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Carlos Oliveira
Opinião

Agilidade para garantir os custos e as melhores soluções

É irrealista pensar num processo onde as Construtoras passam todo o risco da construção para o Dono da Obra, representando, portanto, os desafios que o mercado lhes oferece atualmente, não um risco mas uma oportunidade para se adaptarem a esta nova realidade

Carlos Oliveira
Carlos Oliveira
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Agilidade para garantir os custos e as melhores soluções

É irrealista pensar num processo onde as Construtoras passam todo o risco da construção para o Dono da Obra, representando, portanto, os desafios que o mercado lhes oferece atualmente, não um risco mas uma oportunidade para se adaptarem a esta nova realidade

Carlos Oliveira
Sobre o autor
Carlos Oliveira

Num mundo que vive a uma velocidade alucinante as necessidades do mercado mudam, as partes envolvidas no processo alteram os seus interesses, novas ameaças e oportunidades externas ao sector ocorrem e mudam sistematicamente as regras dum jogo cada vez mais dinâmico, onde não vence o mais forte nem o mais inteligente, mas o que mais rapidamente se adaptar a mudança (Charles Darwin).

Assistimos atualmente a inúmeros Projetos que avançaram no Projecto/Design e na Obra, promovidos por entidades com experiência e capacidade inquestionável, devidamente suportados por estudos de mercado, viabilidades técnicas e financeiras, que em poucos meses se tornaram impossíveis de viabilizar, deixando às partes envolvidas poucas opções para a sua conclusão.

Na origem desta realidade com que inúmeros Promotores se defrontam não está apenas uma razão, mas várias, para as quais apresentarei uma reflexão sobre os desafios que o sector da construção nos oferece no dia de hoje, com abordagens mais ágeis, capazes de se adaptarem às mudanças do mercado convertendo ameaças externas em oportunidades.

Em primeiro lugar a etapa que antecede a obra com responsabilidade direta do Dono de Obra na definição da construção que quer vir a ter no futuro e no custo associado a cada uma das suas funcionalidades, nomeadamente:

Desenvolver projetos/obras direcionados às Necessidades do Mercado é algo que a maioria dos Donos de Obra prepara com grande profissionalismo, assistindo-se cada vez mais a alterações dessas necessidades em ciclos temporais menores exigindo-se que estes estudos tenham em conta as necessidades atuais e as tendências de mercado de forma que o futuro documento de definição do Âmbito/Escopo do projeto as possa acomodar de forma ágil. Atualmente assiste-se a uma grande sensibilidade pelos clientes finais associadas a soluções ambientalmente sustentáveis, racionais nos consumos de energia, com baixa pegada de carbono, utilização de materiais reciclados, começando a ser cada vez mais evidente a valorização de construções que ofereçam experiências de conectividade entre equipamentos e com o exterior mais rápidas e inteligentes. Mas em breve assistiremos ao nascimento de novas tendências a que teremos de corresponder.

A definição do Âmbito/Escopo do Projeto, é talvez o especto onde identifico mais fragilidades e responsabilidades do Dono da Obra no sucesso ou insucesso dos projetos, a qual fica muitas vezes apenas ao cuidado da equipa de Projeto/Design. A definição Âmbito/Escopo do projeto deve ser patenteado num documento escrito com envolvimento de todas as áreas funcionais na operação do projeto depois de construído, explicitar bem todas as necessidades que a construção deve atender, incluir um orçamento e planeamento com o detalhe possível bem como o nível qualitativo pretendido. A melhor forma de ter um bom programa é recorrer a um Gestor de Projeto com experiência e se possível o mesmo que conduzirá o Projeto/Obra até final de forma a responsabilizá-lo em todos os momentos. Este documento deve identificar e explicitar a versatilidade final do projeto/obra para acolher necessidades futuras.

Ao nível dos Projetos/Design verificamos muitas vezes que os mesmos não correspondem as necessidades do Dono da Obra sobretudo por falta de um bom documento de definição do Âmbito/Escopo. Com um bom Âmbito/Escopo é possível desenvolver um processo de Procurement onde damos indicações claras a arquitetos e engenheiros na apresentação de soluções ajustadas ao orçamento, planeamento e qualidade definidas no Âmbito/Escopo de cada especialidade, trabalhando estes de forma ágil e objetiva na concretização de todos os detalhes deste documento. É este o momento onde se tomam as grandes opções que condicionam o custo e prazo finais do Projeto/Obra. Verificamos ainda a inexistência de contratos com as equipas de Projeto, sem planeamentos, sem prazos de validação pelo dono da obra, com prazos pouco claros e incumprimento do Âmbito/Escopo sobretudo devido a falta de acompanhamento por um Gestor de Projeto experiente. O desenvolvimento dos projetos em BIM é hoje uma ferramenta essencial para a qualidade final do projeto devendo ser definido no processo de Procurement do projeto as condições de utilização e níveis de experiência das equipas.

A Revisão dos Projetos e a Engenharia de Valor tem de ser encarada pelo Dono da Obra como um Investimento com ganhos elevados em custos e tempo, onde as opções de Design dos autores de projeto são questionadas de forma prática e flexível por colegas sempre numa atitude construtiva de aperfeiçoamento do Projeto ao nível da compatibilização entre projetos de diferentes especialidades, bem como das suas opções com que pretenderam corresponder ao Âmbito/Design. Este é o primeiro momento em que temos uma avaliação do cumprimento do Âmbito/Escopo, antes de avançarmos para o momento da verdade que é a avaliação das construtoras, e com a qual correremos muito menos riscos na gestão contratual.

Neste Quadro as várias Partes Interessadas têm de trabalhar nas soluções de projeto até atingir todos os objetivos identificados no Âmbito/Escopo do projeto. É inclusive possível concluir da necessidade de fazer ajustes a definição do Âmbito/Escopo. É um processo iterativo a realizar com velocidade e agilidade de todos para passar a próxima etapa a que corresponde outro grupo de responsabilidades que é a da obra.

Infelizmente decorrendo a etapa de projeto/design com deficiências, é no processo de Procurement da Obra que as mesmas são detetadas, e é nesta altura que os Donos de Obra tentam endireitar o processo com pouco tempo, envolvendo as Construtoras na Engenharia de Valor que em muitos casos acaba por desvirtuar totalmente as condições mínimas definidas no Âmbito/Escopo.

É este o momento onde se vai perder mais tempo para tentar viabilizar o Projeto e infelizmente se conclui que não encontrando solução o Projeto é inviável ou temos de refazer todo o projeto/design.

Tendo o Dono da Obra assegurado que tem para obra um projeto/design bem enxuto, em que cada opção técnica é valorizada pelo cliente final, é possível passar a Etapa da Obra com a maioria dos problemas resolvidos e focar-nos na seleção duma Construtora.

Também aqui será possível conduzir o processo de forma a reduzir o risco dum descontrolo do preço final da obra, oferecendo á construtora e ao Dono da Obra o conforto mínimo de controlo deste risco fixando os preços com compras antecipadas de materiais e equipamentos recorrendo a ferramentas já disponíveis, mas que carecem de ser utilizadas com maior agilidade. Apesar de tudo é sempre oportuno recolher algumas sugestões de engenharia de valor que as construtoras têm para apresentar durante o processo de Procurement.

O processo é simples, exigindo um conjunto de iniciativas já conhecidas que importa agilizar, onde destaco:

  • Definição no processo de Procurement da Construtora dum nível de planeamento de obra com maior detalhe, explicitando os recursos associados ao desenvolvimento de todas as atividades
  • Identificação clara de maior número de “datas chave”
  • Apresentação dum plano de aprovisionamentos detalhado (exemplo abaixo)
  • Identificação no plano de aprovisionamentos das atividades criticas onde podem ocorrer maiores volatilidades de preços
  • Garantir com a assinatura de contrato de empreitada a compra de todos materiais e equipamentos identificados, explicitando a forma de financiamento destas operações.
  • Assegurar mecanismos de transparência no processo de antecipação destas compras com apresentação de evidencias pela Construtora ao Dono de Obra.

 

Em todas as etapas da construção o  Dono de Obra é aquele que corre o maior numero de riscos, mas que tem de mitigar repartindo-os pelos restantes intervenientes e parceiros, e neste caso com a construtora.

É irrealista pensar num processo onde as Construtoras passam todo o risco da construção para o Dono da Obra, representando portanto os desafios que o mercado lhes oferece atualmente, não um risco mas uma oportunidade para de adaptarem a esta nova realidade e com agilidade oferecerem aos seus clientes soluções que os seus concorrentes mais conservadores não conseguem.

Gostaria de fazer uma referencias a  á construção modular que é uma realidade onde os Donos de Obra e as Construtoras podem encontrar soluções mais industrializadas capazes de assegurar alem de custos mais controlados e reduzidos também prazos de execução mais curtos, oferecendo uma excelente alternativa a viabilidade de muitos Projetos, obrigando a um processo de conceção totalmente dirigido a esta tecnologia.

Finalmente referir que a maior foça de bloqueio na Construção continua a ser o processo de licenciamento das obras ao qual a administração pública continua incapaz de dar resposta impedindo de forma significativa o crescimento económico. As associações empresariais do sector também elas têm representado mal os seus associados nesta matéria, sem qualquer eficácia na pressão junto do Governo para resolver este problema.

NOTA: O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

Sobre o autorCarlos Oliveira

Carlos Oliveira

Director-Geral da DDN Gestão de Projectos
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