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António Costa
Opinião

Construção: que mercado de trabalho?

O mercado de trabalho em construção passa atualmente por uma pressão elevada devido à escassez de recursos o que impacta diretamente na capacidade de recrutar para qualquer empresa do setor, seja empreiteiro, subempreiteiro, fiscalização ou projeto

António Costa
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Construção: que mercado de trabalho?

O mercado de trabalho em construção passa atualmente por uma pressão elevada devido à escassez de recursos o que impacta diretamente na capacidade de recrutar para qualquer empresa do setor, seja empreiteiro, subempreiteiro, fiscalização ou projeto

António Costa
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António Costa

Seria normal atribuir ao aumento do número de projetos de construção (de raiz ou por motivos de reabilitação) a escassez de mão de obra. Contudo, teremos de recuar no tempo para entendermos melhor o fenómeno. Não obstante existir uma relação direta entre o aumento de projetos de construção e a falta de profissionais no mercado, este fator por si só não justifica tudo.

Os setores do imobiliário e construção estão intrinsecamente ligados ao comportamento da economia, sendo por isso normal que em períodos de crise estes sejam fortemente afetados. Considerando esta premissa, temos de recuar a 2008 e depois a 2012 para percebermos melhor o fenómeno.

Em plena crise económica de 2012 os projetos de construção, públicos ou privados, pura e simplesmente desapareceram, empurrando os profissionais para a internacionalização das suas carreiras. Em paralelo, a falta de visão em relação ao futuro profissional afastou os jovens dos cursos técnicos e das formações académicas normalmente encontradas no setor. É visível que existe uma lacuna no mercado de profissionais com experiência entre 5 e 10 anos e que é um claro reflexo desta situação. Os poucos que se foram formando acabaram, inevitavelmente, por procurar projetos fora de Portugal para dar início à sua atividade profissional.

O período compreendido entre 2012 e 2016, que podemos considerar longo, penoso e excessivo, é muito responsável inclusive pela saída de profissionais do setor da construção para outras atividades (setores menos expostos à crise), sendo mais um motivo a explicar o presente.

A consequência mais óbvia é a grande dificuldade que as empresas têm à data para recrutar novos quadros, desde pedreiros, carpinteiros, eletricistas, canalizadores, passando por outras funções com formação técnica como preparadores de obra, medidores-orçamentistas ou encarregados, até aos perfis com formações superiores como diretores de obra ou engenheiros orçamentistas de estudos e propostas.

Esta falta de recursos cria, no entanto, mais uma dificuldade às empresas, que se prende com o aumento dos salários médios em toda e qualquer função. Se por um lado, para recrutar, necessitam de ajustar os seus valores das ofertas à média do mercado, por outro, têm de rever internamente os salários dos seus funcionários sob pena de se tornarem pouco competitivos.

Existe ainda outra consequência que embora menos evidente para as empresas na generalidade, fica muito visível para quem trabalha em recrutamento e prende-se com o facto dos curricula refletirem menos estabilidade nas passagens profissionais. Existe um “turn over” mais elevado nas organizações, exatamente porque as pessoas tendem a perceber a situação do mercado e procurarem melhores condições na mudança profissional.

Acreditando que este ciclo positivo no mercado possa ainda ter mais uns anos, por via da manutenção de projetos de construção civil de cariz privado e um aumento dos projetos de obra pública, então urge encontrar uma solução que nos ajude a normalizar o mercado de trabalho.

Podemos pensar em algumas medidas que de alguma forma poderiam contribuir para a solução, mas acredito que os players de mercado deveriam reunir para debater estas questões com alguma profundidade.

Acredito que uma possível solução passe pela redução de carga fiscal para os profissionais portugueses que estão fora do País e que pretendem regressar, mais a aceitação do mercado em relação a profissionais de outras nacionalidades, principalmente para aqueles que têm equivalência académica e acordos bilaterais nas ordens de Engenheiros. E, finalmente, numa maior aposta na divulgação das carreiras profissionais na construção, seja enquanto licenciado ou detentor de uma formação técnica.

Nota: O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

Sobre o autorAntónio Costa

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senior associate manager, Michael Page Property & Construction
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