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Manuel Santos Ferreira
Opinião

Descarbonização da Indústria – É URGENTE acelerar!

“A descarbonização da indústria tem que ser transformacional, em três vertentes: nas fontes da energia que precisa de consumir, na transformação dos processos e dos produtos, alavancando a economia circular de forma impactante”

Manuel Santos Ferreira
Opinião

Descarbonização da Indústria – É URGENTE acelerar!

“A descarbonização da indústria tem que ser transformacional, em três vertentes: nas fontes da energia que precisa de consumir, na transformação dos processos e dos produtos, alavancando a economia circular de forma impactante”

Sobre o autor
Manuel Santos Ferreira

No momento em que acrescentava mais algumas ideias a este artigo chegava-me a seguinte alarmante comunicação da ONU, datada de 25 de Outubro de 2021:

Organização Meteorológica Mundial confirma marca alcançada em 2020 de 413,2 partes por milhão [Concentração média de CO2 na atmosfera]; temperatura global continuará subindo se tendência de alta persistir; agência da ONU pede revisão de sistemas industriais, de energia, transporte e modos de vida.

As concentrações médias globais de Dióxido de Carbono, CO2, em 2020 atingiram portanto um novo máximo de 413,2 ppm. Em 2015 tinham sido atingidas as 400 ppm de CO2 na atmosfera, apesar das restrições impostas pela Covid-19.

Há mesmo uma Urgência Climática (recomendo o documentário “Terra: Urgência Climática” em vários canais de televisão). Entre outras consequências da degradação do meio ambiente, segundo alerta da OMM (Organização Meteorológica Mundial), o volume de água potável do planeta está a cair 1 centímetro por ano (apenas 0,5% de toda a água do planeta pode ser usada para consumo humano).

É neste cenário que a ONU despoleta (… uma vez mais) o apelo destacado no excerto da notícia acima.

Apesar de globalmente estarmos a fazer alguma coisa, ainda estamos a fazer muito pouco. E a indústria tem um papel crucial nesta ação.

A indústria é todos os vectores acima destacados na notícia: é os sistemas industriais, é a energia que consome e é os transportes que movimenta (quer para receber as matérias-primas, quer para entregar os produtos que produz). É também uma parte importante do nosso modo de vida!

Quero com isto dizer que a indústria deve assumir o seu papel preponderante nesta matéria crucial e deve fazer muito mais, e deve fazê-lo já!

A descarbonização da indústria tem que ser transformacional, em três vertentes: nas fontes da energia que precisa de consumir e na transformação dos processos e dos produtos alavancando a economia circular de forma impactante.

Na vertente da transformação dos produtos terá que ser na utilização de materiais primas alternativas menos poluentes e recicláveis e na conceção dos próprios produtos tornando-os mais eficientes e digitalizados (IoT – Internet of Things). Na vertente dos processos reformulando os atuais tornando-os mais eficientes (recurso à digitalização, incremento exponencial da robotização) e energeticamente mais eficientes.

Na vertente das fontes de energia a transformação terá que ser na utilização de energia verde (hidrogénio verde e energias renováveis) e na eficiência energética (recuperação de energia e redução de consumos, transformando processos e tecnologias por outras mais eficientes).

A aposta na Energia Solar Fotovoltaica para suprir uma pequena parte dos autoconsumos na indústria, ainda que tímida, tem sido a parte mais visível desses contributos da indústria para a descarbonização, para além de projectos de melhoria de eficiência de energia. Contudo existem milhões de metros quadrados de coberturas em milhares de unidades industriais completamente desaproveitados, pelo menos para suprir uma parte dos autoconsumos. Urge dinamizar. A legislação já tem alguns mecanismos facilitadores, desde Outubro de 2019, para o licenciamento destas instalações (regime jurídico aplicável ao autoconsumo de energia renovável), como por exemplo para instalações até 50 kW e na gama >50 kW até 1 MW de potência instalada, e os painéis solares fotovoltaicos todos os dias baixam de preço e a sua qualidade e performance aumentam.

Do vasto leque de soluções para descarbonizar a indústria existem também formas de atuar indirectamente na descarbonização da energia consumida para os processos produtivos industriais. Um deles, bastante relevante e que tem andado esquecido, é o recurso à produção de energia elétrica a partir de biomassa florestal, particularmente importante no contexto actual da escalada vertiginosa dos preços de energia que estamos a enfrentar. A biomassa florestal é uma fonte de energia renovável que produz energia a preços inferiores a metade do preço actual a que a EDP compra diariamente energia eléctrica no Mibel. Uma das formas poderá ser em cada pólo industrial com consumos relevantes de energia, os industriais unirem esforços e construírem e operarem Centrais Termoelétricas a Biomassa Florestal, injectando essa energia na rede, contribuindo assim para a descarbonização em escala palpável e ao mesmo tempo gerarem um retorno financeiro importante, que em parte pode ser distribuído entre a comunidade local, dando corpo à responsabilidade social das empresas… todos ficam a ganhar.

Não menos importante é o contributo das Centrais Termoelétricas a Biomassa Florestal para a limpeza das florestas, mitigando de forma expressiva os riscos do flagelo dos incêndios florestais e respectivas consequências que são de duplo efeito negativo, pela redução da absorção de carbono pelas florestas devida à sua destruição, bem como na emissão de dióxido de carbono para a atmosfera (CO2) e consequentes efeitos no aumento do efeito de estufa e por consequência no aquecimento global do planeta.

A substituição dos combustíveis fósseis por hidrogénio verde na geração de energia e na mobilidade, é o vetor com maior poder transformacional que a humanidade espera e precisa para controlar o desafio do aquecimento global. É uma emergência do planeta em que vivemos. Daí a importância da COP26, cujo objectivo consistia em colocar toda a humanidade, e não apenas uma parte, comprometida a focar-se nas metas estabelecidas.

Também na área das Redes de Distribuição de Gás Natural urge avançar no contributo para a descarbonização da Indústria.

O hidrogénio verde, como é do conhecimento geral, é um combustível 100% renovável. Pode ser usado como fracção de uma mistura de gás natural com hidrogénio. É no entanto necessário garantir as condições de segurança para o seu uso nos equipamentos e conhecer os impactos da utilização da mistura nesses equipamentos e nos processos que o utilizem.

Já está em curso a implementação do primeiro projeto em Portugal de injeção de hidrogénio verde na rede de gás, o Green Pipeline Project.

O Green Pipeline Project  é um projeto piloto com consumidores reais e que permitirá a cerca de 80 consumidores residenciais, terciários e industriais receber uma mistura de gás natural e hidrogénio já a partir de janeiro de 2022. O Hidrogénio verde será produzido no Parque Industrial do Seixal.

Numa fase inicial do projeto será injetado 2% de hidrogénio na rede de gás natural, subindo gradualmente esta percentagem até um máximo de 20% num período de 2 anos.

Mas isto não chega. É preciso que as indústrias analisem os seus sistemas de queima e os seus processos que consomem Gás Natural, e os categorizem como Green NG Ready, e a partir daí mostrem o seu interesse e pressionem os seus fornecedores de GN para lhes disponibilizarem GN verde com 20% de Hidrogénio.

Ao avançarmos todos em conjunto (indústria, fornecedores de GN, engenharia) na implementação do Gás Natural Verde, fazendo chegar as moléculas de H2 às nossas indústrias (… e às nossas casas), a Indústria dará um efectivo e um importante passo real no processo de transição energética em Portugal.

NOTA: O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

Sobre o autorManuel Santos Ferreira

Manuel Santos Ferreira

Director do Departamento de Indústria da Tecnoplano
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