades. Grande parte deste património que nos é entregue apresenta evidentes sinais de degradação e, por isso, temos de tentar encontrar formas de financiamento das operações de recuperação para, posteriormente, os colocar ou ao serviço da nossa actividade ou no mercado de arrendamento. Neste caso, tentamos, quando possível, que seja alocado ao mercado livre de arrendamento porque, de facto é isso que nos garante receitas. Mas temos inúmeros exemplos de edificado que é colocado ao serviço da cidade, por via do arrendamento jovem, arrendamento acessível resultante de parcerias com a autarquia ou o próprio Estado… Tentamos que o nosso património vá ao encontro do perfil e das necessidades da cidade de Lisboa…

Há uma vertente social associada ao património…
Há sempre uma causa social, ou porque o destinamos a isso ou porque o produto das receitas reverte para essas causas. A nossa missão não é necessariamente o lucro. Tudo o que é fonte de receita da Santa Casa é alocado a causas. É, no fundo, a grande diferença entre o lucro e a receita. Por vezes as pessoas não entendem bem este princípio… Recentemente, lançámos nas redes sociais uma grande campanha de arrendamento com vários preços e recebemos alguns comentários de pessoas que não entendiam os valores praticados. De facto, temos preços de arrendamento jovem, preços de arrendamento livre. Há de tudo. Acontece que as pessoas se esquecem de que o resultado daquele arrendamento não é o lucro, é sempre o apoio a determinadas causas. Apoiamos mais de 60 mil pessoas. Temos de gerir mais de 400 equipamentos. Isto traz-nos uma necessidade muito grande de angariar receitas para meter a máquina a funcionar. Não é fácil. Temos famílias inteiras que acompanhamos. Temos equipamentos na Santa Casa que não existem em mais lado nenhum, como por exemplo, a Obra Social do Pousal, um equipamento com 100 pessoas, pessoas com algum grau de deficiência mental e muitos deles estão ali quase desde que nasceram, ora porque as famílias não podem cuidar destes utentes, ora porque simplesmente não querem. Como vê, o espectro de perfis que acompanhamos é muito diversificado e as respostas da Santa Casa são quase à medida. A Santa Casa é a Santa Casa, não vira as costas a ninguém e isso, além de um grande desafio, traz-nos uma grande responsabilidade.

A juntar a tudo isto, actualmente deparamo-nos com um sério problema associado aos custos das operações, a começar pelos custos dos materiais ou os custos de construção por metro quadrado. Se já vínhamos a assistir a uma subida significativa destes custos, a pandemia agravou este cenário e o conflito na Ucrânia adensou o problema. As nossas necessidades de financiamento para reabilitação duplicaram. Nós somos uma entidade privada de utilidade pública, mas seguimos os preceitos da contratação pública. Isso dá-nos alguma flexibilidade na gestão mas, por outro lado, temos de seguir as regras. Somos integrados no perímetro orçamental do Estado e cada vez que lançamos uma empreitada identificamos o respectivo preço-base. Tivemos em mãos empreitadas com o preço-base lançado em Março cujo valor acabou por duplicar, um problema sério considerando que nos obrigou a medidas adicionais e soluções para financiar as operações. Houve obras que pararam e outras que estão dependentes de financiamento bancário. Do mesmo modo, vamos procurar financiamento do PRR ou fundos comunitários para prosseguir acções que temos pendentes. Tivemos, no fundo, de abrir um leque de alternativas de financiamento e de estabelecimento de prioridades, avançando apenas com parte dos projectos que tínhamos em carteira.

Dados revelados em meados de Julho apontam para que, desde 2019, houve uma perda de receitas provenientes dos jogos na ordem dos 1500 milhões de euros. Valores significativos. Que implicações teve esta realidade não apenas na gestão do vosso património como na identificação de alternativas de receitas?
As receitas da Santa Casa são repartidas, de acordo com um Decreto e uma Portaria, para quase todos os Ministérios do Estado e não têm aplicação apenas na cidade de Lisboa. São verbas destinadas ao Desporto, Educação, Segurança Social, Cultura ou para o Turismo. Há, de facto, uma fatia significativa que fica efectivamente na Santa Casa, tanto mais que a entidade se substitui integralmente à Segurança Social na cidade, a área mais populosa do País e com as necessidades sociais de maior dimensão. A perda de receita que se tem vindo a sentir desde a pandemia afecta substancialmente a actividade da Santa Casa atendendo a que as competências assumidas por nós, e que cabiam à Segurança Social, tinham como pressuposto um determinado volume de receitas que estava em crescimento. A receita pode descer, mas os nossos compromissos não terminam, ou seja, temos de continuar a assumir os compromissos que nos foram sendo passados pela Segurança Social e pelo Estado. A Santa Casa não assume apenas compromissos da Segurança Social. Basta perceber que gerimos unidades de cuidados continuados, gerimos o Hospital de Alcoitão e da Parede. A Santa Casa acaba, no fundo, por funcionar como um mini-Estado, que toca em várias áreas, desde a acção social à cultura e ao desporto. É uma casa muito diversificada. A diminuição de receita afecta uma boa parte das nossas respostas sociais e é uma preocupação. Mas estão a ser tomadas providências para inverter essa tendência, nomeadamente diversificando as fontes de receitas. Uma dessas formas pode passar pela rentabilização do património, na medida do possível. Por outro lado, essa diminuição de receitas do jogo, não permite o lançamento de muitos dos projectos que, mais tarde, poderiam servir como fonte de receita.

Quais são as vossas prioridades neste momento, atendendo também a esta questão das receitas?

Percebemos, nesta fase, que não podíamos ‘ir a todas’. Tínhamos uma série de empreitadas já calendarizadas, quer para a nossa actividade, quer para novos equipamentos sociais ou mesmo prédios de rendimento que foram suspensas. As que mantivemos foram aquelas que considerámos, do ponto de vista da nossa acção social, prioritárias para o efeito. Nesse caso, o que fizemos foi estabelecer candidaturas ao PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), algumas das quais já aceites. No caso dos prédios de rendimento, apostámos em algumas empreitadas. Vamos lançar três empreitadas para prédios de rendimento (Manuel de Arriaga, Rua de S. Paulo e Rua dos Lagares), dado que eram os prédios que nos permitiam ter mais unidades para alocar ao mercado de arrendamento. Relativamente a estas, candidatamo-nos a um financiamento bancário do IFRRU que nos vai assegurar a conclusão destes projectos. No final de 2024, contamos ter estes três edifícios já no mercado de arrendamento. O investimento estimado para as intervenções nestes três edifícios ronda os sete milhões de euros.

Que tipo de utilização terão estes edifícios?
São edifícios destinados a habitação, num total de 40 fracções disponíveis. Além de habitação, haverá igualmente lojas. Além destes, tínhamos muitos edifícios de grande dimensão, nomeadamente alguns conventos. Herdámos espaços de recolhimento da Segurança Social, como o de Santos-o-Novo, o de São Cristovão, as Merceeiras, grandes edifícios degradados que carecem de grandes intervenções em termos de reabilitação e, por conseguinte, grandes investimentos. De acordo com uma nota do gabinete da ministra da Segurança Social, há sérias carências de camas para alojamento urgente, sejam para sem abrigo ou mesmo vítimas de violência doméstica. Olhando a isso, temos um conjunto de 11 edifícios que vamos candidatar à Bolsa Nacional de Alojamento Temporário. Alguns serão geridos por nós, outros serão geridos por outras entidades da economia social, como IPSS ou associações. Entre a Bolsa Nacional do Arrendamento Urgente, a requalificação dos equipamentos sociais a que nos candidatámos, alojamento estudantil. Candidatámo-nos também ao PRR para residências de estudantes, candidatura aceite no valor de 3,5 milhões de euros, que vamos aplicar na requalificação do Convento de Santos-o-Novo. Falamos, neste caso, de um projecto intergeracional, atendendo a que será destinado não apenas a uma residência para estudantes como uma ERPI. Trata-se de um programa integrado em que reabilitaremos todo o convento e teremos as duas valências, que vão acabar por funcionar como um conjunto. Os jovens, no fundo, vão ajudar os mais velhos com aquilo que possam fazer, seja ao nível das compras, programas culturais ou, mais que não seja, companhia. Este é um projecto desenhado pela Santa Casa em articulação com o ISCTE, que é quem tem a gestão da residência de estudantes.

Há uma perspectiva da dimensão global desse investimento?
Temos uma carteira de investimentos avaliada em cerca de 30 milhões de euros, que estimamos que esteja concluída até 2026, altura em que termina o PRR. Mas há todo um conjunto de aspectos nestes processos que não dependem de nós. Um promotor privado avança com uma empreitada num terreno limpo, tem os seus timmings que envolvem a relação com a câmara e que são morosos – e que nós também temos – e depois têm as questões dos valores das empreitadas. No nosso caso, temos sempre questões adicionais: licenciar um projecto numa autarquia não leva menos de dois anos, demora muito tempo. Mesmo com as diligências múltiplas para ultrapassar estes problemas, acaba por haver umas alturas melhores que outras; depois temos a questão da contratação publica, que um promotor não tem. Um procedimento de empreitada não demora menos de nove meses, internamente, a ser lançado, também muito graças às regras e normas vigentes; depois, temos a questão de o nosso património estar, em grande parte, inserido em área de reabilitação urbana e ser património classificado, como é o caso, por exemplo, do convento de Santos-o-Novo e, por isso, sujeito a pareceres de inúmeras entidades. Para lhe dar um exemplo: temos um loteamento no Rio Seco, na Ajuda, onde foram encontrados vestígios arqueológicos. A esse propósito, fomos obrigados a alterar completamente o loteamento. Ou seja, todo o loteamento que estava aprovado na Câmara teve de ser alterado para ir ao encontro dos achados, reduzindo-se substancialmente a área de construção. Esta é uma máquina complexa. O que é que eu acho que esta casa tem e que é um ponto positivo no Departamento do Património? As pessoas. As equipas. São pessoas muito dedicadas à causa que têm muita experiência na área. As pessoas quando estão na Santa Casa vestem a camisola e mesmo com todas as dificuldades, conseguimos ir gerindo. Há alturas muito difíceis, mas vamos tentando fazer o nosso melhor. Claro que temos uma óptima articulação com a Câmara de Lisboa e isso é muito valioso. Basta perceber que a Santa Casa é, quase de certeza, um dos maiores promotores da cidade. Temos certa de 80 processos pendentes, não deve haver promotor nenhum com esta dimensão de processos pendentes, desde empreitadas, intimações pela degradação de prédios que carecem de contenções de fachada, emissões de licença de utilização. Obras várias em diferentes pontos. Esta dimensão burocrática só se consegue ultrapassar com uma boa relação com as diversas entidades. Até porque, convenhamos, a resolução destas questões interessa a todas as partes envolvidas.

Há aproximadamente dois anos, chegaram a um entendimento para a gestão da maioria do capital do Hospital da Cruz vermelha. Novos projectos com esta dimensão, com estas características, estão no vosso horizonte?
A Cruz Vermelha é um caso particular. Entrámos, em conjunto com a Parpublica, no capital social da Sociedade Cruz Vermelha. Mas em relação aos hospitais da Parede e de Alcoitão, o que pretendemos em termos de obra é tentar recuperar o que existe. Falamos de edifícios antigos, apesar de o Hospital da Parede ter um bloco totalmente novo. O desafio passa agora pela recuperação do edifício antigo para conseguir ter mais camas e para que consigamos um serviço de melhor qualidade e, com isso, uma maior receita. Este é um investimento que está calendarizado e que vamos procurar materializar com recurso à Bolsa de Trabalhos com algumas empresas de construção, o que nos vai permitir executar pequenas reabilitações nos edifícios. Não será, seguramente, para o ano de 2023 mas vai prolongar-se para 2024. Falamos de edifícios muito bonitos mas datados, que carecem de obras que os tornem funcionais à luz das necessidades e das exigências ditadas pela actual legislação. Além do mais, são equipamentos antigos que pertenciam ao Estado e que depois passaram para nós. O que estamos a fazer é a regularização de todo esse edificado em termos de licenciamento e isso está a acontecer tanto na Parede como em Alcoitão, para termos tudo em condições ao nível dos projectos de segurança contra incêndios, etc. Na sequência disso, vamos avançar com as reabilitações necessárias tendo em conta as necessidades dos equipamentos e que todo o corpo directivo das unidades propõe como acções necessárias na área da saúde dos tempos modernos. Há exigências funcionais hoje que não se colocavam há 20 anos.

O departamento tem a particularidade de ter equipas internas de projecto assumindo, de algum modo, uma visão mais corporativa, uma linha de acção própria de uma entidade comum. Nessa actuação, onde cabem conceitos como a sustentabilidade, por exemplo?
Temos essa questão sempre assegurada. Além dos projectistas internos, que concebem a grande parte dos nossos trabalhos, trabalhamos com equipas externas, desde logo porque não temos capacidade para responder a todas as necessidades. Ou seja, subcontratamos projectistas, alguns deles mesmo em modelos de concepção/construção. Há uma série de modalidades a que recorremos. Quando os nossos projectistas desenvolvem o projecto internamente, têm sempre em mente duas preocupações: quando o projecto diz respeito a um edifício de actividade, há a preocupação de seguir integralmente as regras da legislação existente seja na área da saúde, da acção social ou outras; depois a questão da sustentabilidade, seja ao nível da eficiência energética ou em tudo o resto. A Santa Casa, além disso, tem um departamento de Qualidade e Inovação que trata de toda a área de Sustentabilidade, o que confere algumas exigências adicionais aos projectos. Há todo um extenso trabalho que ultrapassa as competências deste departamento de património.

Quais são os grandes desafios que tem em mãos neste momento?
O meu mandato termina no início de 2024. Diria que o grande desafio passa por garantir financiamento para executar os projectos de reabilitação que temos em mãos. Muitas das obras já vinham de trás e para nós é importante concluir essas obras. Em Dezembro, vamos concluir dois edifícios de rendimento, na Calçada da Ajuda e na Rua do Século, um conjunto de 20 fracções repartidas pelos dois edifícios que vamos ter colocar no mercado de arrendamento. A juntar a isso, temos também de considerar forma de sustentar os programas que foram, entretanto, suspensos. Contratámos, recentemente, uma consultora que desenvolveu uma análise integral do património da Santa Casa para nos ajudar a perceber quais seriam os melhores mecanismos de gestão: se seria a Santa Casa sozinha a desenvolver os programas, se há forma de estabelecer parcerias com fundos de investimento. Tudo isso está identificado, até mesmo o conjunto de património que pode ser alienado porque, de uma ou outra maneira, poder representar uma mais-valia. Essa alienação ou a receita de rendimento pode representar um grande input em termos de receita. Já temos o relatório em nossa posse e temos presente que haverá património a ser alienado e o produto dessa venda vai sustentar parte da nossa operação.

Qual a dimensão do património a alienar?
Falamos de 25 unidades, entre fracções e prédios, que serão colocados em hasta pública e com isso, procuramos arrecadar pelo menos 10 milhões de euros. No fundo, procuramos formas de financiar e gerir a nossa operação, encontrar parceiros que nos possam ajudar nessa gestão, sejam fundos de investimento, a possibilidade de arrendamento com obras a cargo. Tivemos, recentemente, essa experiência com entidades publicas. Somos parceiros da Estamo no fundo Imomadalena e esse prédio, na Rua da Madalena, será colocado no mercado de renda acessível, sendo que a obra está já em marcha. Até meados de 2023, esta obra estará concluída, certamente. Este é o maior desafio que temos em mãos. Quanto aos edifícios, ao seu destino, esse trabalho está feito. Além do trabalho com a consultora, já tínhamos anteriormente feito um trabalho interno, um plano estratégico, para avaliar qual poderia ser o futuro do património da Santa Casa nos próximos anos que também nos ajudou bastante. Aliás, este retrato foi também aproveitado pela própria consultora na análise que fez. Esse trabalho está bem identificado e conseguimos perceber, com rigor, quais os edifícios que pretendemos reabilitar, os que queremos vender porque o Capex do investimento é tão grande que não vamos conseguir ter o retorno suficiente para alocar essas verbas a outros projectos. Estamos também a aguardar a abertura do novo Quadro Comunitário de Apoio 2030, os primeiros avisos devem estar prestes a ser lançados. Aí, estamos a falar em património afecto à Saúde ou da Acção Social. Os problemas, de um modo global, estão identificados e o património está radiografado, mas importa, por tudo isso, criar condições para desenvolver os programas previstos. Para isso, reitero, é importante encontrar os melhores parceiros, tanto mais que a Santa Casa não se pode fechar sobre si mesma e pensar que conseguir fazer tudo sozinha.

É importante ter parceiros e abrir horizontes para novas áreas e novos clientes. Os promotores podem ter um papel importante nesse domínio. Além destes edifícios que falámos, temos pronto um edifício em Monsanto, uma obra belíssima que estamos a tentar direccionar para a área da Saúde, mais concretamente na área das demências. Falta no País, designadamente na cidade de Lisboa, respostas para este tipo de utentes que tenham algum problema na área neurológica e que possam ter aqui um espaço adaptado. Este nosso edifício, que foi um edifício doado pela Nestlé, vai ter capacidade para cerca de 62 utentes, já está pronto e aguardamos a licença de utilização. Estamos a montra um projecto com este fim específico. Além deste, temos o projecto da Mitra, um espaço fantástico que terá inúmeras valências. Trata-se de um projecto integrado, designado Lisboa Social, que terá valência de Lar, de empreendedorismo social, que contou com a reabilitação do património pela área exterior e vamos agora avançar com a recuperação dos interiores. Terá igualmente uma creche. Falamos de um projecto ancorado na Sustentabilidade, Empreendedorismo e inovação.

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Ricardo Batista

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“Acho que a abordagem para mitigar a crise climática precisa ser radical”

Arquitecta, investigadora e docente, Marina Tabassum é a vencedora do Prémio Carreira Trienal de Lisboa Millenium bcp, da edição de 2022. Segundo a organização, a sua prática ao longo das últimas três décadas a partir natural do Bangladesh, de onde é natural, “é um exemplo inspirador de como o trabalho em arquitectura com comunidades locais pode ter repercussões em todo o Planeta” indo, por isso, ao encontro dos valores propostos de Terra

Cidália Lopes

Em entrevista à Traço, a Marina Tabassum aponta o importante papel da selecção de materiais e estratégias ambientais na definição do tecido do edifício como forma de minimizar os efeitos das alterações climáticas e acredita que a abordagem precisa “ser radical”. Da mesma forma, considera que a arquitectura deve assumir “um papel de agente de mudança” no que diz respeito ao trabalho junto de comunidades locais mais desfavorecidas. Uma prática que deve sobrepor-se “a um mercado orientado para o lucro”. O caminho já começou e, com este prémio, Tabassum pretende estimular, ainda mais, discussões sobre o papel da arquitectura na mudança de pensamentos e valores.

Qual é a importância desta distinção?

Os reconhecimentos são importantes, pois trazem para o foco questões e buscas que são relevantes para o nosso tempo e contexto. Estamos a viver um momento muito interessante de mudança de paradigmas. Espero que distinções como esta da Trienal de Lisboa estimulem discussões sobre o papel que a arquitectura pode ter na adaptação da paisagem à mudança dos nossos pensamentos e valores.

Qual a importância do papel da arquitectura como veículo/ferramenta social?

A indústria da construção civil, da qual nós arquitectos somos parte integrante, é um dos maiores contribuintes da crise climática, aumentando o stock de resíduos e o acesso desigual a um ambiente de vida de qualidade.

Se considerarmos o contexto actual do nosso tempo em que o ambiente natural habitável está ameaçado pelo excesso de extracção da matéria-prima e produção com o foco único no crescimento económico, isso criou uma enorme disparidade nas condições de vida tanto no contexto urbano quanto no rural. Quão responsável será nossa profissão se o continuarmos a negligenciar? A arquitectura, os arquitectos e toda a indústria da construção têm responsabilidade para com uma sociedade equitativa. Como profissão criativa temos a capacidade de reimaginar e reinventar formas de usar a arquitectura como ferramenta social.

Bait-Ur-Rouf-Mosque_©-Sandro-Di-Carlo-Darsa

A urgência de cuidar da ‘Terra’ leva a uma mudança radical na forma como a arquitectura é projectada e feita. Quais são as principais mudanças que já se fazem sentir?

A Terra pode curar-se sem intervenção humana, se reduzirmos as nossas actividades antropogénicas. Cuidar da Terra é, na verdade, cuidar do nosso ambiente habitável. Testemunhámos durante a pandemia, quando entrámos em confinamento, como a natureza se cura quando as actividades humanas são reduzidas. Precisamos restaurar o ecossistema, limpar o ar e a água, reduzir os resíduos antropogénicos não apenas para a Terra, mas para a nossa própria existência.

Porque é que construímos edifícios revestidos de vidro em regiões de climas quentes, onde a temperatura pode chegar a 55°C. Deveria ser crime desperdiçar energia na refrigeração destes edifícios.

Em vez de construir novos, precisamos nos concentrar no ambiente construído que criamos e trabalhar em estratégias de adaptação que sejam amigáveis ​​ao meio ambiente, fazendo uso dos recursos naturais como luz do dia, vento, sombra-sombra respondendo aos contextos e reduzindo nossa dependência sobre combustível fóssil. Precisamos abordar a vegetação e a segurança alimentar, que por si só pode actuar como acção restauradora.

Como prevê que sejam os próximos anos em termos de como o planeta enfrentará a crise climática? E que acções devem ser tomadas a nível global para que a profissão de arquitecta desempenhe um papel cada vez mais activo?

Em Bangladesh, já estamos a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Os padrões climáticos imprevisíveis estão a perturbar a ecologia agrícola. A subida do nível do mar, induzida pela crise climática aumentou as inundações, a erosão das margens dos rios e afectou também a biodiversidade das zonas costeiras. Um grande número de pessoas tornou-se ‘migrantes climáticos’.

Condições climáticas extremas na forma de secas, inundações, furacões, deslizamentos de terra, incêndios florestais estão a acontecer de forma global e a afectar um grande número de pessoas. Estes fenómenos vão aumentar nos próximos anos.

Acho que a abordagem para mitigar a crise climática precisa ser radical. A arquitectura precisa de se concentrar apenas em edifícios e construções essenciais. Pelo menos durante uma década, a arquitectura devia focar-se na recuperação do desequilíbrio ambiental. Construir para os desfavorecidos e para as vítimas mais vulneráveis às alterações climáticas é mais importante do que construir apartamentos e escritórios de luxo. Mas um mercado orientado para o lucro não se concentrará em abrigar esta população. Neste sentido, os arquitectos podem assumir o papel de agentes de mudança.

Mas a nível global, não deve ser difícil reduzir a extracção, a superprodução de edifícios e materiais de construção. Podemos reduzir as longas cadeias de fornecimentos adquirindo materiais localmente, com o foco em pesquisas colaborativas sobre como transformar em materiais de construção utilizáveis os resíduos. Cada edifício deve ser resiliente ao clima e optimizar o uso de energia e isso pode ser exigido por lei. A reutilização adaptativa deve ser incentivada em vez da substituição completa dos edifícios existentes.

Museum-of-Independence-and-Independent-Monument_©-Sandro-Di-Carlo-Dars

A forma de fazer arquitectura difere do contexto, do país, das condições socioeconómicas. O que podemos aprender com o que está a ser feito em Bangladesh e nos países vizinhos?

Nem tudo que está sendo feito em Bangladesh e na região são exemplares que podem ser replicados. Mas há muitos arquitectos e escritórios de arquitectura que abordam a profissão com mais responsabilidade do que os outros. Grande parte de nossa arquitectura pretende ser ‘climate responsive’ e ao contexto e são menos dependentes de meios artificiais de controle climático. Também procuramos que os materiais utilizados sejam, normalmente, provenientes do país. Além disso, recorremos à força de trabalho local para trabalhar no sector da construção. Isso gera economia local.

Temos comunidades de jovens arquitectos que não seguem a forma convencional da prática, mas com foco no trabalho com comunidades menos privilegiadas através de processos participativos de design e construção. Mesmo quando não há clientes ou financiamento, os arquitectos estão a criar projectos e a envolver pessoas para construir os seus próprios ambientes de vida. São novas formas de práticas que se estão a mostrar muito impactantes para as comunidades de baixos rendimentos.

Quais os projectos que destacaria e porquê?

É difícil destacar projectos, pois cada um é diferente devido ao seu contexto, programa e narrativa. A mesquita Bait ur Rouf é o primeiro projecto que chamou a atenção para a nossa prática. É um projecto único onde todas as minhas preocupações arquitetónicas se manifestaram através do design.

Os projectos nos campos de refugiados são únicos pelo contexto e narrativa difíceis e também pelas restrições impostas à construção que nos obriga a procurar formas inovadoras de construção. Os projectos são o resultado do envolvimento da comunidade no design e na sua própria construção.

Por exemplo, a unidade de habitação modular móvel Khudi Bari é a nossa resposta à preparação climática para as comunidades marginalizadas de Bangladesh. Este é, também, um projecto único que ajudou a salvar as vítimas das cheias, incluindo os seus vizinhos na recente enchente de 2022.

BIO

Marina Tabassum

Arquitecta e investigadora e docente natural do Bangladesh, Marina Tabassum fundou a Marina Tabassum Architects, com sede em Dhaka, em 2005, depois de 10 anos como sócia e cofundadora do URBANA, também em Dhaka. No seu trabalho, que vai do institucional ao multi-residencial e ao cultural, Marina Tabassum procura “estabelecer uma linguagem de arquitectura que seja contemporânea, mas reflexivamente enraizada no lugar”.

Marina Tabassum é directora académico do Bengal Institute for Architecture, Landscapes and Settlements, uma plataforma intelectual para aqueles que estão empenhados a imaginar e moldar futuros ambientais na região. Leccionou na Harvard University Graduate School of Design, Technical University, Delft, University of Texas at Arlington e BRAC University, tendo sido, também, agraciada com um doutoramento honorário da Universidade Técnica de Munique.

A sua contribuição no campo da arquitectura rendeu-lhe honras e elogios, incluindo Prémios Aga Khan para Arquitectura, o Prémio Memorial Arnold W. Brunner, da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Academia Francesa de Arquitectura, a Medalha Soane de Sir John Soane Museum e o Prémio Jameel do Victoria and Albert Museum.

Marina Tabassum está, igualmente, envolvida na organização de comércio justo Prokritee como membro do Conselho, capacitando mulheres de Bangladesh através da exportação de objectos artesanais. Iniciou, também, projectos de habitação de baixo custo em cidades ao redor de eco-resorts actualmente em construção no sul de Bangladesh e criou a FACE, com o objectivo de procurar soluções de vida resilientes ao clima para as vítimas vulneráveis ​​às mudanças climáticas.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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“Uma das nossas vontades era ‘dar voz a uma diversidade e pluralidade de perspectivas’”

Cristina Veríssimo e Diogo Burnay falaram à Traço, na primeira pessoa, enquanto curadores da 6ª edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, que nos traz o tema Terra, um nome que optaram por não traduzir exactamente pela força que acarreta, sendo não só o lugar em que habitamos, mas também aquele lugar que nos dá o sustento e nos fornece os recursos para vivermos

Cidália Lopes

O pretexto foi a Trienal, cuja edição de 2022 está prestes a começar. Mas a conversa, a dois, extrapolou para lá do tema escolhido e das iniciativas previstas. Se o tema escolhido pretendia reforçar preocupações ambientais e ser um passo importante para um novo paradigma na arquitectura, o impacto da covid-19 e, mais recentemente, da Guerra, vieram “ajustar agulhas” quanto ao programa. A uma só voz, que ser quer cada mais activa, fica a certeza do impacto do seu trabalho hoje e amanhã.

Quando idealizaram o tema Terra terá sido na óptica das alterações climáticas, pressuponho, mas depois deu-se uma pandemia o que terá tornado ainda mais importante esta reflexão. Houve em algum momento alguma necessidade de ajustar aquilo que tinham pensado inicialmente em termos de programa? Como é que foi este processo de quase três anos de idealização?

CV: O processo foi um crescendo. Quando se tem a vantagem de uma Trienal tem-se muito tempo para pensar e para cimentar ideias. Neste caso, quando nós começamos a Trienal, para nós curadores o tema Terra pareceu-nos ser o tema ideal. Como sabe nós temos vivido e trabalhado em muitos sítios do Globo e este pareceu-nos para nós o Tema. Claro que a vinda da pandemia reforçou muito esta nossa ideia e pensamos: “Olha afinal isto agora está a complicar-se mais e é um período em que isto se está a aprofundar” e neste sentido a ideia foi maturando. Fomos aprendendo com a pandemia, mas não foi necessariamente um mudar de agulhas, foi um ajustar de agulhas.

Aquilo que talvez fosse menos expectável foi a Guerra da Rússia contra a Ucrânia, que despertou e alertou, sobretudo na Europa, de que todos os países, mesmo os que vivem numa situação mais confortável podem ser atingidos. Para nós não nos afectou porque abrimos esta Trienal ao Mundo e demos voz a vários sítios do Globo. A actual situação é um alerta para os Europeus, mas há países que vivem com a sensação de insegurança constantemente, e, a ideia de dar voz a esses países já estava no embrião da Trienal.

Aproveitando a questão da Guerra, pergunto se têm sentido algum tipo de constrangimentos em relação a participações russas, que estão sempre muito presentes na Trienal, de arquitectos oriundos desta região?

CV: Nós temos, por acaso, um projecto de uma universidade russa, e estamos a tentar que os seus autores venham à Trienal. Uma das nossas curadoras tem felizmente dupla nacionalidade já que vive em Roterdão há muitos anos e, nesse caso, não teremos problemas. Curiosamente, estas restrições não estão apenas relacionadas com a Rússia, mas também com países africanos onde estas questões são sempre muito burocráticas e muitas vezes políticas até. Por exemplo, um dos nossos curadores está com muita dificuldade para conseguir o Visto para vir a Portugal. Portanto estas questões existem e não se prendem só com a questão da Guerra.

Voltando ao tema Terra e o facto de terem optado por não o traduzir existe aqui alguma tentativa de afirmação da nossa portugalidade?

DB: Essa é uma excelente questão e com a qual já tínhamos sido confrontados. Uma das vontades que tínhamos com esta Trienal era exactamente dar voz a uma diversidade e pluralidade de perspectivas, trazendo para Lisboa um conjunto de sensibilidades e modos de olhar para estes desafios problemáticos ligados à construção e do papel que a arquitectura pode ter em continuar a construir um Planeta que seja sustentável e onde seja possível continuar a construir.

A nossa preocupação era, talvez, mais centrada em trazer para Lisboa aquilo que Lisboa sempre teve, se quisermos alguma centralidade e que assim foi durante muitos séculos, mas que corresponde também a uma abertura para com o outro, para com essa pluraridade e diversidade de saberes e de modos de estar na vida que Lisboa sempre teve. Há imagens do século XV, XVI que mostram cenas urbanas em que se percebe que este era um lugar de grande pluralidade.

É obvio que há aqui uma herança colonial e um espaço pós-colonial que nós queremos celebrar e isso tem a ver com a nossa preocupação em trazer curadores de várias partes do Planeta, trazer temas que aproximem a arquitectura das questões de justiça social, equidades socioeconómicas, no sentido de reforçar o papel que a arquitectura pode ter perante a sociedade, perante estas comunidades, mas sobretudo dando voz a estas diferenças para que não fosse uma Trienal centrada no olhar especifico, anteriormente por vezes criticado, muito europeísta sobre problemáticas e sensibilidades que são muito diferentes.

Esta portugalidade e estes valores de generosidade, se quisermos até, gastronómicos, culturais, afectivos, penso que será muito adequado o facto desta Trienal pretender ser mais extrovertida, não reclamando uma centralidade, isso poderá ser conotado ainda restos de um pensamento ainda colonial, mas um lugar de encontro dessas diferentes sensibilidades.

Temos tanto nas exposições das universidades, como nas quatro exposições como no prémio Debut, um conjunto de entrada de concorrentes que se candidataram de todo o Mundo e ai sim nesses concursos abertos estão presentes trabalhos e conhecidos de estudantes e arquitectos portugueses sediados em Portugal e não só.

CV: Só acrescentar também, que a própria força da palavra Terra é uma palavra que tem estes significados que nós temos falado, que as línguas latinas percebem. Esta força desta palavra não se transmite noutras línguas e por isso é que quisemos manter Terra também, até pela própria forma como pronunciamos a palavra.

Antecipando um pouco a realização da edição, o que gostariam que perdurasse além da Trienal?

CV: Desde o início tentamos que esta Trienal não fosse só feita para arquitectos mas para toda a população. temos esta ambição de chegar ao Mundo. Acho que queremos sobretudo, deixar uma mensagem que nos parece importante: A preservação deste Planeta que está a gritar por ajuda. Não basta pensar que são instituições, que são eventos deste género que nos darão as respostas ao que o Planeta precisa, mas sim que cada um de nós tem um papel fundamental a desempenhar. Acho que é isso que nós queremos com esta Trienal, que as pessoas tomem consciência, que não depende dos outros, depende também de nós.

DB: Além do que se pode denominar como o campo específico da arquitectura, queremos trazer para Lisboa, que está um pouco na periferia da Europa, trabalhos e modos de olhar sobre estas problemáticas espalhados pelo Mundo. Que a nossa disposição para aprender com os outros, com aquilo que, não necessariamente nos identificamos, que nos é diferente, que deixe de ser indiferente, que seja um problema de todos e que passe também a ser um problema transformado em oportunidade e esta disponibilidade de percebermos que o Planeta é diverso.

Isto inscreve-se, também, na ideia de que temos de pensar na nossa actividade em enquanto arquitectos numa perspectiva de economia circular, segundo a ideia de que o ciclo da vida das coisas, dos materiais, das comunidades, mas também com os círculos que são diferentes e o modo como eles se interceptam.

Outra questão que verifica na arquitectura, é de que agora todos os edifícios deviam ser construídos em madeira, porque é um material natural, que as ignições de CO2 são muito menores, etc. Isto numa economia do Norte, onde há uma determinada abundância deste material e em que a mão de-obra tem um determinado contexto socioeconómico, fará sentido. Já num outro contexto isto pode ser considerado um disparate. Este é também outro aspecto que gostaríamos que ficasse desta Trienal.

Perante estas novas dinâmicas com que a arquitectura se confronta, quais serão os principais desafios que os jovens arquitectos têm pela frente?
CV: Sendo nós professores universitários lidamos com estas novas gerações há muitos anos, e é curioso porque sentem um certo olhar atento e de preocupação, sem dúvida. Da nossa parte estamos atentos a isso de tal maneira que nesta edição da Trienal quisemos dar voz a esta gerações e inclusive pusemos-os em parceria com as outras exposições, não fizemos uma exposição à parte porque consideramos que têm uma voz. Não significa com isto que as escolas também não tenham de estar atentas em termos de programas que estão a implementar ao nível da arquitectura, mas eu penso que os jovens são assertivos no sentido da preocupação com o Planeta, isso não tenho dúvida. As suas preocupações vão estar espelhadas, sem dúvida, naquilo que irão produzir.

DB: Estas novas gerações têm acesso a uma informação completamente diferente e por isso a grande preocupação é encontrar lugares de trabalho e modos de trabalhar e que, de algum modo, se cosam, se identifiquem com os seus valores, com aquilo que acham que é importante para a comunidade, para a sociedade, para o Planeta.

Nós temos conversas com vários estudantes que nos dizem: “Está bem, mas hoje estamos a construir isto e isto para quem e qual a sua longevidade”. O que percebemos é que esta geração, por ter um acesso a muita informação, tem um olhar mais crítico, mais predisposto a cruzar diferentes conhecimentos e isso poderá ser um certo desafio. Na nossa geração fomos das poucas pessoas em que não era normal, não era comum, pessoas saírem de Portugal para irem trabalhar e explorar outros lugares. A nossa geração e as gerações mais novas estão muito mais centradas nas oportunidades que a Europa trouxe com a adesão à comunidade europeia. As equidades, justiças sociais e económicas, transparência, informação, estão muito mais presentes nas novas gerações.

Neste sentido, e aproveitando o facto de estarem a decorrer dois concursos – para jovens arquitectos e para quem ainda está na universidade – é possível verificar que as propostas vão muito ao encontra dessa circularidade, sustentabilidade, dessa preocupação com o Planeta? É isso que retiram destas propostas?
Sem dúvida. E também aqui elogiar o papel que as escolas têm. Ainda não é generalizado, mas pensamos que a esse nível já vêm muitas escolas a programar o seu currículo no sentido da atenção a estes assuntos. Nós tivemos propostas de todo o Mundo, o que nos permite ter uma visão do que é que as diferentes escolas podem fazer.

E é possível, através das diferentes propostas, ter uma ideia das preocupações e também a origem das próprias propostas?
Apesar de sermos júri não tínhamos acesso à origem das propostas e quais eram as escolas, o que nos permitia concentrar apenas no projecto apresentado, mas é curioso que depois no final, quando se cruzaram as propostas com os lugares de onde vinham, demo-nos conta de há escolas que estão a trabalhar para diferentes partes do Mundo. Portanto até tematicamente, nota-se uma preocupação mais global e que as escolas procuram temas que sejam cruciais para o seu currículo, e que não são, necessariamente, problemáticas do País de origem. Aquele projecto que, inicialmente, poderíamos achar que seria de uma escola em África, não era de todo, o que torna bastante interessante. Ultimamente há também um factor muito comum nas escolas de arquitectura que é receber estudantes estrangeiros, o que põe em confronto ideias e perspectivas diferentes.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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Arq. José Mateus, Presidente da Trienal de Arquitectura de Lisboa 5.7.2017 © Luisa Ferreira

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“A reflexão é o Mundo, a cidade de encontro é Lisboa”

Entre 29 de Setembro e 5 de Dezembro, Lisboa recebe a 6ª edição da Trienal de Arquitectura. Ao incidir na degradação das condições ambientais, alterações climáticas e todas as suas consequências globais, a Trienal procura um novo paradigma para o qual estão convocados, não só os arquitectos, mas também o público não especializado e a classe politica. Até Outubro decorrem as candidaturas para a curadoria da 7ª edição, a acontecer em 2025

Cidália Lopes

À Traço, José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura de Lisboa, falou sobre a importância desta edição que “direcciona o seu olhar para o mundo e que convida esse mundo para se encontrar em Lisboa”. Um “envolvimento planetário”, que se destaca pelo temas escolhidos, mas também nas equipas de curadores que escolhe e na exigência de alargamento geográfico. Esta edição é disso exemplo, que convoca as universidades de todo o Mundo, pela sua capacidade de investigação e cruza esse conhecimento com quem trabalha na profissão diariamente

Esta é a 6ª edição. Quais as principais diferenças em termos de evento das primeiras edições?

Essencialmente o tema, que é totalmente focado nas questões ambientais e sociais daí decorrentes. De resto, seguimos o modelo que fomos consolidando ao longo do amadurecimento da Trienal. Elegemos um tema fundamental em termos públicos ou disciplinares e com a equipa de curadores designados estabelecemos e partilhamos uma reflexão e um debate profundo dividido em diversos sub-temas, que correspondem às exposições principais. Como extensão e aprofundamento das exposições publicamos livros, que não são catálogos, mas estudos e reflexões mais densas e completas, que continuam a partilha do tema da Trienal após o seu encerramento. Depois, como sempre, temos os dias de debate com conferencistas indicados pelos diversos curadores, de forma a estabelecermos um debate que cruze os temas das várias exposições.

Uma particularidade desta edição é o facto do envolvimento das universidades ser transversal a todas as quatro exposições principais. No fundo, dada a extrema complexidade e urgência do tema desta edição, queríamos convocar e cruzar todo o conhecimento e capacidade de investigação que emana das universidades com o de quem trabalha na prática da profissão no dia-a-dia. Nas edições anteriores, o contributo das universidades debruçava-se sobre um tema específico e dava lugar a uma exposição com uma certa autonomia. Preferimos este modelo.

Um outro aspecto importante em termos de organização, é o facto de termos decidido que a sede da Trienal, o Palácio Sinel de Cordes, é o lugar principal para acolher os projectos independentes, que, pela sua grande variedade de abordagens e formato, vai tornar a nossa sede um espaço de encontro diário, de um dinamismo muito forte.

De resto, naturalmente que mais uma vez vamos atribuir, com a Fundação Millennium Bcp, os prémios Carreira; Début e Universidades.

Sintetizando, teremos 4 exposições,  “Ciclos“ no CCB – Garagem Sul, “Retroactivar“ no MAAT, “Multiplicidade“ no MNAC e “Visionárias“ na Culturgest, todas elas acompanhadas de um livro cada e de um debate cruzado ao longo dos dias das Talk Talk Talk na Fundação Calouste Gulbenkian.

E em termos do seu efeito pós evento? Até que ponto a própria Trienal tem permitido determinar novos paradigmas sobre e para a arquitectura?

Diria que o “pós evento“, as consequências ou influência daquilo que apresentamos, será seguramente o que mais nos interessa. Mas, não nos interessa a arquitectura como disciplina isolada, que na realidade nunca o pode ser, como é o caso do tema desta edição.

Em termos disciplinares, o nosso objectivo é abordar os temas de uma forma profunda, crítica e credível em termos disciplinares, teóricos ou académicos e assim dar um contributo relevante para a nossa profissão. Por outro lado, interessa-nos estabelecer um contacto forte com o público não especializado, que inclui o público adulto, juvenil e infantil. A esse nível, temos cada vez mais uma programação extensa em termos de actividades pedagógicas ligadas às várias exposições e que estabelecem a ponte com essa grande diversidade de públicos. Mas, tudo isto interessa-nos porque só com conhecimento novo, partilhado, assimilado e entendido é que a sociedade se questiona a si própria e avança. Por isso é que é sempre muito importante mas em particular nesta edição chegarmos à classe política, que evidentemente tem um papel decisivo na mudança de paradigmas, como aquela que precisamos de activar nos dias de hoje face à degradação das condições ambientais, alterações climáticas e todas as suas consequências globais.

 

Arq. José Mateus, presidente da Trienal de Arquitectura de Lisboa © Luísa Ferreira

A Trienal é, de certa forma, um legado para as gerações futuras. O que gostaria de dizer a quem está agora a começar?

A arquitectura é uma profissão extraordinária, pois toca profundamente na vida das pessoas, mas que obriga a um trabalho permanente de aquisição de conhecimento, de experiência, que é consolidada combinando prática, investigação técnica e aprofundamento teórico. Mais do que antes, neste tempo em que a realidade avança a uma velocidade vertiginosa e em que a regeneração e manutenção do equilíbrio ambiental passam também muito pelo campo de trabalho dos arquitectos, a nossa profissão necessita do contributo de todos aqueles que tenham a capacidade para lhe dedicarem as suas vidas, de modo profundo. É um desafio muito exigente e difícil, que nos obriga a uma disposição de permanente aprendizagem, de questionamento de práticas e pensamento que antes eram para nós dados adquiridos, mas também por isso maravilhoso.

Pela diversidade de iniciativas que a Trienal abrange diria que mais do que ser a Trienal de Lisboa, é a Trienal do Mundo, sem fronteiras: É este o propósito destes eventos e será assim o seu futuro?

É a Trienal de Lisboa, que direcciona o seu olhar para o mundo e que convida esse mundo para se encontrar em Lisboa para escutar, partilhar, debater, estabelecer laços com a cidade e com quem nela se encontra em torno de um tema.

Sempre foi assim, mas gosto da expressão “Trienal do Mundo“, pois apesar de acontecer em Lisboa, envolve sempre contributos de gente de partes muito diversas do mundo e porque tem subjacente uma ideia de pertença, que é mais bela e com maior potencial nesse alargamento ao mundo. Somos uma Trienal que convoca esse envolvimento planetário, desde logo nos temas que elege, nas equipas de curadores que escolhe e na exigência de alargamento geográfico do projecto curatorial que debate e aprova. Esta edição, é um exemplo muito claro disso. Respondendo directamente à pergunta, sim, é esse o propósito destes eventos. Quanto ao futuro, afirmá-lo seria retirar espaço a quem nos sucederá na frente da Trienal, coisa que não gostaria de fazer.

Tendo em conta a dimensão da Trienal, existe a intenção de criar uma ramificação da mesma no Porto, à semelhança do que já é feito com a Open House, por exemplo?

Não temos intenção de criar uma ramificação da Trienal no Porto. Já analisámos no passado essa possibilidade, tal como em Madrid, Londres e Nova Iorque, mas percebemos que seria uma má estratégia, pois a dispersão de atenção operativa e de meios financeiros, que sempre são insuficientes, iria enfraquecer a clareza, intensidade e profundidade do trabalho que estamos a fazer em Lisboa. A reflexão é o Mundo, a cidade de encontro é Lisboa. Tal como acontece em Oslo, Veneza  e em outras Bienais.

Alguma novidade para a edição de 2025?

Está lançado o call para apresentação de candidaturas à direcção curatorial da 7ª edição, que deverão ser entregues em Outubro. Como sempre, alargamos ao máximo possível o tempo para os curadores trabalharem. É a primeira condição fundamental para se conseguir assegurar qualidade, três anos de trabalho.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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Arquitectura

Openbook: arquitectura pragmática

Criada há 15 anos por três arquitectos e um financeiro, a Openbook Architecture é hoje uma referência internacional na arquitectura corporate. A recente criação da NOBK, com a liderança de Diana Noronha enquanto partner, trouxe uma nova linguagem e dinâmica a uma arquitectura, sobretudo, pragmática. Paulo Jervell e Diana Noronha Feio falaram com a Traço sobre este processo de mudança e crescimento da empresa

Paulo Jervell, partner fundador da Openbook Architecture  e Diana Noronha Feio, que recentemente se juntou à equipa como co-partner, aliaram-se para uma conversa aberta sobre os caminhos percorridos nos últimos quinze anos onde perspectivaram o futuro de um gabinete que já nos habituou a uma arquitectura pragmática, na forma como aborda os projectos. Depois do corporate, a Openbook tomou de assalto o segmento de hotelaria e turismo e a NOBK é o seu Cavalo de Tróia.

A Openbook Architecture completa este ano 15 anos. Como é que tem sido este percurso?

Paulo Jervell (PJ): Começamos com quatro partners: o Rodrigo Sampayo, João Cortes e Pedro Pires, para além de mim. Recentemente entrou a Diana Noronha Feio que veio complementar a actuação do Openbook e trazer valor acrescentado em áreas que identificámos com potencial, não só para diversificar a nossa actuação, mas, acima de tudo, para acrescentar valor aos nossos projectos com a introdução de um conjunto de serviços adicionais que se identificam com o perfil, com a identidade e com a linguagem do Openbook.

Já colaborávamos com o atelier da Diana em alguns projectos e realmente havia uma sintonia muito forte e uma identificação muito forte em termos de identidade e de linguagem e fez sentido fazermos aqui uma espécie de incorporação do atelier da Diana. Surgiu assim a NOBK como uma empresa complementar aos projectos do Openbook, mas também autónoma para projectos com o perfil e no âmbito dos serviços de design de interiores e decoração.

15 anos depois, mantêm o foco no segmento corporate?

PJ: Eu diria que isso é uma percepção do mercado. A Openbook surge em 2007, com a criação de uma empresa e eu reforço o termo empresa porque todos nós temos percursos diferentes, nomeadamente o Rodrigo e o João vêm de um atelier tradicional de arquitectura, o Pedro Pires tem um percurso muito ligado à componente financeira e eu próprio embora seja arquitecto, estava mais ligado à gestão de projectos consultoria imobiliária. Três arquitectos e um financeiro. Decidimos na altura criar uma empresa que tivesse um atelier de arquitectura dentro da empresa, muito mais focada para o mercado institucional, e com um conjunto de valências e de serviços que fossem para além do projecto de arquitectura e muito focados no cliente, mas também nos prazos, na rentabilidade e eficiência dos projectos.

O que não é, propriamente, uma característica que associamos à arquitectura em Portugal…

PJ: Precisamente. Por isso eu reforço que somos uma empresa de arquitectura. Não obstante, o nosso grande impulsionador era, e é, o de fazer boa arquitectura, tal como um tradicional atelier de arquitectura. Isto significa que não olhamos apenas para a rentabilidade ou para a eficiência dos projectos, embora estes sejam, cada vez, factores fundamentais face ao enquadramento económico e social que vivemos.  Temos de responder aos objectivos e às expectativas e exigências dos clientes, não estamos a fazer arquitectura para nós, mas para o utilizador/cliente, mas estamos a introduzir o nosso conhecimento e o nosso traço.

Essa foi uma das razões de nos chamarmos Openbook, ao invés de associarmos o nome dos partners à designação do gabinete. Somos uma empresa, liderada pelos partners, mas que acima de tudo tem uma equipa por detrás, uma equipa de muita qualidade e entrega. E esse continua a ser o nosso driver estratégico.

Voltando um pouco atrás e falando dessa percepção do mercado.

PJ: Em 2007 estamos a arrancar com uma empresa nova em pleno início de crise que abalou muito o mercado imobiliário, mas também o mercado da construção e, principalmente, de obra nova.

Começar uma empresa nestas circunstâncias teve, desde logo, um grande desafio que foi não só o de ultrapassar as dificuldades que essa crise acarretou para o mundo, para a Europa e, nomeadamente, para Portugal, mas que, por um lado, motivou desde cedo a necessidade da nossa internacionalização, enquanto nos focou numa área de negócio e de construção que embora estivesse a ser impactada pela crise ainda era uma área que tinha alguma procura que era o mercado corporativo.

Solidificámos a nossa actuação nesse segmento, que nos permitiu ganhar uma expertise que, eu diria, nos distingue. Esse reconhecimento foi crescendo ao longo destes 15 anos e a estratégia da empresa foi se adaptando a outras áreas de negócios. Actualmente o mercado corporativo continua a ter um peso muito considerável no volume de projectos da empresa, cerca de 60%, mas no começo chegou a ter uma relevância de mais de 80%.  Os outros restantes 40% estão hoje distribuídos pela área residencial, área hospitalar e a área de turismo.

A entrada no segmento da hotelaria e turismo foi reforçada com a criação da NOBK?

PJ: Já trabalhávamos neste mercado, mas o complemento que nos é dado por esta nova vertente de design de interiores permite-nos entrar numa área de negócio muito mais abrangente. Uma coisa é construirmos o edifício, o hotel, outra coisa é podemos fazer uma intervenção muito mais transversal.

Diana Noronha Feio: Ao fim ao cabo é conseguimos dominar duas escalas diferentes do projecto.  Penso que é algo que é sempre muito sensível a quem está habituado a trabalhar numa determinada escala, a escala do projecto do edifício em si, poder depois entrar numa escala que exige outra aproximação. Uma forma de olhar para o mesmo edifício numa óptica muito mais sensorial e, no fundo, a criação de um departamento e uma marca que está focada nessa segunda fase de interacção com a arquitectura que é quando entra o interiorismo, potencia o vivermos o edifício até ao fim.

Que projectos já desenvolveram com a nova marca?

PJ: A nossa colaboração iniciou-se mais na área corporativa e na área residencial, depois tivemos uma consolidação com o projecto do Hotel Ritz que foi o projecto eu diria mais recente, mais emblemático em que realmente conjugámos a intervenção da arquitectura com a intervenção em termos de design.

DNF: Houve uma intervenção arquitectónica que foi um projecto muito profundo e que já tinha alguns anos de desenvolvimento aqui na Openbook, mas a criação deste resort urbano no Ritz já surge numa fase mais tardia e essa nossa aproximação ao interiorismo e de resolver o projecto de A a Z e concebermos o Bar do Hotel e todo o mobiliário da piscina que foi criado para o espaço… significou uma entrega muito grande na definição dos detalhes, do pormenor, de materialização do espaço.

Da internacionalização e das mudanças

Como é que a pandemia influenciou o vosso trabalho, dada as transformações que observamos no modo como se vivenciam os escritórios?

PJ: Estamos sempre em mudança. Depois vamos sendo confrontados com alguns acontecimentos que, de alguma forma, precipitam essas mudanças ou nos fazem pensar para que lado devemos caminhar e de facto a pandemia veio acelerar um conjunto de mudanças. Mas já estávamos a percorre esses caminhos com várias empresas que estavam já a reequacionar a forma de trabalhar e de ocupar os edifícios e a sua própria forma de estar.

É interessante perceber, e contrariamente áquilo que seria expectável, que o take up de escritórios está a crescer e continua a bater recordes. Sempre defendemos que o espaço de trabalho não ia acabar porque as empresas e as pessoas não estão preparadas para ficarem eternamente a trabalhar de forma remota. A questão é como é que o espaço de trabalho se vai adaptar às novas exigências não só das empresas, mas também das pessoas. O que estamos a observar é que grande parte das empresas estão a ter uma necessidade de transformar e adaptar os seus espaços de trabalho, os seus escritórios, porque os colaboradores querem trabalhar de forma diferente e ter um conjunto de condições que entram em ruptura com aquelas que existiam anteriormente à pandemia.

Isso acrescenta mais desafios ao design?

DNF:  Desafios de perceber estas mudanças de cultura em todos os aspectos. É importante as empresas manterem uma cultura viva e ao mesmo tempo que a cultura da empresa é uma apropriação das pessoas e acaba contaminada, no bom sentido, pelos seus colaboradores e pelas suas necessidades e por essa nova forma de trabalhar que também se ganhou com a experiência da pandemia.

Nós estamos sempre em mudança, como o Paulo referiu. Mas integrar outras culturas nos nossos espaços de trabalho é uma preocupação e um desafio. Como é que os nossos projectos reflectem os valores destes clientes que são simultaneamente idênticos e diferentes a nós? A nossa abordagem passa por responder às questões: Quem é o nosso cliente?  O que é que este nosso cliente precisa?

PJ: Todos os dias estamos em mudança. Trabalharmos com todas estas marcas internacionais permite-nos estar sempre um pouco à frente do que são estas novas tendências e estamos a falar de tendências em termos de design e de materiais, em termos de preocupações de inclusão, de sustentabilidade. E focando nesta colaboração entre a NOBK e a Openbook e na integração deste serviço, não estamos só a abordar a questão funcional e a questão da resposta às métricas e às necessidades funcionais da empresa, mas trazer sim uma preocupação e um valor acrescentado no que é o design de interiores. A definição do desenho do mobiliário, a própria integração da decoração e da arte nos escritórios que pode ser arte física, a arte digital, pode ser a arte metaverso, realidade aumentada…

DNF: No final do dia, tudo se resume à experiência.

Que projectos têm actualmente em curso e que podemos destacar?

PJ: Em termos corporativos estamos com um volume de trabalho muito grande. Temos um desafio muito interessante em mãos que é o projecto da nova sede do Novo Banco, que riá passar para o Tagus Park, que é um projecto para o qual fomos seleccionados para  fazer toda a componente do fit out e design de interiores. O projecto da remodelação do campus está a cargo de um arquitecto espanhol. É um desafio grande porque estamos a facilitar através do espaço uma transformação organizacional no Novo Banco que irã passar de localização muito urbana e privilegiada da Avenida da Liberdade para o Tagus Park  e que acreditamos que terá um conjunto de factores muito atractivos  É um projecto com cerca de 30 mil m2 o que é uma dimensão bastante grande.

Continuamos a fazer projectos para as chamadas Big Four estamos a fazer a nova remodelação da nova sede da Mckinsey. Já tínhamos feito a Deloitte, KPMG e PwC e temos agora a oportunidade de estar a fazer a Mckinsey e dar continuidade a esse serviço. Estamos a fazer também fomos seleccionadas para o novo Campus do BNP Paribas no Parque das Nações, um projecto muito desafiante…

DNF: E isso é só no corporate. Estamos a avançar com projectos residências e na área da hotelaria e turismo, estamos a trabalhar num resort numa ilha tropical, hotéis de charme, a transformar um antigo convento numa unidade hoteleira, estamos a desenvolver um projecto de um palácio do século XIX… só para nomear alguns e perceber a diversidade do trabalho que estamos a desenvolver.

A Openbook irá crescer em termos orgânicos?

PJ: Temos uma equipa com 50 pessoas e uma forte expectativa de virmos a crescer 20 a 25% em termos de equipa até ao final deste ano.

Com todos estes projectos a internacionalização da Openbook será reforçada?

PJ: A internacionalização da Openbook começou precisamente em 2008, mas estamos a reforçar essa vertente e estamos a diversificar o mercado de internacionalização.

Acompanhámos alguns clientes que tínhamos cá nos mercados de internacionais como o Brasil, onde abrimos um escritório em 2011, e em Angola. Países com forte relação a Portugal. Assistimos agora a uma forte procura no mercado angolano e vamos dar continuidade à nossa internacionalização para o norte e centro da Europa. Estamos a realizar um projecto de relevância no Luxemburgo e estamos com uma demanda interessante na Bélgica e em França.

Pensamos abrir em breve um escritório no Luxemburgo para cobrir essa área e dar suporte a este conjunto de projectos que estamos a desenvolver na região.

Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

Manuela Sousa Guerreiro

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Arquitectura

“Acho que a abordagem para mitigar a crise climática precisa ser radical”

“A arquitectura, os arquitectos e toda a indústria da construção têm responsabilidade para com uma sociedade equitativa. Como profissão criativa temos a capacidade de reimaginar e reinventar formas de usar a arquitectura como ferramenta social”, assegura à TRAÇO a arquitecta e investigadora Marina Tabassum, vencedora do Prémio Carreira Trienal de Lisboa 2022

Cidália Lopes

Em entrevista à Traço, a Marina Tabassum aponta o importante papel da selecção de materiais e estratégias ambientais na definição do tecido do edifício como forma de minimizar os efeitos das alterações climáticas e acredita que a abordagem precisa “ser radical”. Da mesma forma, considera que a arquitectura deve assumir “um papel de agente de mudança” no que diz respeito ao trabalho junto de comunidades locais mais desfavorecidas. Uma prática que deve sobrepor-se “a um mercado orientado para o lucro”. O caminho já começou e, com este prémio, Tabassum pretende estimular, ainda mais, discussões sobre o papel da arquitectura na mudança de pensamentos e valores.

Qual é a importância desta distinção?
Os reconhecimentos são importantes, pois trazem para o foco questões e buscas que são relevantes para o nosso tempo e contexto. Estamos a viver um momento muito interessante de mudança de paradigmas. Espero que distinções como esta da Trienal de Lisboa estimulem discussões sobre o papel que a arquitectura pode ter na adaptação da paisagem à mudança dos nossos pensamentos e valores.

Qual a importância do papel da arquitectura como veículo/ferramenta social?
A indústria da construção civil, da qual nós arquitectos somos parte integrante, é um dos maiores contribuintes da crise climática, aumentando o stock de resíduos e o acesso desigual a um ambiente de vida de qualidade.

Se considerarmos o contexto actual do nosso tempo em que o ambiente natural habitável está ameaçado pelo excesso de extracção da matéria-prima e produção com o foco único no crescimento económico, isso criou uma enorme disparidade nas condições de vida tanto no contexto urbano quanto no rural. Quão responsável será nossa profissão se o continuarmos a negligenciar? A arquitectura, os arquitectos e toda a indústria da construção têm responsabilidade para com uma sociedade equitativa. Como profissão criativa temos a capacidade de reimaginar e reinventar formas de usar a arquitectura como ferramenta social.

A urgência de cuidar da ‘Terra’ leva a uma mudança radical na forma como a arquitectura é projectada e feita. Quais são as principais mudanças que já se fazem sentir?
A Terra pode curar-se sem intervenção humana, se reduzirmos as nossas actividades antropogénicas. Cuidar da Terra é, na verdade, cuidar do nosso ambiente habitável. Testemunhámos durante a pandemia, quando entrámos em confinamento, como a natureza se cura quando as actividades humanas são reduzidas. Precisamos restaurar o ecossistema, limpar o ar e a água, reduzir os resíduos antropogénicos não apenas para a Terra, mas para a nossa própria existência. Porque é que construímos edifícios revestidos de vidro em regiões de climas quentes, onde a temperatura pode chegar a 55°C. Deveria ser crime desperdiçar energia na refrigeração destes edifícios.

Em vez de construir novos, precisamos nos concentrar no ambiente construído que criamos e trabalhar em estratégias de adaptação que sejam amigáveis ao meio ambiente, fazendo uso dos recursos naturais como luz do dia, vento, sombra-sombra respondendo aos contextos e reduzindo nossa dependência sobre combustível fóssil. Precisamos abordar a vegetação e a segurança alimentar, que por si só pode actuar como acção restauradora.

Como prevê que sejam os próximos anos em termos de como o planeta enfrentará a crise climática? E que acções devem ser tomadas a nível global para que a profissão de arquitecta desempenhe um papel cada vez mais activo?
Em Bangladesh, já estamos a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Os padrões climáticos imprevisíveis estão a perturbar a ecologia agrícola. A subida do nível do mar, induzida pela crise climática aumentou as inundações, a erosão das margens dos rios e afectou também a biodiversidade das zonas costeiras. Um grande número de pessoas tornou-se ‘migrantes climáticos’.

Condições climáticas extremas na forma de secas, inundações, furacões, deslizamentos de terra, incêndios florestais estão a acontecer de forma global e a afectar um grande número de pessoas. Estes fenómenos vão aumentar nos próximos anos.

Acho que a abordagem para mitigar a crise climática precisa ser radical. A arquitectura precisa de se concentrar apenas em edifícios e construções essenciais. Pelo menos durante uma década, a arquitectura devia focar-se na recuperação do desequilíbrio ambiental. Construir para os desfavorecidos e para as vítimas mais vulneráveis às alterações climáticas é mais importante do que construir apartamentos e escritórios de luxo. Mas um mercado orientado para o lucro não se concentrará em abrigar esta população. Neste sentido, os arquitectos podem assumir o papel de agentes de mudança.

Mas a nível global, não deve ser difícil reduzir a extracção, a superprodução de edifícios e materiais de construção. Podemos reduzir as longas cadeias de fornecimentos adquirindo materiais localmente, com o foco em pesquisas colaborativas sobre como transformar em materiais de construção utilizáveis os resíduos. Cada edifício deve ser resiliente ao clima e optimizar o uso de energia e isso pode ser exigido por lei. A reutilização adaptativa deve ser incentivada em vez da substituição completa dos edifícios existentes.

A forma de fazer arquitectura difere do contexto, do país, das condições socioeconómicas. O que podemos aprender com o que está a ser feito em Bangladesh e nos países vizinhos?
Nem tudo que está sendo feito em Bangladesh e na região são exemplares que podem ser replicados. Mas há muitos arquitectos e escritórios de arquitectura que abordam a profissão com mais responsabilidade do que os outros. Grande parte de nossa arquitectura pretende ser ‘climate responsive’ e ao contexto e são menos dependentes de meios artificiais de controle climático. Também procuramos que os materiais utilizados sejam, normalmente, provenientes do país. Além disso, recorremos à força de trabalho local para trabalhar no sector da construção. Isso gera economia local.

Temos comunidades de jovens arquitectos que não seguem a forma convencional da prática, mas com foco no trabalho com comunidades menos privilegiadas através de processos participativos de design e construção. Mesmo quando não há clientes ou financiamento, os arquitectos estão a criar projectos e a envolver pessoas para construir os seus próprios ambientes de vida. São novas formas de práticas que se estão a mostrar muito impactantes para as comunidades de baixos rendimentos.
Quais os projectos que destacaria e porquê?

É difícil destacar projectos, pois cada um é diferente devido ao seu contexto, programa e narrativa. A mesquita Bait ur Rouf é o primeiro projecto que chamou a atenção para a nossa prática. É um projecto único onde todas as minhas preocupações arquitetónicas se manifestaram através do design.

Os projectos nos campos de refugiados são únicos pelo contexto e narrativa difíceis e também pelas restrições impostas à construção que nos obriga a procurar formas inovadoras de construção. Os projectos são o resultado do envolvimento da comunidade no design e na sua própria construção.

Por exemplo, a unidade de habitação modular móvel Khudi Bari é a nossa resposta à preparação climática para as comunidades marginalizadas de Bangladesh. Este é, também, um projecto único que ajudou a salvar as vítimas das cheias, incluindo os seus vizinhos na recente enchente de 2022.

A ‘bio’ de Marina Tabassum

Arquitecta e investigadora e docente natural do Bangladesh, Marina Tabassum fundou a Marina Tabassum Architects, com sede em Dhaka, em 2005, depois de 10 anos como sócia e cofundadora do URBANA, também em Dhaka. No seu trabalho, que vai do institucional ao multi-residencial e ao cultural, Marina Tabassum procura “estabelecer uma linguagem de arquitectura que seja contemporânea, mas reflexivamente enraizada no lugar”.

Marina Tabassum é directora académico do Bengal Institute for Architecture, Landscapes and Settlements, uma plataforma intelectual para aqueles que estão empenhados a imaginar e moldar futuros ambientais na região. Leccionou na Harvard University Graduate School of Design, Technical University, Delft, University of Texas at Arlington e BRAC University, tendo sido, também, agraciada com um doutoramento honorário da Universidade Técnica de Munique.

A sua contribuição no campo da arquitectura rendeu-lhe honras e elogios, incluindo Prémios Aga Khan para Arquitectura, o Prémio Memorial Arnold W. Brunner, da Academia Americana de Artes e Letras, a Medalha de Ouro da Academia Francesa de Arquitectura, a Medalha Soane de Sir John Soane Museum e o Prémio Jameel do Victoria and Albert Museum.

Marina Tabassum está, igualmente, envolvida na organização de comércio justo Prokritee como membro do Conselho, capacitando mulheres de Bangladesh através da exportação de objectos artesanais. Iniciou, também, projectos de habitação de baixo custo em cidades ao redor de eco-resorts actualmente em construção no sul de Bangladesh e criou a FACE, com o objectivo de procurar soluções de vida resilientes ao clima para as vítimas vulneráveis às mudanças climáticas.

Sobre o autorCidália Lopes

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