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O ano de arranque da Logística

Em 2022, o investimento imobiliário no sector logístico e industrial deverá disparar, impulsionado pela entrada de novos players no mercado e acompanhando o crescimento do sector a nível europeu, assim haja activos para comercializar

Manuela Sousa Guerreiro
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O ano de arranque da Logística

Em 2022, o investimento imobiliário no sector logístico e industrial deverá disparar, impulsionado pela entrada de novos players no mercado e acompanhando o crescimento do sector a nível europeu, assim haja activos para comercializar

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Manuela Sousa Guerreiro
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O segmento de Indústria e Logística na Europa recebeu, no ano passado, um volume de investimento de 62 mil milhões de euros, um valor 79% acima da média dos últimos cinco anos. De acordo com o estudo da Savills European Logistics Outlook, de Fevereiro, o ano passado terminou com a absorção de 40 milhões de m2 na Europa, um valor sem precedentes que se coloca 40% acima da média da área absorvida nos últimos cinco anos.

Em Portugal, o sector segue a tendência de crescimento, mas esbarra com a falta de activos para comercializar. “Ao contrário do que se verificou em diversos países europeus nos últimos anos, o investimento em activos de logística teve uma reduzida expressão em Portugal, não pela falta de interesse por parte dos investidores, mas principalmente por não existir produto disponível para venda”, refere Michael Costa Gabriel, consultor de Industrial e Logística da CBRE Portugal. Segundo o responsável, “efectivamente, em 2021, o investimento no sector Industrial & Logístico totalizou apenas 65 milhões de euros, ou seja 3% do investimento total em imobiliário comercial em Portugal (no conjunto dos países europeus representou 17% do investimento total)”. Contudo, este especialista não tem dúvidas: “Em termos de volume transaccionais, Portugal parte de uma posição abaixo dos níveis europeus, no entanto, acompanha efectivamente a tendência europeia em termos de crescimento e interesse no segmento, registando já um investimento acelerado em 2022, directamente associado à grande procura de activos logísticos”.

A opinião tende a ser unanime ao sector. “O mercado imobiliário tem vindo a sofrer mudanças bastante positivas, nomeadamente no sector logístico e já em 2021 verificámos um recorde nos valores de ocupação na ordem dos 700 000 m2”, sublinha Sérgio Nunes. O responsável, Head of Industrial, Logistics & Land da Cushman & Wakefield, afirma que “neste momento Portugal está a acompanhar a tendência de crescimento da Europa no sector. Contudo ainda existe um longo caminho pela frente para que possamos acompanhar o investimento dos outros países europeus no segmento logístico”.

O ano de 2022 arrancou da melhor forma para o segmento I&L, com um volume de investimento de aproximadamente 170 milhões de euros. Em apenas três meses mais do que duplicou o valor do investimento total do segmento registado o ano passado. “Encontram-se actualmente em negociação diversos outros activos, incluindo portefólios, e a CBRE estima que no total do ano serão canalizados para esta classe de activos mais de 750 milhões de euros, o que será certamente um valor recorde em Portugal”, avança Michael Costa Gabriel.

Os drivers do crescimento

O crescimento do segmento de I&L em Portugal tem sido impulsionado pelo aumento do comércio do e-commerce, mas também pela necessidade de as empresas aumentarem os seus stocks, de forma a poderem cumprir o normal funcionamento da sua cadeia de distribuição. Uma preocupação especial depois das dificuldades sentidas no transporte e distribuição internacionais nos anos de pandemia. “O e-commerce foi um dos principais drivers que contribui para o crescimento da indústria logística em Portugal, visto que os players necessitaram procurar espaços e armazéns que garantissem a disponibilidade dos seus produtos, no menor tempo possível, aos clientes. Contudo, este crescimento tenderá a ser influenciado, e impactado, pela guerra na Europa, uma vez que este acontecimento veio alterar trocas comerciais, as necessidades das empresas e, sobretudo, suscitar alguma preocupação nos investidores”, justifica Sérgio Nunes.

Nesse sentido, “há uma procura robusta por diversos produtos logísticos, desde naves logísticas a distribution centres. Perspectiva-se a contínua penetração do e-commerce no mercado nacional, aumentando consequentemente o interesse em activos dedicado a este segmento”, refere Michael Costa. “Registamos um maior número de operadores logísticos no panorama nacional, associado à expansão da actividade e reorganização de empresas, que inclui a restruturação de activos. Consequentemente, existe um flee to safety, com a procura de activos modernos que oferecem melhores condições de segurança e conforto aos colaboradores, com impacto na produtividade dos mesmos”, continua o mesmo especialista.

Um mercado alimentado por players internacionais
A Cushman & Wakefield perspectiva um ano com muitas transacções – desde a aquisição de terrenos para desenvolvimento de novos parques logísticos, à compra de armazéns activos com rendimento e de armazéns vazios para serem ocupados nos principais eixos, de Lisboa e Porto. “A par disso, a aposta em novos parques logísticos irá traduzir-se em mais oferta aos ocupantes, bem como um mercado mais estruturado para os players do sector logístico”, sustenta Sérgio Nunes. Para o Head of Industrial, Logistics & Land da consultora os principais “players que têm vindo a investir no mercado logístico nacional são, essencialmente, internacionais, de grande dimensão, com um perfil value-added e, cujo objectivo, consiste em reposicionar e acrescentar valor aos activos, bem como apoiar parceiros locais”.

Para Michael Costa Gabriel a procura e o interesse é partilhada tanto por investidores nacionais como internacionais alimentados, e muito, pela “grande margem de progressão do sector logístico. Para o Consultor de I&L há ainda “muito a fazer em termos de novos e melhores activos logísticos. O sucesso registado por parte destes investidores na colocação e venda de activos traduz-se numa renovada vontade de investir no sector. Há novos players que estão em Portugal para ficar, e que procuram aumentar a sua oferta.

Mas nem tudo é fácil, persiste a escassez de produto disponível uma vez que existe um grande volume em pipeline que não deverá estar concluído antes de 2023. Pelo que a escassez de oferta disponível deverá alimentar a tendência de adaptação dos espaços já existentes. O aumento de custos, quer dos combustíveis, mas também da energia e dos materiais de construção tenderão a impactar o segmento de I&L em Portugal. “Diria que a lentidão burocrática, associada a atrasos nos licenciamentos, representa a maior ameaça à expansão do sector logístico em Portugal. Em paralelo, as indefinições dos custos de construção levam a cuidados acrescidos, que podem limitar o crescimento”, alerta Michael Costa Gabriel.

Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

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“Este ano prevemos chegar aos 150 milhões de euros em volume de negócios”

A Home Tailors Real Estate fechou 2021 com um volume de vendas de 78 milhões de euros, o que se traduziu no “melhor ano de sempre” da marca. Mas, com um plano de expansão, que visa chegar às 30 lojas até 2023, a expectativa é que este montante duplique

Cidália Lopes

Ao CONSTRUIR, David Carapinha, CEO e founder da Home Tailors Real Estate explica-nos de que forma a marca pretende colocar em prática o seu plano de expansão e quais as zonas prioritárias, cujo investimento é de 4,5 milhões de euros. Direccionados para o cliente do segmento médio / alto, assim como para o cliente estrangeiro, o responsável da marca sentiu que com a pandemia houve uma necessidade de se adaptarem aos mercados e à procura mais fora dos centros urbanos

A Home Tailors teve início há cerca de cinco anos e tem cinco lojas. São todas em sistema de franchising?
Neste momento temos duas agências próprias, as de Lisboa, Areeiro e Telheiras, e as restantes são em regime de franchising. Neste momento já chegamos as seis lojas. Abrimos recentemente a agência de Braga. As outras lojas que temos estão localizadas em Sesimbra, que foi a nossa porta de entrada para o distrito de Setúbal. Uma loja junto à praia que tem trabalhado muito o mercado internacional, um mercado bastante sazonal e que tem sido uma descoberta daquele que é o mercado da Margem Sul. Depois estamos em Mafra e na Ericeira.

São localizações muito distintas. Quando fala que têm como objectivo chegar às 30 lojas quais as principais cidades onde pretende instalar-se?
O objectivo é que a Home Tailors chegue de Norte a Sul do País e ilhas inclusive. Nesta primeira fase iremos reforçar a zona da grande Lisboa, com mais agências em Lisboa e na Margem Sul e no próximo ano contamos chegar à região Norte, depois de Braga chegar ao Porto, ao Centro e também no próximo ano chegar ao Algarve.

Até 2023?
Exactamente. O nosso plano de expansão, que já está em curso, que tem já várias unidades em análises, será para que este ano cheguemos às 15 agências e no próximo surjam novas 15 agências Home Tailors pelo País.
Dependendo da zona onde a loja se encontra, o objectivo será que cada loja se especialize num determinado mercado ou público específico?
Na verdade, há sempre uma adequação ao cliente tipo da região. O nosso target é cliente do segmento médio / alto. Ainda assim, a estratégia de comunicação em cada região é que irá ser adaptada ao tipo de cliente. Nós trabalhamos muito o cliente internacional, que representa quase metade do nosso volume de vendas, mas também trabalhamos bastante as famílias portuguesas e a classe média, daí que para nós seja importante o papel das construtoras, como das agências imobiliárias dar a conhecer Portugal no sentido de que o País não se limita apenas a Lisboa, Porto e Algarve. Nós conseguimos estar no Centro do País em muito pouco tempo e ajudar a descobrir outras regiões para estes clientes internacionais. Por outro lado, com a pandemia tivemos o outro fenómeno das famílias a querem afastarem-se dos centros urbanos. Embora estes continuem a ser o ponto de maior interesse e onde existe o maior volume de vendas, mas a procura para fora dos grandes centros urbanos também aumentou bastante, o que nos faz também adequar o nosso plano de expansão para estar próximo desses novos pontos de interesse.

É possível fazer o paralelismo do que era o mercado antes da pandemia e o que é agora? Houve uma diferença tanto em termos de mercado, como de produto disponível é isso?
O mercado adaptou-se. Nunca deixamos de trabalhar na pandemia, na verdade 2020 foi o nosso melhor ano, no qual tivemos um crescimento de 200%. Superou as expectativas muito por essa necessidade de adaptação que as famílias tiveram e que os investidores também acabaram por fazer. A ideia de que as pessoas iriam fugir todas para o campo acabou por não acontecer, mas acredito que pela primeira vez as pessoas viveram verdadeiramente as suas casas e isso fê-las perceber as necessidades que tinham de mais um quarto, uma sala maior, uma varanda ou terraço maior e por isso mesmo dentro dos centros urbanos houve esse fluxo de mudança. E após o Verão de 2020, quando todos nós percebemos que isto do Covid não ia ser algo que iria passar tão rápido como todos pensámos. Em 2021 essa diferença de procura foi muito marcante. Este fluxo de procura para casas com características diferentes levou com que os investidores tenham que fazer procuras diferentes, quem procura para reabilitar para colocar no mercado de venda ou arrendamento tem que dar resposta a esta procura. Ainda não podemos dizer que a maior procura é fora dos centros urbanos, não é verdade. Os investidores estrangeiros principalmente continuam focados nos pontos como Lisboa, Porto e algumas zonas do Algarve, mas umas das razões prende-se com a facilidade de infraestruturas, nomeadamente no que toca por exemplo aos transportes e rede viária, ou até saúde e cultura. Se estas estruturas de apoio não existirem não depois um grande investimento nessas regiões.

Mas os estrangeiros continuam a procurar mais as grandes cidades ou notam-se uma mudança neste paradigma com a pandemia e uma maior procura pelo interior do País?
Na verdade, depende do tipo de estrangeiro. Se for investidor ainda continua muito a apostar nos centros urbanos, mas surge cada vez mais o comprador estrangeiro que pensa ter o seu refúgio em Portugal e ai já começa claramente a procurar zonas como o Alentejo ou o Ribatejo, zonas até mais a Norte, próximas da fronteira com Espanha. Portanto, se for por uma questão se segurança do investimento ainda se olha para os centros urbanos de maior dimensão, quando pensamos na procura de um espaço para a reforma e para a qualidade de vida, uma segunda habitação, aí sim, o investidor estrangeiro que pensa um dia vir morar para Portugal já não está tão preocupado em estar no centro da cidade, pelo contrário.

Qual o investimento previsto para o plano de expansão da Home Tailors?
Se falarmos no plano de expansão completo estamos a falar num investimento na ordem de 4 milhões de euros, e grande parte passará pelo reforço da nossa comunicação e estruturas necessárias para que a rede se expanda. Ainda é uma rede bastante jovem, com cinco anos e a nossa estratégia de comunicação está em curso. Vamos chegar brevemente à televisão. E por outro lado, também pela formação das equipas, para que estas estejam preparadas numa maior escala de Norte a Sul do País.

Qual a perspectiva de crescimento para este ano?
2021 fechou com um volume de vendas de 78 milhões de euros e com crescimento de 21% face a 2020 e este ano vamos superar esse valor. Foi uma surpresa termos crescido tanto em 2020 e em 2021 voltar a crescer. No 1º trimestre deste ano já atingimos quase os resultados que tivemos no ano passado todo e se o mercado se mantiver como está, tudo indica que vamos duplicar esse valor este ano.
Primeiro porque teremos mais unidades em funcionamento, e por isso é uma consequência, porque a marca está a expandir-se e, portanto, o volume de clientes também aumenta e porque, este ano, se espera que seja um ano de retoma do investimento internacional, que não tendo parado, ainda assim, abrandou no seu ritmo e nas decisões e que agora começam a normalizar-se.
Obviamente, que a guerra na Ucrânia está a tornar os processos mais lentos, mas é um efeito normal perante uma situação destas, pelo menos ao nível das decisões por parte do cliente estrangeiro que está a observar com atenção o que se está a passar na Europa.

Internamente, a Home Tailors tem criado uma Academia para facultarem essa formação. Como é que se processa essa formação e o que é que a distingue?
Desde o primeiro dia da empresa apostámos sempre na formação, uma formação variada e de qualidade. Há dois anos surgiu a nossa Academia. Aliás, pouco tempo antes da pandemia surgir construímos um espaço com todas as condições e infraestruturas necessárias e quatro meses fomos para casa e tivemos que nos adaptar e em 10 dias a nossa Academia passou toda para o formato online. Nós temos formação interna e trabalhamos com muito outsourcing. este ano foi o ano em que atingimos o maior número de horas de formação – 600 horas – com uma clara aposta na área de vendas e de atendimento ao cliente, mas há depois muita formação na área legal, na imagem, no marketing, nas redes sociais, até no home staging e na área da motivação. É importante também referir que é muito trabalhado também o conceito de luxo e a forma como é vendido o imóvel.

Para quem queira abrir uma loja da Home Tailors como é que se processa e que tipo de apoio é que a marca dá?
No que diz respeito ao franchising, abrimos candidaturas em determinadas zonas e quando existe um processo de candidatura, com um business plan, com um apoio na área financeira, o candidato propõe-nos um ou dois espaços e depois existe todo o acompanhamento desde o plano de negócios até à montagem da unidade e o lançamento dessa unidade. Após a unidade estar em funcionamento, existe um acompanhamento permanente do Master e um estágio em lojas que já se encontram em funcionamento. Todos os funcionários passam por estágio pela nossa loja escola e onde, ao mesmo tempo, é iniciada a formação das equipas comerciais, com uma componente online e, numa fase inicial, também presencial.

Uma vez que trabalham muito com o cliente estrangeiro, a recente alteração do programa Golden Visa tem vos direccionado para outras zonas do País ou para outro tipo de produtos?
Existe mais procura do que oferta. muitas vezes essa é a dificuldade. E por isso é que é importante que exista realmente um estímulo para que os construtores e os promotores se instalem nestas regiões e que desenvolvam essas infraestruturas. Mas mais uma vez quem tem procurado imóveis no âmbito deste programa em regiões diferentes dos centros urbanos é na perspectiva de vir morar para Portugal, o que terá sido também a ideia do programa em si quando foi criado, para gerar riqueza e não apenas como um canal de entrada para a Europa. Acredito que este programa suscita realmente o interesse pelas regiões mais interiores para quem quer residir em Portugal, mas falta informação ainda. É certo que é uma mudança ainda muito recente e como tal não há ainda muita informação. Até porque o investidor estrangeiro não vê grande diferença quando lhe dizem que só pode investir fora dos centros urbanos e que essas áreas ficam apenas a 1h30, porque para o estrangeiro isso não é muito longe, por exemplo, para um brasileiro ou para um americano, o que falta efectivamente são infraestruturas, como os transportes, cuidados de saúde e de apoio que ajudem a fixar as pessoas.

Apesar da importância do mercado estrangeiro para a Home Tailors, o cliente nacional continua a ter um peso considerável. Sentem que o constante aumento do preço médio da habitação tem-se reflectido no vosso negócio?
A verdade é que com o aumento do preço da habitação nova, também o preço dos usados se torna mais competitivo e tende a acompanhar esta tendência. Ainda assim continua a existir uma procura muito superior à oferta e aqui é o mercado a auto regular-se e por isso os preços acabam por se balizar por cima. No caso da construção nova, a escassez de mão de obra qualificada, a falta de materiais ou os prazos de entregas muito prolongados têm sido um problema. Já em 2019, havia situações em que a construção usada atingia valores da construção nova. O comprador acabava por optar pela casa nova, com cinco anos de garantia. Actualmente, o preço aumentou porque a margem que os construtores tinham foi engolida para suprir o aumento dos custos dos materiais.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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Projecto da Vanguard na Comporta avança para nova fase

As vendas da componente residencial e hoteleira do condomínio Dunas deverão arrancar a partir de Julho e as primeiras moradias deverão estar concluídas em 2024. Ainda este ano, o campo de Golfe pode começar a receber os primeiros jogadores

Cidália Lopes

Um dos mais emblemáticos projectos da Vanguard Properties, o Terras da Comporta, está prestes a entrar numa nova fase. Com as infraestruturas do condomínio Dunas concluídas no Verão deste ano, a promotora “estima dar início às vendas em planta da parte residencial e hoteleira a partir do segundo semestre de 2022”. Ao Construir, Duarte Zoio, head of corporate communications da Vanguard Properties, confirmou, ainda, “que até 2024 estão previstas terem dezenas de moradias prontas a habitar”. Os preços esses rondam os 1,7 e os 20 milhões de euros.

Também no Dunas, o campo de golfe com 18 buracos, par 72, desenhado por David McLay-Kidd, “que já está na fase final de growing, estará apto a ser jogado em Setembro deste ano”.

Refira-se que o condomínio Dunas inclui hotelaria e condomínios turísticos, uma componente comercial e cultural bem como um conjunto de serviços, entre os quais uma clínica médica, assim um Clubhouse com capacidade para eventos.

Já o condomínio Torre deverá ter as suas infraestruturas concluídas entre o final do ano e início de 2023. Também neste, inserido num pinhal com 365 hectares, estão previstas moradias, hotelaria e condomínios turísticos bem como campo de golf de 18 buracos par 72. Desenhado por dois campeões do US Open este percurso terá um Clubhouse dimensionado para eventos desportivos, culturais e corporativos.

Quanto à componente hoteleira, a Vanguard Properties “estima ter um ou dois hotéis prontos entre 2024 e 2025”.

Com um investimento global superior a três mil milhões de euros, este é um projecto para desenvolvimento a médio e longo prazo. O projecto de arquitectura dos lotes esteve a cargo da AO – LX e da OODA, tendo o atelier Saraiva + Associados assinado o Clubhouse do Dunas e da Torre, assim como a coordenação geral do restante projecto. O paisagismo do Clubhouse do Dunas coube a PB ARQ e da Torre foi da responsabilidade de Hipólito Bettencourt. A empreitada está a cargo da DST e a fiscalização é da Tecnoplano. A TPF assume os trabalhos de projectista das infraestruturas dos condomínios.

Sustentabilidade

A preocupação ambiental tem sido uma das bandeiras da promotora para este projecto que, desde que concluiu o negócio para a sua aquisição, sempre se quis distanciar de um tipo de construção massiva e abusiva. É nesse sentido, que a aposta ao nível da sustentabilidade, da economia circular e respeito das tradições locais são alguns dos pilares do Terras da Comporta.

Ao nível da qualidade e eficiência das infraestruturas, a Vanguard Properties optou por um método construtivo inovador e menos invasivo, em madeira, NZEB e C02 negativas, integradas numa Comunidade Energética.

Neste sentido, e por forma a permitir “uma autonomia energética de pelo menos 80% através da produção própria a partir de fontes renováveis”, a Vanguard Properties e a Energia Unida, do Grupo Greenvolt, anunciaram, recentemente, uma parceria para desenvolver uma comunidade de produção descentralizada de energia para o Terras da Comporta. Todos os edifícios que serão construídos no projecto estarão ligados à comunidade energética descentralizada, o que significa que serão simultaneamente produtores e consumidores de energia, o que inclui os dois campos de golfe, loteamentos residenciais, hotéis, hotéis-apartamento, aldeamentos turísticos e equipamentos logísticos e comerciais.

De acordo com a promotora, “esta será a maior comunidade energética de Europa” e deverá contar com uma produção estimada de cerca de 7MW através da instalação de 35.000 m² de painéis fotovoltaicos.

O investimento previsto é de até 11 milhões de euros, sendo que até sete milhões de euros serão investidos por parte da Energia Unida e até quatro milhões nas estruturas de car-park, a cargo da Vanguard Properties, sobre os quais serão instalados os painéis.

O conceito de comunidade energética consiste na produção descentralizada de energia e partilha com os membros da comunidade. A título de exemplo, no caso do “Terras da Comporta”, cada casa, cada unidade hoteleira ou espaço comercial terão instalados painéis fotovoltaicos que estarão a produzir energia para consumo próprio ou para partilha com a comunidade, sempre que não haja necessidade de consumo ou em caso de excesso de produção. Desta forma, há uma optimização da produção e do consumo com benefícios muito significativos para os consumidores que podem atingir uma redução do custo de energia de cerca de 40%. Por outro lado, tratando-se de produção de energia a partir de fontes renováveis vai contribuir para o grande objectivo de sustentabilidade do projeto, que passa por garantir que todos os edifícios construídos sejam neutros em emissões de carbono (Net Zero Carbon Buildings).

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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Arquitectura

Open House 2022: “O interior dos edifícios é, muito mais do que o exterior, um campo de exploração arquitectónica”

Apartamentos, edifícios, palácios, palacetes, escritórios, hotéis, restaurantes, num total de 70, entre Lisboa e Almada, são algumas das muitas possibilidades que podem ser visitadas na Open House de 2022. A partir da pergunta: Se retirássemos as fachadas, que cidade ficaria à vista?, a “A Rebeldia do Invisível”, procura explorar o que está no interior, o que não se vê

Cidália Lopes

A dupla de arquitectos do atelier Aurora são os curadores convidados da 11ª Open House. Ao Construir, Sérgio Antunes revela-nos de que forma esta edição nos pode mostrar o que está além das fachadas dos edifícios, “a dissociação entre o interior e o exterior, a identidade invisível das cidades e que só está acessível a alguns e que esconde, na sua maioria das vezes, novas formas de habitar a cidade”.

Como é que surgiu o convite para serem os curadores da edição de 2022 da Open House?

O convite foi feito pela Trienal e normalmente a escolha recai em gabinetes de arquitectos com um plano mais teórico. Mas, pela segunda vez, (julgo que com as irmãs Almada Negreiros foi a primeira) voltaram a apostar em alguém que vem da prática e como nós temos tido alguma atenção na nossa prática profissional no que diz respeito às questões relacionadas com o património, à identidade da cidade e as cidades de uma forma geral, talvez isso tenha pesado na decisão da Trienal. Mas confesso que nunca explorei muito porque é que isso aconteceu, mas imagino que tenha sido algo deste género.

Mais uma vez o público é convidado a conhecer a arquitectura, mas também as ruas e a sua envolvência. Qual o tema que definiram para esta edição?

O texto que nós produzimos como sinopse acho que é revelador do próprio tema, “A Rebeldia do Invisível”, no sentido daquilo que está no interior, do que não se vê. Em todo em caso e, explicando um pouco a ideia, é que há de facto nas cidades todas, e em Lisboa também, características que são próprias da cidade, que fazem com que, quando vemos uma fotografia desta cidade, nós a reconheçamos pelas características dos edifícios, dos materiais e da luz. Portanto, a nós interessava-nos explorar esta ideia de que existe uma arquitectura que é mais ou menos anónima, que é mais ou menos não excepcional, portanto contínua, quase se quisermos, igualitária e que, depois, a pouco e pouco, por dentro, no interior destes edifícios, tem-se alterado. O interior dos edifícios é, muito mais do que o exterior, um campo de exploração arquitectónica. Há uma maior liberdade no interior porque é menos controlado e por isso mesmo o interior tem sido fonte de exploração arquitectónica muito mais do que o exterior. E a nós interessa-nos esta dissociação entre interior e exterior e pouco e pouco os edifícios são cada vez mais diferentes por dentro do que são por fora e interessa-nos explorar, nessas visitas que fazemos, estes edifícios.

É também por isso que lançam, na própria sinopse da página oficial da Open House 2022, a questão “Se retirássemos as fachadas, que Lisboa ficaria à vista?”

Exacto. Provavelmente os nossos interiores já não correspondem, nem sociologicamente, nem arquitectonicamente, à imagem que temos do exterior. É frequente, hoje em dia, existirem casas em prédios de rendimento com uma única fracção por piso, onde cada pessoa tinha o seu apartamento. Sociologicamente há mudanças que depois do exterior são invisíveis. E, portanto, a pergunta que queremos fazer é: Que identidade de Lisboa é essa agora que está por trás das fachadas?

No fundo a identidade dessa Lisboa tem muito a ver com todas as mudanças sociologias e turísticas que a cidade tem vindo a sofrer?

Claro, e também com um esvaziamento dos bairros tradicionais, porque as pessoas formam família e muitas vezes não tem capacidade económica para se manterem nos bairros e isso a pouco e pouco esvazia as cidades das suas soluções tradicionais. E depois, os novos habitantes, quem vem, transforma o interior das habitações muitas vezes, mas não é autorizado a fazê-lo no exterior, porque não pode fazê-lo e, portanto, o exterior não é um espelho desses novos habitantes. Há uma dissociação entre o interior e o exterior.

Não se consegue olhar para o exterior e perceber o que está no interior….

Exacto, há uma dissociação entre estes dois aspectos. Por outro lado, percebemos também que esta dissociação acontece não só em edifícios mais contemporâneos, fruto dessas mudanças sociológicas, também em edifícios mais antigos, por exemplo. Alguns dos edifícios escolhidos para a Open House reforçam exactamente esta ideia. Edifícios, que nos séculos XVII ou XVIII, estavam integrados na cidade, em que não havia nada de reconhecível no exterior e que eram iguais aos edifícios que estavam ao lado e que depois por dentro eram palacetes e edifícios extraordinários e, portanto, construídos assim de raiz. Não foi só a transformação ao longo do tempo que fez essa dissociação entre o exterior e o interior, mas é que verificamos que há edifícios que sempre o foram.

Haveria nessas situações então alguma intenção?

Havia claramente. Um dos edifícios que faz parte da Open House este ano é o do Manteigueiro, que é um palacete no Chiado, onde hoje funciona o Ministério da Economia, que do exterior não difere em nada de um prédio de rendimento, mas depois quando se entra é que se nota a diferença logo a começar pela escadaria fantástica. Em si mesmo já construído para ser continuo e discreto, mas depois quem entra tem essa explosão e é interessante termos essa perspectiva também.

Pelo segundo ano, a Open House atravessa o Tejo e divide os seus percursos com a cidade de Almada. Que semelhanças e diferenças podemos esperar em relação à edição do ano passado?

Não há propriamente diferenças entre Lisboa e Almada no que diz respeito a este lado conceptual, essa diferença entre o interior e o exterior, aliás as tipologias construtivas repetem-se de um lado e doutro. Portanto, se víssemos uma fotografia de Almada iriamos confundi-la com uma Lisboa neste sentido conceptual e, em muitas coisas, é uma cidade só. Como é evidente há menos disponibilidade de edifícios em Almada do em que em Lisboa, por ser uma cidade com muito maior diversidade, ainda assim, nós repetimos alguns edifícios que já tinham estado na edição anterior e acrescentamos outros que são muito particulares, alguns palacetes e algumas quintas que vão ser possíveis ver este ano.

Além do Tejo, que une ambas as cidades, qual o fio condutor que une as edições?

Prende-se com aquilo que dizia: com o facto de procuramos uma Lisboa e uma Almada onde não existem grandes diferenças, onde as tipologias habitacionais são basicamente as mesmas e que, à semelhança de Lisboa, também sofreu com a saída da população do centro e uma alteração dos usos dos edifícios.

Tal como qualquer centro histórico, Almada acaba por ter que manter as suas fachadas e isso acaba até por ser transversal a todas as cidades de certa forma…

O que eventualmente existirá em Lisboa de forma mais acentuada e de forma muito particular é de facto esta obrigação de continuidade, que tem sido sempre defendida pelas políticas publicas, de preservação das fachadas e com isso uma certa preservação da imagem da cidade e isso tem sido de facto muito de forte em Lisboa e essa diferença entre o interior e o exterior é mais marcante por causa disso. Ou seja, Lisboa acaba por transmitir uma imagem que de facto já não existe…

Em termos programáticos, é possível avançar qual o roteiro ou os percursos previstos para este ano?

São por volta de 70 edifícios ou fracções de edifícios, no conjunto entre Lisboa e Almada. À semelhança dos anos anteriores existem edifícios que são de visita livre e outros que necessitam de marcação para poderem ser visitados. Vamos manter o percurso sonoro e para este ano foram convidados quatro especialistas, que não pertencem necessariamente ao mundo da arquitectura, que vão fazer roteiros e visitas guiadas na rua, são também artistas plásticos, jornalistas. Não é só uma Lisboa de arquitectos.

No fundo, a programação será muito idêntica ao modelo pré-pandemia, altura em que excepcionalmente o programa teve que ser muito mais fechado e circunscrito.

Sofia Couto e Sérgio Antunes, Aurora Arquitectos
@Elia Diez

BIO

Fundado em 2010 por Sofia Couto e Sérgio Antunes, o atelier Aurora Arquitectos foi a consequência natural de um trabalho desenvolvido em conjunto nos anos anteriores. O percurso começou durante o período académico, tendo-se fortalecido com a experiência profissional com o colectivo Kaputt!

Actualmente com uma equipa ampliada a outros elementos, o atelier tem como objecto de trabalho projectos das mais variadas escalas, de pequenas casas a edifícios de habitação, bem como equipamentos culturais. Recentemente, a área mais desenvolvida é a reabilitação urbana, que representa um foco de especialização e investigação para o atelier.

Na sua abordagem é particularmente importante a reacção ao local que se encontra, daquilo que faz parte da existência desse espaço e de outros elementos da construção (por vezes, com centenas de anos). O desafio é, por isso, interpretar, esmiuçar, copiar, distorcer e até ironizar essas matérias-primas, para que sejam devolvidas ao local de uma forma nova e inesperada.

Cada caso é acompanhado de uma forma atenta e personalizada, procurando-se assim uma solução distinta, que torna cada projecto uma experiência singular. Perante os condicionalismos encontrados (legais, orçamentais, programáticos ou de constrangimentos de obra), os esforços vão no sentido de vencer os momentos chave do projecto, momentos esses que culminam no espaço construído, dando sentido a tudo o resto.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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CML cria comissão para simplificar e acelerar licenciamento urbanístico

A criação da Comissão de Concertação Municipal do Urbanismo é a primeira medida concreta do novo executivo para travar o problema do licenciamento na autarquia

A Câmara Municipal de Lisboa criou a Comissão de Concertação Municipal do Urbanismo, para dar resposta ao volume de processos de licenciamento que carecem de pareceres internos dos vários Serviços Municipais. O objectivo é simplificar e desburocratizar os procedimentos internos e assegurar uma resposta concertada e mais célere, através da maior articulação dos serviços na obtenção de uma decisão final, “com ganhos para os requerentes em termos de melhoria dos prazos de resposta da autarquia, assim como de maior qualidade e objectividade da apreciação”.
“O principal objectivo é simplificar e desburocratizar os procedimentos internos e assegurar uma resposta concertada e mais célere aos requerentes. Para isso, esta Comissão vai sentar à mesma mesa os vários Serviços que têm de se pronunciar sobre os processos urbanísticos e garantir a comunicação de uma forma célere e eficaz inter-serviços, com impacto na redução dos prazos de apreciação”, assegura Joana Almeida, Vereadora do Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa.
Assim, irá ser da competência desta comissão a “ponderação e compatibilização da análise técnica das propostas de pareceres internos, garantindo a coerência, clareza e objectividade necessárias às propostas de decisão.”
Consoante o tipo de processo, e as suas especificidades, são convocados para reunião de concertação representantes de diferentes unidades orgânicas do município, desde a área do ambiente à gestão patrimonial, ao ambiente e/ou desporto, entre outros. A primeira reunião está agendada para 6 de Maio.
A criação desta equipa interdepartamental é o primeiro passo para resolver o problema do licenciamento na câmara municipal de Lisboa. Mas a estratégia para acabar com o atraso e os problemas nos processos de licenciamento incluem ainda a digitalização dos processos e, por fim, a criação da figura do ‘gestor do processo’.

Pela transparência e o fim da corrupção
Também em marcha está já em curso a segunda fase do “urbanismo digital”, um trabalho interno e “profundo” no seio da autarquia, que irá resultar na desmaterialização dos processos, permitindo que os seus requerentes possam, a qualquer momento, consultar em que fase está o seu processo e quais os entraves que estão a bloquear que o processo decorra no tempo contratado.
O presidente da autarquia falou recentemente sobre este processo perante uma plateia de especialista e reconheceu que é preciso imprimir uma maior transparência no processo.
A digitalização dos procedimentos irá concorrer para uma maior accountability e transparência do processo. Com o presidente a assumir que esta “é uma marca que queremos deixar”. Para isso a actual vereadora do Urbanismos conta com todo o apoio de Carlos Moedas e “passou a deter também o pelouro do combate à corrupção. A melhoria digital é um passo gigantesco e é preciso tempo. É algo que não se resolve em dois dias, sendo necessário implementar estruturalmente na camara municipal todos os novos procedimentos. A transparência digital é a capacidade de ter as nossas próprias feridas expostas e isso significa que os nossos erros passam a estar visíveis e que nos podem criticar. Significa assumirmos as culpas e resolvermos. É duro ter a ferida exposta, mas é a única luta que conheço para trazer a transparência”, sublinhou Carlos Moedas.
Neste que é o primeiro ano de mandato o foco recai em dois grandes eixos: na melhoria da fase de instrução dos processos e, segundo, na maior clarificação das normas do PDM que mais entraves colocam nos processos gerando indeferimentos. Nesse sentido, as medidas a implementar compreendem a melhoria da informação disponível no site da Câmara, criação de uma “academia de urbanismo” que irá, entre outras tarefas, organizar sessões de esclarecimento para instrução e submissão de processos, e o lançamento de um guia de boas práticas.

2000 fogos para recuperar “Já!”
Outro dos eixos de actuação da política de Habitação está relacionado com a criação do que Carlos Moedas chamou de “malha social equilibrada”. E este será o princípio base da política de Habitação da autarquia ao nível, por exemplo da habitação acessível, um problema para o qual “não há uma solução, há várias e é da responsabilidade de todos, públicos e privados”, reiterou Carlos Moedas. De acordo com o presidente do município nestes primeiros meses a sua equipa identificou cerca de dois mil fogos, não atribuídos ou em estado devoluto em Lisboa. “Temos que os reabilitar e resolver o problema imediatamente e temos que continuar a fazer novos e a construir novos. E só conseguirmos se olharmos para o problema desta maneira: juntos. Seja em cooperativa, seja em parcerias público privadas, seja com investimento privado”, sublinhou o responsável.

Sobre o autorManuela Sousa Guerreiro

Manuela Sousa Guerreiro

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Cooperativas ou como a arquitectura pode ser uma ferramenta “para intervir de maneira crítica em ambientes locais”

Serão as cooperativas de habitação uma solução para a escassez da habitação em Portugal? A pergunta foi o ponto de partida para mais uma conferência realizada no âmbito do ciclo Campo Comum, da Trienal de Arquitectura de Lisboa

Cidália Lopes

Através de exemplos de peso que nos chegam da Catalunha e de Zurique, fomos saber de forma é que o modelo cooperativas de habitação, seja através de um sistema multiforme ou directo, pode dar resposta às problemáticas económicas, urbanísticas, sociais e políticas que têm vindo a deteriorar as condições habitacionais das populações residentes em contexto urbano, nomeadamente nos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto onde a especulação imobiliária exerce uma pressão tão grande que não permite que outros sistemas de habitação possam desenvolver-se.

A pergunta “Serão as cooperativas de habitação uma solução para a escassez da habitação em Portugal?” foi o ponto de partida para mais uma conferência realizada no âmbito do ciclo Campo Comum, da Trienal de Arquitectura de Lisboa, com curadoria de Diana Menino e Felipe de Ferrari e que teve lugar no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém.

O desenvolvimento destes modelos de habitação extrapola, também, em muito o conceito de arquitectura. Há aqui uma intervenção social e económica, até porque o trabalho destes projectos não se esgota na sua conclusão fisica, mas continua diariamente atráves da comunidade que nela reside.

“Usar a arquitectura como ferramenta para para intervir de maneira crítica em ambientes locais” é desta forma que Cristina Gamboa vê o seu é o trabalho, cujo resultado será sempre a “transformação social”. Mas não só. O trabalho com a comunidade, no sentido de alcançar “uma transição para a sustentabilidade da maneira mais ampla possível: política, social, económica e ambiental”.

A problemática com a habitação e a especulação imobiliária é também, desde há vários anos, a principal preocupação de Andreas Hofer, promotor de projectos cooperativos como o Kraftwerk1, que reúne já 700 moradores e 232 apartamentos. e o mehr als wohnen (mais do que habitar), ambos em Zurique.

Cooperativas é a segunda conferência do terceiro e último ano do ciclo Campo Comum (2020-2022), que arrancou no passado mês de Março com uma primeira sessão sobre Espaço Colectivo e com a presença em Portugal de Markus Bader, do atelier Raumlaborberlin, Leão de Ouro da 17.ª Bienal de Arquitectura de Veneza, e de Alain Trévelo, co-fundador do atelier parisiense TVK. Campo Comum convoca figuras internacionais em sessões duplas, para olhar para a arquitectura como imperativo de mudança. O ciclo encerra com a conferência Coexistência, a 25 de Maio.

BIO

Cristina Gamboa é arquitecta e professora. Estudou na ETSAB e na Universidade de Estugarda. É co-fundadora da Lacol, uma cooperativa de 14 arquitectos, estabelecida em 2014 em Barcelona, que se foca na investigação de abordagens participativas para o design e no desenvolvimento de habitações cooperativas e políticas habitacionais, testadas em projectos em curso. Actualmente lecciona na AA (MPhil em Arquitectura e Design Urbano – Cidades Projectivas) e na ETSAB. O trabalho colectivo da cooperativa tem sido reconhecido e exibido local e internacionalmente, incluindo o Prémio de Arquitectura da Cidade de Barcelona em 2018, o Prémio do Grupo Zumtobel atribuído à cooperativa ‘La Borda’ em 2021, o Prémio Moira Gemmil em 2021 (prémio feminino atribuído pela The Architectural Review), estando ainda indicada para o Prémio EUMies de 2022.

Andreas Hofer estudou Arquitectura no Instituto Suíço para a Tecnologia em Zurique. Em 2018, foi eleito director da Exposição Internacional de Construção em Estugarda (IBA 27). Em Zurique, foi sócio do atelier de planeamento e arquitectura Archipel. Trabalhou principalmente como consultor e promotor de projectos de habitação cooperativos inovadores como o Kraftwerk1 e o mehr als wohnen (mais do que habitar), escreve regularmente sobre desenvolvimento urbano e problemas de habitação, é membro em júris de competições de arquitectura e lecciona em várias universidades.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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AGEAS Portugal: Mais do que escritório, uma comunidade de trabalho

Com a sua fachada em diferentes volumes e que permite um constante jogo de sombras, ao qual dificilmente se consegue ficar indiferente, fruto do desenho de Capinha Lopes, o edifício AGEAS marca a paisagem urbana do Parque das Nações

Cidália Lopes

O novo edifício-sede do Grupo AGEAS Portugal, no Parque das Nações, já se encontra a funcionar. A nova sede não será apenas um escritório ou um espaço físico de trabalho, mas sim uma comunidade de trabalho, um espaço onde se pode estar, alimentar novas ideias e construir o futuro da empresa. O edifício distingue-se, também, pela inovação tecnológica, preocupação ambiental, eficiência e flexibilidade privilegiando a qualidade de acabamentos, conforto e bem-estar dos colaboradores para quem a seguradora pretende criar condições de trabalho alicerçadas na partilha e comunidade.

Com um total de 17.400 m2 e distribuído por 12 pisos, com um rooftop com vista para o rio Tejo, uma horta solidária, uma brand room, uma área de espólio de material histórico da Axa e do Grupo AGEAS Portugal e ainda um posto de abastecimento para carros eléctricos.
De referir, que os pisos 3 e 4 não serão ocupados pelos serviços da AGEAS, através do arrendamento a outras empresas, não sendo conhecidas quais até ao momento.

Com projecto de arquitectura de Eduardo Capinha Lopes, o edifício permite “um jogo constante de sombras”. No interior, o fit-out dos escritórios coube à Broadway Malyan, que preparou o edifício de acordo com as novas premissas do trabalho híbrido.

Visão de cidade e de futuro
Partindo da premissa dos promotores para que o edifício AGEAS fosse um “objecto marcante, elegante, sustentável e ambicioso” e que transmitisse uma visão muito própria de cidade e de futuro. “Fruto de opções pessoais, julgo, quiçá erradamente, ter conseguido, parcialmente, o objectivo”, afirma Capinha Lopes, o que de certa forma terá resultado num volume “egoísta”, pelas opções de desenho tomadas.

Não obstante, a sua localização “excepcional” possibilita a sua integração, “assumindo toda essa responsabilidade”, bem como “uma descoberta constante, através de múltiplos e ocasionais olhares”. Por outro lado, “a sua fachada, através dos seus volumes, permite um jogo constante de sombras, em constante mutação”.

Se o trabalho conceptual do edifício foi desenvolvido muito antes de sequer ouvirmos falar em Covid-19, já o mesmo não se pode dizer da sua construção, cuja parte considerável decorreu nos períodos mais complicados da pandemia. Ainda assim, todo o edifício foi concebido segundo o princípio de que os funcionários devem poder trabalhar em qualquer lugar e de que nenhum espaço tem uma única função e poucos são os que devem ser fixos e rígidos.

Para Capinha Lopes, houve aqui necessidade de “cumprir um programa”, ainda que pessoalmente, esta não seja, ainda, uma realidade que se reflicta nos seus projectos e que “demorará algum tempo a “assimilar” e a correctamente concluir sobre a total abrangência dessas novas necessidades, por exemplos, espaciais ou mecânicas”.

Espaços de trabalho colaborativos
Embora ainda profundamente enraizado na prática, o local de trabalho também se está a tornar um lugar que responde não apenas às necessidades dos seus utilizadores, mas também aos seus valores e aspirações. Ocupando vários edifícios em Lisboa, a seguradora belga Ageas consolidou as suas operações num novo edifício sede e contratou a Broadway Malyan para criar um espaço que respondesse às tendências de trabalho actuais e futuras, ao mesmo tempo que reflectisse a forte cultura e propósito da empresa. Este foi um conceito que a AGEAS já havia antecipado antes do surgimento do Covid-19 e que já vinha a implementar internamente desde 2018 para que quando o edifício estivesse concluído fosse possível incorporar na filosofia da empresa este conceito de trabalho híbrido.

Subjacente à abordagem de design para o novo edifício da sede da Ageas está o princípio de que os funcionários devem poder trabalhar em qualquer lugar. Nenhum espaço tem uma única função e poucos são os espaços que devem ser fixos e rígidos. Pelo contrário. A fluidez das práticas e expectativas de trabalho em evolução é totalmente incorporada nos layouts e na atmosfera.
O lobby principal evoluiu além do tradicional espaço de boas-vindas para colegas e visitantes para se tornar algo mais experiencial, desafiando sua função preconcebida e proporcionando aos utilizadores uma gama de experiências.
O design contemporâneo, luminárias e móveis como poltronas, mesas baixas e sofás transmitem uma atmosfera diferente e onde é possível ficar e trabalhar com uma informalidade mais próxima de um hotel. Essa informalidade e o reconhecimento de que momentos importantes de trabalho podem acontecer em qualquer lugar de um espaço de trabalho significam que questões como a acústica e manter um ambiente confortável são essenciais e essa foi uma abordagem manifestada em todo o projecto.

A outra área comum principal é um restaurante com cafetaria e zona de buffet no 2º piso que liga a uma esplanada exterior de 470m2. O restaurante tem uma variedade de áreas de estar diferentes, desde mesas quadradas e redondas tradicionais até mesas altas, áreas de sofá e uma grande mesa comum que funciona como um ponto central do espaço.

Essas áreas são demarcadas por diferentes elementos de tecto e luminárias, criando uma gama de experiências para os usuários. Essa importante sensação de familiaridade e a autenticidade acentua-se neste espaço e em todo o edifício pela sua materialidade natural e orgulhosamente portuguesa. Isso inclui azulejos tradicionais portugueses, cortiça e burel, o tecido tradicional português usado pelos pastores para suas capas.

Na maioria das áreas do edifício existe uma solução moderna de tecto aberto com M&E exposta que é visualmente estimulante e facilita o acesso para manutenção. Os tectos são tratados acusticamente juntamente com materiais absorventes de som, como carpetes e acabamentos de parede para criar espaços que melhoram a experiência de trabalho.
Em todo o edifício há uma variedade de diferentes áreas privadas e semi-privadas, cada uma adaptável às necessidades de mudança do espaço, cada espaço de trabalho uma peça que pode ser movida para atender às circunstâncias.
O design das áreas de trabalho mais focadas inclui uma gama de soluções, incluindo bancos tradicionais com assentos de tarefas, mesas altas, salas de reuniões e áreas de lounge para trabalho informal e reuniões. Também não há escritórios fechados no andar executivo com uma uniformidade de abordagem em todo o edifício, ampliando o espírito de colaboração.

Sobre o autorCidália Lopes

Cidália Lopes

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Directores de obra e encarregados com forte procura e escassez de oferta

Um estudo elaborado pela consultora Michael Page permite constatar que o sector que tem sido profundamente afectado pela falta de mão de obra essencialmente técnica em funções mais operacionais, depara-se actualmente com a escassez de talento que se torna cada vez mais transversal às várias áreas

CONSTRUIR

A Michael Page, especialista em recrutamento especializado, acaba de publicar os resultados da análise “Como Atrair Talento no Sector de Engineering & Manufacturing”, segundo a qual o recrutamento das empresas no sector da construção e engenharia “está em alta”.

Falta de talento com tendência a aumentar
Segundo a consultora, a falta de talento no sector da construção, que se tem vindo a verificar nos últimos anos, tem tendência a aumentar e a generalizar-se a todas as áreas de engenharia directamente ligadas ao sector da Construção, nomeadamente, Engenharia Civil, Engenharia Mecânica e Engenharia Electrotécnica. De acordo com o estudo, onde são abordadas as competências mais valorizadas, as soft skills relevantes e as estratégias mais adequadas para atrair talento num mercado com poucos profissionais especializados disponíveis, o sector que tem sido profundamente afectado pela falta de mão de obra essencialmente técnica em funções mais operacionais, depara-se actualmente com a escassez de talento que se torna cada vez mais transversal às várias áreas. A procura por profissionais qualificados para a área da Construção tem-se sentido, sobretudo, nas zonas urbanas de Lisboa e Porto.

As profissões mais procuradas, no segmento onde a Michael Page actua, são os directores de obra, encarregados gerais, preparadores e engenheiros orçamentistas para a construção. A intenção de contratação faz-se sentir também no sector imobiliário, sendo o perfil mais procurado o de project manager.

Guerra também dificulta
Apesar do dinamismo no recrutamento que se faz sentir, factores como a guerra na Ucrânia, o elevado aumento dos preços dos materiais e a crescente falta de mão de obra qualificada, poderão ter impacto significativo no sector. Para António Costa, senior associate manager da Michael Page , “os sectores da construção e imobiliário vivem nesta fase ainda momentos de alegria e saúde, contudo começam a surgir indicadores, principalmente devido à guerra na Ucrânia que impactam directamente estes negócios e que podem alterar completamente o panorama.

Os preços das matérias-primas continuam a aumentar significativamente, sendo praticamente impossível cumprir obras em construção com os valores previamente orçamentados. Por sua vez fica difícil para os promotores imobiliários assumirem directamente estes custos, sob pena do produto final ficar com valores insuportáveis para o mercado”. Também a Engenharia é uma área de forte procura por talento pelo mercado. De forma idêntica, a área de Engenharia Civil, em grande escala absorvida pelo sector de Property & Construction, tem-se mostrado resiliente, registando e mantendo níveis de actividade de recrutamento muito activos.

Perfis ‘em alta’
A procura de engenheiros com diferentes backgrounds académicos, como mecânica, química, gestão industrial, eletrotécnica, tem-se verificado sobretudo na indústria. Os perfis de Electrotecnia e áreas afectas à Energia são cada vez mais valorizados e procurados, dada a sua relevância, nomeadamente na conversão e transição energética, e no papel das energias renováveis em termos de investimento e recuperação económica para Portugal. “Num sector em que o talento é limitado, as empresas procuram profissionais com competências que acompanhem os processos operacionais tecnológicos em curso e que possam contribuir para a transformação e aumento dos resultados financeiros. Assim, são valorizados conhecimentos de metodologias lean, como Six Sigma Black Belt, desenvolvimento de novos produtos, realização de processos e gestão de múltiplos projectos, aliados a abordagens focadas no cliente, com elevado sentido de responsabilidade e atenção ao detalhe, que se destacam, entre as qualificações mais procuradas”, revelam os responsáveis da Michael Page. Ao nível das soft skills, as empresas valorizam a capacidade de comunicação (essencial para explicar informações técnicas), liderança, pensamento criativo, capacidade de influência e resolução de problemas, essenciais tanto no sector da Construção como de Engenharia. No entender de Joana Reis, senior consultant da Michael Page, “a área técnico-comercial, revela um aumento de procura por perfis cada vez especializados em produtos específicos.

O mercado valoriza o facto de os candidatos conseguirem aportar valor comercial e de negociação, mas também apoio técnico e consultivo aos clientes que gerem. Este aumento de procura de perfis cada vez mais técnicos e especializados, aliado ao mercado de trabalho com níveis relativamente baixos de desemprego, contribui para a escassez de candidatos”. O desafio de atrair profissionais que se faz sentir no mercado de trabalho no sector da construção e engenharia e o aumento da concorrência pelo talento, tem contribuído para importantes aumentos na remuneração salarial. Como indicação, na indústria, um director- geral pode auferir o salário máximo de 170 mil euros, se trabalhar em Lisboa, e a mesma função, na mesma zona geográfica, na área da Construção, até 110 mil euros brutos anuais.

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Longa vida ao ‘novo’ Castelo de Leiria [c/ galeria de imagens]

Tal como quando Isabel de Aragão saiu do Castelo de Leiria para entregar pães aos mais desfavorecidos, a autarquia propôs, séculos mais tarde, nova ‘oferenda’ à população, promovendo um conjunto profundo de intervenções naquele património. A equipa liderada por Nuno Santos Pinheiro e Vasco Santos Pinheiro conferiram ao ‘novo’ Castelo uma valorização arquitectónica, arqueológica e paisagística que permitem um alargado uso deste equipamento ao serviço do turismo e da cultura

Ricardo Batista

É inquestionável que se trata de um dos símbolos máximos da cidade e o cuidado na sua preservação não deixa grandes dúvidas sobre a delicadeza e a pertinência da intervenção. A realidade é que aproximadamente dois anos após o inicio dos trabalhos, o Castelo de Leiria
voltou a abrir as suas portas aos visitantes e à cidade que, em 1300, viu D. Dinis doar a Isabel, Rainha Santa, este importante património.

A coordenação dos trabalhos esteve a cargo dos arquitectos Nuno Santos Pinheiro e Vasco Santos Pinheiro que, em mãos, tiveram o arranjo dos espaços exteriores do recinto do Castelo, a recuperação da Casa do Guarda, a recuperação das Cisternas Medievais, assim como a
recuperação e a cobertura da Igreja da Nossa Senhora da Pena. Da equipa fazem igualmente parte o arquitecto paisagista João Junqueira e as empresas PMP Consultores e CORE Projects nas áreas de engenharia.

Actualização histórica
Apontado como um dos ilustres exemplares da arquitectura militar medieval da região e do país, tendo desempenhado um papel de relevo, a par de outros castelos vizinhos, na defesa de Coimbra e ofensivas afonsinas de conquista de territórios mouros a sul da linha do Mondego, o Castelo de Leiria chegou a receber, em 2019, perto de 100 mil visitantes. A pandemia acabaria por baixar consideravelmente os números e tornou evidente a importância de ‘actualizar’ este importante património, adaptando-o a usos mais actuais de forma a promover a captação de público, a valorização do património arquitectónico, arqueológico e paisagístico, adaptando a situação actual a uma utilização mais fácil e mais informada do visitante, promovendo a descoberta e a sua permanência no castelo.

Protecção cuidada do património
Nos dados revelados à Traço pela Santos Pinheiro Arquitectos Associados, pode perceber-se que a premissa da actuação das equipas envolvidas assenta sobre a importância da protecção, conservação, recuperação e revitalização dos valores arqueológicos, históricos, arquitectónicos, estéticos e urbanísticos do Castelo de Leiria. Na descrição dos trabalhos, a equipa liderada por Nuno Pinheiro e Vasco Santos Pinheiro assegura que “foram respeitados os princípios vigentes em conservação do património, nomeadamente a utilização de materiais reversíveis e compatíveis, e o recurso a técnicas diferenciadas para a identificação da intervenção”. “Para
além de criar um ambiente que transporta o visitante e utilizador para a beleza de um castelo de origem medieval, procurou-se dar resposta às comodidades exigidas na actualidade, oferecendo não apenas conforto e qualidade, mas tornando o castelo mais acessível e
inclusivo, para fruição de todos”.

Igreja da Pena coberta
Uma das intervenções mais relevantes deste conjunto de trabalhos passou pela recuperação, restauro e construção de uma cobertura para o edifício da igreja de Nossa Senhora da Pena, “possibilitando dotar o espaço de novas funcionalidades de carácter cultural”. De acordo com a descrição dos trabalhos, a intervenção partiu desde logo de um edificado com sinais evidentes
de degradação, “causado não apenas pela acção do tempo, como pela do próprio Homem”. “Intervir nesta estrutura patrimonial, face ao seu actual estado de conservação constituiu uma obrigação natural e necessária face ao imperativo de garantir a travagem do processo de
degradação”, pode ler-se na descrição da intervenção, onde a equipa de arquitectos acrescenta que foi pretensão do município, enquanto promotor da obra, dotar o edifício de novas condições, proporcionadas por uma nova cobertura, que permitissem assegurar a utilização
continuada do espaço, ao longo do ano, contrariando a sazonalidade a que, até então, se encontrava sujeito, conseguindo, também com isso, diversificar a sua utilização e vocacionar o espaço para actividades diversas de carácter cultural, devidamente adequadas à dignidade e história do monumento. Em rigor, é a primeira vez que, exceptuando os registos históricos, a Igreja da Pena é vista com a cobertura completa, numa estrutura que tem a particularidade de privilegiar, entre outras funcionalidades, a entrada de luz natural pela acção de clarabóias.

Casa do Guarda e arranjos exteriores
Além da intervenção na Igreja da Pena, deste conjunto de trabalhos coordenado pelos arquitectos Nuno e Vasco Santos Pinheiro faz igualmente parte a recuperação da Casa do Guarda. Na descrição da proposta, os arquitectos da Santos Pinheiro Arquitectos Associados
explicam que a intervenção, além da recuperação geral do edifício, teve como principal finalidade dotar o espaço do castelo de uma estrutura para o acolhimento dos visitantes centralizando uma recepção, um posto de atendimento e bilheteira, instalações sanitárias
públicas, loja, apoio administrativo e uma cafetaria e zona de estar. “A proposta desenvolvida considerou a reabilitação do edifício existente e a sua ampliação sobre um pátio existente onde, inicialmente teria existido outro edifício”, pode ler-se na descrição dos trabalhos. Neste conjunto de contractos estabelecido com o município consta ainda o projecto de recuperação das Cisternas Medievais que teve como finalidade a “conservação e consolidação da estrutura existente e a possibilidade de tornar o seu espaço acessível sem uma utilização específica. No âmbito da intervenção no Castelo, este espaço reabilitado passou a considerar-se como lugar
simbólico e espaço interpretativo”. Relevante foi também a intervenção ao nível dos espaços exteriores do recinto do Castelo, uma intervenção que visou, sobretudo, a valorização do património arquitectónico, arqueológico e paisagístico, adaptando a situação actual a uma utilização mais fácil e mais informada do visitante, promovendo a descoberta e a sua permanência no castelo. “A metodologia de intervenção pautou-se pela salvaguarda das estruturas existentes com valor patrimonial e cultural e pela introdução de novos elementos
que contribuíssem para a sua valorização permitindo a utilização plena dos espaços”, asseguram os arquitectos, para quem “a introdução de novos elementos, ao nível dos pavimentos, protecções, mobiliário, sinalética, iluminação, entre outros, foi feita com materiais
idênticos aos existentes ou que permitissem uma integração adequada, sem nunca se imporem”. Os responsáveis pelos diversos projectos acreditam que há um efeito ‘matriz’ nesta intervenção, desde logo porque pode ser encarada como “um modelo de intervenção em
estruturas patrimoniais semelhantes, na medida em que, por um lado foram respeitados os valores artísticos, históricos e culturais do monumento seguindo metodologias de intervenção apropriadas e validadas pela comunidade científica e de acordo com os princípios
estabelecidos pelas Cartas Patrimoniais e convenções internacionais”. “Por outro, com a conclusão da obra, verificou-se que a intervenção atingiu os principais objectivos estabelecidos, tendo contribuído positivamente para o desenvolvimento da Cidade e do
Concelho, demonstrando dessa forma a sua relevância sócio-económica para a cidade e população em geral”, asseguram, acrescentando que “a intervenção permitiu comprovar a possibilidade de intervir num monumento nacional recorrendo a tecnologias e materiais
contemporâneos preservando a autenticidade e identidade do lugar”

Sobre o autorRicardo Batista

Ricardo Batista

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BEI apoia investimentos na recuperação da Ucrânia

O Banco Europeu de Investimento vai destinar 668 milhões de euros a favor da Ucrânia e será aplicado em projectos de infra-estruturas, abrangendo investimentos no domínio dos transportes, da energia, do desenvolvimento urbano e das tecnologias digitais. Espanha e Bélgica vão também receber verbas comunitárias

Ricardo Batista

O Banco Europeu de Investimento vai dedicar 668 milhões de euros a um conjunto de investimentos fundamentais na Ucrânia, verbas que se juntam a outros investimentos previstos no contexto europeu e que serão aplicadas na área das renováveis, saúde, água, bem como ao desenvolvimento rural e urbano. No total, o montante anunciado ascende a 791 milhões de euros.

A decisão do conselho de administração daquele organismo, explicada pelo presidente Werner Hoyer, surge como uma resposta do BEI, por via dos fundos de resposta solidária, à “guerra ilegal e implacável que a Rússia está a desenvolver na Ucrânia, com atrocidades levadas a cabo contra civis inocentes”. “Não podemos deixar-nos paralisar pelo horror, mas temos de continuar a trabalhar incansavelmente para dar mais apoio à Ucrânia e aos seus países vizinhos, acolhendo milhões de refugiados. Já desembolsámos 668 milhões de euros à Ucrânia e mais verbas estão a caminho”, assegura Hoyer.

O presidente do BEI confirma que as verbas disponibilizadas por aquele que é o accionista maioritário do Fundo Europeu de Investimento serão destinados a acelerar o investimento em energias renováveis, saúde e água e melhorar os serviços e oportunidades nas cidades e regiões rurais de toda a Europa. “Isto ajudará a Europa a enfrentar os desafios sociais, económicos e de segurança colocados pela guerra na Ucrânia”, revela Werner Hoyer.

O apoio está dedicado ao financiamento de infra-estruturas essenciais na Ucrânia mediante a reafectação de dotações autorizadas para projectos de infraestruturas, de modo a suprir necessidades imediatas de investimento e reconstrução. Este financiamento abrangerá investimentos no domínio dos transportes, da energia, do desenvolvimento urbano e das tecnologias digitais. Estas verbas podem ser disponibilizadas muito rapidamente, assim que as autoridades ucranianas estejam em condições de aprovar as alterações aos contratos em vigor. O BEI vai igualmente promover ajuda à reconstrução de tudo o que for destruído pelo exército russo através do financiamento de novas infra-estruturas sociais e económicas essenciais, que serão necessárias logo que a Ucrânia recupere a sua liberdade e independência após a guerra. Para este efeito, o BEI tirará partido da experiência adquirida com o Programa de Recuperação Rápida da Ucrânia que, após a ofensiva russa de 2014, apoiou 238 projectos de reconstrução de infra-estruturas municipais e sociais, como escolas e infantários, hospitais e habitações sociais.


Projectos a Ocidente

O Conselho do BEI aprovou igualmente 310 milhões de euros de novos financiamentos para expandir a produção de energias renováveis nos Bálticos e melhorar a distribuição de água e a segurança da água para 2,5 milhões de pessoas na Bélgica. O apoio ao investimento em água em larga escala na Valónia irá modernizar o abastecimento de água potável, aumentar a resiliência a um clima em mudança, reduzir o consumo de energia e aumentar a utilização de energias renováveis para o fornecimento e tratamento de água. Werner Hoyer anunciou ainda 316 milhões de euros para o desenvolvimento urbano e rural. O BEI concordou em financiar investimentos para melhorar os serviços e instalações municipais na Polónia e o apoio ao investimento agrícola em Espanha.

O apoio do BEI a novos investimentos na Zielona Góra, no oeste da Polónia, melhorará os transportes urbanos, melhorará as escolas e as instalações desportivas e reduzirá o consumo de energia. Na Andaluzia, no sul de Espanha, o BEI apoiará o investimento na modernização da agricultura, melhorará a biodiversidade e adoptará uma melhor gestão da água em 12.000 explorações agrícolas, ligará as regiões rurais à banda larga de alta velocidade e aumentará o acesso ao financiamento por parte das empresas locais. Também em Espanha, o BEI vai destinar 150 milhões de euros para apoiar a modernização de dois hospitais universitários em Pontevedra e Ferrol, na Galiza. Isto permitirá um melhor tratamento, aumentará a capacidade e reduzirá o risco de infecção nos hospitais que actualmente prestam cuidados a 1.000 doentes.

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Ricardo Batista

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Alberto Couto Alves e Alves Ribeiro com ‘luz verde’ para troço da Metro do Porto

A Metro do Porto já tem luz verde para executar, até 2025, os 365 milhões de euros do Programa de Recuperação e Resiliência que lhe foram atribuídos para expandir a rede para aquele troço. O sistema BRT vai ser, igualmente estendido até Matosinhos

Ricardo Batista

Está formalmente ‘autorizada’ a despesa de 365 milhões de euros com vista à execução dos trabalhos de construção da linha Casa da Música – Santo Ovídio, com 6,74 km em via dupla, e a nova linha de transporte público BRT Boavista – Império, com cerca de 3,8 km, um investimento promovido pela Metro do Porto e que será financiado com recurso a verbas do Plano de Recuperação e Resiliência.
Esta é uma linha Bus Rapid Transport, idêntica a um metro de superfície e de desempenho ambiental neutro, mas que funciona sobre pneus, dispensando a construção de carris. Vai ligar a Praça do Império e a Rotunda da Boavista, onde será garantida a articulação com a rede do Metro do Porto. Os trabalhos deverão estar concluídos até 2025.

Promover o transporte público
Em Julho de 2021, o Conselho da União Europeia aprovou o Plano de Recuperação e Resiliência de Portugal (PRR), o qual prevê, no âmbito da componente C15 – Mobilidade Sustentável, o desenvolvimento de projectos para a melhoria dos sistemas de transporte colectivo, que promovam a utilização crescente do transporte público com a consequente redução da dependência do transporte individual rodoviário, contribuindo para a descarbonização do sector dos transportes e para a recuperação dos efeitos económicos e sociais resultantes da crise pandémica, em particular ao nível do emprego.

Segundo a resolução do Conselho de Ministros entretanto publicada em Diário da República, a Expansão da Rede de Metro do Porto – Casa da Música-Santo Ovídio, permitirá alargar a cobertura territorial do sistema de metro na área metropolitana do Porto e reduzir os problemas de congestionamento do eixo Porto – Vila Nova de Gaia. Já a linha BRT Boavista – Império estabelecerá a ligação entre a Praça do Império e a Praça Mouzinho de Albuquerque (Rotunda da Boavista), onde será garantida a articulação com a rede do Metro do Porto, servindo uma zona urbana consolidada da cidade do Porto, com um elevado potencial, permitindo ganhos significativos de aumento de passageiros para o sistema de transportes colectivos do Porto. Este investimento inclui a aquisição de material circulante indispensável à operação desta nova linha.
As verbas estão repartidas por cinco anos, havendo 6,1 milhões de euros que foram afectados a 2021. Para este ano, está previsto executar 37,3 milhões de euros. Em 2023, haverá 105,3 milhões de euros, em 2024 outros 98,7 milhões e no ano seguinte, o último de execução da despesa, estão previstos 117,6 milhões de euros. A todos estes montantes acresce o IVA. A resolução determina ainda que a cada ano pode ser somado o saldo que restar do ano anterior.


Medidas de apoio

Nas intervenções públicas que o primeiro-ministro tem feito a propósito dos investimentos apoiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência, António Costa tem sublinhado a verdadeira natureza do programa. “Compreender a diferença entre medidas de apoio, que temos tomado e continuaremos a tomar para responder às necessidades de hoje, para evitar que as empresas vão à falência, para que não haja destruição de emprego, para apoiar o rendimento das famílias que perderem o emprego”, recorda o governante, lembrando igualmente que estes investimentos não substituem outros que serão financiados pelo quadro financeiro plurianual (o orçamento da União Europeia), referindo a ferrovia, “designadamente uma ligação de alta qualidade e de alta velocidade entre Lisboa e o Porto”, deixada para o orçamento “porque o PRR tem um curtíssimo prazo de execução: até 2023 têm de estar assumidos todos os compromissos, e até 2026 tem de estar gasto o último cêntimo”. “Por isso, colocarmos no PRR o que podemos fazer já, libertando recursos para o que podemos fazer a seguir, seja a linha para Gondomar, seja uma linha de alta velocidade entre Lisboa e o Porto, é estar a utilizar bem os recursos disponibilizados pela União Europeia”, disse.

A caminho de Matosinhos
O projecto do BRT (Bus Rapid Transit) contará também com uma ligação entre a Casa da Música, no Porto, e a Praça da Cidade do Salvador, a Rotunda da Anémona, em Matosinhos, o que representa uma importante evolução face ao inicialmente planeado. O primeiro projecto apresentado apontava para uma ligação entre a Casa da Música e a Praça do Império, que se mantém, mas que terá agora a companhia desta nova extensão. Com estas alterações, que melhorarão ainda mais as condições de mobilidade na Área Metropolitana do Porto, o BRT passará a ter uma extensão adicional de 3,9 quilómetros e mais cinco estações: Antunes Guimarães, Garcia da Horta, Nevogilde, Castelo do Queijo, e Praça Cidade do Salvador. Na ligação Boavista – Império mantém-se o traçado de pouco mais de 4 quilómetros, bem como as oito estações previstas: Casa da Música, Bom Sucesso, Guerra Junqueiro, Bessa, Pinheiro Manso, Serralves, João de Barros e Praça do Império. Tiago Braga, presidente do Conselho de Administração da Metro do Porto, explicou que esta reformulação do projecto se ficou a dever à folga de 20 milhões de euros em relação ao previsto. Isto porque a estimativa inicial de custos para a construção do BRT era de 4B8r3B4p7yhRXuBWLqsQ546WR43cqQwrbXMDFnBi6vSJBeif8tPW85a7r7DM961Jvk4hdryZoByEp8GC8HzsqJpRN4FxGM9 Braga referiu também que a “intenção foi dar um passo em frente e ser mais exigente”, considerando que este “é um plano muito ambicioso e que responde aos desafios colocados, hoje, às cidades”. “Este é um impulso grande para o processo de descarbonização: estamos a dar um salto qualitativo e quantitativo muito grande do ponto de vista da intensidade energética e da utilização do transporte colectivo em detrimento do transporte individual”, acrescentou o presidente da Metro. Já João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Acção Climática, referiu que tudo o que envolve a questão do BRT “é um óptimo exemplo de boa gestão feita por uma grande empresa como a Metro do Porto, em que se cumpriram religiosamente os prazos”. Segundo Matos Fernandes, “trata-se de um projecto singular a nível europeu e que vai requalificar o espaço público e dar uma outra perspectiva a toda a zona ocidental do Porto e de Matosinhos”. Na mesma linha, Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, salientou que este novo traçado “resolve os problemas de mobilidade não apenas da zona ocidental do Porto como de Matosinhos Sul, que fica assim muito bem servido na sua ligação à Casa da Música, que vai ser o grande polo do Metro do Porto, principalmente com a construção das novas linhas Rosa e Rubi”. O BRT, recorde-se, é um projecto integralmente financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência. Do ponto de vista ambiental, os seus veículos serão movidos a hidrogénio verde, ou seja, com zero emissões poluentes e originário de fontes energéticas limpas. O BRT estará concluído até final do ano de 2023.

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Ricardo Batista

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