A tempestade perfeita sobre África

Por a 29 de Abril de 2020

Entre 300 mil a 3,3 milhões de africanos podem perder a vida este ano em resultado directo da pandemia do covid-19. Os números foram avançados pelo mais recente relatório da Comissão Económica das Nações Unidas para África (ECA, no acrónimo em inglês), “Covid-19 in Africa: protecting Lives and Economies”, a que o Africa Monitor Intelligence dedicou parte da sua publicação quinzenal.

À medida que o número de casos confirmados sobe exponencialmente em diferentes países do continente tornam-se evidentes as vulnerabilidades do continente, Em África cerca de 600 milhões de pessoas vive em áreas urbanas e destas 56% (excluindo o norte de África) vivem em bairros de lata/favelas, onde o excesso populacional e a falta de saneamento e água potável contribuem para uma maior disseminação do vírus e dificultam a adopção de medidas de confinamento e quarentena efectivas. Em África, sublinha a ECA, 36% a população não tem acesso a água nas suas casas e 30% tem um acesso limitado, o que torna uma das medidas mais simples para combater o covid-19, como lavar as mãos, algo difícil.

É verdade que o Covid-19 é particularmente mais perigoso para as populações mais idosas. Ora, 60% da população em África tem menos de 25 anos. Mas se a demografia joga a favor do continente, a prevalência em larga escala de doenças respiratória, cardíacas e imunodepressoras, como o HIV/SIDA, bem como a má nutrição (cerca de 40% das crianças com menos de 5 anos são subnutridas) são terreno fértil para o Covid-19 e impactam as taxas de mortalidade e de hospitalização por Covid-19.

África tem os sistemas de saúde mais frágeis do mundo, sublinha a ECA. Em média o continente tem cerca de 1,8 camas por 1000 pessoas, o que compara 5,98 em França e a comissão relembra e cita dados do “think tank” Rand Corporation de 2016, segundo o qual dos 25 países do mundo mais vulneráveis a doenças infecciosas 22 localizam-se em África.

O estudo antecipa que na sequência da pandemia entre 2,3 a 22,5 milhões de pessoas podem precisar de cuidados hospitalares, entre meio milhão e 4,4 milhões podem precisar de cuidados intensivos e entre 129 milhões e 1200 milhões de pessoas serão infectados no continente africano.

Os números resultam da aplicação de um modelo do Imperial College, que associa o pior cenário à ausência de qualquer intervenção e o melhor à introdução de medidas drásticas de distanciamento social. O combate à pandemia tem um custo associado de resposta a cuidados de saúde que no primeiro cenário tem um custo associado de 446 mil milhões de dólares e o último um custo de 44 mil milhões de dólares, num continente que tem 138 mil milhões de dólares alocados a despesas de saúde em 2020.

O problema económico

Tal como acontece no resto do mundo também em África o Covid-19 terá impactos económicos. Com um mercado de saúde avaliado em 259 biliões de dólares anuais, África depende em 94% das importações de fármacos e outros produtos médicos, oriundos na União Europeia (51%) e Índia (19%). O que no contexto actual dificulta o combate à pandemia entre os africanos principalmente porque pelo menos 71 países impuseram limitações às exportações de produtos essenciais ao combate ao Covid-19, ao mesmo tempo os direitos de propriedade intelectual nesse tipo de bens onera ainda mais a sua produção em muitas das já débeis economias africanas. Acresce que as taxas aplicadas sobre os produtos importados, como máscaras faciais, produtos esterilizantes, consumíveis médicos, etc, cobrados pelos estados africanos tornam-se agora particularmente problemáticos.

Numa altura em que os preços das “commodities” africanas (café, cacau, chá petróleo e outros minerais)tem uma queda vertiginosa, que as receitas do turismo, do transporte aéreo e as remessas de emigrantes diminuem, aos países africanos sobra pouca margem de manobra financeira para fazer face à pandemia. As próximas semanas vão ser críticas para o evoluir da doença, mas a ECA prevê uma forte quebra do crescimento africano, um aumento do desemprego e da pobreza e apela à criação de um fundo líquido de 100 biliões de dólares destinado a apoiar os mais vulneráveis, proteger empregos, fornecer vacinas e equipamentos de saúde.


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