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    “A nossa estratégia é a longo prazo, a pensar na próxima década”

    Bobby O’Reilly, cofundador e sales & marketing director da Dynasty Homes, é o rosto da promotora em Portugal. Ao CONSTRUIR, falou sobre os próximos investimentos, as novas localizações onde estão […]

    Cidália Lopes
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    “A nossa estratégia é a longo prazo, a pensar na próxima década”

    Bobby O’Reilly, cofundador e sales & marketing director da Dynasty Homes, é o rosto da promotora em Portugal. Ao CONSTRUIR, falou sobre os próximos investimentos, as novas localizações onde estão […]

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    Bobby O’Reilly, cofundador e sales & marketing director da Dynasty Homes, é o rosto da promotora em Portugal. Ao CONSTRUIR, falou sobre os próximos investimentos, as novas localizações onde estão a apostar, mas também, sobre o difícil caminho que o nosso País atravessa em termos de estabilidade política e legislativa. Além dos custos de construção e impostos elevados, o responsável receia que as recentes políticas nacionais possam assustar os investidores e levá-los a direccionar os seus projectos para outros países.

    O empreendimento ‘Herdade do Meio’ é o primeiro investimento de maior dimensão em Portugal. Porque a aposta neste tipo de produto e porquê a escolha deste local?

    Até agora, é o nosso maior investimento. É um produto diferenciado, pelo número de soluções inovadoras que aplica, como a qualidade dos materiais ou o sistema KNX, neste caso, o protocolo mundial para todas as aplicações de controlo de residências e edifícios. Sem esquecer a implementação de conceitos de eficiência energética, algo que o mercado exige cada vez mais, e que visa a produção de electricidade através de painéis solares e a integração de baterias acumuladoras, com o objectivo de realmente aproveitar a energia produzida.

    Sentimos que a dimensão da Herdade do Meio responde àquilo que desejamos. Já estamos em Portugal há algum tempo e temos desenvolvido projectos mais pequenos. Mas aqui encontramo-nos em posição de fazer algo que vai mais ao encontro das nossas expectativas, por exemplo, através da criação de zonas de lazer ou áreas com dimensões superiores, nomeadamente, nas caves e garagens.

    Por outro lado, acreditamos que esta é a localização perfeita. Desde logo, pela sua centralidade, por estar próximo da estação de comboios e de Lisboa. Mas também por ser uma ligação que não se cinge à cidade, pois está a apenas 10 minutos da praia. É também uma zona tranquila, próxima de escolas, supermercados e espaços comerciais. E, refira-se, em Portugal não é fácil encontrar uma localização com este perfil, já com um plano municipal para o espaço que não exija estarmos à espera mais de três anos.

    Anunciaram outros dois novos projetos muito perto da ‘Herdade do Meio’. Trata-se também de empreendimentos pensados para o segmento alto?

    Os próximos dois projectos serão reconhecidos pelos seus acabamentos de alto nível, com elevados índices de eficiência energética. E falo de um produto que não existe na área.

    Acredito que quem queira viver nestas localizações, pelo seu valor de mercado e pelo perfil de construção, com um standard mais elevado, procure as nossas ofertas. O projecto na Aroeira divide-se em dois lotes. O primeiro, com um total de 7.800 m2 e um investimento de sete milhões de euros, integra 12 moradias geminadas e uma individual, as quais incluem cave piscina privada e jardim, sistema de casa inteligente. Pretendemos iniciar a construção e venda a partir de Outubro deste ano.

    Já o segundo lote, num terreno de 5.050 m2, exige um investimento de 5 milhões de euros, em 8 moradias, todas geminadas, com 160 m2, cada. Tal como no outro lote, inclui cave, piscina privada e jardim, para além do sistema casa inteligente, e iniciará a respetiva edificação em Outubro.

    Gostaríamos muito de apostar em habitações com preços a partir dos 350 mil euros. Mas o Governo também terá que dar sinais nesse sentido, através de incentivos ao sector. Ao aumentar os impostos, o IVA e os custos da construção, o Estado está a incrementar uma espiral inflaccionista no mercado

    Anunciaram um montante de 82 M€ de investimentos em Portugal. Sendo que a ‘Herdade do Meio’ e os outros dois anunciados totalizam cerca de 42 M€ há ainda um valor considerável previsto para outros projetos. Quais as principais apostas da Dynasty Homes para os próximos anos?

    O valor que aponta refere-se apenas ao que já temos em pipeline, entre lotes, apartamentos e prédios, seja em Lisboa, seja na Margem Sul. Além da Herdade do Meio e da Aroeira, por exemplo, em Lisboa, estamos a renovar um edifício na zona de S. Bento, que integra 11 apartamentos, num mix entre estúdios e apartamentos de um quarto. Já no Pátio do Tijolo encontramo-nos a trabalhar num edifício clássico, com oito apartamentos. Na Margem Sul destaco, ainda, uma casa que se encontra em fase de renovação, a Aroeira Beach & Golf Villa, com três pisos, um espaçoso piso térreo aberto no interior e jardim envolvente.

    A curto prazo, temos em mente apostar na zona do Seixal, numa localização, uma vez mais, com boas acessibilidades, constituída por 127 villas e cerca de 200 apartamentos. Também estamos à procura de espaços com características similares em Fernão Ferro.

    E além de Lisboa e margem sul que outras localizações poderão suscitar interesse?

    Estamos interessados em analisar todas as zonas que façam sentido. Adoramos Lisboa e a Margem Sul, mas estamos abertos a outras zonas.

    Porém, na verdade, ainda não pesquisámos a fundo a Margem Norte. Isto, pois os valores de construção são mais elevados, com repercussões nos preços das habitações. O que leva a que as localizações onde nos encontramos actualmente sejam mais interessantes para investidores como nós, que queremos construir habitações com determinadas características e valores que possam ir ao encontro de determinado perfil.

    Por exemplo, estamos agora especialmente atentos a alguns locais do concelho do Montijo, com o objectivo de respondermos a várias exigências do mercado nacional. Desde apartamentos a villas, a qualidade é fundamental para os projectos da Dynasty Homes, bem como a implementação de soluções de eficiência energética, numa óptica da maior rentabilidade possível para os compradores.

    Sentimos que a dimensão da Herdade do Meio responde àquilo que desejamos. Aqui encontramo-nos em posição de fazer algo que vai mais ao encontro das nossas expectativas, por exemplo, através da criação de zonas de lazer ou áreas com dimensões superiores, nomeadamente, nas caves e garagens

    Gostaria ou ponderam apostar, também, em projetos para outros segmentos, nomeadamente, para a chamada classe média, sendo um tipo de habitação com muita procura também?

    Gostaríamos muito de apostar em habitações com preços a partir dos 350 mil euros. Mas o Governo também terá que dar sinais nesse sentido, através de incentivos ao sector. Por aquilo que verificamos, ao aumentar os impostos, o IVA e os custos da construção, o Estado está a incrementar uma espiral inflacionista no mercado, com as consequências que daí advêm.

    Há que criar condições para que as pessoas adquiram casas. Claro que não é obrigar os bancos a dar empréstimos, antes a criar programas que facilitem todo o processo. Na Irlanda, por exemplo, estão a ser desenvolvidos incentivos que visam a diminuição dos impostos no decorrer da construção das casas, o que resulta em melhores oportunidades de aquisição junto dos compradores finais.

    Em Portugal, os custos de construção e os impostos são elevadíssimos, o que torna quase impossível dinamizar o mercado local. Nesse sentido, os municípios também podem ajudar. Quando falam com os construtores e investidores, podem colocar em cima da mesa as suas necessidades, podem identificar zonas estratégicas para integrar no mercado de habitação. Têm muitas propriedades municipais, para as quais necessitam de um plano. Então, pode-se lançar uma parceria, na qual, os concelhos têm o espaço, enquanto os promotores constroem nesse espaço, com a possibilidade de vender a um determinado preço.

    Não faltam ideias, e as pessoas, se se sentarem à mesa, poderão falar sobre isso. Actualmente, todos tentam atirar as culpar para outros, ao invés de encontrar soluções.

    Portugal está em competição com Espanha, Grécia, Chipre ou Malta, outros países vistos como espaços de crescimento dentro do cenário europeu. E, estejamos cientes disso, eles preocupam-se acima de tudo em saber onde é que o seu dinheiro estará mais seguro. E as últimas medidas políticas assustaram-nos. Estão a desincentivar os grandes investidores a apostar em Portugal, em detrimento de outros locais

    De que forma a instabilidade legislativa e as novas medidas anunciadas para a habitação poderão refletir-se ou levar a alterar a vossa estratégia em Portugal?

    A nossa estratégia é a longo prazo, a pensar na próxima década. Mas tememos que, nos próximos dois anos, as medidas políticas deste Governo assustem investidores, com o inevitável aumento dos valores de mercado em algumas áreas. E quem sofrerá serão as pessoas, não esses investidores, que irão para outro sítio.

    Portugal está em competição com Espanha, Grécia, Chipre ou Malta, outros países vistos como espaços de crescimento dentro do cenário europeu. E, estejamos cientes disso, eles preocupam-se acima de tudo em saber onde é que o seu dinheiro estará mais seguro.

    E as últimas medidas políticas assustaram-nos. Estão a desincentivar os grandes investidores a apostar em Portugal, em detrimento de outros locais. Aquilo que mais procuram é estabilidade política, bem como um pensamento estruturado quanto ao seu papel no país. Actualmente, o que se verifica é que ninguém sabe o que fazer, com resultados muito maus. Ainda esta semana uma empresa anunciou que vai deixar cair um projecto de 495 milhões de euros, com a perda de 550 empresas, em face dos recentes anúncios. E acho que esta é só a ponta do icebergue.

    Há uma tendência crescente na integração da construção modular ou de madeira em muitos projetos, em parte para ‘acelerar’ o tempo de obra e de forma a minimizar o impacto da mesma no local. Como encaram esta possibilidade nos vossos empreendimentos?

    Procuramos conjugar o tradicional betão com a construção modular. Em todos os nossos projectos apresentamos as melhores e mais sustentáveis soluções. Por isso, sim, estamos sempre abertos a investir em novas soluções.

    Mas tudo depende dos custos. Actualmente, a logística e o fornecimento passam por um período difícil em qualquer parte do mundo. Assim, temos de estar certos do que podemos realmente entregar, ao invés de tentarmos reformular conceitos, sem totais garantias. Ou seja, damos prioridade à preparação de um plano de construção que possamos cumprir, com o nosso estilo tradicional de cimento com módulos. No entanto, saliento não fechamos a porta a novas soluções.

    Sobre o autorCidália Lopes

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    “Vamos continuar na Alta de Lisboa com um novo investimento de 300M€”

    Quase 10 anos depois de iniciarem a sua actividade, a Solyd Properties adaptou a sua estratégia às necessidades do mercado. Posiciona-se como um promotor de ‘mini-cidades’ para a classe média, com o foco no bem-estar e na qualidade. É também um dos primeiros promotores a ter políticas muito concretas de ESG e a criar uma estratégia de actuação em torno desses objectivos, onde acredita que a construção off-site vem dar respostas a muitos destes desafios

    Cidália Lopes

    Ao CONSTRUIR, Gonçalo Cadete, co-fundador da Estoril Capital Partners e chief executive officer da Solyd Property Developers revelou os investimentos previstos em novos projectos na Alta de Lisboa e em Loures, assim como a intenção de recuperar uma ideia já antiga – o Built to Rent

    Na promoção imobiliária desde 2015, ou seja, quase 10 anos depois de terem iniciado a vossa actividade, que balanço fazem?

    Na verdade, para ser mesmo correcto, começámos em 2014. E começámos como Estoril Capital Partners no dia 3 de Julho, sendo que, no entanto, o primeiro investimento só foi formalizado em Maio de 2015. Entretanto, em Portugal, estávamos a sair da crise depois de anos muito complicados como foram 2012, 2013 e 2014 e começou a haver alguma actividade de reabilitação. Já existiam pelo menos dois promotores mais especializados que tinham começado a comprar e a desenvolver projectos. E, nesse sentido, achamos que era uma área onde valia a pena investir.

    Começámos, então, em 2015, na reabilitação a fazer o percurso normal: comprar edifícios degradados ou em mau estado e depois reabilitá-los. Os primeiros projectos foram em Lisboa e no Monte Estoril.

    Houve, portanto, uma primeira fase da nossa existência, digamos assim, onde apostámos nesse tipo de projectos, até 2019. Entretanto, começámos a ter uma perspectiva de escala diferente e que não seria possível com projectos de reabilitação no centro das cidades, onde no, máximo, conseguíamos ter 40 apartamentos. Até porque o nosso parceiro, a Oaktree, enquanto investidor institucional, precisava de um volume de investimento, que se tornava mais difícil atingir apenas com projectos de reabilitação.

    Então, a partir de 2018, pensámos que o mercado estava a ficar um bocado saturado. Era um mercado que estava muito dependente dos compradores estrangeiros e dos Golden Visa. Foi quando pensámos: “Vamos diversificar”. Começámos, então, a olhar para construção nova, para o segmento médio, médio-alto. Havia muita disponibilidade de terrenos, custos de entrada bastante baixos e um desequilíbrio brutal entre procura e oferta.

    No fundo, isso acabou por ser um percurso natural do vosso crescimento também, não é?

    Sim. No fundo, perante uma análise dos diferentes segmentos de residencial, obviamente que nós começámos a desenvolver esta expertise. Na nossa equipa, todos tínhamos experiência, fosse na óptica do investidor, ou na óptica mesmo do promotor e do desenvolvimento ou da gestão imobiliária, mas, como empresa digamos, de promoção, não tínhamos.

    Começámos na reabilitação e depois, então, foi muito natural evoluir para a construção nova porque, lá está, em busca de escala, em busca de um segmento de mercado onde, estruturalmente, houvesse um maior desequilíbrio entre procura e oferta e onde pudéssemos investir com escala e com margem. E também, de alguma forma, responder a uma necessidade do mercado, que se irá continuar a verificar.

    Sim, até porque este tipo de projectos têm de ser pensados, também, a longo prazo…
    Sim. Isso é uma questão que nós temos tido no nosso País, enfim, e que agora temos esperança, que com o novo Governo e o Simplex estes processos possam ser melhorados. A verdade é que temos tido sempre uma instabilidade legislativa relativamente grande, à qual se junta a questão de processos de licenciamento muito longos.

    É curioso que quando começámos e, porque ainda havia poucos projectos a vir para o mercado ou em processo de licenciamento, as câmaras eram muito rápidas. Mas depois, rapidamente, entupiram e os processos começaram a demorar muito tempo e, obviamente, isso é muito frustrante na óptica do ciclo de desenvolvimento do projecto e que leva, muitas vezes, à necessidade de rever os planos de investimentos.

    Como se posicionam neste momento no mercado?
    A nossa estratégia tem sido ir ao encontro das necessidades do mercado. Iniciamos no segmento alto, com a reabilitação. Depois o empreendimento Mirear, em Miraflores é para um segmento, claramente, de classe média alta. O Altear é classe também média / média alta, eu diria, abaixo desta. E Loures, Santo António dos Cavaleiros, claramente, segmento mais médio.
    Mas o nosso desígnio é ir ao encontro, digamos, da maior massa de portugueses, que são famílias de classe média. E, portanto, estamos muito atentos aos programas todos das câmaras, do Governo, e o nosso desígnio é ir nesse sentido.

    Quando entraram no mercado da habitação nova começaram a ter projectos apenas em Lisboa ou na Grande Lisboa. O que procuram quando desenvolvem um projecto?
    Não temos muitas localizações, mas nas localizações onde estamos, temos uma dimensão significativa e, de alguma forma, dominamos ou somos o promotor preponderante nessa localização. E, sim, tem sido de facto uma estratégia.

    A ideia é escolher uma localização que vá ao encontro, digamos, das tendências, tendências estas que até acabaram por ser muito acentuadas com o Covid, ou seja, o facto de as pessoas passarem cada vez mais tempo nas suas casas.

    Não só em lazer, mas também a trabalhar, portanto, em inglês, ‘homification’, em que a casa passou a ter uma importância muito maior do que tinha.

    Para nós que fazemos habitação nova, esta tem que ser confortável e tem que oferecer uma série de infraestruturas que permitam também tornar essa vivência mais agradável. Por estes motivos faz-nos sentido apostar em projectos maiores.

    No fundo, como uma ‘mini cidade’ ou as chamadas cidades dos 15 minutos…
    Exactamente. Sim, no fundo é que tentamos recriar. Para a Solyd este conceito já é o presente. Temos de olhar para a localização e pensar no que se consegue criar nessa localização, tanto na nossa casa como na infraestrutura do condomínio e na envolvente.

    Por exemplo, o Mirear, aqui em Miraflores. De um lado temos um parque municipal, de outro lado temos Monsanto, perfeitamente acessível, porque tem uma passagem subterrânea. Ao mesmo tempo, no que diz respeito ao condomínio, temos uma série de infraestruturas que nos permite, se quisermos, sair de casa e estar a trabalhar no condomínio, ou ir dar um mergulho numa piscina, ou ir correr no ginásio, e depois, ao mesmo tempo, na nossa casa, temos varandas muito grandes, janelas com vãos também muito generosas e, portanto, eu estou em casa, mas tenho quase um prolongamento para a rua, obviamente, numa lógica de apartamentos, que é o que nós fazemos.

    Estamos sempre a olhar para novas localizações nesta lógica e em zonas que permitam, também uma lógica de continuidade, como é o caso da Alta de Lisboa, que se desenvolveu muito a partir do momento que começámos ali a construir, em particular porque estamos numa área que percepcionada como sendo pouco segura e que estava abandonada há anos.

    Em que fase se encontra actualmente o Altear?
    O Altear conta com 10 edifícios, dos quais sete já estão concluídos e entregues. Temos um que até ao final do ano ficará, também, concluído e depois vamos ter mais dois. São no total 536 apartamentos e 27 espaços comerciais e está praticamente todo vendido. Temos muito poucas unidades que restam no Altear Jardins 1 e 2, que são os últimos dois edifícios que ainda se encontram, digamos, numa fase intermédia de construção. A ideia é, que até ao próximo ano, consigamos entregar a totalidade dos dez edifícios.

    E prevêem continuar a investir na Alta de Lisboa?
    Sim, na realidade vamos avançar para uma segunda fase do Altear e que será ainda maior. Prevemos um investimento na ordem dos 300 milhões de euros [o do Altear I foi de 225 milhões de euros], porque se trata de um plano ainda maior, mas que neste momento se encontra em diferentes fases de licenciamento.

    Dado que o vosso plano de construção nova continua, que outras localizações vos poderiam, igualmente, despertar interesse?
    Eu diria que não somos um promotor do centro de Lisboa e indo ao encontro da ideia de fazer empreendimentos para o segmento de classe média alta e de classe média, com as tais características que já falámos, procuramos localizações na periferia, nomeadamente Área Metropolitana de Lisboa, tanto na margem Norte como na margem Sul.

    Zonas com uma boa rede de transportes, educação, saúde, serviços, que tenham escala e que permitam, no fundo, desenvolver de forma continuada, para o futuro, a localização.

    Neste sentido, ainda temos capacidade para desenvolver mais projectos tanto na Alta de Lisboa, como em Santo António dos Cavaleiros, onde temos o Élou.

    Como é que se processa essa continuidade?
    Vamos comprando lotes, vamos aprovando projectos e vamos desenvolvendo. Nós temos o desígnio, mas, enfim, como gostamos de fazer as coisas de forma
    sustentada e já analisámos várias oportunidades, mas nunca acabámos por concretizar, tanto na área Metropolitana do Porto, como no Algarve. Mas, portanto, vemo-nos nessas três localizações.

    Os vossos projectos têm, também, uma grande preocupação com sustentabilidade e a mobilidade. De que forma estes aspectos são hoje determinantes para o tipo de habitação que querem desenvolver?
    Tentamos, por um lado, que as infraestruturas de transporte sejam muito boas e depois também apostar em tudo o que é mobilidade eléctrica. Em todos os nossos empreendimentos temos pré-instalação para a instalação de carregadores eléctricos e gestão inteligente desses carregadores.

    Claro, hoje há todo um novo paradigma ao qual não é possível ficar alheio. Aliás, temos uma parceria com a EDP para termos acesso às soluções mais sofisticadas, tanto a nível de carregamento, como depois da gestão.

    E essa parceria está presente em todos os vossos empreendimentos?
    Sim, em todos eles. Há uma preocupação grande a vários níveis. Por um lado, com a eficiência energética e neste sentido, o Élou é NZEB. Não obstante, tratar-se de um projecto para a classe média, existe um conjunto de equipamentos como painéis solares, bombas de calor, elevadores de alto rendimento, com poupança de energia e que geram a sua própria energia no movimento descendente. Também os revestimentos, assim como as caixilharias com todas as janelas a apresentarem um comportamento térmico e acústico também de elevado desempenho.

    Por exemplo, o tema da água e da poupança da água é importantíssimo e neste capítulo temos uma parceria com a Grohe, já que é uma empresa que têm uma serie de sistemas com poupanças de até 70% do consumo de água. Por exemplo, os chuveiros têm injecção de ar para terem pressão e, ao mesmo tempo, consumir menos água, sem que se perca a experiência do duche.

    Depois, temos também uma preocupação muito grande ao nível dos resíduos, da utilização de materiais reciclados e que possam, por sua vez, ser também recicláveis. Este aspecto está cada vez mais presente nos nossos projectos, até porque somos dos poucos promotores com relatórios de sustentabilidade publicados e onde detalhamos tudo o que fazemos em termos de sustentabilidade e ESG.

    Como é que isso se traduz na prática?
    Por exemplo, todos os nossos contratos com os empreiteiros, com os fornecedores, têm uma série de cláusulas que obrigam à gestão de resíduos, a uma série de preocupações, também, com a mão de obra. Portanto, com todas as fases. Temos, também, promovido, a industrialização, tanto fora, como na própria obra. Para quê? Para termos menos resíduos, para aumentar o nível de reciclagem.

    Existe uma série de medidas que vão no sentido de fazer com que haja menos emissões, menos resíduos, um tratamento muito mais eficaz desses resíduos, uma incorporação muito maior de materiais reciclados e recicláveis.

    E, depois, uma série de componentes de eficiência energética, tanto ao nível da electricidade, como quanto à água. A incorporação de bombas de calor, painéis solares ou fotovoltaicos. Somos um promotor com uma grande preocupação técnica. Mais de metade da nossa equipa são engenheiros e arquitectos, o que acaba por nos dar outra visão dos projectos.

    O que é que muda?
    Temos muito cuidado com os projectos, com a contratação desses projectos, com o acompanhamento próximo dos empreiteiros e do produto final. O facto de fazermos parte de uma organização internacional, imputa-nos essa responsabilidade. Estamos agora a preparar o nosso terceiro relatório. Tudo isto é um processo, em que estamos continuamente a melhorar.

    Mas ter poucos projectos também nos permite ter um maior impacto, uma maior intervenção no próprio território. E trabalhar com as várias entidades. E fazer a diferença no fim do dia. É isso que nós queremos.

    Há aqui uma ‘democratização’ da qualidade?
    Exactamente. Ou seja, não estamos a fazer um produto diferente só porque tenho públicos-alvo diferentes, seja em termos de conceito arquitectónica, seja ao nível das comodidades, das áreas ou dos materiais. Queremos padronizar e julgo que neste caso a industrialização veio dar um importante impulso.

    Acompanhar as diferentes tendências, tanto em termos de materiais, como de industrialização e de padronização, permite ir nesse sentido?
    Porque é que para nós a escala é importante? Obviamente, é nesta perspectiva de criar cidade, mas também é no sentido de ter uma escala grande que permita diluir os custos e, portanto, permite-nos também ter um melhor produto.

    Sabemos que os custos de construção têm um peso enorme e que isso se reflecte no preço final. É muito mais difícil oferecer o produto de Loures ao preço que está, do que o preço em Miraflores. É por isso que poucos promotores investem nesse segmento.

    É necessário fazer uma grande gestão ao nível dos custos e a industrialização permite-nos isso. Por exemplo, no Élou o desafio foi criar um produto funcionalmente muito agradável e com padrão alto e por isso desenvolvemos um projecto em que determinados elementos pudessem ser padronizados. Isto acontece, por exemplo, ao nível de todas as grades das varandas ou com os armários ou, até, com as casas de banho que são pré-fabricadas e instaladas posteriormente.

    Há um conjunto de técnicas industriais e de escolha de materiais modernos que fazem com que a percepção seja de grande qualidade, tanto em termos de durabilidade e que, ao mesmo tempo, seja eficiente em termos de custos.

    Nós começámos os ensaios no segmento alto, mas queremos ir, cada vez mais, para um segmento popular, mas não é uma coisa muito fácil de fazer. É uma discussão que temos muitas vezes com as Câmaras, muitas vezes com os bancos e que todas essas entidades nos têm apoiado neste movimento, mas é um desafio.

    Sobre o Simplex, como olham para as alterações que este programa está a trazer?
    Estamos todos bastante optimistas. Mas da nossa parte, que temos projectos com dimensão e que, por isso, desenvolvemos uma relação relevante com as Câmaras, mas também com os bancos, que não se irá alterar com estes novos processos.
    Obviamente que, tudo o que diminua prazos de licenciamento, de regulamentações e de procedimentos é muito positivo para o mercado.

    Também ao nível da exigência de um maior acompanhamento da obra não nos parece problemático, até porque na maior parte dos financiamentos bancários, já tínhamos fiscalização externa alinhada com as entidades financiadoras.

    Mas isso já existe noutros países, já é assim noutros países, e de alguma forma também era o que a indústria pedia há muitos anos. No fundo, há aqui algumas ‘dores de crescimento’, mas que é normal.

    Ainda no residencial, que outros segmentos não descartam e que é uma possibilidade de investimento?
    Há um que é natural e que nós, no fundo, estamos a analisar. No passado até dissemos que gostávamos de entrar, que é o Build to Rent. Portanto, o desenvolvimento de projectos voltados para arrendamento.

    A rentabilidade desses projectos é mais baixa do que o Build to Sell, portanto, de projectos para venda. E, portanto, quer dizer, quando nós pesamos na balança, tem sido economicamente muito mais favorável. Mas é qualquer coisa que está no nosso radar e não descartamos, inclusivamente, fazer um piloto para ensaiar um projecto para arrendamento.

    E procuram alguma parceria para esse tipo de projecto?
    Não, não. Nós temos as competências para fazer. E depois o que acontece, tipicamente, é que esses projectos, depois de estarem feitos e com os apartamentos arrendados, são adquiridos por investidores institucionais, como seguradoras, fundos de pensões, esse tipo.

     

    Sobre o autorCidália Lopes

    Cidália Lopes

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    DIGITALBuilt o balcão único de apoio à transição digital do sector

    O pólo de inovação digital para o sector AEC, DIGITAL Built, arrancou oficialmente em Maio e pretende ser uma “one stop shop” de apoio às empresas do sector no seu percurso de transição digital. Formar, financiar e validar são alguns dos serviços que irá prestar

    Os pólos de inovação digital são consórcios que visam ser uma one-stop-shop, um balcão único, para as pequenas e médias empresas, facilitando-lhes uma porta de entrada no ecossistema de inovação, da digitalização, da automação e, por esta via, da sustentabilidade. A rede portuguesa de pólos de inovação digital é composta por 17 consórcios, dos quais três pertencem à rede europeia (European Digital Innovation Hub, EDIH), com a qual a iniciativa portuguesa está em linha. A medida é financiada pelo Programa de Recuperação e Resiliência, componente C16 – Empresas 4.0, que reúne os investimentos que visão reforçar a digitalização das empresas. Esta medida conta com uma dotação de 60 milhões de euros do PRR e tem como metas a criação de 16 pólos de inovação digital e prestar serviços a 4000 empresas até 2025.

    Sendo o esforço de digitalização transversal aos vários sectores da economia os diferentes pólos divergem nos sectores a apoiar. Para as empresas do sector AEC, Arquitectura, Engenharia e Construção, o “balcão único” dá pelo nome de DIGITALBuilt. Este consórcio integra o cluster AEC, via Plataforma Tecnológica Portuguesa da Construção (PTPC) que é a entidade líder de consórcio, e os clusters da Ferrovia (via Portuguese Railway Cluster Platform Association, ou Plataforma Ferroviária Portuguesa) e dos Recursos Minerais (Associação Cluster Portugal Mineral Resources). Aos três clusters juntam-se ainda as entidades prestadoras de “serviços”: o Itecons, a Associação Centro de Competências Ferroviário (CCF), StoneCITI, BUILT CoLAB, INESC TEC, FI Group e a FNWAY Consulting & Innovation. O pólo de inovação digital do sector AEC é um dos três pólos que integram, simultaneamente, a rede europeia EDIH.

    Testar antes de investir, validar, capacitar e financiar
    Em primeiro lugar importa desde logo salientar que o DIGITALBuilt, bem como qualquer um dos outros pólos de inovação digital, não têm como missão realizar actividades de inovação e desenvolvimento per si, antes ajudar o ecossistema nacional. “O objectivo é criar um hub que ajude as empresas no caminho da inovação, da sustentabilidade e eficiência, com incentivos financeiros muito significativos. Os verdadeiros actores são as entidades a quem compete prestar os serviços, cabendo aos clusters disseminar este hub entre o seu universo de empresas”, sublinhou Rita Moura, presidente da comissão executiva da PTPC, na recente apresentação pública do DIGITALBuilt.

    A ideia é “possibilitar a testagem e experimentação, facilitar a criação de ecossistemas e sinergias, facilitar e apoiar o financiamento, a formação e capacitação dos seus recursos e disponibilizar as infraestruturas para que as empresas possam criar competências digitais”, sintetizou.

    Os sete parceiros irão dividir entre si os serviços a prestar os quais estão agrupados em torno de cinco grandes áreas: “Capacitação e treino; diagnóstico de maturidade digital; serviços de incubação; apoio à procura de investimento; e ‘test before invest’”.

    “A capacitação e treino é uma das principais valências, para o sector AEC estamos a falar, por exemplo, da capacitação em BIM, programação aplicada à construção, Autocad, que continua a ser um desafio para muitas empresas, de gestão de projectos. O diagnóstico de maturidade digital, a ‘awereness’ que cada empresa terá das suas capacidades digitais é fundamental para saber para onde devem ir “, explicou João Moutinho, director do BUILT CoLAB. “A incubação será prestada sobretudo pelo parceiro INESC TEC, estamos a falar de mentoria para start-ups, laboratórios de co-criação. Financiamento, há um grande potencial na procura destes serviços e estudos financeiros e de mercado, de identificação de negócios, grande potencial na procura de serviços. E, por fim, o ‘test before invest’, porque é crucial testar antes de investir, e estamos a falar de montantes elevados e de investimentos que podem mudar o curso de uma empresa”, sublinhou o responsável do BUILT CoLAB, que é também um dos parceiros do consórcio DIGITALBuilt.

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    Os desafios da reabilitação urbana

    É na reabilitação urbana que assenta muito do trabalho desenvolvido pelo atelier Posto 9, fundado pelos arquitectos Joana Castanheira e André Ferreira há já duas décadas. Em conversa com o CONSTRUIR, passaram em revista alguns dos projectos em curso e reflectiram sobre os desafios que os mesmos colocam, sobre o conhecimento profundo da legislação urbanística que quem se aventura na reabilitação urbana em Lisboa precisa ter e sobre os indícios históricos que é preciso preservar

    O atelier Posto 9 nasceu em 2002. Actualmente o gabinete fundado pelos arquitectos Joana Castanheiro e André Ferreira tem em mãos mais de duas dezenas de projectos, a maioria de reabilitação, uma área que apaixona os arquitectos pelos desafios intricados que coloca. Numa conversa franca com o CONSTRUIR falaram da dedicação com que abordam cada trabalha. “Acreditamos numa arquitectura simples e intemporal, capaz de adicional valor e qualidade de vida aos seus utilizadores. Ao projectar procuramos soluções que correspondam aos objectivos dos nossos clientes, sem comprometer a natureza de cada espaço”.

    Fundaram este atelier em 2002. Mais de duas décadas, depois este ainda é um desafio?
    Joana Castanheira (JC): É um desafio, em Lisboa, em Portugal, gerir e manter um atelier
    Uma das grandes dificuldades reside no facto de não haver um vínculo definitivo com os promotores, o que faz com que a determinada altura do processo este possa desistir e avançar ou ficar por ali, ou porque vendeu, ou por uma razão qualquer. E isso em termos de planeamento no atelier, em termos de equipa, é bastante difícil de gerir. Creio que este é um dos desafios principais. E depois há a questão de termos apoio da Ordem dos Arquitectos, da Câmara… A nossa disciplina acaba por ter muito pouco apoio, muito pouco sustento.

    André Ferreira (AF): Sentimos isso na pele, ao longo destes anos. Diria que só quando começamos a acumular alguma experiência e a ter alguns clientes continuados, é que essas oscilações do mercado deixaram de ter menos impacto

    JC: Uma grandes apostas do atelier foi essa fidelização com os clientes. Para a qual foi decisiva o conhecimento que temos sobre a legislação, uma área em que a nossa disciplina é mesmo exigente. Temos uma legislação urbanística bastante extensa e, dependente da zona da cidade, bastante complexa. Depois, a forma como acompanhamos de uma forma muito pessoal os processos nas câmaras, especialmente a Câmara de Lisboa, que é extremamente difícil, transmitiu confiança e os clientes foram-se mantendo connosco. Eles sabem que quando nos entregam os projectos não os largamos até as coisas irem a bom porto.

    E isso não sempre é certo. O que pode dificultar o processo de aprovação de um projecto?
    JC: A abordagem ao projecto pode ser feita de várias formas. Mais fácil para ser mais rapidamente realizado. Ou mais difícil, mas que nos permite ganhar mais em termos de áreas, em termos de soluções, e é uma luta muito maior com a Câmara. E nós normalmente vamos sempre para a segunda opção, que é a mais difícil. Traz mais desafios, mas resulta num melhor projecto.

    Não existe aqui um compromisso entre o que a legislação permite e o que é possível?
    JC: O que acontece é que a legislação muitas vezes, não sendo muito complexa, não é absolutamente clara para todos os exemplos, para todos os projectos. Isso obriga-nos a fazer uma pesquisa exaustiva nos arquivos municipais da Câmara, fazemos quase que um histórico todo, bem consolidado, e depois reforçamos com muitos exemplos, para conseguir provar à Câmara que a nossa abordagem está certa.
    Mas isto exige um trabalho no terreno bastante exigente. Às vezes, com maior sucesso do que outras vezes. Isto para responder à sua pergunta: não, muitas vezes, em quase nenhum projecto destes nas zonas históricas, temos uma resposta clara da legislação que sim ou não. Não existe isto. Há formas de interpretar. Até a própria Câmara, diz sistematicamente “a nossa interpretação interna”, que é uma frase típica deles, “não está vinculada a nenhum regulamento, a nenhuma lei em específico”. Precisamente porque há essas lacunas, há essas situações não previstas na legislação. Nós escodamo-nos na legislação, mas tentamos sempre fazer uma interpretação que melhora consideravelmente o projecto e que também sirva aos interesses do promotor.

    AF: É algo que gostamos de fazer, que beneficia o promotor e tem contribuído para o crescimento exponencial do atelier e do trabalho que desenvolvemos.

    Que projectos passam habitualmente pelo atelier?
    JC: Habitação e educação, diria que são duas componentes fortes do atelier. Projectos privados de reabilitação urbana.

    E, por certo, muito investimento estrangeiro. Esta procura internacional foi essencial para a recuperação de Lisboa?
    JC: Sim, a maior parte dos nossos clientes são estrangeiros. Franceses, ingleses, e, lá está, outra característica que nos fez também destacar um bocadinho em relação aos clientes estrangeiros, é o facto de conseguimos sempre cumprir prazos. Nisso somos muito rigorosos, porque acho que é fundamental os arquitectos serem vistos também com esse rigor, porque a nossa profissão é muitíssimo exigente. E não faz sentido falharmos no cumprimento de um prazo.

    Prazos que agora o Simplex veio acelerar. Que impacto terá esta nova legislação nos projectos, do vosso ponto de vista?
    AF: O Simplex traz inúmeros desafios, desde logo a questão da responsabilidade sobre o projectista, Mas acho que ainda é cedo para percebermos o que daqui vai resultar. Existem sempre as dores de crescimento há ajustes que naturalmente terão que ser feitos mas
    a nossa expectativa é que haja uma melhoria gradual e que os processos sejam acelerados. A nossa impressão é, por isso, positiva.

    A revolução do sector chegou ao atelier

    Todo o sector AEC está a passar por uma ‘revolução’ seja por força da digitalização seja impulsionada pela sustentabilidade e pelo surgimento de novos produtos e soluções. Como é que esta realidade impacta a reabilitação e o vosso trabalho aqui no atelier?
    JC: Acompanhamos fóruns, feiras, etc.. para conseguirmos estar actualizados. E depois temos parceiros, engenheiros e equipas com quem trabalhamos.
    AF: E, internamente, também nos estamos a adaptar. Ainda não trabalhamos em BIM, temos nos apoiado nos nossos parceiros, mas vamos fazer também esta transição ainda este ano. Tem de ser feito e faz todo o sentido.
    Ao nível dos projectos estamos sempre a testar soluções, diferentes sistemas construtivos. Mas sim isto é tudo muito recente. Tentamos perceber as potencialidades e as vantagens dos diferentes materiais e de que forma podemos tirar partido disso. Por exemplo, estamos agora com um projecto que é a reabilitação campus da Universidade Lusófona, no Campo Grande. É uma área bastante grande, que envolve uma série de diferentes edifícios e é um projecto de transformação bastante grande que pretende construir uma imagem nova do Campus a nível urbanístico o que irá envolver a demolição de alguns edifícios existentes e a sua substituição por construção nova, nuns casos. Outros serão reabilitados… é de facto um projecto muito grande.

    Qual o valor do investimento neste projecto? Haverá um aumento da capacidade da Universidade?
    AF: São mais de 50M€ de investimento. O Campus da Lusófona será sede da FilmEU, [Universidade Europeia de Cinema e Artes dos Media que reúne quatro instituições de ensino superior: Universidade Lusófona (Lisboa, Portugal); Baltic Film, Media and Arts School (Tallinn, Estonia); LUCA School of Arts (Bruxelas, Bélgica); e IADT Dún Laoghaire Institute of Art Design and Technology (Dublin, Irlanda)], mais do que aumentar a capacidade o objectivo é o de transformar os vários para receber as novas valências, melhores equipamentos, melhores salas de aula…

    JC: O edifício principal era originalmente uma fábrica de lanifícios no século XIX, que depois foi adaptado para o quartel e depois para universidade e, por isso, precisa também de uma intervenção.

    AF: Ainda estamos em fase de projecto, o objectivo é que a intervenção seja feita ao longo dos próximos cinco anos. Para isso, os novos edifícios serão em construção modular, à partida com base no sistema CREE. Um sistema pré-fabricado, mas que ainda nos dá alguma margem para o podermos “moldar” e adaptar à nova imagem.

    A paixão pela reabilitação urbana

    O que é que vos apaixona por esta área da reabilitação?
    JC: Também fazemos construção nova, mas creio que a reabilitação representa um desafio muito maior. E posso dar-lhe como exemplo o projecto do Terreiro do Trigo (ver caixa), que na realidade são dois edifícios em Alfama que na sua origem estiveram unidos de forma quase que orgânica e o exercício que se teve de fazer para conseguir cumprir a legislação em vigor e, ao mesmo tempo, manter essa orgânica que foi estabelecida ao longo destes últimos séculos. É quase um jogo, não é? Como é que vamos conseguir dar resposta a uma coisa tão complexa, ainda por cima nesta área da reabilitação? E depois temos a reinterpretação das coisas, por exemplo, nesse edifício do Terreiro do Trigo, encontrámos umas pinturas existentes que, por acaso, estavam tapadas com tinta, conseguimos recuperá-las, eram uns desenhos bucólicos lindíssimos. E o que fizemos foi recolocá-las, mas dar-lhes uma atmosfera um bocadinho mais contemporânea. Porque também não ficamos agarrados só ao histórico. Assim, como com os azulejos que encontrámos, vamos recolocá-los, embora não tendo composição completa. Vamos colocá-los com umas propostas que não são as mesmas.
    As coisas que vamos encontrando dão-nos as pistas para o que fazer a seguir, o que difere da obra nova, que é mais uma folha em branco, completamente livre, não tenho nenhum pressuposto. Na reabilitação estamos sempre a tropeçar nos pressupostos.

    AF: Estou a lembrar-me também de um outro projecto que temos, que foi agora aprovado na arquitectura, está na fase das especialidades, que é a adaptação do Palácio do Vimioso, no Campo Grande para o Instituto Politécnico da Lusofonia (IPLUSO). O edifício estava muito alterado, muito (mal) adaptado e subaproveitado. O nosso objectivo foi, no fundo, “limpar” e tentar perceber a parte mais original. E então, vamos começando a “descascar”. O edifício já era um edifício escolar a intenção é a de passar de uma escala mais doméstica, para uma escala mais institucional.

    As décadas de construção ilegal é um problema comum na reabilitação em Lisboa?
    JC: Sim, e depois há esse trabalho junto com a Câmara de perceber essas sobreposições todas. Acontece-nos imenso. Todos estes edifícios históricos onde intervimos nenhum estava igual ao que tinha sido originalmente aprovado na Câmara. É como que um quebra-cabeças. Esse deslindar do que é que é legal, do que é que é original, de origem, do que é que a Câmara aprova, essa sobreposição é bastante difícil, mas faz-se

    Que materiais são privilegiados numa reabilitação?
    JC: As soluções podem ser muito diversificadas e estamos sempre à procura de novidades, projecto a projecto. Mas há algumas repetições, como o reboco à base de cal, as argamassas que têm uma aparência mais manchada, o uso de materiais mais ‘puros” como madeiras e pedras, para manter esta relação histórica com o edifício. Mas depende muito de projecto para projecto. Há aqueles em que não nos sentimos tão condicionais pelo valor histórico e nos permitimos introduzir outro tipo de materiais.

    Têm em mãos a intervenção no complexo as antigas piscinas do Belenenses que será transformado numa escola, o Discovery Center, da British School of Lisbon. Este é um projecto sem essa componente histórica, mas que reabilita o complexo existente. É assim?
    AF: O antigo conjunto olímpico de piscinas é uma construção dos anos 80, em betão armado, que funcionou até há 10 ou 15 anos atrás e que está devoluto. O complexo é composto por um edifício semicircular de três pisos à frente, onde ainda funcionavam até recentemente alguns gabinetes, e depois o edifício das piscinas que está completamente devoluto. A opção de reabilitar esteve sempre em cima da mesa pela velocidade de construção e também pela contenção de custos. A adaptação do edifício das piscinas foi o mais desafiante, pelo novo uso e dada a existência dos tanques. Houve uma ideia inicial de baixar a cota da piscina para servir para nivelar cotas com o edifício, o que acabou por não acontecer porque o terreno é muito rochoso e os custos de escavação eram altíssimos. Acabou por ficar um bocadinho a meio termo. O tanque da grande piscina vai ser um espaço de recreio, com uma bancada grande que será um espaço exterior para os grandes eventos da escola. Uma parte do edifício terá que ser demolida porque a estrutura está em colapso, mas a ideia é precisamente essa: adaptar o que existe e transformá-lo para o novo uso.

    JC: O grande desafio foi não só funcional, mas também o de construir uma imagem global, porque é um edifício muito pós-moderno, com uns vãos muito característicos exteriores. Mesmo a sua posição no terreno, não estava paralela a nada… Foi um projecto que teve também participação do Património, porque o edifício, não sendo classificado, está em zona de protecção da Capela dos Jerónimos, e das duas capelas que ali estão, e por isso houve, muito debate com a equipa do Património.

    Quando é que as obras irão arrancar?
    O projecto está em fase final de aprovação na Câmara e a intenção é arrancar com as obras em Junho.

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    “Espanha acaba por ser um destino de expansão natural”

    No ano em que inaugura a primeira unidade em Espanha, o presidente e fundador da Vila Galé fala do potencial do grupo no mercado ‘vizinho’, assumindo que Sevilha e Madrid são destinos atractivos e a considerar num plano de expansão, pelo dinamismo que apresentam. Jorge Rebelo de Almeida garante ao CONSTRUIR que Moçambique e Angola estão no radar mas não são prioridade para já. Até porque, assume, com a entrada em Espanha e Cuba, “já temos bastante trabalho pela frente e muito que fazer”. As prioridades do novo Governo e a crise da Habitação também merecem resposta por parte de Rebelo de Almeida

    Ricardo Batista

    Ao CONSTRUIR, o fundador da Vila Galé explica o sucesso no Brasil, o potencial do mercado espanhol e o que torna a actividade do Grupo tão atractiva em várias regiões. No ano em que inauguram a primeira unidade em Isla Canela e Cuba, Jorge Rebelo de Almeida garante que pouco se faz se não houver uma estrutura financeira sólida e um controlo de gastos muito rigoroso.

    Em Janeiro, quando foram apresentados os resultados do Grupo, apuraram lucros de 100 milhões de euros no final de 2023. Classificaram o resultado como o ‘melhor de sempre’. Em que assentou esta performance?
    De facto, no ano passado o Turismo viveu um ano de grande recuperação e dinamismo, que se refletiu no resultado das empresas do sector. Surpreendeu-nos a todos e superou as expectativas, a conjugação de um explícito aumento da procura e de uma melhoria do preço médio.

    Os resultados de 2023 cresceram 12/13% face a 2022. Quais são as suas expectativas para os resultados de 2024? Há algum indicador que possa acalentar continuar a crescer este ano?
    Para este ano, os primeiros indicadores apontam ainda para um ligeiro crescimento. Por exemplo, Janeiro e Fevereiro estiveram acima do ano passado e as reservas para o resto do ano também estão a um ritmo muito positivo. Se se mantiverem, será excelente.

    Nos últimos dias voltámos a assistir a movimentações bélicas, nomeadamente no Médio Oriente, que podem representar novos factores de incerteza. De que modo um grupo como a Vila Galé se pode posicionar para passar, tanto quanto possível, incólume a estes focos de incerteza?
    Acontecimentos como guerras, crises, desastres ambientais têm sempre impacto na indústria do turismo e na economia. Pode dar-se o caso de as pessoas terem menos hipóteses de viajar – por insegurança e incerteza, por indisponibilidade de rendimento, por redução das acessibilidades. Mas também podem significar mais custos para as empresas do sector, como temos vindo a assistir com a subida do preço da eletricidade, dos combustíveis, dos materiais de construção e de alguns produtos alimentares. A única forma que temos de resistir a estes riscos é estar preparados previamente, ter uma estrutura financeira sólida e um controlo de gastos muito rigoroso, para evitar os desperdícios. Temos de trabalhar mais e melhor, ser inventivos e inovadores, e não podemos paralisar. Por exemplo, durante a pandemia, abrimos quatro hotéis – três em Portugal e um no Brasil –, fizemos uma central de fruta no Alentejo, construímos a nova sede da Vila Galé, em Oeiras.

    Entrar no segmento Habitação faz, de algum modo, parte da vossa estratégia, seja pela conversão de alguma unidade em apartamentos ou por outra via?
    Na Vila Galé estamos muito atentos às questões da habitação no seu todo. Há dez anos que ando a alertar para esse problema em Portugal. Sei que esse é um grande motivo de preocupação das nossas equipas e, por isso, estamos a criar uma fundação em que um dos grandes objetivos será ajudar os colaboradores a ter casa e a pagar os seus empréstimos. O nosso envolvimento na construção de habitação não é mais um negócio, mas apenas uma via para ajudar a resolver este grave problema às nossas equipas.

    A este respeito e numa visão mais global: pode o sector hoteleiro ser parte da solução para a escassez de oferta habitacional?
    A solução para o problema da habitação terá de passar sobretudo por outras medidas com muito mais relevância e efeito, tanto do sector público como do privado, com envolvimento de governo central, do poder local e câmaras, da banca, dos promotores imobiliários, dos fundos de investimento. Está tudo por fazer. Precisamos de garantir que há oferta a preços justos que os jovens e a classe média consigam pagar, ter mais habitação social e dar incentivos à iniciativa privada para construírem casas acessíveis, até para fixarmos os jovens em Portugal e contribuirmos para reduzir as assimetrias no território.

    Há hoje um foco particular no Brasil. O Jorge chegou a dizer, por diversas vezes, que lhe chegaram a oferecer terrenos para a Vila Galé desenvolver projectos. O que vos torna tão diferenciadores naquele mercado?
    Vários aspetos, mas, desde logo, o rigor e empenho constante, o profundo conhecimento do mercado, onde estamos há quase 25 anos, e a confiança na nossa capacidade para cumprir, criando riqueza e gerando emprego. Fazemos um acompanhamento muito próximo de todos os processos, desde a construção das unidades, à formação das equipas, à promoção e divulgação dos produtos e ao posicionamento da marca, legislação, funcionamento do sector. Claro que também é importante a proximidade cultural entre os dois países. Temos dez unidades no Brasil, onde somos a maior rede de resorts, e fomos dos primeiros a oferecer o ‘tudo incluído’, que teve logo uma grande aceitação junto do público brasileiro e permitiu, a partir daí, diferenciar a marca Vila Galé. Além disso, distingue-nos a oferta muito vocacionada para famílias e crianças, a qualidade e a simpatia das equipas, sempre muito próximas dos clientes. Hoje temos um prestígio grande no Brasil e somos muito reconhecidos pelo desenvolvimento que temos promovido em determinadas regiões, criando emprego e gerando riqueza para as comunidades.

    Admito que pode ser manifestamente exagerado pensar tão à frente. Mas além do Sunset do Cumbuco, que prevêem abrir este ano, ou o projecto de Cachoeira do Campo, têm previstas mais unidades no futuro mais imediato?
    Sim, o Vila Galé Collection Sunset Cumbuco abre este ano, a 30 de Novembro. E o Vila Galé Collection Ouro Preto, em Minas Gerais, está previso para 25 de Abril de 2025. Aqui até vamos testar a produção de vinhos e azeites, como já fazemos no Alentejo, com a marca Santa Vitória, e no Douro, com Val moreira. Além destes, estamos também já a trabalhar num segundo resort em Alagoas, o Vila Galé Coruripe Alagoas, que será um resort de praia, que deverá estar concluído em 2026. E temos ainda projetos para Brumadinho, próximo do museu de arte contemporânea de Inhotim, para o centro histórico de São Luís do Maranhão e para Belém do Pará. Na Vila Galé, continuamos a ter um grande prazer em realizar projetos diferenciadores e inovadores e em recuperar património histórico.

    Olhando para o Programa de Governo, e olhando para a política fiscal e de incentivos públicos, enquanto empresário como avalia a estratégia que está pensada? E, não concordando com algo, o que acha que deveria ter sido introduzido?
    Sempre que um novo Governo toma posse, torcemos para que tudo corra pelo melhor. No entanto, à partida, continuam a faltar reformas essenciais para o país – reorganização administrativa do país e da administração pública, que é decisiva sobretudo num período em que se avizinha o risco de instabilidade governativa. Falta também um programa de emergência para resolver o gravíssimo problema da habitação para os mais pobres e também mudanças para a classe média em termos de crédito bonificado, rendas limitadas, propriedade resolúvel, etc. Para este programa é fundamental envolver Governo, câmara municipais, fundos de investimento, bancos, senhorios e todos os empenhados neste processo.

    Na ocasião em que foram apresentados os resultados de 2023, adiantou também que a Vila Galé estava a estudar ou tinha estudado a possibilidade de abrir hotéis em África, nomeadamente a África lusófona. Quais são as prioridades? Cabo Verde? E, já agora, que tipo de hotel seria?
    Vamos vendo alguns projetos e analisando algumas possibilidades, mas, neste momento, não há nada de concreto. Com tantos projetos em Portugal e no Brasil, e com a entrada em Espanha e em Cuba, onde abrimos um resort em Cayo Paredón Grande, numa praia paradisíaca, a verdade é que já temos bastante trabalho pela frente e muito que fazer. No entanto, Cabo Verde e Moçambique continuam no nosso radar.

    O vosso balanço marca igualmente o pontapé-de-saída da vossa estratégia em Espanha. O que tem a Vila Galé para acrescentar a um mercado tão competitivo?
    Sim, abrimos a 15 de Abril a nossa primeira unidade em Espanha, em Isla Canela. O Vila Galé Isla Canela, no Sul, em Huelva, é resort com acesso direto à praia e decoração e arquitetura de influência árabe, muito pensado para receber famílias. E permite começar a mostrar ao mercado espanhol o que diferencia a nossa marca. Acaba por ser um destino de expansão natural, pela proximidade com Portugal e com o Algarve, e que fazia sentido para complementar a nossa oferta. Já tínhamos feito várias tentativas para entrar e, naturalmente, queremos continuar a crescer em Espanha. Madrid e Sevilha são cidades de que gosto muito e em que vejo muito potencial, pelo seu grande dinamismo. A nossa visão não é fazer um hotel em cada sítio só por fazer. Quando entramos, queremos ter uma posição consolidada e forte.

    A proximidade ao Real Madrid, por via da Fundação Real Madrid, pode ser um factor importante na vossa entrada na capital espanhola?
    Sim, fizemos essa parceria com a Fundação Real Madrid para ter clínicas de futebol para crianças nalguns dos nossos hotéis em Portugal, em particular no Algarve e Alentejo. Uma das imagens de marca da Vila Galé é ter propostas atrativas para famílias e para os mais novos e este projeto é mais um exemplo disso. Paralelamente, é claro que é importante ter estes parceiros de peso para ganhar notoriedade junto do mercado espanhol e abrir novas frentes de divulgação e diversificação da oferta.

    Sobre o autorRicardo Batista

    Ricardo Batista

    Director Editorial
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    Créditos: Paolo Rossell

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    Nature Based Solutions em conferência

    NBS Summit Urban Edition realiza-se a 23 e 24 de Maio, e trará ao Porto especialistas, investigadores e profissionais. Durante dois dias o debate e a partilha irão centrar-se nas soluções baseadas na natureza (Nature Based Solutions, NBS) e a sua importância no desenvolvimento urbano sustentável e no combate às alterações climáticas. A organização é da Associação Nacional de Coberturas Verdes, com o apoio do município através da Águas e Energia do Porto  

    O NBS Summit Urban Edition pretende ser um palco para a partilha de conhecimento, de práticas e de exemplos de soluções para tornar as cidades mais sustentáveis. A urgência é real e este é um momento decisivo para começar a delinear cidades mais resilientes e capazes de se adaptar às alterações climáticas como nos conta Ana Mesquita, membro da direcção da Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV), que em conjunto com o município do Porto, através da Águas e Energia do Porto organiza o encontro que durante dois dias reúne especialistas, investigadores e profissionais em torno de um tema cada vez mais vital.

    Ana Mesquita, membro da direcção da Associação Nacional de Coberturas Verdes (ANCV)

    Como é que surge a NBS Summit e qual a sua relevância para o momento actual?

    Este encontro nasce da relevância do tema para as cidades, que têm de se adaptar às alterações e ao stress que terão nas próximas décadas. A intenção é a de criar um evento que agrega todas as partes interessadas: os municípios, os projectistas, a indústria e os centros de investigação e as universidades. Surge também em sequência de um outro evento que realizámos com a Câmara do Porto, o Internacional Green Infrastructure Conference, em 2018, que contou com a presença de uma série de especialistas internacionais.

    Agora, seis anos depois, o palco do debate é o Superbock Arena, podemos fazer a analogia com o significado e a importância destes temas no momento actual?

    Estes temas estão no centro do debate e da discussão de hoje sobre as cidades do futuro e o futuro da urbanização. Estamos todos muito felizes por ir à praia em Abril, mas não temos noção do que é que isso significa, na verdade, não é? Há uma certa ingenuidade da nossa parte, quando estas situações devem-nos alertar.

    As coisas estão a mudar a uma velocidade maior do que aquela que era o expectável, e temos de alterar a forma como pensamos as cidades e desenhamos os edifícios, temos de perceber que já não é uma questão de combate às alterações climáticas, mas é uma questão de tentar adaptar-nos. De sermos resilientes. Este termo que está muito na moda, mas que é uma propriedade física dos corpos de sofrer um impacto, um stress, e voltar à sua forma original. E é isso que as cidades vão ter de conseguir fazer. Vão ter de conseguir lidar com temperaturas extremas e, de alguma forma, conseguir manter algum microclima dentro das ruas.  Vão ter de conseguir lidar com grandes volumes de água em curtos períodos de tempo, sem riscos de inundações.

    Como é que em Portugal é percepcionada esta questão?

    Está a demorar a ser percepcionado quer pelas cidades, pelas entidades públicas e também pelos projectistas. E já nem falo pelos donos de obra.

    Eu diria que a indústria e os centros de investigação, as universidades, estão um passo mais à frente. A indústria está preparada para fornecer esse tipo de soluções, para dar apoio técnico à instalação desses materiais. Os grupos de investigação têm já dados e estudos que comprovam os benefícios e a viabilidade económica das nature based solutions.  Onde é que esbarramos? Muitas vezes nos municípios, que estão a começar a acordar para o assunto, nos projectistas e profissionais que ainda têm algum receio, ou falta de conhecimento, mas sentimos que as coisas estão a mudar. O caminho que percorremos nos últimos 10 anos foi gigante, claro que ainda há um caminho a percorrer.

     

    Para além das coberturas verdes

    Que soluções falamos quando falamos em soluções baseadas na natureza? Em coberturas verdes?

    O summit não irá falar só de coberturas verdes, soluções de base natural são soluções que tentam simular e mimetizar os processos naturais, trabalhando com a natureza e não contra a natureza. Podemos usar as soluções de base natural em conjunto com as soluções de engenharia estática, que são aquelas que estamos mais habituados a fazer. Por exemplo, os túneis de drenagem que Lisboa está a construir. As soluções de base natural não são a única solução ou uma solução no singular, mas têm de entrar para a ordem do dia quando planeamos as cidades e, sobretudo, quando desenhamos edifícios.

    Porque se pensarmos no que vai acontecer nos próximos 30 a 40 anos e nos desafios que as cidades vão ter, que os edifícios vão ter, e se pensarmos que estamos a construir hoje os edifícios que vão existir daqui a 30 anos, percebemos que estamos a agir demasiado tarde. É hoje que temos de agir, não é daqui a 20 anos que vamos começar a pensar nisso, quando sentirmos os problemas na pele. É hoje porque estes são os edifícios que vão estar cá nas próximas décadas.

    E por isso o summit foca-se em soluções para as cidades.

    Porque são as cidades que vão sofrer esse impacto. Até 2050 estimamos que mais de 70% da população viva nas cidades e 2050 é quase amanhã. As cidades têm um impacto muito grande na natureza, são paisagens altamente artificializadas. Pegamos nas paisagens naturais e artificializamos em cidades. Para quê? Porque precisamos de um ambiente construído, para aquilo que são as nossas actividades económicas, sociais… e acabamos por ter um impacto muito grande nos ecossistemas, na natureza…

    Os casos práticos

    O NBS Summit irá focar-se muito em exemplos, que soluções nacionais estarão em destaque?

    Em termos de exemplos do que temos em Portugal, teremos o novo Terminal Intermodal da Campanhã

    É um excelente case study. Estamos a falar de uma zona da cidade que estava degradada e muito esquecida e o projecto alavancou toda uma nova urbanidade e mobilidade urbana, unindo ali três tipos de transporte públicos e isso também é um factor importante. Estamos a falar de perto de 13 mil m2 de cobertura verde, para além do parque urbano que não está sobre o edifício.

    Aliada à componente ambiental, o projecto teve também uma componente social e até estratégica para a cidade e para aquilo que é a vivência na cidade e a movimentação da população, da sua mobilidade.

    Que outros exemplos serão debatidos e estudados?

    Teremos várias visitas nestes dois dias de encontro que se irão centrar no Porto, que é a cidade onde o summit se realiza. Teremos a Praça de Lisboa, junto aos Clérigos, que é outro exemplo de uma área que esteve degradada e ao abandono e que mudou por completo com a instalação de uma cobertura verde que devolveu a natureza ao centro consolidado do Porto. Se perguntasse há uns anos, “é possível ter um jardim ao lado dos Clérigos, ao lado da reitoria, no meio da Praça dos Leões quase, um jardim com árvores, com oliveiras, com relevado, onde as pessoas possam estar?”. A resposta seria “não é possível”, a cidade do Porto está consolidada, a malha urbana está já completamente definida, portanto, não há espaço para trazer a vegetação. Mas, de facto, houve espaço, houve espaço para uma nature based solution. Lá está, uma cobertura verde. E isso também é algo importante, ou seja, em muitos locais, onde já não é possível pôr jardins e parques, as coberturas verdes podem ser a solução. Não queremos que seja percepcionada de alguma forma que as coberturas verdes são a única solução. De todo!

    Outro exemplo bastante emblemático da cidade do Porto, é a Escola do Falcão, que é uma escola que foi também renovada no ano passado e que tem uma série de nature-based solutions.

    Depois teremos também os exemplos internacionais. (Ver caixa)

    O nosso convidado mais especial é o Kongjin Yu, o reconhecido arquitecto chinês, criador do conceito das Sponge Cities, e que nos vem falar exactamente sobre este conceito e sobre a forma como nós lidamos com a água. Yu é reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho inovador na criação de espaços urbanos que harmonizam de forma única a natureza e a função humana nomeadamente pelo conceito Sponge Cities que visa enfrentar os desafios de inundações urbanas e escassez de água por meio de infraestruturas naturais e sustentáveis.

     

    Este evento irá chegar a quantas pessoas?

    Esperamos casa cheia, cerca de 400 a 500 participantes. É essa a nossa expectativa. Não vamos abrir streaming, porque o objectivo foi trazer os especialistas, os profissionais, os investigadores ao local, para uma experiência muito mais imersiva.

    Os últimos dez anos foram importantes, mas como vê que estas questões venham a evoluir nos próximos cinco anos?

    Eu quero acreditar que daqui a cinco anos estamos a lidar com estas temáticas – com a vegetação, com as coberturas, com as paredes, com as soluções para a água – como quem lida com o resto das componentes de um edifício. Tem de ser. Como é que vamos lidar com a água neste edifício? Como é que vamos conseguir reter a água no edifício? Além da eficiência energética os edifícios têm de ser hidricamente eficientes e isso não é só focarmos na torneira, mas temos de pensar na grande torneira que vem do céu. Como é que aproveitamos a água? Como vamos retê-la para depois reutilizá-la? Como vamos reciclá-la? São grandes desafios!

     

    O programa

    Durante os dois dias do evento, a 23 e 24 de Maio, a Super Bock Arena será palco de partilha e debate dos principais focos das metas europeias de sustentabilidade para o ambiente urbano construído. Um leque de especialistas, académicos e líderes do sector abordarão temas cruciais como a conservação de ecossistemas urbanos, infraestruturas verdes, gestão sustentável de águas pluviais, eficiência energética e energias renováveis, com o intuito de partilharem as suas ideias e soluções para tornarem as nossas cidades mais sustentáveis, biodiversas, resilientes e verdes.

    O arquitecto paisagista Kongjin Yu é o nome mais sonante. Yu é reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho inovador na criação de espaços urbanos que harmonizam de forma única a natureza e a função humana nomeadamente pelo conceito Sponge Cities que visa enfrentar os desafios de inundações urbanas e escassez de água por meio de infraestruturas naturais e sustentáveis. Mas o evento trará “outros líderes visionários no campo das Soluções Baseadas na Natureza”, como Laura Gatti, co-autora do famoso Bosco Verticale, em Milão, ou Per Malmos, responsável pelo Copenhill, a cobertura verde que também é uma pista de ski e que está localizada em Copenhaga, na Dinamarca.

    Para além dos projectos, nacionais e internacionais, Luigi Petito, especialista em assuntos públicos europeus, abordará os últimos desenvolvimentos nas políticas e regulamentações relacionadas com a infraestrutura verde na Europa. O discurso de Petito será fundamental para a compreensão do contexto político em evolução na Europa, especialmente no ano de 2024, que marca um período com mudanças significativas previstas nas políticas e regulamentações que impactam directamente a sustentabilidade urbana. Entre estas destaca-se o acordo político entre os Estados Membros e o Conselho da UE sobre o Regulamento Restauro da Natureza e as revisões das directivas de Tratamento de Águas Residuais Urbanas (UWWTD) e de Desempenho Energético dos Edifícios (EPBD), salientando-se, em todos os casos, o compromisso da UE em promover Soluções Baseadas na Natureza para enfrentar desafios ambientais das cidades contemporâneas.

    O NBS Summit contará também com a presença de Martin Košťál e Jürgen Preiss que falarão das políticas a ser implantadas nas cidades europeias de Brno e Viena, respectivamente.

    Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

    Manuela Sousa Guerreiro

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    Engenharia

    KEO abre segundo escritório em Portugal e prepara expansão europeia

    Actuam nas diferentes áreas de projecto e engenharia e entraram em Portugal em plena pandemia, com confinamentos um pouco por todo o lado. Quatro anos depois, já têm clientes em Portugal para projectos noutras geografias. Depois do primeiro passo da internacionalização, o objectivo passa por estar presente em mais países europeus

    Cidália Lopes

    Em entrevista exclusiva ao CONSTRUIR, João Sales, director da KEO Europe, revela como tem sido o percurso da empresa em Portugal, que não só abriu portas à internacionalização do Grupo, como à possibilidade de expansão para outras geografias. Mais do que definir valores ou metas de facturação, o objectivo passa por criar raízes e mostrar a dinâmica de trabalho daquela que é a mais antiga empresa no Médio Oriente, com origens no Kuwait e que conta com cerca de 2500 colaboradores de mais de 60 países.

    Primeiro com um escritório no Porto, abriram este ano a delegação em Lisboa, no Parque das Nações, por uma questão de proximidade dos clientes e do mercado. É expectável, por isso, que, ainda este ano, atinjam os 150 colaboradores em Portugal.

    Há quanto tempo é que estão em Portugal?

    Há quatro anos. Portanto, abrimos a nossa sede primeiramente no Porto, em Campanhã e agora estamos na Trindade, perto da Câmara Municipal, e há seis meses em Lisboa. Estamos a crescer, a expandir a nossa actividade e o, portanto, o edifício onde estávamos já não tinha capacidade. Em Lisboa, estamos no Parque das Nações. E Portugal é o primeiro país da empresa fora do Médio Oriente.

    Sendo uma empresa internacional e com uma actuação muito especifica no Médio Oriente, como é que surge a estratégia de vir para Portugal?

    Foi uma oportunidade, foi um objectivo, um passo estratégico nosso. A KEO, que quer dizer Kuwait Engineering Office, nasceu no Kuwait há 60 anos, é uma das mais antigas do Médio Oriente. O nosso fundador ainda é o Chairman e por isso ainda se mantém um negócio familiar.

    No Médio Oriente somos praticamente líderes de mercado, se não formos, estamos no Top 3 e competimos com os grandes internacionais que têm operações no Médio Oriente.

    A nossa vinda para Portugal está relacionada com uma estratégia de médio e longo prazo de alargar o reach geográfico. Talvez nestes 60 anos da KEO, que celebramos este ano, 99,5% dos projectos que fizemos foram lá.

    Como tem estado a ser a experiência de trabalhar num mercado tão diferente?

    Se por um lado, no Médio Oriente somos uma empresa que não dispensa apresentações toda, a gente no ramo sabe quem somos e o que fazemos, aqui é completamente diferente. Muito poucos sabem quem somos.

    Estou na KEO há 13 anos, sendo que 11 foram vividos em Abu Dhabi, primeiro a trabalhar para uma empresa inglesa e depois nove anos já a trabalhar para a KEO. Há quatro anos vim para Portugal abrir a KEO. E só aí é que comecei a ter que explicar o que era KEO.

    Como tem sido o vosso percurso no Médio Oriente?

    O histórico da empresa está muito ligado, infelizmente, a situações traumáticas de guerras. Não há bela sem senão e depois de uma guerra há toda uma necessidade de infraestruturas e de construção. Ou seja, as crises criam oportunidade.

    Primeiro com a reconstrução do Kuwait, depois nos anos 90 houve um crescimento muito grande quando fomos para os Emirados Unidos, com todo o crescimento do Dubai, Abu Dhabi. Em 2010 o Mundial é atribuído ao Qatar e este, rapidamente, se transformou no nosso maior mercado, tendo estado envolvidos em quatro dos oito estádios construídos. E não só os estádios, mas toda a infraestrutura que é necessário desenvolver, as autoestradas, edifícios, hotéis. Doha sofreu uma transformação enorme com estas obras.

    Nós temos 2500 funcionários e cerca de metade estavam a trabalhar em projectos no Qatar, para ter uma ideia da dimensão do mercado.

    E mais recentemente, de 2020 para cá, e principalmente no pós-pandemia, a Arábia Saudita, com uma pujança que faz lembrar o Dubai dos anos 90, mas com um volume ainda maior.

    Portanto, não há nenhum projecto grande do Medio Oriente em que a KEO não esteja envolvida, de uma maneira ou de outra. O nosso scope é muito abrangente, desde o projecto, à consultoria, passando pela fiscalização.

    Em que aspecto é que Portugal representa, então, uma mais-valia nesta estratégia?

    Além de ser um mercado em crescimento, Portugal pode ser encarado como uma porta para novas geografias. Portugal não deixa de ser um hub, não só para a Europa, como para a África, para os PALOP’s, como para a América Latina. Pois, está aqui num eixo muito importante.

    Por outro lado, a perfomance de trabalho com a pandemia mudou muito. Durante muitos anos a filosofia era atrair talento para o Médio Oriente. Hoje em dia, com tudo ligado todos trabalhos remotamente, na cloud, tudo online, é possível trabalhar à distância. Por isso quando se monta um escritório em Portugal, podemos estar a entregar projectos em qualquer lado. Actualmente, temos 10 escritórios em oito países e todos trabalham colaborativamente, o que significa que fazemos projectos para qualquer sítio e em equipa.

    Inclusive os que são cá em Portugal?

    Exatamente. Neste momento, a maior parte do trabalho que é feito pelas nossas equipas em Portugal não é para Portugal, ainda é para o Médio Oriente, para os grandes projectos que temos lá.

    Seja um arranha-céus no Dubai, ou um Campo de Golfe, na Arábia Saudita, ou um hotel no Qatar, as equipas dos vários escritórios colaboram. Não tem tanto a ver com o escritório que está perto, mas sim onde estão os nossos especialistas e que têm o currículo mais próprio para determinado projecto.

    Ainda sobre a vinda para Portugal, já havia uma vontade dos responsáveis?

    Sim, quando a proposta é feita, esta já estava alinhada com uma estratégia. Nós trabalhamos muito por departamentos, temos várias áreas de actuação. Na altura abrimos no Porto com infraestruturas, ou seja, projectistas de estradas, de redes de abastecimento. E muito rapidamente vimos que havia oportunidade e, entretanto, já temos equipas de arquitectura, de paisagismo, de ambiente.

    No Porto já somos 60 e em Lisboa 12. O nosso objectivo é duplicar este número ainda este ano, com o desafio que é sabido em Portugal da contratação. Portanto, há falta de mão de obra em Portugal e somos muito selectivos, já que é a única maneira de mantermos os nossos standards.

    E porquê a escolha pela cidade do Porto?

    Tínhamos algumas parcerias com empresas com que colaborávamos no Porto e foi um processo natural e uma agradável surpresa. O Porto recebeu-nos muito bem e não fica minimamente atrás em termos de mão de obra disponível e de qualidade. E vemos cada vez mais empresas que estão em Lisboa a abrir escritório no Porto, e vejo isso a acontecer com as grandes consultoras, com os grandes gabinetes de projecto, que aqui em Portugal são a nossa concorrência directa. Não só porque permite estar mais perto dos clientes, como alargar a talent pool. E acaba, também, por facilitar no recrutamento de profissionais ao darmos a possibilidade de trabalharem num dos dois espaços.

    Sendo a questão da mão de obra um tema importante e sensível, de que forma abordam esse recrutamento, junto das universidades, por exemplo?

    Sim, sim, junto das universidades e também junto das feiras de emprego organizadas pelas próprias faculdades. Para nós este trabalho é muito importante, porque sabemos que ainda estamos longe de ter o reconhecimento em Portugal que as empresas nossas concorrentes têm, mas temos todo um portfólio, uma experiência e áreas de actuação e de projecto que chama muito o interesse.

    E um aluno quando vê o tipo de projectos que fazemos, a dimensão, que são coisas que em Portugal não se fazem, nem nunca se fizeram. Nós fazemos cidades de raiz.

    Talvez em termos de comparação temos a Expo’98…

    Sim, sem dúvida. Mas isso é o tipo de projecto que acontece uma vez e não haverá, provavelmente, uma nova oportunidade do género em Portugal.

    E relativamente a projectos, o que é que têm em carteira actualmente?

    Nós em Portugal ainda não temos nada de substancial. É preciso não esquecer que trabalhar em rede e que os nossos escritórios têm muito trabalho mas, para já, ainda para projectos no estrangeiro.

    Lá está, chegámos em pleno covid, em pleno lockdown. No primeiro ano e meio não nos conseguíamos dar a conhecer. Portanto, nos primeiros dois anos não foi possível reunir com ninguém, nem estar presente em eventos deste género. Só de há dois anos para cá é que estamos a investir em marketing.

    Por isso, em relação a projectos, não é algo que surja de um momento para o outro, leva o seu tempo que também está relacionado com todo o processo que envolve a participação e o concurso de projectos. É um desafio entrar em que mercado for.

    Só em 2023 é que assinamos os primeiros contratos em Portugal, numa escala mais reduzida, mas que ainda assim abrangeram três continentes diferentes, a partir de Portugal, ou seja, Europa, África e Ásia.

    O que também vem demonstrar que a nossa aposta em Portugal enquanto hub estava correcta e que as empresas estão cada vez mais a internacionalizar-se e precisam de alguém com experiência nesses mercados.

    Em 2024 contamos que seja o ano em que vá surgir contratos a uma escala a que a KEO está habituada e que estão neste momento ainda em fase de concurso e por isso não é possível revelar.

    O facto de sermos uma empresa internacional que veio para Portugal, o que de certa forma é o percurso ao contrário, tem, também gerado muito interesse por parte dos players com quem interagimos, principalmente quando falamos com potenciais parceiros, e geram-se, neste âmbito, sinergias interessantes.

    Nós nunca olhamos para a competição apenas como concorrência, mas sempre como potenciais parceiros. E isso tem sido, também, um veículo para oportunidades.

    O vosso background acaba por ser a vossa mais-valia…

    Exacto, porque o que temos para vender é realmente diferenciador, portanto, quando andamos a vender uma empresa como a nossa, não é ver realmente a maneira como somos recebidos com entusiasmo, não só pela quantidade de coisas que fazemos, pela dimensão dos projectos, pelo portfólio da experiência, como as pessoas podem imaginar que a indústria do projecto e da construção do sítio de onde vimos não está desenvolvido, mas é o contrário.

    Em sítios como o Dubai, já há muitos anos que se fazem coisas que em Portugal só recentemente se começaram a fazer. Portanto, são países que já têm exigências em termos de sustentabilidade, por exemplo, de implementação de certificação de sustentabilidade, toda a parte de digitalização. Portanto, o BIM, por exemplo, enquanto que, em Portugal, se fala agora de em 2030 ser obrigatório entregar em BIM, nós no Dubai já é obrigatório entregar em BIM desde há cerca de 10 anos.

    Qual é então o vosso plano de investimento em termos de médio e longo prazo aqui em Portugal?

    Nós somos uma empresa com 2500 pessoas, sendo que até ao final do ano temos como objectivo chegar às 150 em Portugal. Temos a noção de que Portugal é apenas uma pequena parte do que é a KEO, e por isso, muito mais importante do que estabelecer uma meta de facturação a dois, três ou quatro anos é muito mais relevante para nós estabelecermo-nos, criar uma pegada, criar raízes nestas geografias.

    Portanto, divulgar a marca, atrair clientes, e manter esses clientes. Uma coisa que nos orgulha é que dos poucos clientes que assinámos o ano passado e que realmente foram para este três Continentes que falei há pouco, já todos nos deram um segundo projecto.

    Na sua opinião e do conhecimento que têm, qual é o mercado que está com mais dinâmica?

    Vive-se um período de muito incerteza geopolítica em diferentes países da Europa e por seu lado, o investimento estrangeiro em Portugal não sentimos que tenha abrandado e por isso mantém-se alguma dinâmica.

    Uma vez que estão agora em Portugal e com todas as sinergias que se geram haverá aqui uma possibilidade de expandirem para outro país europeu?

    Sim, sem dúvida. Nós sendo uma empresa do Médio Oriente que está lá estabelecida há muitos anos, portanto, estamos em sete países do Médio Oriente e o oitavo é Portugal, o objectivo é, sem dúvida, crescer e alargar para outras geografias.

    Não temos necessariamente um plano definido, mas há localizações que estão com mais dinâmica e mais propicias para fazer negócios, que estão mais receptivos ao tipo de empresa como a KEO. Julgo que será, de alguma, um crescimento onde surgirem as oportunidades, onde surjam projectos interessantes e que estes se materializem e que justifique abrir nesse local uma delegação para começar e uma pessoa uma vez pondo o pé, o resto vai aparecendo.

    Portanto, não colocamos nada de parte. E, até nestas sinergias, nas parcerias que fazemos, no tipo de negócios que fazemos, nas geografias para onde vamos, no tipo de projetos que fazemos, nós não colocamos nada necessariamente de parte. Estamos sempre disponíveis para ouvir os potenciais parceiros.

    Sobre o autorCidália Lopes

    Cidália Lopes

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    Imobiliário

    “A sustentabilidade é a espinha dorsal de um negócio duradouro”

    Quinta do Alverde, um investimento de 25 milhões de euros, irá criar 61 novos apartamentos em Oeiras. O projecto da promotora AM48 distingue-se pelas áreas verdes, quase metade dos 10000 m2 serão de jardim, numa altura em que o sector reconhece e assume a sua quota de responsabilidade na defesa da sustentabilidade

    Menos de um ano depois de ter lançado o megaprojecto Foz de Prata, em Aveiro, que compreende um investimento global de 150 milhões de euros, a promotora AM48 regressa aos investimentos a Sul, mais concretamente à área metropolitana de Lisboa, com o projecto Quinta do Alverde. O investimento no valor de 25 milhões de euros irá criar 61 novos apartamentos, de tipologia T1 a T4, com dimensões entre os 50m2 e os 267 m2, divididos por dois edifícios. O projecto tem a assinatura do jovem atelier de Aveiro, Green Trace e a sua conclusão está prevista até o primeiro semestre de 2027.

    Em entrevista ao CONSTRUIR, Alejandro Martins, CEO da AM48, fala sobre este projecto e sobre a responsabilidade e preocupação do sector com a sustentabilidade defendendo que esta “não se resume apenas à eficiência energética ou à escolha de materiais de construção mais ecológicos. As preocupações de sustentabilidade no imobiliário envolvem, por exemplo, o planeamento consciente do uso do solo e a integração de espaços verdes”, afirma.

    Quinta do Alverde integra, assim, a carteira da promotora, que conta já com uma actividade de três décadas nas áreas residenciais, comerciais e turísticos. Ópera LX, FOCUS LX, The Boulevard, Santa Joana, Promenade e Foz de Prata.

    O empreendimento Quinta do Alverde é um projecto a pensar na classe média/média alta?

    A Quinta do Alverde é um projecto pensado para quem valoriza a inovação, sustentabilidade e uma construção de nível superior que, neste caso, estão perfeitamente visíveis. Foi pensado para quem procura uma vivência de enorme qualidade, não apenas no próprio condomínio com todas as suas amenities e espaços verdes, ou na sua envolvência com mais espaços verdes e de comércio, como em tudo o que os dois concelhos circundantes, de Oeiras e Lisboa, têm para oferecer.

    Quem são os seus arquitectos?

    O projecto de arquitectura esteve a cargo do arquitecto Gustavo Barros, da Green Trace.

    Que características salienta deste projecto?

    A Quinta do Alverde insere-se entre os concelhos de Lisboa e de Oeiras, rodeada de natureza e espaços verdes, permitindo uma centralidade e qualidade de vida únicas. As fracções têm áreas generosas, espaços exteriores, como varandas ou terraços, e acabamentos de enorme qualidade. O condomínio conta ainda com extensos jardins, estacionamento privativo subterrâneo com zonas de carregamento eléctrico, áreas exclusivas de lazer e serviços de conveniência e bem-estar, como ginásio, piscinas, sauna, lavandaria ou espaço pet care. Para além de todas estas vertentes, é um projecto com certificação LEED, uma certificação americana das mais reconhecidas a nível internacional, o que se traduz numa redução mensal dos custos de condomínio, água, electricidade e gás e condições mais favoráveis de financiamento em algumas instituições financeiras.

    Sustentabilidade: o novo driver

    Como olham, enquanto promotores, para os novos sistemas construtivos que vão surgindo no mercado e a sua adaptação/utilização nos vossos projectos?

    O sector imobiliário está em constante evolução e, à medida que a tecnologia avança, surgem novas oportunidades para tornar os edifícios mais sustentáveis, inteligentes e eficientes. No entanto, ainda há muito que pode ser feito para alcançarmos a inovação e automatização no sector. O conservadorismo do sector e o acesso a mão de obra barata leva a que a adopção de novas tecnologias encontre resistências e seja lenta. A industrialização destas melhorias tecnológicas a introduzir, implica repensar o projecto desde a sua fase conceptual.

    A preocupação com a sustentabilidade no sector imobiliário surge no seguimento da consciencialização dos impactos, e na compreensão de que, no sector imobiliário, a sustentabilidade não se resume apenas à eficiência energética ou à escolha de materiais de construção mais ecológicos. As preocupações de sustentabilidade no imobiliário envolvem, por exemplo, o planeamento consciente do uso do solo e a integração de espaços verdes.

    Soluções como a construção modular e impressão 3D (módulos pré-fabricados que reduzem o desperdício, o tempo de construção e os recursos), robótica avançada (máquinas que realizam tarefas repetitivas ou perigosas) ou realidade aumentada em obra (sobreposição interactiva de projecto com a execução, permitindo projectar tarefas a executar no tempo e no espaço) estão na linha da frente da revolução.

    E isso é incorporado pela empresa de que forma?

    A AM48 tem consciência da responsabilidade que cabe à empresa na promoção de edifícios com o melhor desempenho ambiental, social, económico e de sustentabilidade. Neste contexto, desenvolve soluções e serviços que procuram elevar os padrões de qualidade da sua actividade a novas dimensões. Acreditamos que a sustentabilidade é a espinha dorsal de um negócio duradouro e, por isso, é uma prioridade a todos os níveis da AM48, reflectindo o seu compromisso não só com o meio ambiente, mas também com a responsabilidade social corporativa. Estamos determinados a liderar pelo exemplo, adoptando práticas que promovam um impacto positivo global.

    A AM48 teve os seus empreendimentos em Lisboa, que acompanhámos, lançou no final do ano passado em Aveiro o Foz da Prata e agora Oeiras. Projectos distintos, em locais distintos, para clientes distintos… é assim? O Foz da Prata é um ambicioso projecto, como está a correr?

    Através dos nossos empreendimentos, queremos gerar um impacto positivo nos nossos clientes, na comunidade, ambiente e ecossistema. Aquilo que une os projectos aos quais nos dedicamos é a inovação, elevada qualidade e sustentabilidade. Desta forma, e sempre ajustado à cultura local e envolvência, pretendemos promover o desenvolvimento urbano, as cidades sustentáveis e novas formas de viver os espaços.

    O Projecto Foz de Prata é, de facto, muito ambicioso, contando com uma unidade hoteleira, uma média superfície e outras zonas de comércio, serviços e lazer, além da componente habitacional.  Foi lançado em Setembro do ano passado e está a correr muito bem. As obras de urbanização estarão terminadas no final deste ano, estamos em negociações com uma marca internacional de primeira linha para o Hotel e iremos lançar fracções ao longo dos próximos meses.

     

    A quinta do Alverde

    Ocupando uma área de 10 mil m2, dos quais 4.600 m2 serão de jardim a Quinta do Alverde está inserida na fronteira entre Lisboa e Oeiras, ladeada pela natureza e áreas verdes, desfrutando de uma localização central e estratégica. O condomínio destaca-se pelas áreas generosas das fracções e varandas, numa arquitectura moderna e sustentável sobre um amplo manto verde, que privilegia a ligação e vivência com a natureza. Possui extensos jardins, estacionamento privativo subterrâneo com zonas de carregamento eléctrico e áreas exclusivas de lazer e serviços de conveniência e bem-estar, como ginásio, piscinas, sauna, lavandaria ou espaço pet care.

    A proximidade ao Jardim da Outurela e ao seu complexo desportivo e será explorada por uma passagem exclusiva que liga as áreas verdes do condomínio à natureza envolvente.

    A promotora desenvolveu uma acção de reabilitação nos edifícios circundantes ao projecto Quinta do Alverde, através da limpeza, tratamento e pintura de fachadas e outras estruturas como chaminés, caleiras, estendais e espaços comuns de edifícios, com a reabilitação da praceta. Foi uma acção com um investimento exclusivo da AM48 e que terá impacto em 20 fogos em quatro edifícios.

    O projecto tem ainda certificação LEED, a creditação mais valorizada internacionalmente no âmbito da sustentabilidade, com características que permitem reaproveitar 50% a água, reduzir em -75% os resíduos de construção, aumentar em +10% a economia energética e ter apartamentos com classificação energética A/A+.

    A comercialização do empreendimento está entregue à Castelhana Real Estate e à Sotheby’s.

     

     

    Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

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    Construção

    Município do Entroncamento investe 4,9M€ na nova biblioteca

    Na descrição dos trabalhos, a equipa liderada por André David explica que a Nova Centralidade – Biblioteca insere-se no tecido urbano da cidade. O local é marcante, dada a sua singularidade, posição e dimensão dentro do tecido urbano

    Ricardo Batista

    A Câmara do Entroncamento vai investir 4,9 milhões de euros no projecto da Nova Centralidade Zona Norte, proposta que tem na nova biblioteca municipal o seu ponto alto, naquele que é um processo que, ao longo dos últimos anos, tem registados avanços e recuos. Chumbado em finais de 2023 em reunião de Câmara, o projecto do Atelier de Arquitectura mereceu, em meados de Fevereiro, os votos favoráveis de socialistas e sociais democratas, decisão que permite assim a implementação do conceito desenvolvido pelo atelier do Entroncamento.
    Jorge Faria, presidente da Câmara, citado pelo MedioTejo.net, entende que estamos perante “um projecto estruturante para a cidade e para aquela zona em concreto”. Com uma nova previsão em termos de execução financeira, as expectativas para a nova centralidade e a nova biblioteca são de uma concretização de 10% em 2024, 75% em 2025 e 15% em 2026.

    Para além da construção da nova Biblioteca Municipal do Entroncamento, num edifício que seja moderno e funcional, com diversas salas e equipamentos multiusos, o projecto acompanha a requalificação urbana da Rua Ferreira Mesquita, do Bairro Camões, das habitações do Bairro Vila Verde (em curso) e do Bairro do Boneco (em curso) para implementação do centro de documentação Nacional Ferroviário, do núcleo Museológico e do Centro de Ciência Viva (em curso). O projecto da Nova Centralidade Zona Norte (ARU 1) inclui ainda requalificação urbana com a ligação pedonal entre a Rua Elias Garcia com áreas verdes de lazer, a criação de uma praça digna em frente ao Museu Nacional Ferroviário e um parque de estacionamento subterrâneo livre, libertando outros estacionamentos da cidade.

    Na descrição dos trabalhos, a equipa liderada por André David explica que a Nova Centralidade – Biblioteca insere-se no tecido urbano da cidade. O local é marcante, dada a sua singularidade, posição e dimensão dentro do tecido urbano.
    Dada a dimensão do programa, o projecto procurou responder com uma construção que gerasse, consolidasse e articulasse os espaços e vias públicas na estrutura urbana. Não é um programa e a busca de uma dada forma para o edifício, mas a forma dos espaços são resultantes das acções tomadas em projecto de modo resolver questões formais e funcionais do território.

    Consolidação do espaço
    A implantação da Biblioteca tem como princípio consolidar a frente de rua Elias Garcia, onde foram criados 12 lugares de estacionamento de viaturas e ocultar as traseiras do edificado existente. Por consequência é gerada uma praça que medeia e relaciona equipamentos culturais como o Museu Nacional Ferroviário e o Bairro do Boneco (novo Centro de Documentação Nacional Ferroviário, Núcleo Museológico e Centro de Ciência Viva).

    Abaixo do solo são comportados 74 lugares de estacionamento acedidos pela Rua detrás dos Quarteis que sofreu ligeira dilatação e pela Rua Ferreira Mesquita. Alguns estacionamentos estão dotados para pessoas de mobilidade reduzida e outros com carregadores para viaturas eléctricas. “Da praça, espaço público útil, com elementos de sombra que qualificam o espaço e estadia dos seus utilizadores, criando princípios como sombra e frescura na cidade acede-se à Biblioteca do tipo BM1 que respeita a proposta e as recomendações definidas pela Direcção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas (DGLAB), e ainda algumas directivas de melhoria da relação intersticial entre espaço público e equipamento cultural”, explica a equipa projectista.
    Segundo a descrição da proposta, “a expressão arquitectónica resulta essencialmente de uma acção muito sóbria e modesta da biblioteca, tirando partido da visibilidade sobre a praça proposta”. “A predominância de extensas aberturas e diálogo com a praça transmitem as vivências do seu interior, a altimetria proposta não excede as da envolvente. A superfície exterior de revestimento em betão de pigmento escuro e revestimento parcial em cerâmico na Rua Elias Garcia de modo a criar dinâmica e vibração de luz na rua e evitando futuras manutenções ao edificado”, lê-se na descrição da obra.

    Sobre o autorRicardo Batista

    Ricardo Batista

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    Arquitectura

    A arquitectura consciente e social [c/galeria de imagens]

    Eloisa Ramos e Moreno Castellano são a dupla de arquitectos que forma o atelier Ramos Castellano. É, sobretudo, em Cabo Verde que desenvolvem o seu trabalho que apelidam de “arquitectura consciente”. Uma consciência que vem do local e das suas gentes, das suas necessidades, mas também do seu conhecimento intrínseco e geracional. De projecto em projecto, testam o potencial transformador da arquitectura no espaço e os seus impactos sociais

    Eloisa Ramos nasceu na ilha de Santo Antão e Moreno Castellano é originário da Sardenha. Portugal e Itália serviram de ponto de encontro, para o trabalho e para a vida, numa fase ainda de formação dos dois arquitectos. Cabo Verde é casa e campo de experimentação da sua arquitectura há década e meia. Uma arquitectura “consciente”, do local e do seu impacto nas pessoas. Porque apesar de estabelecerem a sua base na cidade do Mindelo, em São Vicente, podemos encontrar os seus trabalhos noutras ilhas que compõem o arquipélago.

    O que os levou a estabeleceram-se em Cabo Verde?
    Eloisa Ramos (ER): Foi uma coisa quase natural. Estabelecemo-nos primeiro em Itália, onde chegámos a criar um gabinete e a fazer algumas coisas, mas a vida deu voltas e em 2008, ainda antes da crise [económica], decidimos vir para Cabo Verde. Não houve nenhuma razão extraordinária. Terminámos os projectos que tínhamos em curso e depois embarcamos nessa nova aventura que, para mim, era um bocadinho o regresso a casa, embora o Moreno também já conhecesse. Decidimos voltar.

    Moreno Castellano (MC):
    Aqui em Cabo Verde havia espaço para desenvolver arquitectura, ou seja, aqui podemos de deixar uma marca, de fazer algo concreto, de construir fisicamente. Isso aconteceu construímos um museu, por exemplo, algo que teria sido muito difícil de acontecer na Europa. O que era importante para nós era fazer arquitectura e não onde a arquitectura é feita. Agora estamos a reparar que é muito importante onde a arquitectura é feita para o interesse que vão despertar. O Mindelo [onde o atelier tem a sua base] não é uma cidade muito grande, tem 75 mil habitantes e a ilha [São Vicente] é praticamente uma cidade-ilha mas é muito cosmopolita porque sempre foi uma cidade porto, com pessoas de vários lugares, e isto é muito interessante também para o nosso trabalho porque deu-nos a oportunidade de trabalhar com clientes de muitíssimas nacionalidades e ter uma visão mais ampla, apesar de estarmos nesta latitude mais descentralizada.

    Que tipo de projectos têm ocupado o vosso gabinete?
    ER: Temos feito um pouco de tudo ao longo destes quase 20 anos de carreira, desde habitação, hotéis, projectos urbanísticos… museus, um já construído e outro ainda em projecto. Inclusive design de interiores, um pouco por necessidade, que aqui não há assim tanta escolha. Mas em contrapartida há mão de obra artesanal especializada, se é que podemos dizer assim. Fruto das necessidades as pessoas desenvolveram o seu engenho e aqui há gente incrível ao nível da carpintaria, marcenaria, etc. Pessoas com muita sabedoria a nível artesanal.

    Qual é o traço comum dos vossos projectos? É esta ligação com os artesões, com o saber local, é a questão da sustentabilidade, porque nos vossos projectos há muito esta preocupação com a reutilização de materiais?
    MC: Há uma ideologia comum de certa maneira. Nós vemos a arquitectura como uma manifestação da vida, então posso dizer que não há um preconceito, ou seja, os projectos nascem das necessidades e muitas vezes tentamos que a arquitectura contribua para a resolução de problemas da sociedade. Por exemplo, temos um projecto na Cruzinha (Santo Antão), de uns investidores alemães, e o que fizemos foi canalizar e distribuir esse investimento para a sociedade local. Agora como se manifesta isso na arquitectura? Nas escolhas e decisões que fazemos. Em vez de usar o material importado, por exemplo, utilizamos o material local, em vez de utilizar técnicas que ocupam poucos trabalhadores, usamos as que precisam de mais mão de obra. Há aqui múltiplos aspectos e nenhum projecto é igual a outro ou tem as mesmas soluções. Portanto, o que tentamos fazer através do projecto é contribuir para o bem-estar e para a felicidade da comunidade onde o projecto está a ser desenvolvido.
    Até hoje, isto sempre funcionou de uma forma quase espontânea, biológica, porque onde escolhemos colocar os projectos, a comunidade floresceu. A instalação do hotel em São Pedro (Aquiles EcoHotel), por exemplo, fez com que a comunidade mudasse. A Mudança veio com a luz eléctrica, com a pavimentação das ruas, os pescadores, que até aí se dedicavam só à pesca tradicional passaram a realizar passeios com os turistas. Mas nada disto foi propositado.

    “Tentamos que a nossa arquitectura vá mais fundo, vá tocar a emoção das pessoas”

    Mas houve uma primeira decisão de investir. Um promotor?
    ER: Inclusive até muita gente dizia que era de loucos porque quem imaginava um hotel mesmo no meio daquela comunidade piscatória? Mas este hotel gerou uma energia muito forte e acabou por agregar valor acrescentado à comunidade, que como o Moreno estava a dizer aconteceram várias coisas boas e a comunidade mudou para melhor

    MC: O objectivo primeiro de um investidor é o proveito, mas é preciso fazê-lo compreender que o seu proveito pode ser maior com algumas mudanças.

    ER: Com respeito à tua pergunta anterior, eu diria que o traço comum na nossa prática é que tentamos sempre fazer uma arquitectura consciente, completamente inserida onde ela está a ser feita. Uma arquitectura que põe o homem no centro, o homem utilizador, o cliente utilizador final, aquele que vai desfrutar do espaço, no centro da atenção
    E o nosso traço comum digamos assim gira a volta disso. Tentamos fazer essa arquitectura consciente, em harmonia com o ambiente onde está inserida e isso tem funcionado, porque as pessoas não vêem esta nova adição como uma coisa estranha. O hotel Aquiles ou o Centro Nacional de Artes, Artesanato e Design, podiam ser algo muito estranho ou criar uma certa apatia, mas foram muito bem aceites. Tentamos que a nossa arquitectura vá mais fundo, vá tocar a emoção das pessoas. Claro que nunca vai satisfazer a todos no mesmo sentido, mas pelo menos tentamos.

    Foi o que fizeram na Cruzinha, em Santo Antão?
    MC: O projecto da Cruzinha está em desenvolvimento há sensivelmente oito anos. Está localizado numa grande extensão de terreno, quase que todo uma encosta da montanha, e começou por ser um projecto imobiliário e depois passou a incluir um hotel. Os investidores são alemães. Mas o que é que acontece quando vem um investidor de fora e
    compra uma grande extensão de terreno, para não criar logo uma fricção com o território, com a população, com o lugar, tem de dar algo em troca daquilo que vai receber. Então criamos terraços na encosta que permitissem o cultivo de produtos, então esta decisão que não é do foro da arquitectura, no fim é muitíssimo arquitectónica.

    ER: Porque Cabo Verde não tem muitas zonas agrícolas não queríamos que o hotel criasse um déficit de recursos. Então pensámos, porque não ser o hotel a produzir e se calhar a criar excedente que pode ser inserido no mercado? Com isto estamos a minimizar essa insatisfação que às vezes vem do ‘turismo explorador’.

    MC: Propusemos um sistema alternativo a este fenómeno e em troca fomos empregando a mão de obra local na construção de hotel, formando artesões em sistemas construtivos locais, utilizando os recursos locais na construção e com isto vemos a comunidade a ganhar força e a sentirem-se valorizados.

    Isso acontece em todos os vossos projectos?
    MC: Num outro projecto em que estamos a trabalhar, optamos quase por não ter soluções pré-concebidas. Tentamos formar uma estrutura e os artesões que participam vão acrescentando algo. Como se um projecto de arquitectura fosse uma música jazz…

    ER: Ainda é algo muito experimental. Existe um projecto que é seguido, mas ao invés de forçar soluções, adaptamos e absorvemos com naturalidade as soluções que vão surgindo.

    “Estamos totalmente convencidos que a Arquitectura é fruto de seres humanos, não é o resultado de posições geográficas”

    Apesar destes vários intervenientes locais, os projectos são só concebidos pela Eloisa e pelo Moreno? Como é que gerem todo o processo?
    ER: No momento da concepção somos só nós, mas depois temos outros intervenientes ao nível da finalização do projecto, apenas. Cada um de nós tem uma personalidade muito vincada, mas há sempre um respeito mútuo. E quando um está a ir por um caminho ou a optar por soluções não tão convenientes, então o outro acrescenta algo, a bem do projecto que neste processo ganha ímpeto de crescimento.

    MC: Ou seja, vimos ambos de lugares geográficos diferentes, mas somos muitíssimo flexíveis e ao longo destes anos a trabalhar não só em Cabo Verde, mas também noutros países, vimos que muitas vezes na arquitectura os problemas surgem onde há uma força a querer obrigar outra força a fazer algo para o qual não está pronto, preparado, um pouco como na vida.
    A arquitectura transmite sensações, umas mais que outras, trabalhamos para que a nossa arquitectura, os nossos projectos, transmitam algo e esse algo não vem só da forma ou dos materiais, mas antes de um conjunto de decisões que vão sendo tomadas ao longo do processo construtivo. As ideias, como os materiais, nunca são preconcebidos, quando nos propusemos a fazer um museu cuja fachada foi feita com tampas de barris, as pessoas olhavam para nós como se fossemos doidos, mas agora vais àquela praça e o edifício em si transmite uma grande alegria, domina a praça. Prova de que o valor da matéria é o valor que as pessoas lhe dão e não o que lhe é intrínseco.

    O facto de estarem numa ilha e de (quase) tudo ser importado e por isso mais caro, torna mais fácil a abertura para a reutilização de materiais no processo construtivo, mesmo os mais inusitados como a utilização de tampas de bidons na construção de uma fachada?
    ER: A necessidade aguça o engenho, não é? Com poucos recursos tivemos de explorar ao máximo a potencialidade de coisas que, de outra forma iriam para o lixo. A nossa arquitectura não é só baseada nisso, mas esta é uma componente importante, temos imenso prazer em tentar contribuir e deixar a nossa pegada ecológica aqui neste planeta. E pelo menos que a nossa arquitectura seja para agregar e não para tirar. Que seja um exemplo também e que os jovens arquitectos vejam isso como, não uma estrada única, mas pelo menos uma estrada que pode ser válida no futuro.

    MC: Nós estamos a trabalhar num contexto que sempre foi marginalizado. E há uma falta de conhecimento, histórica, sobre o que acontece e está a ser construído em África. Então para nós é importante que a Arquitectura ajude a reverter esta tendência. Estamos a tentar mostrar que aqui onde estamos também não temos nada a menos que outros países mais na vanguarda. Estamos totalmente convencidos que a Arquitectura é fruto de seres humanos, não é o resultado de posições geográficas, de latitudes ou longitudes, de educações superiores ou de grandes orçamentos.

    Como é que tem evoluído a Arquitectura em Cabo Verde? Como é que olham para p desenvolvimento por exemplo da Cidade da Praia, em Santiago, ou mesmo do Mindelo onde estão localizados?
    ER: A nível urbanístico não vou falar. Prefiro falar do saber tradicional que havia na construção de antigamente, das casas super frescas que eram de terra batida que eles molhavam todos os dias de manhã, as paredes de pedra, as coberturas de palha, a orientação, os ventos, o sol… isso era tudo levado em consideração quando por exemplo o meu pai fez a nossa casa em Santo Antão. E ele não era arquitecto, nem nada disso, mas utilizou a sabedoria popular. Orientou a casa na melhor posição, estudando o percurso do sol, do vento, da queda da água, das chuvas e das pedras, porque Santo Antão é montanha. Aqui temos também uma encruzilhada de várias influências portuguesas, inglesas, entre outros, com as suas influências no uso na madeira ou de betão. Mas sinto que este conhecimento se vem perdendo no que está a ser construído agora. O progresso é muito betão, o progresso são as janelas enormes de alumínio, mesmo que o edifício esteja orientado a sul.
    Há muita coisa que está a ser perdida e que devia ser valorizada e se calhar estudada mais a fundo que é um pouco o que nós estamos a tentar desenvolver, numa chave mais contemporânea. Mas Cabo Verde é um país novo e não podemos ser duros na crítica, de certa forma este percurso é compreensível quando se está ainda a tentar construir uma identidade.

    Que projectos têm actualmente em mãos?
    ER: Terminamos o projecto, para um cliente privado, de um museu sobre o fenómeno da escravatura na Cidade Velha, património da Unesco. É um projecto bastante interessante, mas sobre o qual não podemos adiantar muito. Estamos a terminar um projecto de uma pequena guest house, apenas com oito quartos, também em Santiago…

    MC: Estamos a trabalhar este projecto ao nível da experimentação. Propusemos a sua criação como parte de um viveiro e os seus ocupantes vivem no meio das plantas. O sistema de rega usa água reciclada. Existe uma orientação que foi estudada para a criação de dinâmicas. Depois temos outros projectos de habitação em curso. Mas existe sempre uma preocupação e consciência com a sustentabilidade. Fomos convidados pelas autoridades da Sardenha, a minha ilha, para fazer propostas para alguns projectos. O objectivo é o de replicar projectos, como os que desenvolvemos em Cabo Verde, que têm impacto e geram valor para as comunidades locais. Porque a Sardenha também tem problemas de desertificação de abandono da população do seu interior e a ideia é estes projectos, que ainda não sabemos quais são, ajudem a reverter essa tendência.

    Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

    Manuela Sousa Guerreiro

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    Tomas Suter, senior advisor & partner da Mexto Property Investment

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    Mexto diversifica estratégia e direcciona investimentos para Sul

    Depois de obra feita no sector da reabilitação, que mantém ainda com alguns projectos em Lisboa, o futuro da Mexto passa agora, também, pelo turismo residencial. Meco, Melides e Monte Gordo são as novas localizações. Projectos já estão incluídos no plano de investimentos avaliado em 240 M€

    CONSTRUIR

    Tomas Suter, senior advisor & partner da Mexto Property Investment

    (NOTA: Entrevista revista após publicação)

    Pensado para o segmento premium, onde o antigo se encontra com o contemporâneo, o empreendimento Rodrigo da Fonseca foi o cenário escolhido para abordar os projectos da Mexto e a sua estratégia de negócio. Ao CONSTRUIR, Tomas Suter, senior advisor & partner da Mexto Property Investment, revelou que, embora mantenham o core business na reabilitação de luxo, 2024 irá marcar uma importante mudança na estratégia da promotora. Com o mercado do turismo residencial em crescimento, a empresa pretende alargar o seu investimento para três grandes projectos a desenvolver neste segmento. A parceria com branded residences é, também, um dos objectivos.

    Antes de começarmos a nossa conversa, gostaria de saber como é que o Thomas veio parar esta área? Como foi o seu percurso até aqui?

    Eu sou suíço e italiano, a minha mãe é italiana, o meu pai é suíço, mas eu nasci e cresci na Suíça, em Zurique, na parte alemã. Fiz lá o meu percurso escolar e estudei Economia também em Zurique. Entretanto, durante os estudos, comecei a trabalhar no sector financeiro, como bancos, asset managers, home managers e aí continuei. Em 2012, tive uma oportunidade, um trabalho muito interessante para um investidor alemão. O negócio assentava em investimentos imobiliários, mas não era promoção, nem construção, mas sim financiamento de projectos imobiliários, com foco na Alemanha, na Suíça e na Áustria.

    Nessa altura, comecei a aprender e a gostar muito deste sector, porque entendo que é algo muito diferente de trabalhar só em números. Trabalhar para um projecto imobiliário, não é só a parte de financiamento, porque depois consegue-se ver o resultado final. Temos o lado visível do nosso trabalho e pensamos que contribuímos um pouco para realizar um projecto.

    Entretanto, a empresa teve um crescimento muito impressionante e foi vendida a uma outra empresa cotada em bolsa, em Frankfurt. Para mim, era o momento certo para sair e aceitar um novo desafio. Em paralelo, já antes de eu sair dessa empresa, tínhamos começado a olhar para o mercado português, porque um dos nossos sócios é de origem portuguesa, então tive sempre essa ligação.

    Ainda na Suíça?

    Sim, na Suíça. Desde 2012 ou 2013 que ele nos tentava convencer a investir em Portugal, mas ainda era muito cedo, porque foi pouco depois da crise. Por isso, só começámos a investir em Portugal em 2017.

    Nessa altura, foi quando começou o boom da reabilitação…

    Exactamente. Começámos com a aquisição do primeiro prédio algures em 2018.

    Como é que têm sido, então, estes últimos anos? Que balanço fazem deste vosso percurso?

    O balanço é muito positivo. Com muitos desafios, muitos ‘ups and downs’, como é normal. No início não acreditámos, mas muita gente nos avisou que com a burocracia e com o licenciamento ia ser muito complicado. Por um lado, já temos muitos sucessos e com os quais comprovámos que conseguimos fazer coisas rápidas, mas, por outro, temos projectos que estão há cinco anos na Câmara para aprovação.

    Acredito que em Portugal o mercado é muito diferente da Suíça…

    Muito diferente. Eu gosto de dizer que não é que na Suíça se aprove um projecto muito mais rápido ou muito mais facilmente. Não, porque o mercado na Suíça também é um mercado muito controlado, muito pequenino, mas acho que a diferença é que temos uma comunicação mais fácil com as entidades. As entidades estão organizadas de uma maneira mais eficaz e parece que estamos a trabalhar com qualquer outra empresa do sector privado. Mas aqui sentimos o verdadeiro significado de ‘sector público’. Esta é a grande diferença.

    Qual a maior dificuldade?

    Cada câmara tem a sua forma de trabalhar e quando chegámos foi muito complicado. Arrancámos a operação em Portugal quase do zero, com nenhum conhecimento nessa área. A nossa vantagem é que temos um network muito grande e fomos conseguindo o apoio e a informação necessários. Nós queríamos fazer tudo bem, dentro das regras, trabalhámos em conjunto com os arquitectos para cada projecto. E acho que conseguimos fazer um bom trabalho. Tenho muito orgulho do que conseguimos fazer em tão pouco tempo.

    Pelo que tenho verificado, há uma dinâmica muito particular na vossa carteira de empreendimentos. Tanto têm projectos em desenvolvimento, como têm alguns que foram vendidos. É uma estratégia?

    Exactamente. Para um promotor e investidor é sempre um mix dos dois. Quando compramos um activo, é sempre com a perspectiva de o fazer até o final. Mas é normal, é natural que, no decorrer do desenvolvimento de um projecto, possa acontecer essa mudança na estratégia se nos apresentarem uma boa proposta

    Em que situações é que isso pode acontecer?

    Sobretudo prédios que nós comprámos numa determinada altura por um determinado preço e, depois, com as variações de mercado, há uma considerável valorização e aí pode representar uma oportunidade. De qualquer modo, ao vendermos um imóvel com o projecto já aprovado, por exemplo, sentimos que temos ali uma parte também nossa, do nosso trabalho, porque o conceito é nosso.

    Falando de investimento, é possível quantificar quanto já investiram em Portugal?

    Desde o arranque da Mexto contabilizamos um investimento total de cerca de 240 milhões de euros.

    E está dentro da expectativa que vocês tinham planeado?

    Sim. Podia ter sido mais, mas também depois é sempre a questão…digamos, de timing, não é? Precisamos dos fundos e precisamos também das oportunidades.

    Sentem que já perderam algum negócio por causa dessa questão?

    Provavelmente. Sobretudo porque os prazos praticados são sempre muito longos. Perdemos negócios no sentido em que os investidores não conseguiram identificar a atractividade de algumas coisas que nós apresentámos.

    Então, neste momento quantos projetos ou quantos empreendimentos é que vocês têm em desenvolvimento?

    Em construção, neste momento, temos dois, que estamos a acabar: o O’Living e o Mason Eduardo Coelho. Estão ambos numa fase final da construção e esperamos que até ao Verão estejam concluídos. E, entretanto, temos mais seis projectos em fase de licenciamento. Alguns estão muito perto do início da construção, outros ainda vão demorar um pouco mais. E temos dois já concluídos, este onde estamos, o Rodrigo da Fonseca e o Avencas, que foi o primeiro a ficar terminado.

    Em termos de público-alvo, de segmento, a vossa estratégia tem sido mais ou menos a mesma…

    Verdade.  Para nós é muito importante manter sempre o foco no segmento de luxo e de reabilitação, em zonas muito boas dentro da cidade. E isso é algo que vamos continuar a fazer.

    Curiosamente, lançaram-se num projecto completamente diferente, o O’Living, que além de ser construção nova, também é para um tipo de cliente diferente….

    Foi uma aposta diferente de tudo o que já tínhamos feito. E que teve como intenção diversificar um pouco o nosso investimento, colocar no mercado produto para o mercado nacional. Sentimos que também temos essa obrigação.

    Qual o balanço?

    Estamos muito felizes porque no O’living, mais ou menos 90% são compradores nacionais. Famílias portuguesas, pais que compram para filhos. Estamos muito satisfeitos porque no início tivemos algum receio de que pudesse não resultar. Houve um conjunto de factores com que tivemos de lidar, desde logo porque se trata de uma escala completamente diferente. Aqui falamos de 86 apartamentos e na reabilitação estamos a falar entre cinco e 10 apartamentos.

    Temos dois que estamos a acabar a construção e temos mais seis projectos que estão, alguns em já em construção, outros a aguardar licenças.

    Não querendo entrar no detalhe de cada projecto, posso dizer que temos, no geral, três projectos em Lisboa na área da reabilitação.

    E, pela primeira vez, estamos a apostar em projectos de maior dimensão fora da Grande Lisboa. Temos um projecto em desenvolvimento em Melides, é um empreendimento turístico e outro também muito grande no Algarve e outro no Meco, a 30 minutos de Lisboa.

    Estão, então, a explorar outros mercados e outras opções, é isso?

    Sim. Actualmente, já é cada vez mais difícil encontrar boas oportunidades dentro da cidade e as que temos identificado estão a preços muito altos, o que torna difícil tornar esses investimentos rentáveis ou atractivos.

    Houve aquele boom, não é?

    Exacto. Mas agora espero que o mercado se vá ajustar um pouco, porque acho que ainda existem tantos prédios em Lisboa que poderiam resultar em operações interessantes. Só que os preços são proibitivos. Os proprietários perceberam, nos últimos anos, que podiam ganhar muito com este tipo de imóveis em localizações do centro e começaram a subir os preços, achando que podem pedir o que querem.

    Esses novos projectos mais virados para o turismo são completamente diferentes do que fizeram até ao momento. É uma estratégia para o futuro?

    É uma estratégia, embora mantenhamos o nosso ‘fio condutor’ que é a reabilitação. Vamos iniciar brevemente a construção do empreendimento Castilho 3. E, neste âmbito, temos também um na Graça e outros dois mais pequenos na Ajuda. Estes dois últimos fazem parte de um terreno maior que compramos e para onde também prevemos fazer um empreendimento com cerca de 50 apartamentos. Mas esta fase não será para já.  É um daqueles em que estamos há quase cinco anos a aguardar licença.

    Nesse caso o Simplex será positivo?

    Vamos ver. Temos uma grande expectativa. Mas acho que pode ser positivo, pelo menos no que diz respeito ao arranque das obras. Contudo, há ainda muitos pormenores por esclarecer. Tenho falado com alguns promotores que acreditam que, de certa forma, vem melhorar ou, pelo menos, não vem complicar. Há também a questão dos bancos que vão ter de se adaptar a uma nova realidade.

    Pelo menos podem começar os projectos ou podem ir avançando com os projectos. Mesmo com as questões do licenciamento, não conseguindo aquele prazo que eles dão…entre 150 a 180 dias e, em casos em que os projectos ultrapassam os cinco mil metros quadrados são 200 dias, o máximo. Mesmo assim, sabemos que 200 dias é o máximo e, portanto, conseguimos planear. Neste momento, não sabemos se são 200, 300 ou 600…

    Mas com o projecto que têm para Melides pretendem aproveitar as sinergias que agora se criaram com o projecto da Comporta?

    Sim, mas é mais na Serra de Grândola, numa área mais interior, a 20 minutos da praia. São 10 casas, com aproximadamente 500 m2 cada uma e com terrenos entre dois a três hectares. Privacidade total. Neste espaço vamos ter, ainda, um hotel, que vai ser operado por outra empresa, porque não é o nosso core. Neste projecto estamos a trabalhar em parceria com uns sócios que irão ser responsáveis pela componente hoteleira e a Mexto fará a componente residencial.

    E o do Algarve? É um empreendimento maior, não é?

    Sim, o do Algarve é um terreno muito grande, um dos últimos terrenos, mesmo à frente do mar, numa zona privilegiada, entre Monte Gordo e a Praia Verde. A nossa ideia é fazer mais ou menos 150 apartamentos. É uma zona com muito potencial, e que, pela proximidade a Espanha, também queremos que responda às necessidades dos turistas espanhóis que vêm para Portugal.

    Qual é que é o valor de investimento que prevêem, englobando já esses projetos?

    Estes projectos já estão contabilizados no plano de investimentos que falei dos 240 milhões.

    Esses projectos serão para desenvolver ao longo de quanto tempo? Tem uma previsão?

    É difícil dar uma data exacta, mas eu diria durante os próximos quatro a cinco anos. Os licenciamentos todos já estão aprovados, porque já existe um plano pormenor e um PIP aprovado. E agora com o Simplex, teremos que fazer só uma comunicação prévia. No fundo é dar início à obra e ir trabalhando no processo da comercialização.

    Dos projectos que têm em carteira qual será o que vai arrancar primeiro?

    O da Castilho. É um prédio localizado na parte baixa da Rua Castilho, próxima da Rua do Salitre, muito perto da Avenida da Liberdade. Falamos de um prédio de 1940 ou 1950, um prédio de charme, apalaçado, onde vamos fazer uma reconstrução total, como fizemos, por exemplo, na Rodrigo da Fonseca. Vamos manter as fachadas, mas o resto vai ser uma construção nova, mantendo e respeitando muito o passado do edifício, com os tectos trabalhados, com muitos elementos característicos do prédio, e vamos lá fazer seis apartamentos para o segmento premium.

    Em termos de clientes, quem são os principais compradores dos projectos da Mexto?

    Quando começámos a fazer projectos neste segmento, pensámos que os compradores iriam ser quase 100% estrangeiros que estivessem à procura casa em Lisboa, mas temos tido muitos clientes nacionais que, ainda assim, consegue responder a estes produtos de segmento alto.

    Foi uma surpresa que em cada projecto que temos, tenhamos tido sempre procura do mercado nacional e não há um projecto em que não tivéssemos vendido alguma unidade também a portugueses. Mas é verdade que. na maior parte dos casos. são estrangeiros de diferentes nacionalidades, desde americanos, brasileiros, ingleses ou mesmo sul africanos.

    Franceses?

    Curiosamente, até ao momento não temos tido clientes franceses. Eu acho que o cliente francês em Lisboa está mais à procura de um apartamento mesmo com charme antigo. Quer dizer, por exemplo, um Rodrigo da Fonseca para esses clientes já pode ser demasiado moderno. Repare: tivemos um cliente francês que não comprou na Rodrigo da Fonseca, porque como as portadas já não eram as antigas o edifício tinha perdido um pouco o seu charme.

    No seu entender, o que é o cliente estrangeiro, de uma forma geral, procura em Portugal?

    Alguns são surpreendidos, outros vêm por indicação de outras pessoas. O cliente americano está agora a descobrir o Portugal. E depois depende muito dos clientes. Há clientes que querem mesmo só fazer investimentos em zonas boas e que tenham um valor seguro em termos de rentabilidade. No fundo. são clientes que estão à procura de produtos com uma qualidade altíssima, um cliente mais exigente. Não se trata só de vender um produto, mas da atenção que se dá no after-sales.

    Falámos há pouco também na questão que, de certa forma, não vinham a pensar de fazer projectos para um segmento médio. Que outros projectos têm pensados nesta óptica, de um all-living?

    No meu entender, o projecto de Monte Gordo enquadra-se nesse segmento porque tanto é para o cliente estrangeiro –  como ingleses, franceses, e claro, espanhóis-, como ainda, historicamente, é um sítio com muitas famílias portuguesas. Acredito que este é um projecto que tem muito potencial.

    Algum dos vossos produtos poderão também no mercado de arrendamento?

    O da Graça foi uma compra que fizemos em 2019, é um prédio muito pequenino, não tem muito interesse histórico, nem nada, mas a localização é muito boa. São três apartamentos, o T1, o T2 e o T2 duplex. Ainda não sabemos muito bem se isto é um produto mais para a nossa carteira para depois fazer, talvez, arrendamento ou para vender os apartamentos.

    Os valores das rendas não são atractivos ou, por outro lado, será mais fácil comprar do que arrendar. Na Suíça temos um mercado de arrendamento forte, implementado. Isto também acontece porque, por exemplo, na Suíça o sistema bancário é diferente, não se fazem empréstimos com prazos quase infinitos. No máximo são 25 a 30 anos, o que permite ter uma igualdade ao nível dos valores que se pagam, seja em caso de arrendamento, seja em caso de compra. A ideia é que se trata sempre de um activo que não perde valor e que se o cliente não conseguir pagar, facilmente se coloca no mercado novamente. Em Portugal, alguém que compra para arrendar já tem um custo muito elevado de juros. Para ter alguma rentabilidade, a renda tem que se muito mais alta. Na Suíça, com menos equity, consegue-se uma rentabilidade muito mais interessante.

    O que seria necessário para facilitar esse processo?

    A parte legislativa é fundamental.  Se não houver esse empurrão, dificilmente será possível. Mas acho que seria também muito importante a redução do IVA na construção nova, como é na reabilitação. Não estou errado quando digo que entre 40 e 50% do valor é referente ao IVA, um valor que acaba por se repercutir no cliente final.

    Ainda na óptica da reabilitação, por exemplo, o Porto ou outras cidades mais a Norte, são hipóteses?

    Olhamos muitas vezes para oportunidades, por exemplo no Porto. Mas depois, para nós, às vezes é melhor ficar onde nós conhecemos as coisas, onde nós conhecemos muito bem o mercado.

    Porque, por exemplo, se vou comprar um prédio nessa avenida, eu sei que do outro lado é melhor do que deste lado. Conheço as micro-organizações. Eu não conheço bem o Porto. E depois sentimos quase a obrigação para nos associarmos a com alguém lá no Porto, encontrar parceiros que conheçam aquela realidade. E é complicado. Pode ser muito bom, mas é sempre um desafio.

    Não é, portanto, algo que esteja nos vossos horizontes por agora…

    Não.

    Vão entrar no mercado mais turístico. Acreditam que estão aqui a fazer uma mudança no vosso core? É para continuar?

    Com a carteira que temos actualmente, temos trabalho para os próximos anos. E até aí vamos descobrir, com certeza, outras oportunidades. Nós crescemos muito rápido. Comprámos muita coisa em pouco tempo. Agora estamos mais focados em dar continuidade e avançar para esses projectos. Mas sempre a olhar para as oportunidades que possam surgir.

    Actualmente, há toda aqui uma mística à volta de Portugal, não é? Acredita que isto é algo que vai continuar, que será sustentável, não só do ponto de vista ambiental, mas também económico?

    Eu acho que sim. De qualquer forma, gostamos de ter uma visão mais conservadora. Não podemos sempre pensar que os últimos anos foi agora o indicador para os próximos sempre que vai continuar igual. Não. Porque já atingimos um nível de preços altos. Mas acho que foi importante porque o País precisava mesmo dessa mudança, desse impulso. Mas agora também acho que os compradores estão mais cuidadosos.

    Tem que estabilizar, é isso?

    Exactamente. Acho que vamos entrar numa fase de consolidação e estabilização. Mesmo assim, acho que Portugal vai continuar forte. Acho que tem tudo para continuar a ser o sucesso que teve nos anos passados. É um País muito agradável para se viver. Tem um clima óptimo. Tem a segurança que hoje em dia é muito importante. O que para nós é completamente normal, como andar na rua a que horas for ou andar nos transportes, para quem vive nos EUA, no Brasil ou até em França, como alguns casos que conheço, não é assim.

    Como é que se imaginam daqui a 10 anos, com o portefólio que já alcançaram e com os novos projectos que vão agora desenvolver?

    Continuar a investir em Portugal, mas também ter alguns desses novos projectos que já estivemos a falar, acabados e também como são projectos turísticos, é uma coisa que vai ficar.

    Vão ficar com a gestão desses projectos é isso?

    Talvez uma parte, sim. É isto que gostaria de ter daqui a 10 anos. Falamos de algo diferente da promoção ou da construção, mas também de ter algo com rendimentos diferentes. Criar uma carteira para alugar. Mas continuando a fazer o que sabemos fazer: reabilitação.

    Os números:

    240 M€ – Volume de investimento

    71 mil m2 – Área de Construção

    269 – Apartamentos

    361 – Lugares de estacionamento

    16 – Espaços comerciais

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