Parque das Nações: 20 anos depois é preciso retomar ligação do “bairro” à sua envolvente

Por a 9 de Julho de 2018

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20 anos passados sobre uma das maiores intervenções urbanísticas já realizadas no Portugal Moderno, como é o caso da Expo 98, e numa altura em que cidades, como Lisboa e Porto, são confrontadas com a emergência de responder aos estímulos despoletados por uma atractividade ímpar, que desafios se colocam ao pensamento e definição do espaço público e da paisagem urbana? Que papel podem ter os arquitectos nesta equação, tal como os urbanistas? E que papel cabe aos decisores? Que implicações têm estas transformações na qualidade de quem vive, trabalha ou ocasionalmente desfruta destes ambientes?  Estas foram algumas das questões colocadas aos arquitectos intervenientes na conferência que contou com a participação de Alexandre Burmester, Nuno Malheiro, Rita Almada Negreiros, Paula Torgal, Cristina Veríssimo e João Queiroz e Lima. Entre tão diversas opiniões dois pontos se destacam: o Parque das Nações é um exemplo urbanístico sim mas cuja sustentabilidade precisa, actualmente, de ser revista.

 20 anos da Expo 98 e o futuro

“Ensaio de laboratório” é assim que Nuno Malheiro, da Focus Group, vê aquilo que é hoje o espaço da exposição mundial de 1998. Um espaço onde foram aplicadas, pela primeira vez, muitas das ideias ao nível da sustentabilidade e urbanísticas, nomeadamente da relação da cidade com o rio como explica o arquitecto: “Apesar das críticas que possam haver houve toda uma série de infra-estruturas que foram pensadas ao nível da sustentabilidade que pretendia que fossem um exemplo para outras zonas da cidade”.

Nuno Malheiro teve uma relação muito particular com a construção daquela nova zona da cidade. Ao mesmo tempo que vivia nos Olivais e conheceu bem o que foi aquela zona antes da exposição, frequentava o curso de Arquitectura, pelo que fez parte de várias equipas que concorreram para os primeiros concursos de ideias do que poderia ser aquela zona da cidade, tendo inclusive trabalhado no gabinete que ganhou o projecto para a nova FIL e acompanhou a obra. Já mais tarde, no pós-Expo teve também um contacto directo com a criação de diversas infra-estruturas, nomeadamente a nova sede da Microsoft (onde se encontrava o antigo Pavilhão Virtual durante a exposição).

Até ao nível dos licenciamentos a zona da Expo 98 teve um regime especial. A ideia era que não acontecesse o mesmo que noutras exposições mundiais. A memória recente, na altura, da exposição de Sevilha em 1992 fez com que fosse criado um regime especial para que a transição do pós-Expo fosse feita o mais rápido possível e que pudesse ser um novo espaço, uma nova centralidade com vida própria.

Foi assim crescendo a um ritmo alucinante um novo bairro da cidade de Lisboa, que devido à quantidade e tipo de serviços que ali foram construídos foi muitas vezes apelidado de uma “cidade”. Também neste aspecto se pretendia que o futuro Parque das Nações fosse “um exemplo enquanto planeamento urbanístico”. Ainda assim, Nuno Malheiro considera que “a distribuição das zonas habitacionais e de serviços não foi a melhor, assim como a rede de transportes”.

Bairro ou “gueto”

Habitação, transportes, comércio, shopping, cinemas, teatro, escolas, pavilhão multiusos, hospital, empresas e serviços, entidades públicas, restauração e hotéis. Tudo isto caracteriza aquilo que pode ser considerado positivo no Parque das Nações e que contribui para a criação daquela “cidade”.

Tal como indica o arquitecto Alexandre Burmester, “mesmo que possa ser discutido se tem um bom desenho ou mau desenho, com o tipo de âncoras que tem teria sempre que resultar numa nova cidade. E neste aspecto foi bem pensado, naquilo que seria aproveitado para reabilitar.” Mas por outro lado, o sucesso do Parque das Nações é também aquilo que o limita e que contribui para a sua “guetificação”. Para Alexandre Burmester, à medida que o Parque das Nações foi crescendo foi-se criando um “gueto”, em particular pela “falta de fruição e de ligação com a envolvente da cidade que acaba por continuar fraccionada com a linha ferroviária”. Por outro lado, a  própria construção está “sectorizada” o que é “antiquado e já ninguém faz em termos urbanísticos”.

Relação com o rio

A Expo ajudou a mudar a perspectiva do cidadão em relação ao rio e serviu de contaminação para os outros projectos que mais tarde viriam a transformar a zona ribeirinha e que ainda hoje continuam. “Passou a ser possível ter um contacto directo com o rio e isso foi um dos factores de sucesso daquele espaços e o poder politico viu também naquele sucesso um exemplo a seguir que se desenvolveu mais a partir do momento em que a gestão da frente ribeirinha para a autarquia”, considerou Nuno Malheiro. Uma opinião partilhada por Alexandre Burmester que vê como determinante a relação daquela zona da cidade com o rio e como isso foi decisivo para o seu crescimento. Mas salienta ainda que “em termos públicos é difícil conciliar diferentes entidades o que se torna a principal obstáculo para a criação de uma fruição ao longo da frente ribeirinha”. A verdade, acrescenta, é que mesmo “essa relação conturbada com o rio e com o porto de Lisboa e as empresas ai existentes fazem parte e é preciso ver como uma relação natural”.

A ligação com a cidade

É sabido que desde há alguns anos que se fala na intenção da Câmara de Lisboa de transformar a frente ribeirinha da cidade, fazendo a ligação do Parque das Nações até Alcântara. No fundo, aproveitar o exemplo urbanístico que se pode retirar da Expo e transpor para outras zonas da cidade. Devido à crise muitos projectos ficaram na gaveta ou foram adiados, tornando ainda mais aquela zona da cidade numa “ilha”.

Alexandre Burmester não considera benéfico que seja replicado noutras zonas da cidade o conceito da Expo, correndo o risco de se criarem pequenas ilhas em detrimento de uma fruição natural e de relação com a cidade, “mesmo que isso implique conviver com os contentores do Porto de Lisboa, mesmo não sendo tão bonito”. É preciso sim, “criar zonas que repliquem as vivências das cidades com a sua própria diversidade”, sendo o centro histórico das mesmas um exemplo a seguir já que é ali que encontramos a diversidade própria de uma cidade cosmopolita”.

Também João Queiroz e Lima, do Casca – Architecture & Design, considera que desde o início da Expo havia a intenção de “coser” aquela zona com a cidade envolvente, nomeadamente Sacavém, Olivais, Xabregas, Marvila, Matinha e centro histórico. Contudo “ficou tudo um pouco no papel”, acrescenta, transformando a Expo num ponto de atracção e numa ilha.

“É irreal pensar que a cidade vai ser aquilo que um conjunto de arquitectos planeia, porque o que acontece é que as cidades vão mudando porque os planos são feitos a 15 anos e é normal que passados tantos anos seja impossível manter os primeiros propósitos”, conclui o arquitecto.

Para Rita Almada Negreiros, do gabinete CanRan Arquitectos, “A zona da Expo chegou aos seus limites e há necessidade de expandir ainda que de uma forma fragmentada”, até porque “há excepção de alguns casos não há ainda um vislumbre de uma reabilitação urbana na frente rio”.

Novas centralidades

Falar de novas centralidades remete-nos, quase que obrigatoriamente, para o Parque das Nações, uma zona que ganhou vida, não só porque tem uma área residencial considerável, mas principalmente pelo número de visitantes que atrai e pelo número de pessoas que ali trabalham. Goste-se ou não, a vista desafogada do rio permitiu aos lisboetas criar uma nova relação com a frente ribeirinha da cidade e, de certa, forma ditou o urbanismo que se tem feito nas últimas duas décadas.

Curiosamente, é a falta de uma centralidade, que acaba por ser um conceito tradicional de cidade ou de bairro, que falta no Parque das Nações, algo que acaba por ser compensado pela gare multimodal que estabelece ali um ponto de paragem de milhares de pessoas. Essa é talvez a maior lacuna que pode ser apontada a esta nova zona da cidade.

Mais uma vez, João Queiroz e Lima salienta que o facto de se ter construído de acordo com um sistema de vista foi também determinante para a falta de criação de uma zona central no Parque das Nações. “Foi muito bom em termos imobiliários, mas não permitiu criar uma ligação entre os próprios bairros”. Uma cidade deve ter em conta “como é que as pessoas vivem, se bem ou mal, e como podem complementar-se nas diferentes estruturas”, considerou ainda.

Também a actual presidente da Seccção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos, Paula Torgal vê na compartimentação dos bairros no Parque das Nações um dos seus aspectos mais negativos. “Há uma questão de escala com a qual me sinto desconfortável enquanto cidadã. Existem bairros avulso, e que ainda que não considere um gueto, acho-os bastante delimitados. A circulação é feita quase quarteirão a quarteirão, não havendo em alguns casos uma ligação contínua”, explica.

Aos poucos alguns projectos públicos e privados têm permitido criar pequenos oásis, como já vem sendo feito na Matinha, Braço de Prata, Beato, Campo das Cebolas, Cais do Sodré e Alcântara onde muitas das antigas instalações do Porto de Lisboa já se encontram reabilitadas e com novos usos. E estes novos pontos de fruição podem também eles ser vistos como novas centralidades, novas zonas da cidade que têm a capacidade de atrair e juntar pessoas nas suas mais diferentes actividades.

A exemplo disso, Rita Almada Negreiros, relembra o bom exemplo urbanístico conseguido com a renovação do Largo do Intendente e que também este se tornou numa nova centralidade quando se encontrava degradado e “sem vista para o rio”.

Cristina Veríssimo, do gabinete CVDB Arquitectos, considera por seu lado, que a crescente ligação da população ao rio tem permitido a criação de “bons exemplos de usufruto dos cidadãos o que tem permitido a criação de novas zonas e de expansão do centro para novas centralidades”, como é o caso do edifício EDP, o MAAT, o Museu dos Coches, entre outros.

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