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Francisco Barroca
Opinião

E a Qualidade?

A referência à produtividade, ou à sua falta, surge sempre como resposta a estas situações. Com a baixa produtividade que temos, e que vamos perdendo em relação aos nossos parceiros europeus, torna-se difícil atingirmos os níveis que gostaríamos

Francisco Barroca
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E a Qualidade?

A referência à produtividade, ou à sua falta, surge sempre como resposta a estas situações. Com a baixa produtividade que temos, e que vamos perdendo em relação aos nossos parceiros europeus, torna-se difícil atingirmos os níveis que gostaríamos

Sobre o autor
Francisco Barroca

Há palavras que passámos a ouvir com grande intensidade, depois da famosa resiliência, vem agora a inflação, o custo da energia, a falta de matérias primas, as cadeias de valor, entre outras. O Governo, em lugar de contribuir para o encontro de soluções, fala de 20% de aumentos, de semanas de 4 dias, e do PRR que as empresas continuam a queixar-se de não ver.

A referência à produtividade, ou à sua falta, surge sempre como resposta a estas situações. Com a baixa produtividade que temos, e que vamos perdendo em relação aos nossos parceiros europeus, torna-se difícil atingirmos os níveis que gostaríamos.

Mas, há uma palavra que “desapareceu” do vocabulário de quem tem responsabilidades na definição das políticas, e essa palavra é Qualidade. Apetece perguntar quantas vezes já a ouvimos proferida por membros do Governo. Mas esta situação não é de agora, se olharmos para a década de 90, onde quase todos os líderes europeus e de países desenvolvidos (entre os quais o famoso discurso do Presidente Ronald Reagan) fizeram intervenções formais sobre a Qualidade, encontramos o deserto no nosso País. Com exceção dos ministros Mira Amaral e Augusto Mateus, que souberam olhar para a Qualidade e para a sua importância no desenvolvimento do País, não encontramos mais ninguém nessa linha. Posso, inclusive, testemunhar, pelas funções que ocupava na altura, quer os esforços quer a desilusão desses governantes em não conseguir levar qualquer um dos então Primeiros-Ministros a um evento sobre a Qualidade.

As exportações de bens estão a atingir valores já acima de 2019 para vários setores, e outros estão a surgir na linha da frente. Ora, esse sucesso só acontece porque, entre outras exigências, os produtos apresentam uma qualidade, normalmente referenciada pela sua conformidade com os requisitos dos clientes e com o cumprimento das normas técnicas aplicáveis.

Quando se trata de exportações as empresas sabem que para entrar em muitos mercados os requisitos dos clientes incorporam já as exigências legais desses mercados, seja pela evidência da certificação do produto, da realização de ensaios ou da marcação CE. E as empresas cumprem cabalmente com essas exigências, muitas vezes recorrendo ao nosso trabalho, o que nos permite testemunhar o seu esforço, quer técnico quer financeiro, para darem resposta aos clientes.

Muitas mais empresas poderiam estar em condições de responder a consultas de clientes estrangeiros, mas, continuamos, no caso da Marcação CE, a um incumprimento generalizado do estabelecido nas normas de referência. São inúmeros os contatos que temos de potenciais clientes solicitando “para ontem” o certificado que lhes permitirá aceder à Marcação CE, contudo, como os prazos de resposta estão já no final são exportações e negócios interessantes que se perdem.

A falta de uma cultura da qualidade, a par de um controlo de mercado efetivo, contribui para que os clientes e utilizadores adquiram e apliquem produtos que não cumprem requisitos legais, ao mesmo tempo que potencia uma clara concorrência desleal.

Qualitividade

Para terminar estas notas socorro-me de um excelente artigo do Prof. Pedro Saraiva, Presidente da APQ, e publicado na revista Qualidade Ed3 2020. Referindo a superficialidade com que estes assuntos são tratados entre nós, e sabendo-se da nossa capacidade para a dispersão de temas e prioridades nos diversos programas, o autor, para defender a sua proposta, mostra como temos vindo a perder, dentro da União Europeia, sucessivos lugares em termos de PIB per capita.

A via que aponta não pode, por isso, deixar de ser a de trabalhar com mais qualidade para gerar mais valor, propondo o Prof. Pedro Saraiva como prioridade para Portugal o concertar esforços em torno de uma única palavra: qualitividade, entendida como a qualidade colocada com grande força ao serviço da produtividade.

Recomendamos a leitura deste artigo como motivador para um esforço, em Portugal, de colocarmos a Qualidade num nível que muitos outros países já fizeram com os excelentes resultados que se conhecem.

NOTA: O Autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

Sobre o autorFrancisco Barroca

Francisco Barroca

Director geral da CERTIF – Associação para a Certificação
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